POESIA NÃO DÁ VOTO (*) – Crônica de Fernando Canto

Crônica de Fernando Canto

Poucas vezes vi uma casa de shows lotada para ouvir poetas declamando seus textos como em um dia 25 passado, no Teatro das Bacabeiras. Por obra e graça de pessoas iluminadas como Carla Nobre e seu grupo, do movimento poético Abeporá das Palavras, aproximadamente vinte poetas mostraram suas poesias numa noite não muito longa, onde pouquíssimos espectadores saíram antes da hora. Ora, ouvir poesia depende de gostar muito. E tanta era a diversidade de estilo que só mesmo quem entende e gosta ficou até o final. Um final interessante, diga-se, pois contou com a participação especial do cantor e poeta guianense Moise Culture, que cantou um reggae, acompanhado pelos presentes. No mais a brilhante participação de Eliakim Rufino, poeta roraimense investido de mestre de cerimônia, fez do evento um espetáculo valorizado, onde os poetas convidados se tornaram estrelas como qualquer show-man num palco iluminado.

Talvez seja hora de fazer um balanço sobre a poesia amapaense. Por incrível que pareça raros são os livros editados anualmente em Macapá nessa área. Não obstante existir tantos poetas, conhecidos ou não, a ausência de divulgação da produção poética é patente. Não vi até hoje nenhum Governo do Estado, enquanto “incentivador da cultura”, promover e incentivar absolutamente nada para que esse segmento se tornasse até mesmo mais popular. Não fossem eventos como esse, os trabalhos escolares, as feiras e exposições periódicas dos colégios, é possível que nunca viéssemos a ter alguma produção nova, descobertas de talentos ou mesmo reafirmação de talentos já consagrados em nossa terra.

Se o trato que os setores competentes dessem à poesia (e à literatura de modo geral) como dão à música e ao teatro a coisa fatalmente mudaria de figuração. Nunca vi, reitero, nunca vi mesmo alguma instituição cultural oficial se preocupar com esse sonho louco de nefelibatas e doidivanas. Há quem diga que é preferível que esses malucos pratiquem suas salabórdias inúteis pelos cantos do que virem aborrecer os secretários e presidentes com suas artes não-recomendáveis para menores e pedir apoio para encherem a cara de cana. É, tem gente que ainda acha que a poesia é uma arte marginal, feita por marginais e viciados.

Felizmente convivi com os mais importantes poetas do Amapá. Até os mais velhos eu conheci pessoalmente. Destes, o único sobrevivente é o poeta concretista (nas décadas de 50 e 60) Ivo Torres, habitante da cidade do Rio de Janeiro e ainda na ativa com seus 77 anos. Tão honrado e sensível como ele foram os mestres Alcy Araújo, o prefaciador do meu primeiro livro, e Álvaro da Cunha, de quem guardo 14 poemas inéditos, que me mandou antes de partir para a eternidade, onde vagam os poetas. Passaram em minha mesa de bar Cordeiro Gomes, Aluísio da Cunha, Arthur Nery Marinho e Jeconias Araújo, bem como Isnard Lima, Poeta Galego, Saulo Mendes, Sílvio Leopoldo e Raimundevandro Salvador. Todos eles, grandes inteligências. Com rara exceção não publicaram livros.

Mas não é fácil publicar um livro. Ou se usa recurso próprio ou se vai atrás de patrocinadores, que normalmente preferem outras formas de divulgarem seus produtos. E é aí que a porca torce o rabo, porque quem deveria ter uma política editorial não tem e não terá, principalmente porque a poesia, já me disseram, não dá voto. E fica por isso mesmo?

(*) Jornal do dia, 2007.

Poema de agora: CASA AMARELA – Luiz Jorge Ferreira

CASA AMARELA

Alheio aos passos do gato no telhado.
Alheio a lua minguante esparramada no vaso de plantas.
Eu ralho com Deus.Por que me fez?
Alheio a noite sobre a mesa.Alheio ao sol no prato de parede.
Eu caio em mim.
Alheio á sexta década daqui a vinte semanas.
Alheio a necessidade de um Captopril e dois AAS(s).
Eu Solo I Mio.

Nenhum dos meus passos me trouxe de volta.
Nem a reta torta, nem a veia solta, nem a língua trôpega.
Nem a palavra amarga deixou de ser o que era.
Nem os perfumes retornaram no bico dos pintassilgos, nem os filhos foram semelhantes.
Ninguém desfez, e refez os nós, os sós, os cós, os calafrios e os catiripapos.
No entanto, por muito tempo, a minha vida habitou em mim.
Como uma musica que eu fingi não ouvir.
Como uma intrusa que achei melhor não notar.
Eu um andarilho.
Com poucos metros de trilha, na imensidão de uma ilha.
E uma vontade imensa de não prosseguir.
Escrevo.
Todas as noites, aqui nesta tela estéril e vazia de um computador.
Abrigo os meus monossílabos.Que nem silabas são, nem papel ela é.

Alheio a mim e ao fim. Desaparecerei.
Restarão quilos de Captopril, toneladas de AAS.
Para serem consumidas por outros hipertensos ansiosos.
Poetas solitários, que ouvirão pisadas distantes de gatos.
Apenas gatos, andando cabisbaixos no telhado, de uma velha casa amarela.

Luiz Jorge Ferreira

*Luiz Jorge Ferreira é amapaense, médico que reside em São Paulo e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames).

Poesia e música: Marcelo Sirotheau Canta Chico Buarque e Jorge Andrade lança livros de poemas

Marcelo Sirotheau é músico e compositor paraense, tem 18 anos de carreira e estará em Macapá interpretando Chico Buarque, hoje (14) no Norte das Águas. A proposta é um show em que a música e a poesia se encontrem, e para isso, seu parceiro Jorge Andrade confirmou presença, e juntos estarão em uma noite de lírica, dividida em dois momentos. Jorge Andrade fará o lançamento de livros, e logo após Marcelo Sirotheau apresenta o show com repertório de Chico Buarque.

Marcelo Sirotheau

Médico e músico, Marcelo Sirotheau nasceu em Belém, e na carreira compôs cerca de 200 músicas, a maioria em parceria com artistas como Leandro Dias, Paulo Moura, Pedrinho Cavalléro, Ziza Padilha, Jorge Andrade, Ivor Lancellotti, Miltinho (do MPB4 ), Márcio Farias e Dudu Neves. Marcelo é cria de festivais de músicas, e ainda hoje participa em todo o Brasil deste modelo de vitrine musical. O show “Marcelo Canta Chico Buarque” é sucesso no Pará, com canções históricas, uma volta na cronologia musical do ídolo.

Jorge Andrade

Jorge Andrade é professor de rede pública, poeta, compositor, letrista e contista, também paraense, vencedor de festivais de música e premiações literárias. Jorge tem cinco livros de poesia já lançados, entre eles, o premiado “História Contada em Círculos”, que foi lançado também em Macapá. Em festivais, suas composições foram defendidas por intérpretes como Andréa Pinheiro e Patrícia Bastos, e suas parcerias no Amapá vão de Joãozinho Gomes à Enrico Di Miceli, Zé Miguel e Cassio Pontes.

Em 2017 Marcelo Sirotheau e Jorge Andrade produziram e lançaram o CD “Fantasiando”. No Amapá, antes do show acontece a noite de autógrafos dos livros de poesia, “Para Não Ter Tradução” e “S/ Títulos”, e do áudio-livro “Pelo Menos Poema”. O evento inicia às 19:30, com lançamento dos livros e presença de poetas amapaenses, e às 22:30 inicia o show Marcelo Sirotheau Canta Chico, com a participação especial das cantoras Brenda Melo e Ariel.

Antes do show, a partir das 21h, tem uma apresentação especial dos músicos Helder Brandão, Beto Oscar e Nitai.

Serviço:

Lançamento de livros
Hora: 19:30
Entrada Franca

Pré-Show com Helder Brandão, Beto Oscar e Nitai.
Hora: 21:30

Show Marcelo Sirotheau Canta Chico Buarque
Hora: 22:30

Data: 14 de setembro
Local: Norte das Águas
Mesa: R $ 80,00

Vendas de Mesas e informações: 98121-6999/99155-7129

Mariléia Maciel
Assessoria de Comunicação

15 anos sem Johnny Cash – Para não esquecer do “Homem de Preto”

Há exatos 15 anos, morreu o cantor, compositor, escritor, diretor e ator norte-americano Johnny Cash, o popular “O Homem de Preto”. O cara foi um dos pioneiros do rock’n roll. Também um dos artistas mais completos que o mundo já viu e certamente está entre os mais influentes do século XX.

Sua inconfundível voz sepulcral, o distintivo som “boom chicka boom” de sua banda de apoio “Tennessee Two”, foram “marcas registradas” do artista que também foi o “rei da música country”.

Criativo, inovador, romântico, rebelde e diferente. Foi um dos pioneiros do rock’n roll, exibia um ar meio maldito andando sempre de preto, mesmo nas coloridas décadas de 60 e 70. Suas canções falavam de crimes, cadeia, de um cotidiano underground e alternativo.

Com seu vozeirão típico e sua poesia amarga, Cash foi precursor de um grito social em uma época que ninguém estava muito preocupado com esse assunto, e além de tudo, ele era o tipo de ídolo que apreciava enfiar o pé na lama sem dó. Mas ao contrário de muitos que foram influenciados pela sua poderosa postura marginal e revolucionária, resolveu viver bem mais que 27 anos e assim deixar uma extensa obra musical.

John R. Cash nasceu dia 26 de fevereiro de 1932, em Kingsland, Arkansas e era o quarto de sete irmãos. Eles eram de uma família não muito rica, nem muito pobre. Acho que classe média baixa para aquela época se encaixa bem no perfil. E resumindo bastante a vida dele antes da carreira, ele começou a cantar e tocar violão bem cedo. Chegou a cantar na rádio local músicas gospel na época da escola e até gravou um álbum com essas músicas.

Em 49 anos de carreira, Johnny Cash escreveu mais de 1000 canções, lançou 55 álbuns de estúdio, 6 ao vivo, 84 compilações, 165 singles, 19 videoclipes e 2 trilhas sonoras.

Cash nunca fez um show em que ele não estava usando preto. Cash começou a usar ternos pretos como um amuleto de boa sorte, porque ele usava uma camiseta preta e calça jeans em seu primeiro show ao vivo. Ele uma vez disse a Larry King, “[Eu] nunca fiz um show em qualquer coisa, mas preto. Você anda no meu armário de roupas. É escuro lá dentro.”

 

Recebeu diversos prêmios ao longo de sua carreira, como 1 Academy of Country Music, 1 Academy of Achievement, 3 Americana Music Association, 9 Country Music Association, 17 Grammy Awards e 1 MTV Vídeo Music Awards.

Cash faz parte do Hollywood Walk of Fame (1960), Nashville Songwriters Hall of Fame (1977), Songwriters Hall of Fame (1977), Country Music Hall of Fame and Museum (1980), Rock and Roll Hall of Fame (1992), Kennedy Center Honors (1996), Rockabilly Hall of Fame, National Medal of Arts (2001) e Gospel Music Hall of Fame (2011).

Um pouco de sua história foi retratada no filme Johnny & June, de 2006, com Joaquin Phoenix interpretando o homem de preto. Cash teria sido a primeira pessoa a ser processada nos EUA por ter causado um incêndio florestal. Cash que muitas vezes levava seu trailer, Jesse James, para o deserto para farras regadas a metanfetamina. Uma vez, o trailler teve um vazamento de óleo que causou um incêndio no Los Padres National Wildlife Refuge. O incêndio matou quase todos os condores ameaçados do refúgio, e Cash respondeu: “Eu não dou a mínima para seus urubus amarelos.”

O respeito pelo Homem de Preto manteve-se mesmo após sua morte, em 2003. Desde então, trabalhos póstumos alimentam o legado do cantor e essa procura não resume-se apenas ao terreno musical. Em 2016, foi publicada uma coleção de poemas e letras, até então desconhecidos – “Forever Words: The Unknown Poems”. Dezesseis desses textos foram musicadas e o resultado por ser ouvido na recém-lançada compilação “Johnny Cash: Forever Words”. A lista de realizadores presentes na homenagem reúne familiares, amigos ou artistas sobre quem Cash exerceu uma forte influência.

O rock é minha expressão artística favorita e Cash foi um dos maiorais. Todos nós, fãs, guardamos o homem de preto na memória e no coração.  Johnny morreu em 12 de setembro de 2003, aos 71 anos, vítima de diabetes. Ele nunca parou de gravar, de compor e de fazer shows. Deixou um dos maiores exemplos de como um homem deve se portar a frente de uma longa e tortuosa estrada da vida: ser ele mesmo.

Poema de agora: PERFEIÇÃO – Marven Junius Franklin

Imagem: Rafael Silveira (artista mistura o real e o surreal, criando um mundo mágico e cheio de cor).

PERFEIÇÃO

Por acaso
o entardecer
alamedas coalhadas
de rosas brancas
(Dona Isabel
varre o alpendre
do velho casarão).
No fio de eletricidade
as andorinhas
dialogam sobre destinos
(a lua espia
o silêncio e eu durmo
pleno de poesia).

Marven Junius Franklin

Poema de agora: Verbete – (@cantigadeninar)

Verbete

Tu és quase-ser-mítico
figura eternizada pelo tempo
desejo ilícito
prólogo da ciência:
és instante.
Momento.
Resultado de imagem para poesia verbete
Tu és quase-lenda
– passada geração a geração –
que abre uma fenda
entre múltiplas dimensões:
és portal.
Invenção.

Tu és quase-metáfora
fogo fátuo que não queima
catarse que explora
recônditos da consciência:
és seiva.
Néctar.

Tu és quase-musa
Marília de Dirceu
de Pitágoras, hipotenusa
palavra-linguagem:
és lírico (eu?)
Poesia.

Lara Utzig

Poema de agora: Engrande-SER – (@cantigadeninar)

Engrande-SER

Às vezes, por um lapso de lucidez,
Percebo o que sou dentro do universo
E noto minha infinita pequenez.
Se sou hábil para escrever algum verso,
Não é porque almejo qualquer glória.
Nessa vida onde somos nada mais que grãos de areia,
Sobreviver dia-a-dia já é uma vitória
Que queima, flamejante, tal qual centelha.
Entretanto, há algo que dignifica o homem;
Um sentimento capaz de nos transformar em gigantes,
Que dá sentido à rotina para louvarmos seu nome:
Sim, meus caros… Apenas o Amor nos faz grandes.

Lara Utzig

Poema de agora: ZEPELINS IMAGINÁRIOS – (Marven Junius Franklin)

Arte de Vladimir Petkovic

ZEPELINS IMAGINÁRIOS

I

O meu sonho?
Ah! Ele segue o trilho
de coloridos zepelins imaginários
que zanzam capengas rumo ao fim do mundo

(ele é embarcadiço
em naus portuguesas
que navegam desnorteadas
em busca de aleatórias índias acidentais)

II

O meu sonho?
Ah! Ele espreita
janelas adormecidas
a tatear ilusões em covas-rasas de anfibologias

(ele é delicado
como frágeis lepidópteros
a esvoaçar em meu quintal de sombras)

III

Ah, o meu sonho?
É rio que corre aperiódico
sobre enfadonhos mares fenecidos

(engole vidas e anseios
aparta alfobres de girassóis
e cobreja em calvários e vales da morte
até soçobrar entorpecido
na plataforma de embarque
de minhas incertezas)

Marven Junius Franklin.

Poema de agora: ROUTE 66 [OS VERMES SOBRE A LUA MORTA] – Para meu irmão Baby Franklin (Marven Junius Franklin)

Foto: Pedro Stkls

ROUTE 66 [OS VERMES SOBRE A LUA MORTA] – Para meu irmão Baby Franklin

Baby!
Tu não estavas comigo
quando fiz a rota estonteante de Kerouac [Oh! uma caça insana
pelas cercanias do fim do mundo!]
Sim brother!
Tu nem sabes…
mais como Edgar Allan Poe [ The mad poet]
solvi o néctar insípido da inspiração alucinada
Pasme Baby!
Em tardes mornas de Oiapoque [quando as tardes ateavam fogo no rio]
vi os vermes que se moviam doentios pela lua morta
a alastrar fés prolixas pelo píer de embarque
Entenda mano!
Que navegando a esmo pelas alamedas gris de Oiapoque
escutei a vozearia que emanava dos mortos em garimpos longínquos… [mortos adornados de paralelepípedos e face aterrorizada de tempestade]
Ó Baby!
Bukoviski deve ter rido de mim [amanhecido num pub em Los Angeles]
encharcado de boilermaker e delírios
[seu olhar impudico me disse do aspecto extenuado da velha prostituta]
Ah! Mano!
a embriaguez de agora é destinado aos meus mortos particulares
[a quem destinei todas as minhas noites em aberto defronte ao rio…]
Sabe Baby!
A Route 66 eu trago em meu cerne nômade
[a enaltecer o insólito]
sob as lonas policromados de um circo na velha Santarém
Sim! Sim!
Nosso velho pai [cor de aveia quaker] deve ter ambicionado fugir com os tristes saltimbancos em alguns momentos[ quando sentiu frio no pátio gélido do campo de aviação]
Baby! Baby!
Com os poetas excomungados [aprendi o que se pode ver além das velhas cercas de arame farpado que divisam castas e credos]
com Ginsberg e Whitman [desaprendi a predisser o empíreo com a lupa do conformismo…]
Ah! Baby!
Quantas noites em claro passei
lendo as estrelas que surgiam inermes em meu anfiteatro de dor [esperando que um trem de ferro cruzasse minha sala de jantar]
Sim brother!
Louis Zukofsky sou eu a galopar estradas de Imagismo
[vomitando rancor] quando as injustiças
espalhavam engodos e miséria pelas cidades perecidas
Ah! Irmão!
Do terraço do Bar do Parque
que in(lúcido) de bier[divaguei em desatinos]
aguardei o estranho adeus
[observando o ir e vir dos transeuntes
caminhando para o acaso!]

Marven Junius Franklin

Poema de agora: Ethereal (@cantigadeninar )

Ethereal

há uma citação de Scott Fitzgerald…
there are all types
of love in this world
but never the same love twice.
amores são sempre tão plurais
e singulares em cada recomeço…
basta dar adeus aos ais
abrindo chance para virar-se do avesso.
amores vêm e vão:
alguns resistem aos empecilhos,
outros ficam retidos em algum vão,
uma fresta, lapsos temporais presos em estribilhos
de poemas nunca publicados,
pelo chão espalhados,
por toda a casa;
casa esta que está impregnada
do aroma de antigos buquês de flores
e das lembranças de cada namorada.
eis que entre todos os amores,
um único é o amor de sua vida:
o dono da mais úmida lágrima derramada,
durante meses contida,
na resistência de aceitar a perda da amada.
em meio a esse processo
é perdoável qualquer excesso:
quando dizes se cuida,
no fundo ainda quero ser cuidada.
a tal tristeza é comprida,
cumprida fielmente e a cada dia
crescida na esperança de ser curada.
de todos os amores que tive,
em apenas um me detive:
o amor que se perpe(tua).
em mim há a absoluta certeza
de que serei permanentemente tua
e essa é minha maior fra(n)queza,
porque sou livre e mesmo assim sigo na contramão
ao ser ciente
de que meu efêmero coração
te pertence
eternamente.

Lara Utzig

Poema de agora: My Name – Luiz Jorge Ferreira

My Name

Meu nome é Luiz. Poderia ser ódio, poderia ser ócio.
Poderia ser ZYE 2… PRC 5… Radio Difusora de Macapá.
Glostora… Anti-sardinha… Q Suco de tangerina…Zé Raimundo, Bill,
Belizário.
Meu nome é latino-americano. Poderia ser Palestina, pele, Pelé, afegão.
Poderia ser S.U.S.
Yes, Please, Plus.
E se Modess, poderia estar Severino… Akai 47.
Nitrogringoglicerina.
Cancro Mole e Antraz.
O outro gole de Whisky. A água d’Água Raz.
Meu nome é Luiz.
De uis, e ois, e tchaus.
Depois dos vocês.Parei paralelo aos ninguens, nas margens das Marginais.
De Belchior e Quintais (Quadrados virtuais, dentro dos apartamentos.)
Abrasilereime.
Quase acolá e ali. Sem casa sem horizonte sem “Para donde?”.
PS, IML, por fim “Pés Juntos”.
Como se fosse qualquer coisa, como se coisa qualquer fosse.
Como se fome fosse pão, e pão fosse foice.
Meu nome é uivos, e hinos.
Poderia ser menino. boy, e ninõ.
Machô, Gay, e E-mail.
Mamilo de seios, e labirintos de clitóris.
Feto, Zero ou Pi de Pitágoras.
Poderia ser agora, momentâneo, indefinido.
Silencio de gritos, e nuncas.
Ancas, umbigos, e desejos.
Beijos.
Meu nome é quase preguiça, carniça, mênstruo, mel, fel, leu, e Zen.
Êxtase e soneira.
Como se fosse sede.
Feita flor de Urtiga, sobre a língua, as ínguas, e as feridas.
Meu nome pode ser vida.
Morte, algodão nos orifícios, olhos ausentes e sem alma, Karma fria sem
corpo. Moscas em redemoinho.Que das bocas caem, nas bocas e narinas, e
nunca mais nunca nada.
Nem que o Brasil faça um gol na Copa contra a Argentina.
Meu nome pode ser talvez, outrossim.

Ou encontro por acaso entre espermatozóides míopes, e óvulos afins.
Podem ser caos, universo, e átomo.
Atônito ato at ô cônico crônico.
Quiçá explodir Bombas de Chocolate saudáveis e ou no avesso espalhar
Spray(s) coloridos, e latas de laquê nos pelos do pênis.
Japonês… Nordestino… Amapaense por destino de vôo do Loide, ou da Panair.
Acne, Asma, ou Impingem.
Meu nome é Luiz, e não outro que seja este mesmo, a Leste, ou Norte do
Oeste.
Poderia querer sim, ser o Não.
Carie, flato, e dor.
Pus por fim, psiu sem P.
Melodia, berro, grito, uivo, grunhido, se lua no céu… Suor! Se sol… Chuvisco.
Ainda que Arisco.Poderia ser o amor.
Gritando na mão do alfabetizado mudo.
Eu cego.Poderia negar tudo
E o meu podre olhar de ateu.
Só procurar Deus.
Para perguntar.
— My Name?

Luiz Jorge Ferreira

*Luiz Jorge Ferreira é amapaense, médico que reside em São Paulo e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames).
**Do livro Thybum (Poemas) – Rumo Editorial – 2015