Poesia de agora: O Beijo – Lara Utzig (@cantigadeninar)

O Beijo

Como se um pedaço de mim se esvaísse
Em cada suspiro que solto por ti,
Como se minha alma se bipartisse
Em cada saliva que entrego a ti,

Sinto meus pés se elevarem do chão,
Sinto-me flutuar como em meditação,
Sinto a taquicardia de meu coração,
Sinto o latejar de nossos sexos em pulsação.

Como se meu espírito fosse uno com o teu,
Nossos lábios se encaixam perfeitamente um ao outro.
Como se teu corpo fosse o mesmo que o meu,
Nossa respiração se mistura em sinal de bom agouro.

Sinto o clamar de nossas bocas sedentas,
Sinto o palpitar de uma troca sincera e lenta,
Sinto o rebuliço das partes outrora amenas,
Sinto nosso beijo da forma mais plena.

Lara Utzig

Poema de agora: Anatomia da Saudade – Pat Andrade

Anatomia da Saudade

a saudade meu bem
brota aqui dentro de mim
lá no fundo do coração
por causa do lobo temporal

vem de uma lembrança antiga
de uma voz ou de uma canção
que o vento traz
um cheiro peculiar
que invade o ar

aí inventa cisco no olho
faz cosquinha
na ponta dos dedos
caminha pelo corpo inteiro

depois brinca de se esconder
na coleção de pedrinhas redondas
na flor amassada dentro do livro
num poema escrito aos seis anos

do nada vira foto borrada
faz a gente morrer um pouco
com a dor revisitada

a saudade meu bem
é uma ferroada invisível
que às vezes dói
e às vezes arde
é bicho que anda
sem ter pernas
voa sem ter asas
e canta implacável
nos fins de tarde

Pat Andrade

Poesia de agora: Reciprocidádiva – Lara Utzig (@cantigadeninar)

Reciprocidádiva

Criticam a rima pobre
De quem combina amor com dor.
“É inconcebível que em uma língua tão nobre,
Limite-se tal riqueza com aquilo que se vai por”!
Eleva-se o verbo com o substantivo;
Aceita-se também adjetivo,
Mas considera-se crime o binömio amor/dor.
Mal sabem que esta é a única consequência deste sentimento:
Um recheio de lamento
Que, por fim,
Transforma-se em mais um poema ruim,
Acinzentando todas as cores.
Onde amores… Há dores.

Lara Utzig

Poema de agora: Bem te vi – Manoel Fabrício – @ManoelFabricio1

Arte: Alex Sapiência

Bem te vi

Bem te vi tá cantando de madrugada
O calor não para de aumentar
O Rio cada vez mais poluído
Geração mercúrio
Nessa Amapá
É chuva de bala
E vida extinta
É panela vazia
Tão acuando a matinta?
– tem tabaco aí?
Nem sei corro ou se sorreio
Perdido perto do tiroteio
Helicóptero na altura da mangueira
O forro da igreja furado de bala

Manoel Fabrício

Poema de agora: As Cores da Saudade – Kassia Modesto

As Cores da Saudade

Eu nunca vi interrogação tão grande e tão mal resolvida
Se eu fosse um pintor, eu faria da saudade a tela mais colorida
Se ela fosse uma cor, somente, eu me pergunto que cor ela seria
Um tom de azul, céu profundo
A me sugar solitária ao seio do mundo?
Um branco limpo e infinito
Enlouquecendo aqui dentro, como em um próprio hospício?
A saudade é uma parceira solitária e fugaz
Que caminha a espreita e vai correndo atrás
De uma fiel companheira, sangria voraz..
Saudade, saudade, saudade…
Minha companheira nas horas tardias
Gostaria de pintar de um azul, verde-mar
Ou as cores da primavera eu poderia recriar.
Dar-lhe um tom cintilante
E deixar pelo menos por um instante
A sua dosagem me embriagar…
A saudade que carrego comigo
É preto, é luto, é medo
A viúva negra a companheira eternamente ausente
O passado ainda presente
A lembrança constante,
O afago ao frio
O arrepio apenas na mesma recordação
A saudade que carrego comigo é como o preto,
É a ausência das cores que guardo no peito.

Kassia Modesto

Poema de agora: Flutuante – Luiz Jorge Ferreira

Flutuante

Eu me lembro do calção encardido de açaí do Sussuca…extendido no limite do Mundo.
Eu me recordo das duas marcas sinuantes como rastros de serpentes, das rodas da bicicleta Merckswissa do Alceu.
E da fome atroz das Pipiras roendo cajus verdes, eu me lembro do dor d’olhos na imagem de São Benedito…na Capelinha do Laguinho.
Eu me lembro de mim…Gitinho…olhando para mim e perguntando para mim…Que Queres?

Foto: Blog Porta Retrato

Eu me lembro do Sol bebendo água no Pacoval…e a minha alma de cócoras, torcendo para que uma Mutuca ferrasse o dorso dele. Eu me lembro da minha sombra correndo atrás de mim e perguntando…
Tu acreditas em amor?
Eu amo a lua…
E eu respondendo…eu acredito em noite nua…
Que roupa ela veste?…perguntei.
É tecido de chita que ela usa para ficar mais bonita…e ela pega lá nas lojas da Doca da Fortaleza?
Eu acho que ela ama a Fortaleza. Admira a coragem dos passarinhos que pousam próximos aos seus canhões.
Eu me lembro de achar que jesuíta era um Padre que vinha por os índios em fila para apresenta-los a Jesus…

Foto: Wonders Brazil

Tu sabes onde moram as estrelas ?
Depois da mata dos Tucanos coloridos do Curiaú…
Sombra….sabes porque amas a lua…
Porque jogas por terra teus sonhos, assim que banhas.
Vamos passar pela Ernestino Borges…vamos até a venda de Bill pefir que Neusa nos leia a mão…
O cego que pede esmolas lá na Padaria do Seu Oswaldo…as leu…
O que ele disse não lembro …estava chovendo e levei a sombra para dentro da casa de titia Benedita…
A única que acredita que Deus é brasileiro.
Lá fora…dentro do olhar sem luz do cego que acredita enxergar o futuro o barulho das moedas agitadas dentro da cuia vazia ecoa.

A vida tropeça na sombra que ele arrasta que é a mesma que me convence que a lua ama a escura noite para ser notada sobre a luz dos pirilampos que esvoaçam atônitos com a beleza dela.

Sombra….Deixemos de andar a esmo…convide Pedro…chame Seu Rô…assuste Quincas…
Cubra o Sol com um pano rendado e com um anzol estrovado pesque restos de lembranças boiando no Matapi …e as traga até aqui, para o embevecimento do menino …
Que arrasta a sombra pelas marca feita ali pelo destino.
Embriagado de alegria…
Perambula…pela ilharga ímpar das costelas magras…desta tal de vida.

Luiz Jorge Ferreira

*Do Livro “Diante da Boca da Noite…ficam os dias de dias de Ontem” – Osasco (SP) – 10.10.2021

Poema de agora: Aquela máquina de Digitar Afetos – Jaci Rocha

Aquela máquina de Digitar Afetos

Aquela máquina de Digitar afetos
Nunca mais escreveu a palavra “Meu amor”
Por onde andas,
Afinal?

Verbo que é cheiro
Quanta falta tu faz em meu jardim…

Nem sempre fui assim, tão dislexa à paixão
Já fui mais atenta ao meu próprio coração
Mas a vida é assim,
Depois que passei a usar relógio

O tempo caçoa de mim:
– Faz com que tudo tenha exíguo começo, meio e fim –

É que o amor não cabe no curto espaço de 24 horas
isso aos poucos, creia,
A tudo devora –
E apavora

Mas… acalma, Coração
– Quem sabe ainda temos
Uma eternidade a mais
Na próxima Oração –

Quem sabe a gente se tropece
Em meio ao burburinho de um café
Quem sabe aquele velho ditado (Clichê)
Ainda esteja de pé

Ah! Incerta beleza de existir.
O verbo futuro é ingrato
Descumpridor nato
De quem achamos que seremos…

Faz tempo que não chove em Macapá
Mas o Equador vira água num súbito instante!
Quem sabe a vida seja assim: de se sentir o sabor
E agora, sob o intenso calor,

Me demoro a tentar compreender
O porque essa máquina (de bater)
nunca mais digitou a palavra
“Meu amor”…

Jaci Rocha

Fonte: A Lua Não Dorme.

Poesia de agora: Amadure-SER – (@cantigadeninar)

Amadure-SER

Hoje aprendi que posso viver dia após dia
Como se cada dia fosse o último, no presente,
E saber que não o é, na verdade,
Pois o que há depois do fim aparente,
Que a maioria acha,
É a eternidade,
Até que o ser humano renasça
E o ciclo todo recomece
A fim de que a evolução se faça.

Hoje aprendi que posso trabalhar sem demanda
Como se não existissem clientes me fazendo cobrança
E saber que o freguês da minha fila não anda
Pois a caneta sou eu quem comanda.
De tanto escrever sem oferta e procura,
Sou eu que ofereço minha própria cura
Até escorrer em versos, tinta, rima e epifania
Ou o que quer que seja que compõe este ofício
Onde não há encomenda ou precipício
Porque se trata de poesia.

Hoje aprendi que posso sofrer milhões de ofensas
Como se eu fosse um poço de fracassos subsequentes
E saber que perder, às vezes, não é nenhuma doença
Pois agora creio na vertente
De que ser menosprezada não importa.
Quantas vezes cair, mais ainda meu sonho será atraente
Pois é relativo o conceito de sucesso e derrota
Até que eu consiga e a mim mesma prove, por bem,
Que eu não preciso provar nada a ninguém.

Hoje aprendi que posso amar sem barreiras
Como se não existissem fronteiras
E saber que há equilíbrio na balança
Pois sentir sem medo não é sinônimo de ser aventureira.
Que se entregar é quase como ser criança
Quando se atira nos braços de quem deposita confiança.
Reconheci que sofrer é em vão
E entendi que o limite do amor
É o doce e etéreo sabor

Da imensidão.

Lara Utzig

Poesia de agora: Lições da Infância – Jaci Rocha

Lições da Infância

Quando criança,
sob as calçadas encardidas da Salvador Diniz
Aprendi que o céu era o limite!
E que o mapa encantado até a chegada existia
Ao fim dos pulinhos da amarelinha,
Desafio nosso de cada dia…

Oceano era a lagoa do quintal do meu avô
O tesouro, sempre ao fim do arco-íris
Os dragões eram vencidos por príncipes
E éramos grandes navegadores a navegar
E tudo parecia ter o seu lugar…

Passadas décadas, ruas e avenidas
Desaprendi esquinas
Pois a máquina de engolir vida
Apagou as linhas finas
Que apontavam por onde caminhar…

Agora, sigo desalinhada
Sei pouco sobre certezas e chegadas
Canso de ouvir – e escrever –
as mesmas palavras
e não sei onde dobrar…

Queria ter outra tarde
Daquelas mornas e empoeiradas de infância
Brincar de correr para todo lado
E ao fim do dia correr para o colo encantado
Dos olhos de mel da minha irmã…

Mas a máquina de engolir vida
Segue a comer lembranças
E aquela esperança vive
Da luz que existe na memória
Daquelas velhas histórias
Repetidas antes de sonhar!

Jaci Rocha

Poema de agora: UMA MULHER – Pat Andrade

Pat Andrade – Foto: arquivo pessoal da poeta.

UMA MULHER

não sou vítima
e não aceito o carrasco
que me castiga
não sou objeto
e não aperto a mão
que me bolina
não sou escrava
e não nasci pra te servir

não sou perfeita
e não acato os padrões apodrecidos do high society
não sou deusa
e dispenso teus altares

não sou dondoca
não sou boneca
nem tua gostosa
não sou louca
nem doida varrida
como tentas insinuar

quero e mereço respeito

sou uma mulher
e isso deve bastar

Pat Andrade

Poesia de agora: Prelúdio para a Catedral – Luiz Jorge Ferreira (um belo poema sobre amizade e o Círio de Nazaré)

Prelúdio para a Catedral

Encontro com Fernando Canto, parece que foi Ontem esses dez anos.
Aumentamos o grau dos Óculos.
Estou ileso, chamuscado , teso e ‘liso’, porém pareço eterno.
Ele fala. Eu falo. Bebe-se.
O tempo adoece.

Conversamos então sobre a solidão pousada no prato de azeitona, temo que sejamos herdeiros da mesma angústia que fala de canoas.
Digo-lhe que amaremos a mãe de nossos filhos, ele acha que Cuba pode vir a produzir mamão Papaya.
Divagamos sobre o fim de Tróia, e a glória de estarmos embriagados.
Bebo Conhaque e lhe segredo que sempre amei Helena.
Ele refere-se as Sereias como Sardinhas.
Diz que Deus é brasileiro, acho que tudo começou com um Símio.
Conhece uma Marcha Turca que termina em palmas, canta e eu aplaudo ritmicamente.

Belém está afônica.
Ele imita Sancho, eu imito o Capitão Gancho e Brizola.
Um Padre passa para a Igreja, atiro nele um caroço de azeitona.
Fernando vê-me menino, eu o vejo imberbe, fazendo poemas para as meninas do Colégio.
Digo-lhe que amaremos os netos de nossos filhos.
Ele acha que postumamente.

Os poetas Fernando Canto e Luiz Jorge Ferreira, em algum lugar do passado.

Rimos a ‘bandeiras despregadas’.
Mais ou menos de pé, cantamos o hino, despidos como nascemos.
O dono do bar, nos xinga.
É Domingo, saímos do bar, para a Missa.

Luiz Jorge Ferreira

 

* Do Livro Thybum – Rumo Editorial – 2004 (Primeira Edição) – São Paulo.

 

 

Poesia de agora: Caminhada – Fernando Canto – @fernando__canto

Caminhada

Aos que caminham dentro de si e ainda se assombram

De manhã
Meu corpo
É longo
Em sua sombra
Caminhante

Ao meio-dia
Assombro-me
Em segredo
– Encolhidinho –
No equinócio
Da alma

À tarde
Eu me projeto
Rumo ao mar
Com o sol
A bater meu rosto
Nos umbrais da noite

E se um lado é luz
Que me orienta
E de outro
Meu rastro
É a escuridão

Sou, perdoem-me,
Um obscuro ponto
Na paisagem
Que me embala
Ao sol do dia seguinte.

Fernando Canto