Poema de agora: Ostracismo – (@cantigadeninar)

Ostracismo

este tempo
de quarentena
de emparedamento
solidão que aliena
no apartamento
assistindo à mesma cena
horizonte de cimento
este tempo
[anormal
de isolamento
dividido entre rede social
catálogos de entretenimento
desejo sexual
e abafamento
este tempo
[viral
encurralado
de UNO, dominó e baralho
já não é igual
à vida real
que nos amarrota em qualquer lado?
box do banheiro
cozinha americana
ônibus
metrô
escritório
home office
pub
boate
hospital
motel
órgão público
restaurante
igreja
cinema
escola
a própria mente
tudo é quadrado.

Lara Utzig

Poema de agora: eu amo – Patrícia Andrade

eu amo

de manhã cedo, manhãzinha,
no branco do lençol
um dengo, um chamego…
eu quero, eu dou, eu faço

depois do almoço,
no embalo da rede,
eu peço, eu quero, eu dou
um beijo, um abraço

no fim do dia, à noite,
no quentinho da cama
eu dou, eu quero eu peço
um carinho, um amasso

e assim, de dia e de noite,
eu amo teu cheiro,
eu amo teu gosto…
eu amo estar nos teus braços

Patrícia Andrade

Poema de agora: SORRATEIRO – Luiz Jorge Ferreira

SORRATEIRO

Eu vasculho minhas entranhas, a procura de lama.
Eu arranco a pele, e me cubro de mágoas,e me escondo n’água que vaza das lágrimas.
Eu me desosso dos poros aos pólos, e enrolo em novelos de pelos, os planos súbitos e atônitos, que conversamos em off.

Eu oco, seco e só, caminho entre montanhas de pó, vindos da memória.
E se eu morresse sem concluir o enredo cheio de medo de não concluir, com que loto páginas e
parágrafos.


Continuaríamos a ver pelo menos na TV, o Arco Íris?
Como foi com Mao. Vestido de amarelo, sem chinelos e com um enorme desejo de comer Avelãs?
Ainda assim depois de amanhã, um outro amanhã, segue seu vir.


Como se nada houvesse deixado de terminar.
E tudo tivesse deixado de existir.
Desisto…arrumo mangas podres em frente a foto do portão, que a enxurrada levou, junto com Abril.

Luiz Jorge Ferreira

*Poesia escrita em Osasco (SP), na última quinta-feira (8), dia também conhecido como ontem.

Poema de agora: Não nos afastemos – @juliomiragaia

Não nos afastemos

Não nos afastemos, cantou um pássaro
Ou um poeta em uma noite asmática
De chuva em Macapá

Não mergulhemos na omissão
E nas bolhas intumescidas e líquidas
Desse tempo de multidão e de robôs

São homens que nada sentem
Além das próprias metamorfoses,
Frágeis
E alimentadas de árvores de medo

Não nos afastemos
Apesar da raiva invertebrada
Porque
O peito é um abismo que
Desaba

Enquanto a esperança
Espera nossa canhota coragem
Para caminhar

Não nos afastemos,
Todos cabemos
No labirinto do futuro,

No futuro
Que ainda nem se prometeu…

Júlio Miragaia

*Para os amigos que vivem e lutam por sonhos indestrutíveis.

Conhecendo o Artista – Por Kassia Modesto

Buscando aproximar ainda mais os artistas da região norte ao público em geral, estreia nesta quinta-feira, 07 de maio, a Live Programa “Conhecendo o Artista”, apresentado pela produtora cultural Kássia Modesto, cujo objetivo é dar voz e visibilidade aos profissionais da arte, possibilitando um bate-papo leve e divertido, onde o artista possa se abrir e contar tudo o que tem por dentro e por fora da sua arte.

O programa que acontecerá por meio de live no instagram @srta.modesto, a partir das 20h, será divido em blocos, dentre os quais haverá conversas sobre a trajetória pessoal e profissional do artista, interligada por dinâmicas e jogos.

Na estreia, o programa contará com a presença do poeta e compositor Joãozinho Gomes, que é paraense, mas reside no Amapá, onde mantem uma produção ativa com parceria com diversos nomes da música nacional.

O programa abrirá espaço para artistas de diversas linguagens e do Brasil todo, mas dando muito espaço e foco nos artistas do Norte. Na próxima quinta, dia 14 de maio receberá o músico amazonense Eduardo Branco.

O projeto

A ideia surgiu da inquietude da apresentadora em perceber-se, também, sem espaço para apresentar seus trabalhos artísticos e em meio a tantos artistas que produzem e vivem da arte e que agora estão sem esse meio de renda.

Durante a live, também haverá arrecadação, através de contribuição voluntária para o artista da noite e para o programa, que de forma carinhosa e virtual conta com uma equipe de apoio. A conta fixa para arrecadação do programa é Ag: 8529, CC: 23542-9, CPF: 008.482.032-24 Itaú, Rita de Cassia Silva Modesto.

Poema de agora: ELAS – Ori Fonseca

ELAS

Eu te amo, Carolina
Vi-te menino e te amei, mina
Nunca te esqueci
Nunca te perdi
E nunca te encontrei.
E eu te amei
Em muitos nomes
Quando me consomes
Em Juliana
Em Lúcia, Larissa
Quando a preguiça
É tudo o que emana
De te amar demais.

E tem mais:
És Irene
És Januária
És Ene
És Ana
És Rita
És Joana
És Bita
És Teresinha
És Therezinha
És Regina
És minha
Mina!

Eu te amo, Maria
Todo dia
Desde o teu ventre quente
Desde que me soube gente
Desde que mudaste o nome
Sem eu saber que esse nome
Seria minha ilha
Eu te amo, Emília
Mais do que em mil vidas se pode amar
Por isso te amo sem parar
Minha filha.

Eu te amo, Carolina
Minha mina
Minha paixão
De canção
Minha maravilha
De e Emília
Minha pelúcia
De Lúcia
Minha Gana
De Juliana
Minha cobiça
De Larissa.

Nena, Bia, Néia
Minha ideia
Sem vocês sou nada
Minha ideia sem Déia
É nada!
Iza, Iza, Iza
Minha vida te precisa
Zany, Zane
Deiseane
Deise Anne
Que eu me dane
Com quem há de vir
Edna, Lena, Nair
Estou aqui
A morrer por vocês
Sem vocês.

Venham cá
Pelo tempo que se foi, pelo tempo que virá!

Ori Fonseca

Poema de agora: astronauta – @stkls (Vídeo e voz de Áquila Almeida)

astronauta

há dois dias atrás li no correio da manhã
a noticia sobre os astronautas
que mandaram pro espaço uma astronave
chamada saudade
sorri como daquela vez primeira
quando provei do sal do mar
esses astronautas são os bichos mais agarrados na saudade
eles ficam horas emprestando seus corpos
à gravidade zero do espaço
e brincam que são pássaros azuis
no peito de um bukowski
e se alimentam de sol
para iluminar as fotografias de seus dias
armazenadas nos músculos de seus estômagos
quando a saudade no espaço é escassa
os astronautas viajam para galáxias distantes
quase subterrâneas
e só voltam com seus peitos doloridos
o efeito colateral é a insônia de dez dias
onde perdem o fôlego em transe
com queimaduras de terceiro grau
saudade é o mesmíssimo amor fogo
que arde e não se vê
foi no espaço que enfileiraram casinhas roxas
numa rua sem vento ou
cachorros da madrugada
e dentro de cada uma há alguém
metendo o dedo na ferida
de uma bigorna a qual chamam de solidão
e eu chamo de: pegar o ventilador
e fazer ventar estrelas

Pedro Stkls – Vídeo e voz de Áquila Almeida

Poema de agora: RESPIRO – Pat Andrade

RESPIRO

quando preciso ser mais forte
é minha poesia que me dá suporte
quando minha voz se cala
é minha poesia que fala
quando me sinto triste
é minha poesia que subsiste
quando a angústia aumenta
é minha poesia que me sustenta

então não cale minha poesia
não encarcere minha rima
não sufoque minha lira
deixe que ela viva e grite
as dores do mundo
que chore e sofra o meu penar

é minha poesia que me faz respirar

PAT ANDRADE

Poema de agora: A. M. FOTOGRAFIA – @stkls (Para Aline e Dona Manu)

A. M. FOTOGRAFIA 

hoje ela fotografou galhos secos
e a cruz do mundo
entre o azul branco das nuvens
e a umidade da temperatura dos seus olhos
tem um mar de paisagens sob os cílios
e seu nome significa
barquinho adormecido no rio
onde há sempre uma colônia de sol
navegando no miolo da noite
pode ser que um dia ela fotografe
o esmaecer da chuva pelo vidro do carro
e cante quem sabe cante para a chuva passar depressa
e a legenda será: ‘fique
avisada… o carnaval é todo
meu e teu entre a flor de muçambe
e a flor do abacateiro’
este poema é sobre a fotografia
onde se assobia o amor.

PEDRO STKLS (Para Aline e Dona Manu)

Poema de agora: UM DOMINGO – Pat Andrade

UM DOMINGO

o dia era morno e cinza
as árvores estavam quietas
nenhum bem-te-vi cantou
e o japiim se escondeu

uma vaga do Amazonas
atreveu-se a vir mais forte
pra molhar a terra seca e rachada
qual coração de quem sofre

no silencioso domingo
nem o brilho do sol
nem a beleza da chuva
puderam manifestar-se

apenas o grito interior
e a certeza da saudade

Pat Andrade

Poema de agora: DIA DEZ – @stkls (Vídeo e voz de Áquila Almeida)

DIA DEZ – Poetas Azuis – Letra: Pedro Stkls e Música: Igor de Oliveira

Você e eu
Estamos no mesmo coração azul
Na boca do mar
Na testa do céu

Você e eu
Estamos na mesma cidade
Fora do ar
Fora do sentimento

E quando isso parar de doer
A gente volta pra casa
E cura tudo com amor
Ou seja lá o que for
A gente inventa uma maneira
De sorrir de brincadeira
Só não brinque de esconder
O seu amor… fora de mim
Vou ver agora

Pedro Stkls – Vídeo e voz de Áquila Almeida

Poema de agora: reza – @stkls (Vídeo e voz de Áquila Almeida)

reza

começar um poema perdido na maré
começar a achar que do outro lado
uma canoa me espera
e você achando que
vou indo lá me embora sem ti
quando sei que essas tuas águas
não me visitam mais
nem o teu olhar prata da noite
nem o teu breu de quarto
e aquelas tonturas de amor
talvez seja melhor colocar na mala
um cheiro de capim santo
e doses de alecrim
pra distrair o cheiro que você me arrumou
e que ficou guardado
eu não consigo esquecer
eu não consigo passar um café
sem antes passar nas memórias
que eu guardei para o dia do fim
e o fim é agora
é hoje
acho que me distraí no mangue
que vim rolando até aqui
com os joelhos ralados
nem violeta com pião roxo cura
o que cura é você chegando
de canoa, zé
trazendo o peixe preu me distrair
só pra ouvir você dizer
que delicadeza! que senhora! que deusa!
eu só queria te dizer
que eu aprendi que o infinito
é o mesmo que um rio de estrelas
não se acaba assim
por que ir se aqui ainda tem tanto amor?
tem a lida o cuidar com os bichos
tem a noite a luz da lamparina
tem agora meu coração
que passa frio
você é um sujeito
-saudade
coisa de vento que só toca a gente
aqui dentro de mim
você é um peixe que nada
e eu não sei disfarçar
eu te ponho no meu potinho de açúcar
e de nada adianta
eu te quero amarrado na minha saia de chita
preu rodopiar sem pedir licença
pra vida ou pro mundo
pra natureza ou pra qualquer santo
eu já tomei um banho de ervas
já ouvi tantas pessoas dizerem
ele não é mais
ele era
e eu digo é impossível
ele tá aqui nas tábuas do assoalho
no meu altar de santo
no campo serrado
no rio quando vai chegando
a dona castorina me disse
que eu carrego um amor muito forte
que isso é capaz de enlouquecer
como quando corri pelo terreiro
e não te achava
como quando eu te esperei
e você não chegava
eu ando achando que você deixou
uma canoa à minha espera
porque anda pensando que vou sem ti
o nosso filho me disse
que eu não acreditasse na morte
e que agora é você quem acende os vaga-lumes.

Pedro Stkls – Vídeo e voz de Áquila Almeida