Poema de agora: LIBERTAÇÃO – Carlos Nilson Costa

LIBERTAÇÃO

No instante supremo,
no minuto único,
desses que só no momento de existir,
atingem o presente,
digo que estou pronto:
Aliás , espero assim desde o início,
sem ao menos saber o que é o início!

Espero,
disso eu tenho certeza!
Eu até nasci esperando,
em uma sucessão terrível de auroras.

Faz muito estou pronto:
para deixar livre a prostituta cheia de complexos,
desnecessários e impróprios,
mas que machucam,
-e isso me faz melhor!

Estou pronto
a vomitar a verdade,
mesmo que para salvar ladrões,
viciados,
necessitados,
vendidos
mas todos vivos
-e com muita honra!

A salvar os loucos,
os gênios
de grandeza,
os dos hospícios.
Estou pronto!

Diga a todos
estou aqui, irmãos!
Quantos outros não teremos,
bêbedos,
lúcidos.
Nossos irmãos sim,
e não reparas isso?

Tu louco
eu também, nós
devemos socorrer
mesmo os que não existem
e os que ainda vão nascer.
Ajudar a todos
voando como poeira cósmica,


sem normas
a formar uma grande roda,
e ver, no meio dela dançar,
na agonia da morte,
a convenção.

Carlos Nilson Costa

Poema de agora: O eclipse – Bruno Muniz

O eclipse

Aí o sol foi ficando moreno,
foi ficando pequeno,
e se mudou pra lua.
Aí nao tinha mais o dia,
nem existia a noite;
tinha o sereno queimando na pele.
Aí são Jorge ficou nu,
a primavera dava manga,
chovia margarida.
Então eu comprei um óculos de lua
e fui à praia vazia;
conheci tanta gente legal!
Mas de tanto calor,
a lua se cansou:
– Você tá me sufocando.
– És tão bela, pena que acordas a cada dia numa fase diferente.
E o sol decidiu se mudar.
Então a lua fez-se cheia, minguante, crescente;
se enfeitou de estrelas,
mas o amor ja tinha se partido.
Nessa partilha,
não se sabe ao certo
quem foi mais triste ou mais alegre.
Sabe-se que esse amor eterno
se acabou na primeira manhã minguante.
Vai ver que de certo na vida,
sejam só as noites;
sejam só os dias;
mas se um eclipse te aparecer,
aproveita.
Vai ver só vai acontecer de novo daqui a cem mil anos.
Vai ver o segredo do ser-pra-sempre
possa estar escondido
entre a humildade de nos reconhecermos frágeis
e a vaidade de sermos tão fortes,
mas tão dependentes da felicidade.

Bruno Muniz

Site De Rocha completa nove anos no ar

Parece que foi ontem, mas já faz nove anos. O ano de 2009 foi bem legal, mas as duas coisas que mais gostei nele foram o show do Radiohead e a criação do blog De Rocha.

Incentivado por uma ex-namorada, comecei escrever na página virtual. Foi no dia 15 de novembro, há exatos nove verões.

A gíria “De Rocha” nomeia este site porque nós, grande parte dos nortistas amapaenses e paraenses, a usamos quando queremos passar credibilidade sobre determinado assunto.

Na página, sempre publiquei fotografias, notícias, músicas, poesias, futebol, crônicas, contos, gifs, informes sobre fatos, eventos, pessoas públicas, bandas, arte, muita arte, e assuntos de interesse da população.

A promoção da cultura, em todas as suas vertentes, sempre foi o principal objetivo do De Rocha, além de expor meus pontos de vista, críticas leves e pesadas ou elogios amenos e exagerados aos que merecem. Foram tantos artistas, músicos, bandas, incontáveis eventos. Também publiquei textos do trampo por onde passei como assessor de comunicação. Além disso, falei muito da minha amada e preciosíssima família. E isso tudo misturando blá-blá-blá abobrístico, pois a vida sem humor é horrível.

Apesar da “internet soviética”, como diz o amigo jornalista Régis Sanches (ex-colaborador deste site), dos acusadores, fiscais e críticos, o De Rocha virou sucesso. Confesso que, quando comecei a escrever, nem imaginava que minha página virtual seria tão bem aceita. Isso aqui abriu portais, portas, janelas, gavetas e até alçapões em minha vida (risos).

Sei que rolou muito atrevimento, ironia, polêmicas, sarcasmo, verdades doloridas de se ler, alfinetadas, acidez e até bobagens de minha parte. Mas também rolou tanta homenagem, tanto amor real, tanta coisa legal. Claro que cometi alguns erros, não poderia ser de outro jeito. Mas tudo é aprendizado. Me arrependo de ter magoado algumas pessoas. De verdade!

Nestes nove anos, somados blog e site, fiz novas amizades, expandi meus conhecimentos e incentivei amigos a criarem seus próprios blogs (mesmo que alguns não admitam).

Por aqui passaram vários colaboradores. Alguns deles nem são mais meus amigos, mas sou grato pelas contribuições. Cada um teve papel importante na formação deste espaço. Também agradeço aos parceiros que continuam por aqui. Em especial aos amigos Fernando Canto, Ronaldo Rodrigues, Patrícia Andrade, Mariléia Maciel, Gilvana Santos, Alcinéa Cavalcante, Hellen Cortezolli, Marcelle Nunes e Rita Torrinha, além do velho e saudoso Tãgaha Luz (In memoriam). Obrigado, meninas e caras.

https://www.blogderocha.com.br/anuncie-no-site-blog-de-rocha/

O blog morreu há quatro anos, quando foi criada esta página eletrônica (dados do antigo endereço foram migrados para cá). Passado todo esse tempo, mantenho-me como comecei: jornalista, assessor de comunicação, compulsivo por atualizações da página, cronista, crítico, ex-blogueiro e editor de um site ético sem rabo preso com ninguém (apesar de muita gente confundir o espaço dado a amigos assessores com favorecimento).

Tenho a ousadia de usar as palavras do escritor Caio Fernando Abreu: “acho que fiz tudo do jeito melhor, meio torto, talvez, mas tenho tentado da maneira mais bonita que sei”. Uma eterna luta do bem contra o mal dentro de mim, mas com 99% de vitórias da luz.

Ah, desculpem os palavrões em alguns textos, mas isso também é liberdade de expressão.

Aqui a bola sempre foi minha. Você pode discordar, mas é isso o que penso e ponto. Com essa frase, agradei a maioria. Meu muito obrigado a vocês, senhores e senhoras que compõem o leitorado do De Rocha, sejam admiradores, críticos e detonadores (que de certa forma também são admiradores). Sigamos aplaudindo, criticando, discordando e incentivando as boas práticas. Valeu!

Elton Tavares

Poema de agora: Busca fantástica – Patrícia Andrade

 

Busca fantástica

minha barca de Caronte
me embala, me carrega…
eu navego para o inferno.
quem responde?

meu submarino amarelo
me naufraga, me afunda…
eu me afogo por Netuno.
quem me salva?

e aquele gigante zepelim,
que parecia tão chinfrim,
me salva e me responde,
trazendo você pra mim.

Patrícia Andrade

Poema de agora: Gazeta – (@cantigadeninar)

Gazeta

os poetas alardeiam
o amor
EXTRA! EXTRA!
Imagem de art, space, and moono amor na manchete
inventa eternidades
põe contratempos em cheque.

“quem quer dá um jeito
quem não quer dá uma desculpa”.

os poetas pavoneiam
o amor
mega-sena da virada
o amor da reportagem
comercial de margarina
é miragem.

o amor não é nada disso que os poetas falam.

o poeta é editor
de um jornal sensacionalista
[barato

poetas fake news.

Lara Utzig

Poema de agora – O sonho é o verbo, o pesadelo é a visão (Fernando Canto)

O sonho é o verbo, o pesadelo é a visão

O sonho move/ o pesadelo retém
Palavras prendem/ o texto liberta
O sonho instiga/ o pesadelo ilumina
A voz se solta/ o eco expande
O sonho é o tempo/ o pesadelo o espaço
A palavra lavra/ o texto laça
O sonho enevoa/ o pesadelo escolhe
A palavra planta/ o texto colhe
Quando o pesadelo
É a brasa
E o sonho
É água
A palavra é sonho
E o texto pesadelo
Quando o texto
É o ralo
E a palavra
Corre
O pesadelo acorda
E o sonho morre

Fernando Canto

(*) Os versos deste texto podem ser lidos de trás para frente; cruzados nos substantivos e verbos; alternados; invertidos em direções diversas ou como o leitor quiser. Pode-se até fazer jogral com a plateia para que se criem novos versos, com novas palavras. O importante é ter sonhos, pesadelos, palavras e textos para que se crie uma filosofia sobre o tema (F.C).

Poesia de agora: Poema do Aviso Final – Torquato Neto

Poema do Aviso Final

É preciso que haja alguma coisa
alimentando meu povo:
uma vontade
uma certeza
uma qualquer esperança
É preciso que alguma coisa atraia
a vida ou a morte:
ou tudo será posto de lado
e na procura da vida
a morte virá na frente
e abrirá caminho

É preciso que haja algum respeito
ao menos um esboço:
ou a dignidade humana
se firmará a machadadas.

Torquato Neto

*Contribuição de Fernando Canto. 

Poema de agora: CRISÂNTEMOS PETRIFICADOS – MARVEN JUNIUS FRANKLIN (Para Simon Wiesenthal)

Imagem: Wilhelm Brasse.

CRISÂNTEMOS PETRIFICADOS – MARVEN JUNIUS FRANKLIN (Para Simon Wiesenthal)

A sordidez traz, acondicionada em crisântemos petrificados, as sombrias e enfermiças recordações – abutres arriando belicosos e dilacerantes o pátio gélido do campo de Auschwitz-Birkenau.

(em suas insanas presenças, há dolentes episódios de temor e martírios, levadas a cabo por modos tenebrosos e ignóbeis. Vós afiançastes a agonia, gerando arranhaduras de medo em paredes de eficientes câmeras de gás).

Ó, abutres de Auschwitz-Birkenau! Fostes o mau e o escarnecimento, a alastrar-se em dias de nuvens cinza e tenebrosas sobre o campo de exterminação. Donos da razão que destroçaram corpos famélicos do povo cigano e judeu, expostos em covas rasas – em filmes para a eternidade.

Ó, abutres de Auschwitz-Birkenau! Seus berros petulantes embocam a alma da criatura troçada – brado insensível que tremula anos depois nas reminiscências dos sobreviventes. Alvitres coalhados de lamúrias e de avarias irreparáveis, trazidas no corpo , por marcas de repreensões e mortificações desumanas.

Demônios da morte! Seus corpos – negro-lustrosos – ainda me contemplam do telhado cinza, sobre a calma que impera no crepúsculo frio – instante que disferes o chute bélico na face da incrédula humanidade.

MARVEN JUNIUS FRANKLIN

Poema de agora: BAÍA DE MACAPÁ – José Edson

Veleiro no Rio Amazonas – Foto: Manoel Raimundo Fonseca

BAÍA DE MACAPÁ

O rio é uma imensa
boca
circundada de ilhas
barrancos
barcos de partida

O céu é uma imensa
porrada na cabeça

Tu adentras geografias
porfias de aventura

a vida velho
parece um ioiô

sempre arranja um jeito
de voltar ao ponto de partida

Retorno à amplitude
desta baía desde menino

O rio deixa a boca aberta
nesta lembrança sem navio

água louco do destino

José Edson

*José Edson dos Santos é poeta amapaense, que reside em Brasília (DF).

Poema de agora: MEU POETÍLICO PÁSSARO PIRADO JASMIM – José Edson (contribuição de Fernando Canto).

MEU POETÍLICO PÁSSARO PIRADO JASMIM

Indiferente e pálido
Olhou a clarabóia aberta
Sorrateiro penetrou
Como sombra de jibóia e poesia
Revelando o jeito forasteiro e rápido
De esconder suas mágoas

Nunca entrou numa de bater na porta
Prefere a emergência da madrugada
E a mania dialética de entrar
Sem pedir arenga

Enruste a mágoa pelo interfone
Por trás do verso perverso
Dizendo beber a mesma água de onça
Para saciar sua ânsia felina

Restou um gosto barroco e amargo na boca
Dor amor rancor dissabor
Passeio de rimas pobres pela persiana
De recuerdos

Nenhuma rima rica nem soneto ranheta
Para redimir a perda do sonho
A condição sonheteira das imagens
Palavras são parábolas

Ficar cada vez mais
Bêbado bosta pelo avesso
Sufoca o Bukowski dionísico
Que habita torto o porto inseguro
De sua solidão selvagem
Onde blasfemam bastardos e bardos
Que silenciam em conflitos e medos

Indiferente e pálido
Olhou a sombra do poema se esvair
Com um leve cheiro de jasmim

Escuta o jazz imaginário do dilema
Seguindo a trilha dos duendes e cogumelos
Quando a cotovia cantou
E acabou a cannabis e a madrugada

Indiferente e triste
Evidenciou a madrugada no rabo
Deu sua risada calhorda e cínica
Mandando tudo às picas
Atér o que de mais poético existe
No seu jeito de ver a aurora
Pelo espelho provisório da vida

José Edson

(*) Publicado no jornal INTELLIGENTSIA. Brasília, setembro de 1994, página 11.
(**) Título do livro de José Edson dos Santos, lançado durante a Feira do Livro de Brasília, em outubro de 1994. Edição da Da Anta Casa Editora, 108 páginas. São 72 poemas subdivididos em três partes: Zoo Inconsútil, Palavra Abissal e Corações Noctâmbulos. Representa várias fases do poeta, que se iniciou em 1972 com Xarda Misturada, em Macapá.
(***) José Edson dos Santos é poeta amapaense, que reside em Brasília (DF).

Poema de agora: O fim do mundo – @alcinea

O fim do mundo

Quando disseram
que o mundo ia acabar
Tia Lila pegou seu terço
e pôs-se a rezar.

O dono da venda
dividiu toda a mercadoria com seus funcionários
e distribuiu o dinheiro do caixa para os mendigos.

A recatada dona Clotilde
jogou-se aos pés do marido
e implorando perdão
confessou que o tinha traído com o compadre.

Seu Joaquim, um santo homem, ajoelhou-se no meio da rua
ergueu as mãos para o céu
e pediu perdão a Deus pelos assassinatos que cometeu
como matador de aluguel.

No dia seguinte
o dono da venda pedia esmolas,
a recatada Clotilde, expulsa de casa,
foi morar num velho puteiro,
Seu Joaquim foi preso.

Só Tia Lila continuou do mesmo jeito.
De terço na mão continuou rezando
e entre uma oração e outra murmurava:
– É mesmo o fim do mundo
– Dona Clotilde, hein, quem diria?
– Seu Joaquim com aquela cara de santo, hein!
É o fim do mundo!
É o fim do mundo!

Alcinéa Cavalcante