A Reforma Maderária – Texto poético de Bruno Muniz

“A Reforma Maderária”

Roto e gasto, o Toco conversa com o Tamborete.
De ouvido uma Cadeira senta e não balança.
De fina madeira e pregos de ouro o Trono escuta de travessa.
O Sofá, da sala, espicha o olho.
“Lá vem o Toco reclamar, falar de socialismo, de Reforma Maderária”, diz a Espreguiçadeira saindo da piscina de toalha.
“Acredito que todos têm direito ao acabamento mínimo”, comenta o Divã, forrado de camurça, seda e caxemira, tomando o chá das cinco deitado no escritório.
“O Bolsa Acabamento está deixando esse povo mal acostumado”,
diz irritado o Banco de Macacaúba.
“Pau Brasil querendo verniz de primeira? Que respeite o artigo quinto da Constituição: “Todos são iguais perante as Madeiras de Lei””, disse, corando, imponente, a Mesinha de peroba rosa.
E o Toco, cabisbaixo, volta à casa de ripa, tira a farpa do nariz, pega o livro de Karl Marx do calço da Cadeira Manca e dorme sonhando com aguarrás no óleo de peroba e cheiro de alfazema pra Amazônia inteira.

Bruno Muniz

Poema de agora: Setembro – Thiago Soeiro – @ThiagoSoeiro

Setembro

Silenciosamente as flores esperam a próxima chuva.
Querem banhar-se de água doce do céu.
Haveria eu como adiantar a chuva?
Esse setembro corre seco em minha boca,
não me deixa falar algumas palavras passadas
Existe salvação para as flores secas?
Acreditar…


A palavra toma conta dos dias alaranjados
É mais que querer.
É fé que dias melhores estão por vir
Tem flores morrendo nos campos esta primavera
Só pra nascer em teus cabelos no próximo verão.

Thiago Soeiro

Poema de agora: Retrovisor – Ori Fonseca

Ilustração: René Magritte – Os amantes (1928)
RETROVISOR
A mim me basta a tua paixão sem hálito,
Os teus olhos vagando no planalto,
O teu corpo rarefeito.
Eu posso te entender na temperatura da sala,
Nas manchetes que te assustam nos sites
(Que há muito chamei de sítios),
Nas páginas das revistas sem páginas,
Na intimidade com quem não conheces.
Eu te perdi sem nunca ter te achado,
Sem nunca ter me livrado de ti.
Vejo-te no retrovisor,
Subindo as escadas rolantes,
Atravessando a rua estressada,
Com a cara cheia de razão.
E te sinto entrar no meu quarto por debaixo da porta
(Teu cheiro não me abandonou como tu),
E me amar nos meus pesadelos à tarde,
E, no abismo, soltar minha mão sem dizer palavra.
Um dia, quando nossas dimensões se tocarem,
Talvez possamos reconhecer que já nos conhecemos
E que andamos juntos,
E que não fomos mútuos estranhos
E que já rimos honestamente da mesma graça
E que nos olhamos nos olhos
E pudemos morar na alma do outro,
E sentindo efemeramente
Algo que se pode confundir
Com amor.
Ori Fonseca

Lançamento da Antologia Poética: “A beleza de ser negro”, na Ueap (com intervenção poética de Pat Andrade a Arílson Souza)

Nesta terça-feira (31), às 19h, no auditório da Universidade do Estado do Amapá (Ueap), será lançado o Antologia Poética: “A beleza de ser negro, elevando a autoestima e a subjetividade do ser”. A obra, que tem como organizador o escritor Ivaldo Souza, conta com 20 autores. A proposta do livro  é, ´por meio da poesia, elevar a autoestima da população afrodescendente. O evento contará com intervenção poética de Patrícia Andrade e Arílson Souza.

A obra traz a composição poética de vários autores, que fazem do universo da poesia um veículo para ajudar a vencer o preconceito étnico-racial. O livro possui uma rica seleção poética com composições de vários escritores, favorecendo assim, seus esquemas mentais e contribuindo para a internalização de suas subjetividades.

O novo livro  traz informações científicas com base em pesquisas acadêmicas, cujo conteúdo vem mostrando como se desenvolvem e se manifestam as relações do preconceito étnico-racial em sala de aula. A obra enfatiza ainda os prejuízos que o preconceito pode trazer à vida das pessoas. Nela apresenta-se também uma visão religiosa e científica a respeito da igualdade entre os seres humanos e, além disso, como sugestão de combate ao preconceito, traz a poesia negra, recheada de informações que envolvem o combate ao preconceito étnico-racial.

De acordo com a lei, 11.645/08, todas as escolas devem recontar a história da população negra e mostrar o verdadeiro potencial, a verdadeira capacidade que temos em desenvolver nosso cognitivo, partindo desse pressuposto, selecionamos poemas que pudessem expressar toda a grandiosidade de ser negro.

“Precisamos sim nos preocupar em vencer o preconceito étnico-racial, sabemos que o preconceito pode afetar todo o desenvolvimento de uma pessoa, e a poesia é uma forma simples e prazerosa de ajudar nas construções da subjetividade do ser humano, assim digo: as palavras são armas poderosas capazes de mudar nossas ações, nossos esquemas mentais, nossa autoestima e nossas emoções subjetivas”, ressalta o organizador da Antologia.

Apoio

Esta obra é formada pela junção de outros livros já publicados pelo autor – As relações étnico-raciais em sala de aula, Preconceito e discriminação racial e Afrologia tucuju – uma espécie de reedição atualizada com informações inéditas. O livro conta com apoio da Secretaria de Estado da Cultura. A publicação foi selecionada e financiada pelo edital 003/2020 – SECULT CARLOS LIMA “SEU PORTUGA”, da Lei Aldir Blanc 14.17/2020.

Poesia de agora: O ÓBVIO – Pat Andrade

O ÓBVIO

ainda que arrancassem meus olhos
não deixaria de enxergar
o desespero do cotidiano
pelas esquinas
bancos comércios
baixadas prédios

toda a desilusão
devidamente contida
caprichosamente disfarçada

os carros passam indiferentes
há uma morbidez aparente
e a poesia manifesta

somos mortos vivos
implorando por dias mágicos
músicas etéreas
pratos colossais

estamos à beira do caos

somos míseros poetas
rabiscando diante do cais
a desejar mares e horizontes
que não podemos alcançar

somos pássaros tristes
que mesmo fora da gaiola
perderam a vontade de voar

Pat Andrade

Poema de agora: (DES)CAMINHO – Ori Fonseca

Ilustração: Museu da Tortura de Amsterdam

(DES)CAMINHO

Apanhei muito pra aprender o errado,
E mais ainda pra esquecer o certo.
A vida não tem lógica, decerto,
Nem justo é o presente com o passado.
Fui violentado achando ser amado,
A tirania eu já senti de perto.
O amor, que sevicia é encoberto
Pelo ódio que afaga disfarçado.
Cercado de gente, estive sozinho,
E quando achei estar só, me acompanhava
Alguém distante com quem não contava.
A vida é esse caminho em descaminho:
Quem me odiava já me deu carinho,
Fui castigado já por quem me amava.

Ori Fonseca

Poema de agora: Chuva de Semente – Arilson Freires – @ArilsonFreires

Chuva de Semente

Na vastidão
Vejo segundos de paz
Que logo se armam
Bélicos e heroicos.

O amor sem um fio
Rio sem margem
O tempo contraria, contaria
A vida é uma miragem.

Como é bom ser imperfeito
Fazer as coisas do seu jeito
Meter os pés pelas mãos
Esborrachar a cara no chão

Um andante da planície
Errante entre mentes
Num sol que entristece
Um samurai sem mestre

Chuva de semente no domingo à noite
É esse tipo de paz que se busca

Arilson Freires

Paulo Tarso Barros completa 60 voltas em torno do sol. Feliz aniversário, amigo poeta!

Eu, com os escritores e poetas, Fernando Canto e Paulo Tarso Barros (nosso querido aniversariante). Foto: Sal Lima

Gosto de parabenizar amigos em seus natalícios, pois declarações públicas de amor, amizade e carinho são importantes pra mim. Além disso, o Amapá precisa preservar, reconhecer e homenagear seus grandes nomes em todas as áreas de atuação. Esse texto, além de ser uma felicitação, é um momento de reconhecimento.

Quem gira a roda da vida neste vigésimo nono dia de agosto, é o professor, escritor, contista, poeta, servidor público, membro da União Brasileira de Escritores (UBE), da Associação Amapaense de Escritores e da Academia Arariense-Vitoriense de Letras e imortal da Academia Amapaense de Letras (AAL), militante cultural e amigo deste editor, Paulo Tarso Silva Barros.

Nascido em Vitória do Mearim (MA), Paulo chegou ao Amapá com 18 anos e escolheu Macapá como lar. É um marido e pai dedicado de duas filhas (uma delas, minha querida Ingrid). Tarso é um escritor premiado, autor de várias obras e de centenas de crônicas e artigos na imprensa do Amapá, Pará, Maranhão, São Paulo, Pará e Rio de Janeiro. Paulo é um cara que começou a escrever com 13 anos. Publicou poemas em jornais, criou grupo de teatro, escreveu e dirigiu peças, produziu literatura de cordel e panfletos.

Além disso, é um incentivador da Literatura e de novos escritores. Hoje ele chega aos 60 anos, bem lidos, bem escritos e bem vividos. Pelo grande cara que Paulo de Tarso é e por tudo que ele fez pela cultura do Amapá, hoje lhe rendo homenagens.

Amigo, que seu novo ciclo seja ainda mais produtivo. Que tenhas sempre saúde e ainda mais sucesso junto aos seus amores. Parabéns pelo teu dia e feliz aniversário!

Elton Tavares

Poema de agora: Um dia chamado hoje…um momento chamado agora –  Luiz Jorge Ferreira

Um dia chamado hoje…um momento chamado agora

Meu coração é uma Melodia com asas.
Muda o ritmo das suas incursões aladas…mas termina quase sempre no chão.
Meu coração é um desenho fosco.
Sem detalhes coloridos,
Cheio de entalhes mal definidos.
Que apenas ocupa a meia metade do esquerdo peito…que carrego comigo a um tempão.
Há dentro de mim e perto dele um espelho para que ele se veja, e não se sinta só.
Ele se reflete a si mesmo.
Quando o encontro vermelho, é sinal que chorou.
Aí, eu declamo Pessoa, ele imagina que sou eu, e zomba.
É quando saio para chorar tristonho , junto aos Anjos da terceira esquina.

Luiz Jorge Ferreira

 

Poema de agora: Estrangeiro – Ori Fonseca

Ilustração: Retirantes, de Cândido Portinari (1944).

Estrangeiro

Vou vos contar apenas num soneto,
Vós sois um retirante do estrangeiro.
Eu também sou, vim num navio negreiro,
Morrendo desde o parto, por ser preto.

Cá na cidade, vós viveis num gueto,
Chapa quente do beco brasileiro,
Onde a temperatura de braseiro
Derrete desde a alma ao esqueleto.

A vossa prole abunda nos mercados
(Com seus estômagos atrofiados)
Nas portas de farmácia — a nova igreja —,

Nos ônibus negreiros da cidade,
Na fila insana da descaridade,
Sem despertar um mero olhar que seja.

Ori Fonseca

Poesia de agora: POEMA-CANÇÃO

POEMA-CANÇÃO

nosso amor é feito
de manhãs azuis
e tardes ensolaradas
de segredos divididos
e dores compartilhadas

nosso amor é feito
de areias quentes
e águas geladas
de roda gigante
sorvete e mãos dadas

nosso amor é feito
de bilhetes e canções
de doçura e nostalgia
de sonhos guardados
de samba e poesia

Pat Andrade

Poesia de agora: Ensaios sobre pequenos encontros com Deus – Jaci Rocha

Ensaios sobre pequenos encontros com Deus

Deus é bondade
É o olho da Zoé depois de uma soneca macia
Ou, um conselho de minha irmã…

Deus é a cor infinita da roseira linda
Que dança neste dia de abril
Pois as flores de abril
gentilmente saúdam o equinócio das águas…

Deus é auxílio a quem precisa,
É nós em nosso mais santo ofício de ser gente
Pessoa, e nessa canoa,
não desistir de embarcar

Mesmo quando sob um bravo mar
For preciso encontrar repouso
Sobre o próprio pouso…

Deus não constrói edifícios e rituais
É aquele menino que ri, encantado
Para o Natal

Pois o presente de Deus
é poder ver Jesus renascer
e a vida (re)acontecer
em cada criança que nasce…

Deus é o gesto, quando faz sua parte
Ação, quando vem da emoção
É pedaço de carne
personificado no abraço do ser amado…

É enlace
Consolo, mar e remanso
Deus não é castigo,
é descanso.

Jaci Rocha

Poesia de agora: Não brigo com Deus – Luiz Jorge Ferreira

Não brigo com Deus

Não brigo com Deus
Porque minha impressora quebrou.
Nem procuro a memória no dedal em que escondi um caroço de uva.
Pisco para acender a luz interior
E ponho as palavras em fila do Alpendre desbotado da Av. Ernestino Borges…
Descendo descalças pela beira do rio.
Amo a parte em que saio de mim, e sou outros.
O passado, o depois, o dia que vinha, o ontem que foi.

Quando os vermes parasitas atemporais, inundarem com suas mandíbulas químicas, minhas células cerebrais, se embriagarão de poesia.
Os pluricelulares, alvissareira, declamarão.
Os mono celulares, acharão um absurdo, achar que o sol é tudo.
Quando há lua, chuva, amor, paixão, destino, e intestino.
A impressora quebrada, continuará oxidada.

As palavras nascerão em outras paragens, vindas de bocas, afoitas, e corações apaixonados.
Os bisnetos, dos bisnetos, dos unicelulares, que disseram versos, porque neles não cabem.
Acharão doce a palavra amor.
E com ela subirão pela aorta até o coração.
Onde terei deixado o desenho da palavra paz.

Luiz Jorge Ferreira

 

* Do livro Nunca mais sairei de mim, sem as Asas.

Poema de agora: O NOME DA ROSA – Ori Fonseca

Ilustração: Menina da Rosa, aquarela em papel, de Milla D’Arte.

O nome da rosa

Um anjo de rosa perfuma a vida
E guarda entre as pétalas um segredo:
Tornar em poesia o que já foi medo,
Fazer primavera onde havia ferida.

Essa mensageira, a rosa querida,
Por vezes, em sonhos, me espeta o dedo
E faz-me acordar muito aquém do cedo,
Deixando a fragrância de sua mordida.

Que a vida em primavera se revele
No anjo, na rosa, na luz do dia,
Em cada boa mensagem de alegria.

Que a volúpia dos sonhos se encastele
No cheiro da seda, a seda da pele,
Na pétala a eriçar-se em poesia.

Ori Fonseca