Poema de agora: Quase Diário – Luiz Jorge Ferreira

Quase Diário.

Éramos muito jovens para fazer sexo.
Então de mãos dadas, e Havaianas trocadas, fomos aprender Inglês.

Gastamos momentos de uma noite escura a ‘ ver a lua ‘ beber água do rio.

Voltamos para casa molhados de suor, chuva e saliva, como em um frevo.
Eu vim pulando sobre a perna direita, fazendo
‘piruetas’.
Ela veio cabisbaixa, pensando em usar Rímel e diminuir a silhueta.

Eu pensei em Fevereiro ir morar no Rio de Janeiro.
Ela queria ser aprovada na prova de Admissão para a Escola Normal de Macapá.

Depois ficamos grávidos.
Ela ganhou gêmeos.
Dois dias depois, eu ganhei um violão.
Obturei um dente que doeu.
Comecei a usar óculos, e pisar errado nos degraus corretos.

Um dia eu mudei, fui de Varig, achando perto o imaginário.
Completei dezenas de Aniversários.
As crianças já devem parecer com humanos.
Rasgados panos, e planos.
Surtei casando avexadamente.

Perdi seu retrato no Cinema.
Entre as coxas de Helena.
Que até o filme terminar, nunca mais largou de mim.

Hoje eu volto ávido.
Extremamente pálido.
Já avô.

Luiz Jorge Ferreira

Poema de agora: dENTRO DestA cIDADE – Fernando Canto

dENTRO DestA cIDADE

Por dentro da tempestade, por dentro da sombra viva, nasce uma fortaleza ferindo a pele da terra. Ali todo sangue escorre sob o artifício da história. Nenhuma alma se insurge à assassinada memória. Por dentro dessas procelas, por dentro da ventania as vozes são todas soltas, todas as dores frias.

Uma cidade sustenta a construção formidável sob o golpe do chicote ao curso do rio indomável. Uma cidade se lava do pó cravado no rosto sob relâmpagos loucos e um crepúsculo atônito. Uma cidade não dorme por conta de pesadelos que se apequenam nos olhos, que nas paredes se escondem.

Uma cidade se acorda junto com o sol queimante que nasce fervendo a água num horizonte de fogo. Por dentro desta cidade por dentro dos homens duros, cada cor marca um desejo, cada desejo é bruto.

Naquelas casas de taipa, por dentro dos quartos rotos, amores sugam centelhas, odores trafegam fluidos. Por dentro de tantos ventres há um aluguel inadimplente e uma usina de sangue com suas formas de gente.

A dor maior é a do encanto que dentro das almas tristes mundia todas as forças contra o poder da oração. Mas dentro das almas tristes um gesto de amor resiste pelo raio que clareia a vida em renovação. E uma cidade e seu povo, cansados do alumbramento, jogam seus braços n’água para buscar seu sustento.

Fernando Canto

Poema de agora: NATIVO (Luiz Jorge Ferreira)

Foto: Floriano Lima

 

NATIVO

Eu não quero ser Ianque em Miami Beach
Quero doar meu sangue para os Carapanãs, em Apurema.
Quero chamar Deus de Manitu…
E ser chamado de Tuchauã.
Quero voar com as asas brancas das Garças, rumo ao rumo que soprar os ventos.
Quero estar atento a luz…
E estar sedendo das águas dos Igarapés, que deixam profundas lembranças as terras das margens, por onde correm.
Quero estar Kaipora, Mapinguari, ou vagalume, expelindo um arco-íris submergido em trevas.

Sou Aurora e anoiteço.
Sou esperança e não creio.
Sou a Preguiça que amanhece cedo, e chega quando o sol se foi.
Estou de volta, no início.
E estou no início, quando finda.

Eu não quero o destino dos carapalidas, sugados pelos Carapanãs.
Quero ser o Pajé.
Quero ser a crista da onda, espumante e bela…
Não seu barulho assustador e voraz.
Quero ser o Plácido Igarapé, onde lavo a voz…
Onde afogo o Ontem, e ponho a nadar as lembranças…
As mesmas que ele escavou nas margens…
Exatamente, gêmeas, das que ele incrustou em mim.

Luiz Jorge Ferreira

* Luiz Jorge Ferreira é amapaense, médico que reside em São Paulo e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames).
**Contribuição do amigo Fernando Canto.

Poema de agora: anjo mau (Pat Andrade)

anjo mau

não comia flores
mas exalava um perfume
estonteante

mal enxergava as cores
e reproduzia o vermelho
como ninguém

parecia feita de pétalas
de tão suave
que era sua pele

seus olhos pareciam
duas estrelas
e refletiam a lua

sua alma quando nua
era quase como
de uma criança…

mas irradiava veneno
derramava sangue
e cuspia vingança

Pat Andrade

Poema de agora: PÁSSAROS EM FUNDEADOURO – Marven Junius Franklin

PÁSSAROS EM FUNDEADOURO

Na meninice
Dr. Paulo
Seu Fredolino
e mestre Davino
brincavam de alvorecer
pelo quintal incomensurável
do hospital municipal
(caçavam raias-manteigas
& porfiavam [altivos]
para quem chegava primeiro
ao frondejante pé de mucajá).
Dr. Paulo morreu de câncer
Seu Fredolino faleceu de tuberculose
e mestre Davino [até hoje]
leva seu bumba-meu-boi
para pascer em minhas lembranças.
Ah, na meninice
eles eram mais felizes!

Marven Junius Franklin

Poema de agora: CINEMASCOPE – Luiz Jorge Ferreira

CINEMASCOPE

Eu no Cine Macapá.
Sean Connery doutro lado da rua, apalpando as costas da lua.
Rin tin tin latindo para as pipas coloridas que riscam o céu blue de blues.
Tenho o bolso cheio de lágrimas grisalhas, e dúzia de balas de Menta.
Tenho no bolso da calça Lee, o ano de 1962… esticado desde lá até 2019.

E como as rosas de Isnard ficaram órfãs.
Eu desenho todos os desenhos que fiz no muro do IETA…no meu calcanhar.
E ando passos que tatuam a caminhada que faço…com ecos azedos do passado.


E onde está o 007…Onde estamos nos
As mãos ocupadas em desmanchar dos dedos, os nos, dados atoa, sobre a calçada…pintada de lilás.
Titânia e Oberon, luas de Urano, dependuradas na árvore, a terceira.

Aquela que as raízes como atrizes, por ouvirem tanto a voz de Marlene Dietrich, com seu sotaque alemão…dizem… Monsieur… Monsieur…jogue em nós…borra de café.

Detrás de nuvens de chuva, espiã o Sol.
Detrás dos meus óculos de grau.
Espio Deus.
Nenhum se vê perfeitamente.
Como doe um pouco o cariado dente.
Mastigo bala de Menta.
Foi um dia desesperançado de esperanças, aquele Domingo de Junho de 1962.

Eu no Cine Macapá.
Trato de copular com Brigitte Bardot.
Antes que a pipoca do saco de pipocas, acabe de acabar.

Luiz Jorge Ferreira

Poema de agora: A Moça e o Vento – (@cantigadeninar)

A Moça e o Vento

Há muito tempo, o vento se apaixonou.
Naquele entardecer, uma moça
No banco do parque se sentou,
Pálida tal qual porcelana ou louça.

O vento se debatia desesperado
Tentando tocá-la, em vão.
Chegou até a virar tornado
E as árvores foram arrancadas do chão.

Vendo, infeliz, que não deu certo,
O vento, enfim, virou furacão.
Queria abraçá-la, tê-la por perto,
Mas daí veio outra decepção:

O mundo se tornou um caos
Causado por tantas intempéries;
Os humanos se tornaram maus
Revoltados pelas fúrias naturais em série.

O vento então parou em um cume
E percebeu qual seria a solução:
Arejaria os cabelos da moça, e seu perfume
Restauraria a paz em toda a nação.

O vento hoje, portanto, vai e logo vem.
Fica um bocadinho, mas não permanece.
Pois o vento, tal qual o amor, vai além:
Eterniza no coração, mas no físico… Evanesce.

Lara Utzig

Poema de agora: REPAROS – @PedroStkls1

REPAROS

houve uma época da minha vida
em que acendia cigarro
brincava de ser maria fumaça
queimava solidão que todos babacas
que passavam por algum tipo de lugar meu deixavam.
no meio da cortina branca perdi uma parte minha
deixei mãe pai irmão e fui ser rebelde da minha causa ilusória


abria garrafa de cerveja com o dente
disfarçava o gosto amargo com halls melancia
só não sabia como disfarçar a partida de duas pessoas
que naquela época me traduziam alegrias
hoje apago bagana de cigarro com o pé


e faço meu fumo com fórmulas combinações e ervas de poesia
bandeira meireles barros quintana beber prado
guadalupe sant’anna nobre lucinda soeiro monteiro
e me tranco no quarto até bater a rima.

Pedro Stkls

Hoje é o Dia Mundial do Compositor

Arte de Hellen Cortezolli

Hoje é o Dia Mundial do Compositor. Música é primordial, ela tem o poder de nos emocionar. Tenho uma inveja branca de quem toca, compõe ou canta. Já disse o genial escritor Friedrich Nietzsche: “Sem a música, a vida seria um erro”.

O Dia Mundial do Compositor, 15 de janeiro, surgiu no México. A origem dessa data decorreu em comemoração à fundação da Sociedade de Autores e Compositores do México (SACM), em 1945.

No entanto, esta data somente foi oficialmente celebrada no mundo a partir de 1983.

O conceito diz que: “compositor é um profissional que escreve música. Normalmente o termo se refere a alguém que utiliza um sistema de notação musical que permita a sua execução por outros músicos. Em culturas ou gêneros musicais que não utilizem um sistema de notação, o termo compositor pode-se referir ao criador original da música. Nesse caso, a transmissão para outros intérpretes é feita por memorização e repetição. Em geral, o compositor é o autor da música e, como tal, é o detentor dos direitos autorais. Atualmente as composições musicais são defendidas pela legislação de direitos autorais. Existem editoras especializadas em música e o compositor ou detentor dos direitos da composição recebem royalties sempre que uma nova gravação comercial ou execução pública é realizada”.

É, pessoas que escrevem nossas trilhas sonoras da vida, principalmente os meus heróis da música nacional e gringa, além dos compositores meus amigos como: Fernando Canto, Ricardo Pereira, Val Milhomem, Zé Miguel, Lula Jerônimo, João Amorim, Heluana Quintas, Jj Noones, Lara Utzig, Ana Martel , Wendril Rodrigues, Rebecca Braga, Ruan Patrick, Raoni Holanda, Naldo Maranhão, Joãozinho Gomes, Enrico Di Miceli, Cléverson Baia, Roni Moraes, Geison Castro, Fineias Nelluty, Osmar Junior, Helder Brandão,  Jean Carmo, Zezinho, entre tantos outros compositores talentosos do Amapá.

Vocês são foda! Meus parabéns pelo Dia do Compositor. Desejo ainda mais sucesso a todos!

Elton Tavares

Poema de agora: Fight – (@cantigadeninar)

Fight

No ringue, jazia;
luva vazia
de um tapa sem mão.
Um soco no estômago
levou-me ao chão
e no primeiro round
já sofri um nocaute.
Peso pena,
que pena!
Não sou grande
o bastante:
nunca fui boa em lutas,
competições e disputas.
Entre meios e fins…
Saudades wins.

Lara Utzig

Poema de agora: Queloide – (@cantigadeninar)

Queloide

Quando a tristeza anestesia a esperança
De um amor que se findou,
Este mesmo amor gera uma lembrança
De um fio que sempre esteve por um fio…
E enfim se cortou.

O fio, outrora de cobre
Agora não cobre a costura do tear.
Frágil, este mesmo fio se descobre
E amortece, e tece
O não se importar.

De tanta dor, o amor não se esquece,
Mas cria espaço para a chaga fechar.
E o fio, por um triz,
Virou cicatriz
Até a pele sarar.

Depois de anestesiado
Pelo amor do passado
Que ainda está vivo,
Apenas um pouco sonolento…
Em desmedido sofrimento,
Termino de bordar o tecido:

Amor-tecimento.

Lara Utzig

Poema de agora: Caminhada – Fernando Canto

Caminhada

Aos que caminham dentro de si e ainda se assombram

De manhã
Meu corpo
É longo
Em sua sombra
Caminhante

Ao meio-dia
Assombro-me
Em segredo
– Encolhidinho –
No equinócio
Da alma

À tarde
Eu me projeto
Rumo ao mar
Com o sol
A bater meu rosto
Nos umbrais da noite

E se um lado é luz
Que me orienta
E de outro
Meu rastro
É a escuridão

Sou, perdoem-me,
Um obscuro ponto
Na paisagem
Que me embala
Ao sol do dia seguinte.

Fernando Canto

Poema de agora: Ligação ( @ThiagoSoeiro )

Ligação

Existe um perigo eminentemente
Entre nós dois
Ligação fatal
De batimentos cardíacos
Veias arteriais
E emoções banais
O dia a dia aponta o caminho
Quase certo
É incerto o futuro
E saber disso é a única certeza
Há horas em que o acreditar no amor
É a nossa salvação.

Thiago Soeiro