Poesia de agora: Me alimento de quadros vivos – Mary Rocha

Me alimento de quadros vivos

Me alimento de quadros vivos
e
telas frescas
que sempre esperam a pincelada final,
daqui da minha janela,
o tempo corre apressado
e o ano novo alvoroçado
quer a todo custo aparecer…

mas,
não é tão simples pintar em aquarela
o caminho da própria vida
a um minuto de acontecer…

então me rabisco,
me risco e
me apago

e nem sempre consigo me reescrever

é mais fácil
deixar que o vento leve… ou que me traga um
novo pedaço de papel vazio de vivências

melhor não aprofundar

é complicado inventar
grandes mudanças em uma tela iniciada

por vezes
é mais simples desistir…
só deixar ir
o que não se consegue encaixar em lugar algum…

sim…
é até compreensível abdicar de entender
e
ignorar o que tanto dói ao ponto de quase enlouquecer
melhor esquecer e
nem pensar qual o traço deixou a alma amassada

ainda que,
no meio da estrada
o mundo inteiro não fale nada

e esse silêncio seja devastador!

Mary Rocha

*Mary Rocha é advogada e poeta.

Poema de agora: Ela – Arilson Freires – @ArilsonFreires

Ela

Ela sempre me cobrou um poema
Uma carta de amor
Uma admiração extrema
Seja como for
O que posso dizer de tocante
Que não disse antes?
O amor é uma casa em construção
Não
É um vão na parede
Onde ato minha rede
Loucura e demolição
Brisa e mansidão
O amor é mais que duas ou quatro palavras
É o mundo com asas
Cabana na floresta
O sol por uma fresta
É o sono que nos resta
O dono da festa
Rima fácil
Indomável face
Onde repouso
E ouso dizer:
Quem protege os teus muros
Na tristeza ou na beleza?
Eu tenho uma fortaleza

Arilson Freires

Poema de agora: AVE NOTURNA – Patrícia Andrade

AVE NOTURNA

trago versos conturbados
atravesso as madrugadas
sem dormir
sonho acordada
com as coisas
que ainda não vivi

o pensamento voa
ganha vida própria
e sai por aí
invadindo áreas restritas
ruas desertas
casas alheias
corações vazios

há tempos
em que meu verso
é ave noturna
sem paradeiro ou destino
é pássaro triste
que rasga a mortalha
ao soarem os sinos

Patrícia Andrade

Poema de agora: MÍSTICO – ISNARD BRANDÃO

MÍSTICO

Estou feliz Senhor, no dia de hoje,
Alimentado, forrado, amanhecido…
Parece que estou feliz.

No meio do areal deixei a caravana,
E vim, trazendo no rosto a bruteza do Simum,
Nos olhos a secura dos viajores cansados,
Nas mãos o orvalho quente do deserto.

Não sou um peregrino a caminho da Meca:
O túmulo de Moisés foi profanado,
Levaram as urnas, as vestes
E o grão de ouro batido nunca existiu
(era esmeralda),
Mas terás dentro de mim, um servo, meu Senhor,
Há trigo, cevada e mirra.
Usarás como dono daquilo que é teu.

E se a porta não abrir no dia em que chegares
Sabe: minha resposta é pobre e sem valor o ato.
Saberás: estarei dormindo, embrionário ainda,
O sono das terríveis noites seculares,
À espera da Tua luz, do Teu amor, dos Cravos
E da Cruz…

ISNARD BRANDÃO

 

* ISNARD BRANDÃO LIMA FILHO chegou a Macapá em 1949; o primeiro poema apareceu aos 12 anos, no Amapá Jornal, através do poeta Alcy Araújo. Em 1968 publicou Rosa para a Madrugada, livro de estreia, que teve duas edições esgotadas em poucos dias. Descobriu, estimulou e abriu roteiro para muitos talentos artísticos da terra de Julião Ramos. Contribuição de Fernando Canto.

Poesia de agora: Marés de Setembro e Abril – Jaci Rocha

Foto: Floriano Lima

Marés de Setembro e Abril

As marés de Setembro e abril
São as mais profundas e altas!

É que, em Setembro,
Na chegada da primavera ao Equador
Brinca o cio do sol,
das flores e águas.

As folhas das árvores sentem
A dança do vento
E mesmo as chuvas extemporâneas têm o sabor
Adocicado e quente do momento…

As marés de abril
Intensas e frias, são banhadas de chuvas matinais
E acolhem as sementes plantadas
Enquanto o cinza pinta céus e águas…

Entre o frio e o calor
A mágica equação da vida acontece!
E dizem até que dela florescem
Amores (im)perfeitos…

Jaci Rocha

Poema: Tudos e Nadas – Ori Fonseca

Ilustração: De Quantas Máscaras Você É Feito?, de Paulo Laender.

Tudos e Nadas

Eu quero dizer o poema das vertentes,
Entes
Transbordando dos canais,
Empilhados nas calçadas,
Comendo tudos e nadas
Nos ramais
Correntes.
Eu quero cantar o lamento dos humanos,
Manos
Pululando nas esquinas,
Sufocando as alvoradas,
Temendo tudos e nadas
Nas ruínas
Dos anos.
Eu quero entender os anímicos de andores,
Dores
Dos anêmicos nas ruas,
De crenças desesperadas,
Louvando tudos e nadas
Há zil luas
De horrores.
Eu quero sonhar todo sonho que me aterra,
Terra,
Ventre escuro de onde vim,
Solo de minhas moradas,
Meu chão de tudos e nadas,
Do meu fim
Da guerra.

Ori Fonseca

Poema de agora: Sete – Arley Amanajás – @arley_amanajas

Sete

Todo dia é isso, a coisa se repete
o lixo no poder, e a gente engolindo o chorume
é a burguesa batendo na preta, e o diabo se diverte
o povo comendo osso, com maior pobreza de que de costume
se jogando na vida, no foço, do prédio, do cume
todo dia é assim, banheiro limpo e rosas pra ti
a custa do sal do rosto dela
essa migalha paga com desdém do teu espírito elevado
vai te custar caro, enquanto o futuro repetir o passado.

e se repete.
da tragédia de um genocida.
tragédia já escrita por muitas frases, atos e C.I.A
pelos gritos de amém
pelos trabalhadores de refém
pelo boi e pelo fuzil, também

genocídio desse e de outro povo.
genocídio do povo que era povo desde antes do branco saber o que era mundo novo
e lá na beira d’agua, do barranco seco, olha o rio desse dia
nem novo nem velho, só mais um, de 521 anos de resistência e rebeldia

mas há de custar caro
como custou pra quem pensava, que era só mudar o palácio e a cabana se adequava
como quem pensou que a chibata era mais forte que o dragão que no mar navegava
como quem pensou que poesia era só pra quem estudava

Mas é hoje que a arma vale mais que o feijão, não ontem
é hoje que a subsistência vale menos que a pátria, não amanhã
hoje que o país vale mais que o povo,
que a bandeira é orgulho e a geladeira apavoro
hoje que o passado se repete e o futuro se escreve

nesse dia, por mais que, muitas vezes mais que 7 nos lutamos
e 70 vezes 7 nos levantamos,
em um setembro, por enquanto perdido
vamos traçar nossos planos, sem capitães, nem milicianos

Engasgado com a podridão que escorre do centro para nossa goela, no celular a mensagem é clara: tudo está normal. Nada de novo nesse país continental
Os poderes resistem ao vento e as casas solidas construídas sobre ossos nativos seguem tranquilas: impávidos colossos de sofrimento e estabilidade.
Aqui de cima, pra onde todos olham com os mesmos olhos do passado, não consigo ver. Só sinto isto, neste instante, um estalo, um estopim, um estrondo
com manchas vermelhas no fim.

mas o hoje é só um.
é só mais um dia
de luta, de morte, contra mais um genocida.

Arley Amanajás

Hoje: programa Conhecendo o Artista recebe a poeta e produtora cultural, Andreia Lopes

Nesta terça-feira, às 20h, no insta @srta.modesto, o Programa Conhecendo o Artista integra a programação alusiva em homenagem aos 7 anos de Quilombo Cultural Sankofa, este tem sido vitrine, há anos, para jovens artistas que encontram no Quilombo espaço e visibilidade. Portanto, receberemos Andreia Lopes, idealizadora do projeto itinerante Quarta de Arte da Pleta.

Andreia é atriz, diretora, declamadora, produtora cultural e incentivadora de novos talentos. Iniciou sua carreira artística aos 15 anos de idade atuando no espetáculo ¨ Do lado de lá” de Celso Dias. A partir daí, participou de diversos grupos, como o Movimento Cultural Desclassificáveis, onde assina como atriz e diretora e o Tatamirô Grupo de Poesias, com o qual realizou em 2008 diversos Recitais Poéticos nas Universidades Estaduais e Federais em diversos municípios do Estado. São tantos recitais poéticos que Andreia esteve em Belém, São Luiz, São Paulo, Rio de Janeiro, Barcelona e Macapá.

Andreia criou o projeto itinerante Quarta de Arte da Pleta com objetivo de incentivar, descobrir, visibilizar e oportunizar novos talentos, em especial mulheres jovens e negras pela multiplicidade artística através da música, poesia, cinema, dança e artes visuais com a parceria de Naldo Amaral Tattoo. Nos últimos anos o Projeto tem sido abraçado pelo Quilombo Cultural Sankofa que hoje comemora 7 anos e o nosso programa especial será gravado diretamente lá, em meio a festa de encerramento da programação oficial.

Vale lembrar que o Sankofa é muito mais do que um ponto de encontro e socialização; tem sido parceiro de muitos projetos culturais; tem abraçado causas sociais e feito um brilhante trabalho de inserir jovens artistas na cena cultural. Entre tantas parcerias, em 2019 sediou cerimonial de encerramento e premiação da I Edição do Festival de Solos Cênicos de Circo e de Teatro – In Solos Tucujus. Conta em sua programação com o Domingo da Tradição, que vem recebendo os grupos de marabaixo e batuque, que trazem um pouco da sua história através das apresentações, dentre eles destaca-se o Berço do Marabaixo, Filhos da Tradição, Açucenas, e Grupo Guá. Em parceria com o estúdio Tatto Naldo Amaral, desenvolve o projeto Tatto Solidário, onde é feita arrecadação e distribuição de brinquedos à comunidade em datas alusivas ao dia das crianças e natal. Vida longa ao Quilombo Cultural Sankofa!

Ficha Técnica:

Produção e Apresentação: Kássia Modesto
Produção: Jubson Blada
Artista Convidado: Andreia Lopes
Roteiro: Marcelo Luz
Arte: Rafael Maciel
Realização: Acessa Cult Produção, Quarta de Arte da Pleta e Quilombo Cultural Sankofa.

Poesia de agora: sexo literal – Pat Andrade

sexo literal

e veio a palavra beijar-me a boca
enfiou em mim sua língua
usou muitos substantivos
deu-me adjetivos
causou-me advérbios

depois de rápida análise
entreguei-me aos seus verbos
apaixonei-me por tempos e modos
me envolvi com sua semântica
lambi cada fonema

encantada com seus significados
vencida por suas conjugações
não tive dúvidas…
fiz amor com ela

Pat Andrade

Poema de agora: SONOROS DESTINOS – Marcelo Abreu e Pat Andrade

SONOROS DESTINOS

palavras ao vento
reverberam num poema
que veio vindo de longe

a vida estendida
num quaradouro
espera ávida
pelo voo da arara

nossas novas roupas velhas
penduradas no varal
enchem as auroras de cor

novos acordes ecoam
em metais e sons etéreos

dançamos felizes na floresta
sob o rufar dos tambores

enquanto a noite não vem
traçamos nossos destinos
no soar dos trovões

Marcelo Abreu e Pat Andrade

Poesia de agora: Route 66 [OS VERMES SOBRE A LUA MORTA] – Para meu irmão Baby Franklin (Marven Junius Franklin)

Foto: Pedro Stkls

Route 66 [OS VERMES SOBRE A LUA MORTA] – Para meu irmão Baby Franklin

Baby!
Tu não estavas comigo
quando fiz a rota estonteante de Kerouac [Oh! uma caça insana
pelas cercanias do fim do mundo!]
Sim brother!
Tu nem sabes…
mais como Edgar Allan Poe [ The mad poet]
solvi o néctar insípido da inspiração alucinada
Pasme Baby!
Em tardes mornas de Oiapoque [quando as tardes ateavam fogo no rio]
vi os vermes que se moviam doentios pela lua morta
a alastrar fés prolixas pelo píer de embarque
Entenda mano!
Que navegando a esmo pelas alamedas gris de Oiapoque
escutei a vozearia que emanava dos mortos em garimpos longínquos… [mortos adornados de paralelepípedos e face aterrorizada de tempestade]
Ó Baby!
Bukoviski deve ter rido de mim [amanhecido num pub em Los Angeles]
encharcado de boilermaker e delírios
[seu olhar impudico me disse do aspecto extenuado da velha prostituta]
Ah! Mano!
a embriaguez de agora é destinado aos meus mortos particulares
[a quem destinei todas as minhas noites em aberto defronte ao rio…]
Sabe Baby!
A Route 66 eu trago em meu cerne nômade
[a enaltecer o insólito]
sob as lonas policromados de um circo na velha Santarém
Sim! Sim!
Nosso velho pai [cor de aveia quaker] deve ter ambicionado fugir com os tristes saltimbancos em alguns momentos[ quando sentiu frio no pátio gélido do campo de aviação]
Baby! Baby!
Com os poetas excomungados [aprendi o que se pode ver além das velhas cercas de arame farpado que divisam castas e credos]
com Ginsberg e Whitman [desaprendi a predisser o empíreo com a lupa do conformismo…]
Ah! Baby!
Quantas noites em claro passei
lendo as estrelas que surgiam inermes em meu anfiteatro de dor [esperando que um trem de ferro cruzasse minha sala de jantar]
Sim brother!
Louis Zukofsky sou eu a galopar estradas de Imagismo
[vomitando rancor] quando as injustiças
espalhavam engodos e miséria pelas cidades perecidas
Ah! Irmão!
Do terraço do Bar do Parque
que in(lúcido) de bier[divaguei em desatinos]
aguardei o estranho adeus
[observando o ir e vir dos transeuntes
caminhando para o acaso!]

Marven Junius Franklin

Poesia de agora: Calendário – (@cantigadeninar)

Calendário

Imagem de breakfast, food, and morning
os dias são feitos de papel
contados na folhinha
páginas da agenda
e a noite é troféu

os números são tinta
que pinta liquidações
50% off
no shopping das ilusões

os meses são o próprio tempo
astuto e traiçoeiro
setembro, novembro, dezembro
a gosto de fevereiro

as feiras são sempre as mesmas:
aguardam sábados domingos
em que não há protocolo e memorando
só pão quentinho sobre a mesa.

Lara Utzig

Poema de agora: FUNDO FOSCO – Marcelo Abreu

FUNDO FOSCO

Nada muda
Nessa moda antiga
Nessa pátria muda
De sorrisos tristes
De abraços frios
De discursos mórbidos

Nada passa
Essa gente apática
De palavras bélicas
De hipocrisia farta
De bravura pífia

Nada finda
Na República elitista
No separatismo imposto
Nesse fundo fosco
De almas sem vidas

Nada alcança
Esse país sem fé
Sem esperança
Sem o ouro arbítrio
Sem o doce afago
Sem a grandeza
da inocência
de uma criança

Marcelo Abreu

Poesia de agora: Contas a pagar – Luiz Jorge Ferreira

CONTAS A PAGAR

Eu diria,
entre, seja bem-vinda,
não atropele as lembranças jogadas pela sala.
Tudo continua como antes, cada coisa fora de seu lugar.
Por arrumar.
Os meninos rasgando papel, uma lua esquecida no quintal,
um violão sobre o sofá, afinado em Lá, desafinado em Sol.

Tudo continua igual.
Eu continuo sentado pelos cantos.
Escrevendo versos de desencanto, procurando o JR e o jornal,
lembrando algo que esqueci, sem importância,
e dando importância a coisas banais.

Eu diria, sente, pode ligar a televisão.
Ouvir meus discos independentes,
perguntar por alguém que a gente conhece
e nunca mais viu.
Tem café, tem vinho branco, tem cachaça,
têm uns livros novos dos mesmos
que você às vezes não conhece num retrato desfocado,
e outras vezes reconhece quando entram em casa com ares de sensatos,
e se desfazem do rosto.

Pode tirar seus sapatos e pô-los por aí.
Eu fico olhando distraído do horizonte para o teu umbigo,
pode ser sábado, pode ser domingo.
E se der na telha beijo os meninos e vou dormir.
E se for outubro, ligo para Belém e pergunto pelo círio,
pela fé, pelo pato no tucupi.
E se eu deixar você sorrir você não chora
e conta estórias do arco-da-velha,
faz-me acreditar que vai chover de madrugada.
Faz dengos sociais, pergunta se comi bem,
se deitei cedo, se fui feliz com o enredo do poema nestes últimos dois meses.
Eu digo que fui, e que sou, entre um espirro e outro,
se for setembro, falamos de aniversário.
E se toca o telefone você atende, se for engano você desliga.

Se for para mim, eu atendo sentado,
um ouvido no papo,
e olho, do teu umbigo, para o quarto.

Luiz Jorge Ferreira

*Do livro “Beco das Araras” (1990).