Paulão do atabaque – Por Humberto Moreira (Contribuição de Fernando Canto)

Por Humberto Moreira

Vez em quando, para não perder o hábito, costumo fazer uma releitura de alguns livros, que guardo com carinho na minha pequena biblioteca. Lá estão livros do meu compadre Fernando Canto, alguns de Milan Kundera, livros sobre jornalismo, Fernando Gabeira, livros sobre a saga de Ernesto Che Guevara e outros mais simples. Como aquele que fala sobre um amigo que partiu a bastante tempo.

Foi numa certa madrugada em que eu acabara de chegar de mais uma apresentação musical. Nariz, o Augusto Wanderley Aragão, ligou pra minha casa informando a morte do Paulão do atabaque. Perdi o sono e passei a rememorar as muitas viagens ao Amapá, junto com o Paulão e o Newton. Os dois a bordo de um Opala Cupê, apelidado de General Lee. Eu geralmente ia no meu carro, para poder retornar quando bem entendesse.

Paulão era daqueles que topava qualquer parada. Num sábado de sol, como este a gente já estava com tudo traçado. Se não desse pra ir à fazendinha, junto com o Zeca Sebastião, podia dar pé na estrada rumo ao Amapá, para uma festa no clube dos pescadores. No outro dia, uma esticada até a cachoeira grande e a volta pra casa no final da tarde.

À certa altura, Paulão foi para o Recife, aperfeiçoar seus conhecimentos de pesca. Na volta começou a transportar pesca para a cooperativa, num caminhão. Quase toda a semana lá ia eu, encarapitado na boléia do caminhão, rumo ao Pracuuba. Era uma viagem sensacional. Vez em quando, uma parada para um banho, ali pelo Tartarugal. Na fase final da concretagem da hidrelétrica do Paredão, havia um pessoal que gostava muito de seresta. Só tinha para a gente. Eu, Nonato Leal, Sebastião e Paulão. Era violão, voz e atabaque a noite inteira.

De repente ficamos desfalcados. Paulão foi embora, deixando um vazio danado. Ainda hoje quando encontro o Newton, a gente se lembra dele. Um cara pra quem tudo sempre estava bem. Pra ele não havia dificuldade, nem tempo ruim.

Ainda hoje quando viajo pela BR-156, principalmente naquele trecho que vai do Tracajatuba ao Tartarugalzinho, lembro do meu amigo, ao volante do caminhão, contando piada desde a hora que a gente saia de Macapá até chegar ao nosso destino. Um sujeito descontraído que sempre esteve de bem com a vida. Como explicar sua morte prematura. Não há explicação. Quem sabe lá em cima estava precisando de um cara bom de atabaque, para fazer parte de um grupo musical da pesada.

Em homenagem ao Paulão do Atabaque, o Grupo Pilão, gravou uma canção que diz (uma pena que não a encontrei no Youtube): “Morre o homem fica a fama no coração de quem ama”(Fernando Canto).

*Publicado no Jornal do Dia
**Contribuição de Fernando Canto.
***Fotos: 1-Tica Lemos, Brenna Paula Tavares e Memorial Amapá; 2, 3 e 4: Blog Porta Retrato.

Os 49 anos do disco “Imagine”

Em 9 de setembro de 1971, há exatos 49 anos, John Lennon lançou “Imagine”. Foi o segundo álbum solo de estúdio do ex-Beatle e gênio da música mundial. Produzido por Phil Spector, o disco é um dos trabalhos mais belos e intimistas do sensacional artista. A produção da música contou com a participação de Yoko Ono e de George Harrison nas guitarras.

A canção homônima ao disco estourou e tornou-se a mais tocada nas rádios da época. E virou o hino da geração hippie, que pregava a paz e o amor nos anos 1970.

John Lennon foi um músico, compositor e cantor brilhante, além de um ativista fervoroso. Um artista original, que fazia questão de expressar o que pensava e sentia, ainda que várias vezes caísse em contradição ou criasse confusão com isso. O cara foi, além de talentosíssimo, muito polêmico.

“Imagine”, a faixa-título, mostra o ativismo político e social de Lennon. O disco foi seu maior e mais importante trabalho solo. Apesar de quase cinco décadas depois de seu lançamento, a música-título segue atual, pois o mundo está necessitado demais de paz e de amor.

Sim, o velho Lennon sabia das coisas.

Em 14 de novembro de 2015, a banda Pearl Jam fez um show no Estádio do Morumbi, em São Paulo. Eu tava lá. O grupo americano homenageou, de uma só vez, os mortos nos atentados terroristas em Paris (FRA), ocorridos na noite anterior ao show, e John Lennon (o falecido Beatle completaria 75 anos em 2015). O Pearl Jam tocou “Imagine” e todos no estádio do Morumbi acenderam seus celulares, pois a luz da esperança nunca apaga. Foi emocionante e lindo!

A vida é o que te acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos” – John Lennon

Fonte: Revistas, filmes, discos, livros, sites, amigos e minha imensa admiração por John Lennon.

Elton Tavares

Sobre Palafitas e a Maré de ser gente – Conto de Jaci Rocha

Foto: Manoel Raimundo Fonseca.

Conto de Jaci Rocha

Era um dia ensolarado, daqueles de doer nos olhos, quando o sol está no ‘cio’, aqui pelo Equador. A beira do rio, à foz da fortaleza, o Amazonas ardia e brilhava, a ponto de encandear o olhar.

Meu pai pescava com meus irmãos, em uma canoa embaixo de uma ponte, que unia as estradas entre Macapá e Santana.

Foto: Floriano Lima

Eu – a pequena que não conseguia parar quieta e em silêncio – fiquei ‘na terra’, brincando com a filha do vizinho, sob o olhar de meu pai. Brincávamos sobre as palafitas que encobriam a superfície, pois em tempo de maré baixa, abaixo das palafitas, o mundo era feito de argila, barro que adquiria um brilho dourado e espelhado. Gostava de contemplar aquele chão.

Foto: Floriano Lima

E nesse contemplar, tudo era belo e descoberta. Um peixinho em uma poça de água que a maré havia ‘deixado’, uma plantinha desconhecida…e foi assim que, por sobre as frestas da palafita, entre bonecas e panelinhas, meu olhar enxergou uma nota de um ‘alto’ valor – ao menos, para minha tenra infância, – repousada sobre o barro.

Foto: Manoel Raimundo Fonseca.

Eram tempos da moeda ‘cruzado’. Empolgada, iniciei uma grande expedição de resgate do ‘pequeno tesouro’. Planejei milimetricamente, fui até o início da palafita e, esgueirando o corpo – absolutamente longe dos olhos de meu pai – mergulhei naquele mar de lama. Peguei a tão sonhada nota e voltei, triunfante e suja até os cabelos.

Foto: Manoel Raimundo Fonseca.

Tomei banho e aguardei o pescador voltar com os frutos dos trabalhos do dia. Ele veio sorridente. Eu estava banhada e de cabelos trançados, balançando a nota, sorridente. A maré do Amazonas começava a subir e um vento brincava com o vestido rosa claro que usava. Eu estava feliz e orgulhosa da ‘conquista’.

Foto: Manoel Raimundo Fonseca.

Aqueles olhos que chegaram brilhando fecharam o tempo. Perguntaram onde encontrei a nota. Respondi que foi embaixo das palafitas. Ele disse: ” E por que você pegou? não é seu. Devolva”. Com a inocência de uma criança de sete anos, corri na direção da palafita e, entre as frestas, ensaiei jogar a nota de volta à lama.

Meu pai, interrompeu o ato e perguntou “Filha, mas foi assim que você pegou?”. Inocentemente (e até bastante empolgada e orgulhosa), contei-lhe os detalhes da grande aventura. Meu pai, na sua sabedoria filosófica, falou: “Agora, tenha o mesmo trabalho para devolver, meu bem”.

Foto: Manoel Raimundo Fonseca.

Entendi o que ele esperava, meio perplexa. Sob um sol que caía aterrorizante, vestida naquele vestido rosa clarinho, vergonhosamente em silêncio, mergulhei novamente por debaixo das palafitas, e vi a maré de perto, chegar e misturar à lama, à beleza do vestido, recém-perdida, ao estranho sentimento de que devia mesmo fazer aquilo. Assim, devolvi a nota, no mesmo exato lugar em que a peguei.

Ao voltar para casa, meu pai explicou o que eu precisava aprender, ao fazer aquilo: Que tudo que você subtrai de alguém, ainda que esta pessoa não saiba ou veja, faz com que você mergulhe na sujeira. E devolver é mergulhar nesta mesma lama, pedir desculpas e retornar, inteira. Tenho certeza que esta foi a minha primeira lição sobre integridade.

Foto: Floriano Lima

Ah! Antes de retornar, tomamos um banho gostoso naquele rio lindo. E lá, fui ensinada a lavar o dia e aperfeiçoar o aprendizado, em um rio limpo e abençoado, com as dádivas de Deus e as coisas todas minhas, que nada poderia comprar: como o riso de meu pai, que algum tempo depois, naquela mesma paisagem, me ensinou a nadar e a andar pelas palafitas da vida com meu próprio tamanho. A descobrir os espaços, com meu coração e sob os próprios pés.

Arroz com alho – Crônica de Pat Andrade

 

Clarice Lispector (déc.1960) – foto: Maureen Bisilliat -Acervo da autora IMS

Crônica de Pat Andrade

Estou fechando minha participação em um Simpósio de Poesia, para o qual fui convidada, ao mesmo tempo em que reviso um texto e preparo arroz.

Enquanto picava o alho, me veio à cabeça a Clarice Lispector. Que cheiro teriam suas mãos quando escreveu seu primeiro conto conhecido, Triunfo, publicado em 1940. Ela tinha 19 anos. Era tímida, mas ousada. Mais do que eu, inclusive.

Agora, o cheiro do arroz temperado se espalha pela casa. Sigo trabalhando diante do computador, respondendo e enviando mensagens.

Um passarinho canta aqui fora, bem pertinho da minha janela. Me pergunto: se eu não fosse poeta, essas coisas passariam despercebidas?

Será que a Dona Maria, mãe de oito filhos – com mais um na barriga – que lava e passa roupa pra fora, cozinha, cuida dos moleques sozinha, acorda às cinco da manhã pra buscar água no poço da vizinha, será que ela ouve esse passarinho? Será que tem arroz pra cozinhar?

Perguntas vãs, com respostas impossíveis sem poesia. Só a crueza de um cotidiano que não é o meu.

Meu gato me olha e se enrosca em minhas pernas – puro interesse: quer comer – e eu paro por aqui, antes que o arroz queime.

É, eu gosto!

Eu gosto de fotografar, de beber com os amigos e de ser jornalista (talvez, um dia, um bom). Gosto de estar com minha família, do meu trabalho e de Rock And Roll. Eu gosto de café, mas só durante o trabalho, enquanto escrevo. Gosto de sorvete de tapioca, de cerveja gelada e da comida que minha mãe faz. Também gosto de comer besteira (o que me engorda e depois dá um arrependimentozinho).

Gosto de sorrisos e de gente educada. Eu gosto de gente engraçada. Gosto de bater papo com os amigos sobre música, política e rir das loucuras que a religião (todas elas) promove. Eu gosto de chuva e de frio. Gosto de futebol. Gosto dos golaços e da vibração da torcida.

Gosto de ir ao cinema, de ler livros e de jogar videogame. Gosto de rever amigos, mas somente os de verdade e de gente maluca. E gosto de Macapá, minha cidade.

Eu gosto de ser estranho, desconfiado, briguento e muitas vezes intransigente.

Sim, confesso que gosto.

Gosto de viajar, de pirar e alegrar. Gosto de dizer o que sinto. Às vezes, também gosto de provocar. Mesmo que tudo isso seja um estranho gostar.

Gosto de encontros casuais, de trilhas sonoras e de dar parabéns. Gosto de ver o Flamengo ganhar, meu irmão chegar e ver quem amo sorrir. Também gosto de Samba e do Carnaval. Gosto de ouvir o velho Chico Buarque cantar – ah, como eu gosto!

Eu gosto de explicar, empolgar, apostar, sonhar, amar, de fazer valer e de botar pra quebrar. Ah, eu gosto de tanta coisa legal e outras nem tão legais. Difícil de enumerar.

Eu gosto de ler textos bem escritos, de gols de fora da área, de riffs de guitarra bem tocados, de humor negro e do respeito dos que me cercam.

Gosto de me trancar no quarto e pensar sobre a vida. Gosto quando escrevo algo que alguém gosta. Gosto mais ainda quando dizem que gostaram.

Eu gosto também de escrever algo meio sem sentido para a maioria como este texto. Eu gosto mesmo é de ser feliz de verdade, não somente pensar em ser assim. Gosto de acreditar. Como aqui exemplifico, gosto de devanear, de exprimir, de demonstrar e extravasar.

Sangue e amor.

Pois é, são coisas que gosto de gostar. É isso.

Elton Tavares

O tempo das paradas escolares – Outra crônica porreta do Fernando Canto

Foto: Floriano Lima

O rufar dos tambores da escola vizinha a minha casa troa mais forte que a chuva de verão que acabou de cair. É um barulho salutar, bem compassado e ritmado que tem o objetivo de marcar o passo dos alunos desfilantes do dia sete de setembro, dia da Pátria. A banda ensaia no entorno da escola, mas é uma banda de fanfarra, onde não faltam notas desafinadas de clarins e seus sons amorfos e jovens balizas ensaiando, em busca da perfeita harmonia que por certo terão no dia do desfile, no Sambódromo…

Quando a época de comemoração da nossa Independência se aproxima eu sempre pergunto aos amigos da mesma faixa etária se sentem saudade dos desfiles a que éramos obrigados a participar. Eles não só dizem que sim como acreditavam que era um tempo de disciplina, que os ajudou a tomarem “tento” na vida. Depois me confessam que foi só por um momento, quando ainda estavam no ginásio. Mais tarde, porém, já no colegial, é que foram perceber o quanto viveram isolados e alienados da realidade do país. Não só eles, como os educadores, diretores e principalmente os pais. Quase todos eram filhos de funcionários públicos, que vivam sob a dependência dos governantes militares que vinham para o Amapá como poderosos vice-reis.

Foto: Floriano Lima

Os estabelecimentos escolares tinham praticamente duas semanas de preparativos e ensaios para os desfiles. E eram categorizados: as escolas e grupos primários desfilavam no dia 5 de setembro, o Dia da Raça, que creio nem mais se comemorar no Brasil; os ginásios e colégios faziam seus desfiles no dia sete, precedidos pelos militares e, no dia 13 de setembro, dia da Criação do Território do Amapá, era realizada a grande parada escolar, com desfile de carros alegóricos temáticos e ricamente enfeitados. As bandas da Guarda Territorial ou do Exército acompanhavam os desfiles dos colégios que não possuíam bandas de música. Mas só o Ginásio de Macapá atravessava a passarela da Avenida FAB com o garbo peculiar que lhe dera fama e um público fiel que o aplaudia do começo ao fim. Seus pelotões e carros alegóricos criativos enfrentavam o sol e o vento de setembro sob a batuta do Mestre Oscar Santos. E nós alunos vivíamos sob a marca de um tempo que não imaginávamos sua dimensão histórica para o resto do Brasil e do mundo.

Apenas mais tarde, já em outros desfiles, mas ainda sob a égide da ditadura militar, é que começamos a recusar a obrigatoriedade, do papel servil que nos impunham por tabela os ditadores, lá do planalto central. Os desfiles eram obrigatórios, sim. Quem não respondesse a chamada na área de concentração podia ser suspenso se não justificasse a ausência depois. Os professores de educação física, responsáveis pelos desfiles eram que faziam a fiscalização. Um grande amigo meu, hoje radialista famoso na cidade, me contou que por ter errado o passo numa situação dessas ficou três dias suspenso. Só não foi expulso depois do quiproquó que fez graças à intervenção firme do seu pai, um açougueiro muito respeitado. Mesmo assim ficou marcado como “um meninão que não amava a Mãe Pátria”.

Os colégios costumavam representar os estabelecimentos militares em função dos seus diretores e professores que acompanhavam cegamente os ditames dos ditadores e governadores da época. Ninguém podia “ser do contra”, sob pena de sofrer as sanções impostas pelos regulamentos especialmente preparados para os alunos considerados “rebeldes”.

Ainda bem, tudo passou. A saudade dos desfiles continua na cabeça de muita gente, assim como a ditadura também está presente na mente de muitos governantes que creem que só pela força podem continuar mandando. Ainda bem, a vida segue seu curso sem precisar que o vento negro da morte e da tortura caminhe novamente sob a paz do nosso país. Viva a Independência e nossa melhor memória.

Os desfiles de setembro – Crônica porreta de Fernando Canto

Crônica de Fernando Canto

Machado de Assis dizia: “há certas memórias que são como pedaços da gente, em que não podemos tocar sem algum gozo e dor, misturas de que se fazem saudades”. Então saudade é uma lembrança boa, algo que queremos apalpá-lo para provar que vivemos, é desejo legítimo de recordar cenas episódicas, reviver aqueles instantes mesmo sabendo que o filme acaba.

José Penha Tavares, meu saudoso pai,em desfile pela banda do Colégio Amapaense.

Mas se um acaba outros começam. E essa legitimidade de penetrar no passado por certo suscita o intangível e apura a virtualidade do sonho. Os olhos riem de satisfação quando os rostos suados dos adolescentes enfrentavam o sol da manhã de verões duros que o vento do Amazonas amenizava. A fome, a sede, qualquer pendência se resolveria depois do desfile. O importante era o garbo e o compromisso de passar na frente do palanque da Avenida FAB, onde cabiam as autoridades e suas famílias. Mal sabíamos, na nossa santa ingenuidade, que da cabeça daqueles homens não só irradiava o sentimento de amor pela Pátria, mas também a satisfação de verem milhares de pessoas reunidas ali para apreciarem suas mãos de poderosos. E entre galardões e medalhas, sob o pálio, davam o circo ao povo.

Acordar às cinco da manhã para tomar café, vestir a farda de mescla azul (engomada cuidadosamente pela mãe na noite anterior), luvas e polainas, sempre dava nervoso. Afinal, um desfile era uma estreia, e valia pontos na eterna disputa intercolegial. Nós do Ginásio de Macapá levávamos certa vantagem porque tínhamos a banda do Mestre Oscar Santos que interpretava hinos patrióticos magnificamente, inclusive dobrados de compositores locais, como “O Artífice” do saxofonista Cícero Melo. Ao chegar ao ginásio mais um reforço de café, pão e o famoso leite “peidão”. A caminhada para a concentração, o constante corre-corre dos inspetores e professores, que entre apitos estressantes e gritos de ordem tentavam organizar os pelotões. Mas só depois das oito, quando se encerravam as solenidades de hasteamento do Pavilhão Nacional na Praça da Bandeira é que o desfile iniciava. Não sei quem passava por primeiro, se os militares ou os colegiais, pois a gente, os mais altinhos da “turma da graxa” só queria mesmo mostrar que havíamos ensaiado bem e que nosso uniforme era impecável, bem como o garbo que caracterizava os estudantes do GM.

É certo que vez por outra um aluno perdia o casquete azul na marcha contra o vento, mas jamais perdia a pose. Depois vinha a compensação pelo belo desfile: um refrigerante com a família, uma conversa com colegas de turma, uma volta pela praça no rescaldo dos acontecimentos e, quem sabe, um encontro tímido com a linda morena de olhos graúdos do colégio rival. Os olhos abaixados, porém cheios de paixão, corriam furtivos sob o sol do equador, num quase equinócio de desejo pela moça. Os rostos vermelhos de calor e agonia, a vontade de tocar naquelas mãos de anjo e a realidade da presença dos pais e irmãos que a conduziam para casa. Um último olhar para trás, todavia, parecia o convite para um encontro que se realizaria, talvez, num domingo qualquer na segunda sessão da tarde do cine João XXIII, ou em frente ao velho Macapá Hotel.

As paradas de Macapá dos anos de Território Federal trazem mesmo essas lembranças tão férteis como o solo que adubamos para fazer nascer o que queremos plantar. Mesmo com o amor por esta terra “pegando de galho”, como foi meu caso, o passado das manhãs de setembro não é feito de fotografias guardadas num álbum confeccionado na Imprensa Oficial pelo Sabá Ataíde. Continua sendo um filme de moto perpétuo, que apanho sempre na locadora da vida quando quero espantar a tristeza e reencontrar um mundo tão bom que eu nem sabia.

Ora, o mesmo Machado também diz com sabedoria que saudade não é nada mais que uma ironia do tempo e da fortuna. Para mim, nessa ironia, cabe a sorte de vivermos as alegrias e os perigos da memória, posto que relembrar com saudade só é saudável se valeu à pena não nos arrependermos de nossas ações.

*Fotos do acervo das jornalistas Alcinéa Cavalcante e Graça Penafort.

Deus segundo Spinoza (muito bom)

Deus segundo Spinoza (muito bom)

“Pára de ficar rezando e batendo o peito! O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida.
 
Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que Eu fiz para ti.
 
Pára de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas ser a minha casa.


 
Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias. Aí é onde Eu vivo e aí expresso meu amor por ti.
 
Pára de me culpar da tua vida miserável: Eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que tua sexualidade fosse algo mau. O sexo é um presente que Eu te dei e com o qual podes expressar teu amor, teu êxtase, tua alegria.
 
Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer.


 
Pára de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo. Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de teus amigos, nos olhos de teu filhinho… Não me encontrarás em nenhum livro! Confia em mim e deixa de me pedir. Tu vais me dizer como fazer meu trabalho?
 
Pára de ter tanto medo de mim. Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo. Eu sou puro amor.
 
Pára de me pedir perdão. Não há nada a perdoar. Se Eu te fiz… Eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio.


 
Como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti?
 
Como posso te castigar por seres como és, se Eu sou quem te fez?
 
Crês que eu poderia criar um lugar para queimar a todos meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade?
 
Que tipo de Deus pode fazer isso?


 
Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei; essas são artimanhas para te manipular, para te controlar, que só geram culpa em ti.
 
Respeita teu próximo e não faças o que não queiras para ti.
 
A única coisa que te peço é que prestes atenção a tua vida, que teu estado de alerta seja teu guia.
 
Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso.
 
Esta vida é o único que há aqui e agora, e o único que precisas.


 
Eu te fiz absolutamente livre.
 
Não há prêmios nem castigos. Não há pecados nem virtudes. Ninguém leva um placar. Ninguém leva um registro. Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno.
 
Não te poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um conselho.
 
Vive como se não o houvesse.
 
Como se esta fosse tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir.
 
Assim, se não há nada, terás aproveitado da oportunidade que te dei. E se houver, tem certeza que Eu não vou te perguntar se foste comportado ou não.


 
Eu vou te perguntar se tu gostaste, se te divertiste… Do que mais gostaste? O que aprendeste?
 
Pára de crer em mim – crer é supor, adivinhar, imaginar.
 
Eu não quero que acredites em mim. Quero que me sintas em ti.
 
Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando acaricias teu cachorro, quando tomas banho no mar.
 
Pára de louvar-me!
 
Que tipo de Deus ególatra tu acreditas que Eu seja? Me aborrece que me louvem. Me cansa que agradeçam.
 
Tu te sentes grato? Demonstra-o cuidando de ti, de tua saúde, de tuas relações, do mundo.
 
Te sentes olhado, surpreendido?… Expressa tua alegria! Esse é o jeito de me louvar.
 
Pára de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te ensinaram sobre mim.
 
A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo, e que este mundo está cheio de maravilhas.


 
Para que precisas de mais milagres?
 
Para que tantas explicações?
 
Não me procures fora!
 
Não me acharás.
 
Procura-me dentro… aí é que estou, batendo em ti”.


 
*Baruch Spinoza (ditas em pleno Século XVII. Continuam verdadeiras e atuais até a data de hoje).

Ariano Suassuna, escritor brasileiro falecido em 2014, em um vídeo que encontrei no Canal Brasil, reproduz de outra forma o que Spinoza disse. Ele discorre sobre Deus, o sentido da vida e declama a poesia de Lenadro de barros.

Se eu conversasse com Deus
Iria lhe perguntar:
Por que é que sofremos tanto
Quando viemos pra cá?
Que dívida é essa
Que a gente tem que morrer pra pagar?

Perguntaria também
Como é que ele é feito
Que não dorme, que não come
E assim vive satisfeito.
Por que foi que ele não fez
A gente do mesmo jeito?

Por que existem uns felizes
E outros que sofrem tanto?
Nascemos do mesmo jeito,
Moramos no mesmo canto.
Quem foi temperar o choro
E acabou salgando o pranto?

Lenadro de barros

 

Definitivamente, o meu Deus, é o de Spinoza (Elton Tavares).

Fontes: Divulgando Ascensão , Canal Brasil e Canal Curta.

 

 

 

 

 

 

 

Das maiores árvores aos recifes de corais: as características únicas da Amazônia no Amapá (hoje é o Dia da Amazônia)

Angelim Vermelho: maior árvore da Amazônia localizada na fronteira do Amapá e do Pará — Foto: Rafael Aleixo/Setec

Carregando há vários anos o título simbólico de “estado mais preservado do país”, o Amapá, mesmo ocupando apenas 3% do território da Amazônia, carrega elementos únicos, sejam influenciados pela foz do Rio Amazonas, a Linha do Equador ou pela proximidade com o Platô das Guianas.

A quantidade de espécies e elementos da natureza ainda são catalogados pela ciência, mas algumas chamaram a atenção do mundo inteiro, como o fenômeno da pororoca, com o encontro entre o Rio Araguari e oceano atlântico, causando uma onda que dura horas.

Pororoca na costa do Amapá — Foto: Adson Lins/Arquivo Pessoal

Ameaçado em 2015 pelo assoreamento na foz o rio, o fenômeno deixou de existir, mas foi mapeado em outras regiões do estado, reacendendo a esperança do potencial turístico.

Além da maior onda, o Amapá também é acesso para as maiores árvores da região, com mais de 90 metros e que ficam localizadas no sul do estado, na divisa com o Pará.

Em 2019, uma expedição começou a mapear um exemplar de Diniza excelsa, mais conhecida como Angelim Vermelho. A imponente tem 88 metros e está dentro uma reserva de conservação de uso sustentável.

A árvore mais alta da Amazônia brasileira é da espécie Angelim Vermelho e está localizada na Floresta Estadual do Parú, no Pará — Foto: Tobias Jackson/Divulgação

A importância de preservar esta e outras espécies de plantas faz o Amapá abrigar o maior parque nacional do país: o Montanhas do Tumucumaque. Com mais de 4 milhões de hectares, a área equivale a 25% do território do estado.

Mais recentemente, recifes de corais foram descobertos na costa do Amapá em meio ao anúncio de exploração de petróleo na região. Os “corais da Amazônia”, de acordo com a ONG internacional, são formações únicas e diretamente ameaçadas com a atividade.

Corais da Amazônia descobertos em expedição na costa do estado — Foto: Greenpeace/Divulgação

O principal inimigo da preservação da Amazônia é o próprio homem em diversas ações. Seja com as queimadas para produção agrícola, desmatamento, biopirataria, invasão de terras públicas e poluição dos rios e do solo.

Além dos agentes públicos, diversas organizações atuam na preservação e na manutenção dos recursos da região, tornando-se verdadeiros “Guardiões da Amazônia”.

“Acreditamos que o grande problema é a permanência de um plano colonialista para o desenvolvimento da Amazônia, sempre vindo de fora para dentro e valorizando apenas a geração de commodities. Ao invés disso, deve haver a valorização da floresta em pé! Para que o real valor seja valorizado, porque dessa forma é possível proteger as pessoas e a natureza. O desenvolvimento sustentável não é uma utopia, é uma alternativa possível e urgente”, comentou Adriane Formigosa, diretora-presidente do Instituto Mapinguari.

Ação de limpeza do Instituto Mapinguari em reserva às margens do Rio Amazonas — Foto: Instituto Mapinguari/Divulgação

Fundado em 2005 por um grupo de acadêmicos voluntários, o Mapinguari trabalha principalmente com apoio a gestão das Unidades de Conservação (UCs) do estado.

Além dos recursos, entidades estão ligadas diretamente com lidar do povo amazônico, em especial os indígenas, povos tradicionais e ribeirinhos, entre eles, Instituto de Pesquisa e Formação Indígena (Iepé), fundado há 18 anos e que tem quase 40 membros.

Cachoeira de Santo Antônio, em Laranjal do Jari — Foto: Reprodução/Rede Amazônica

“Desde a criação, o Iepé tem procurado elaborar projetos que permitam uma ampliação dos trabalhos junto às comunidades indígenas da região, consolidando ações em andamento e estabelecendo novas modalidades de atuação”, destacou Renata Ferreira, assessora do Programa de Articulação Regional do Iepé.

Fonte: G1 Amapá

A Liberdade de Imprensa ameaçada – Por Renivaldo Costa – @renivaldo_costa

Renivaldo Costa

Por Renivaldo Costa*

Nas eleições de 2006, a jornalista Alcinéa Cavalcante lançou uma enquete em seu blog de notícias (alcinea.com) e sugeriu aos internautas que apontassem quais dos políticos amapaenses poderiam ostentar a frase: “O carro que mais parece comigo é o camburão da polícia”.

Reiteradamente citado na enquete, o ex-senador José Sarney não gostou das menções e processou a jornalista. Fazia um ano que ele havia deixado a presidência do Senado e eleito seu sucessor, Renan Calheiros. Além disso, era candidato à reeleição e uma jovem negra chamada Cristina Almeida crescia nas pesquisas e ameaçava seus planos. Resultado: usou de seu prestígio e conseguiu condenar a jornalista a pagar R$ 2 milhões de indenização.

No mesmo período, além de Alcinéa, também foram condenados o jornal Folha do Amapá (fundado por Elson Martins) e os jornalistas Humberto Moreira, Domiciano Gomes e a irmã Alcilene Cavalcante. No caso de Alcilene, a punição absurda ocorreu porque, ao publicar uma imagem do fotógrafo Chico Terra com uma charge com a mensagem “Xô, Sarney”, um leitor resolveu – no comentário – sugerir que ele voltasse ao Maranhão, de onde veio. Pasmem: Alcilene teve de pagar mais de R$ 30 mil de indenização ao ex-senador por uma mensagem de terceiros.

O poder de Sarney era tamanho que, mesmo considerando uma grande injustiça, muitos jornalistas se eximiram de fazer comentários ou prestar solidariedade aos colegas injustiçados, com medo de represálias.

Lembrei desse episódio pois, atuando como jornalista há 26 anos, nunca vi a liberdade de imprensa tão ameaçada como agora. Isso é perfeitamente compreensível pois 56 anos após o Golpe de 1964, cresce o coro daqueles que desejam fechar o Congresso e o Supremo e clamam por Ditadura. Afinal, como afirmou Jorge Pedro Sousa: “nenhuma ditadura sobrevive com uma imprensa livre”. Assim, como nenhuma democracia sobrevive sem uma imprensa livre.

Curiosamente, como estudante de Direito que agora também sou, foi que ouvi de um professor de Sociologia Jurídica, que cabe à imprensa, livre, ser a voz dos “sem voz”, de denunciar irregularidades e injustiças. De buscar aquilo que nem sempre está às claras e, para isso, precisará investigar. Sem liberdade em contrariar interesses, seja de pessoas importantes, de empresas poderosas ou de governantes, o jornalista não conseguirá exercer essa parte da sua função profissional.

Outro dia, numa palestra que fiz a estudantes de jornalismo, ouvi uma analogia que cai como uma luva a essa questão. “A liberdade de imprensa é para veículos de comunicação o equivalente ao que a liberdade de expressão significa a uma artista”. Não há como exercer os fundamentos do jornalismo e da comunicação em geral sem ampla e irrestrita liberdade em fazê-lo. O jornalismo deve atender à sociedade civil ao noticiar, informar, denunciar, escrever, detalhar tudo aquilo que é ou pode vir a ser de interesse público.

Eu quero acreditar que ainda possamos lutar por uma democracia onde ideias como amordaçar a imprensa e fechar as instituições democráticas, sejam até ouvidas (pois cada um tem o direito de expressar suas convicções), mas sejam de pronto rechaçadas, especialmente por aqueles que tem o dever de defender a liberdade e guardar a Constituição.

Nosso papel como jornalistas é fornecer as informações, os fatos e as verdades necessárias para que o público tire suas próprias conclusões e se “autogoverne” – expressão dos jornalistas e teóricos Bill Kovach e Tom Rosenstiel. Se ao cumprir esse mister, expomos mazelas, o ideal é que as corporações ou classes onde elas são expostas, façam “mea culpa” ao invés de simplesmente negar sumariamente, processar veículos e exigir indenizações vultosas, como ocorreu recentemente no episódio envolvendo a TV Equinócio e a Seccional da OAB/AP.

Ademais, eu prefiro viver numa democracia onde se valorize a liberdade de expressão e os excessos sejam punidos exemplarmente do que numa sociedade de mordaça, onde se imponha censura e intervenção contra tudo aquilo que ameace a manutenção de feudos e grupos políticos retrógrados.

* Jornalista (Reg. Prof. 018/04) e sociólogo (Reg. Prof. 048/10).

Macapá em mim – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Era 1997, o século XX se aproximando do fim e eu chegando ao meu recomeço.

Foi a primeira vez que andei de avião, cantarolando internamente a música de Beto Guedes e Ronaldo (meu xará) Bastos: “Quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos…”.

O Sol de Primavera brilhou para mim, ainda que eu tenha chegado na madrugada, e o primeiro de setembro ficou sendo um marco, o Marco Zero do Equador da minha nova vida, que começava naquele momento, nesta cidade que alargou meu coração para caber nele, juntamente a Curuçá e Belém, formando as três cidades que trago no peito.

Logo novas palavras foram chegando e se materializando em minha nova vida. Marabaixo, Curiaú e o rio Amazonas, já conhecido dos livros escolares e agigantado mais ainda quando o vi e fui abraçado pelo volume das suas águas. São elementos que foram se associando, se misturando, me arrebatando e hoje fazem parte do que sou.

As pessoas da cidade foram surgindo, interagindo e integrando meus círculos de amizade. E é tanta gente que podemos imaginar um Banco da Amizade em toda a extensão da Fortaleza de São José para caber meus amigos.

Hoje, faço 23 anos como amaparaense (não está escrito errado. Sou um paraense que vive no Amapá, logo um amaparense) e celebro tantos momentos de alegria, confraternizações e realizações artísticas.

De Macapá, tenho saudade dos domingos em que não fui (porque o tempo e o espaço eram outros) assistir a um filme no Cine João XXIII, depois tomar um sorvete e paquerar as meninas no trapiche. Tenho saudade de não ter ido à praia da Fazendinha com uma turma de amigos e só voltar quando a madrugada já anunciava um novo dia. Saudade do Bar Caboclo que não frequentei e da gonorreia que não peguei. Gostaria de ter me curado da tosse braba ou erisipela pelas ervas do Mestre Sacaca. Tenho saudade de figuras como Alcy Araújo, Isnard Lima, Estêvão Silva. Saudade do Gino Flex, que conheci e brindei à vida com ele, e agora saudade que me assalta no meio desta escrita comemorativa e tira um pouco do ânimo, pois Lula Jerônimo acabou de partir.

São vinte e três anos de Macapá em mim neste primeiro de setembro. Várias voltas do sol em torno de mim e por dentro da vida. E por falar em vida, termino com um trecho de Carlos Drummond de Andrade, poeta da minha vida: “a vida é bastante / que o tempo é boa medida, / irmãos, vivamos o tempo”.

Obrigado, Macapá!

Belchior e nós, sujeitos de sorte – Por Marco Antônio Costa

Por Marco Antônio Costa

Sim, presentemente podemos nos considerar sujeitos de sorte. Por óbvio, não pelos atropelos e enormes questões que 2020 trouxe, mas somos de gerações que podem contemplar a obra do grande artista brasileiro Antônio Carlos Belchior, o nosso Belchior, que nos últimos anos ganhou novo impulso e está fazendo a cabeça de muitos jovens brasileiros, e essa é, sem dúvidas, uma boa notícia: Belchior está fazendo um sucesso danado!

Em um momento como esse, me parece que nos cabe deixar de lado qualquer pedância ou ciumeira e comemorar que um poeta tão querido por alguns, seja agora reencontrado por milhares e milhares – quiçá milhões -, que estão conhecendo ou reconhecendo o Bardo do Nordeste.

Do nosso ponto de vista, há diversas razões para essa descoberta e vamos conversar sobre elas, mas adianto a que considero ser a principal: a poesia, a música, a interpretação e a mensagem visceral de Belchior, dialogam com nossos tempos.

Senão, me digam o que pode ser mais a cara de 2020 do que “Presentemente eu posso me considerar um sujeito de sorte / Porque apesar de muito novo, me sinto são e salvo e forte / Tenho comigo pensado Deus é brasileiro e anda do meu lado / E assim já não posso sofrer no ano passado / Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro / Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”?

É claro que “sujeito de sorte” ganhou o excelente impulso de ter sido sample da música “Amarelo”, do rapper Emicida com participação de Majur e Pablo Vittar. Talvez menos popular, mas não menos forte, também há uma versão da música assinada por Chico Chico, filho de Cássia Eller, que junto com um parceiro soltam a voz à plenos pulmões – como se não houvesse amanhã -, rompendo com o minimalismo dominante na MPB atual.

A morte de Belchior, em abril de 2017, os anos de refúgio e silêncio antes de falecer, a imagem de cabelão e grandes bigodes, lhe dão uma aura misteriosa, peculiar, e certamente isso ajuda para que chame atenção.

Também Belchior consegue popularizar poesia, misturar referências, referindo-se ao que já conhecemos ou já ouvimos, de forma discreta, respeitosa e bem encaixada. Quantas vezes eu não fiquei com a sensação de já conhecer algo ouvindo a música e depois redescobrir na literatura?

Por exemplo, em “Divina comédia humana” ele cita Bilac e seu lindo poema “Ora direis, ouvir estrelas” (Meu poema favorito), sem perder o senso e nos dando uma mensagem, no entanto, de que “enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não”, ele canta.

Ele percorre os clássicos e debate com gente grande. Em uma única canção, “Velha Roupa Colorida”, Belchior consegue fazer referência aos Beatles, Bob Dylan e Edgar Alan Poe. Quando fala no pássaro preto, refere-se ao “O Corvo”, e dá ele mesmo, uma pequena versão do poema, tão forte que mereceu a tradução para o francês por Baudelaire e para o português de Machado de Assis.

João Cabral de Melo Neto visita sua obra com frequência, desde referências mais diretas e “a palo seco”, até “Galos, noites e quintais”, que parece mesmo ter a sombra do poeta pernambucano. Mas seria difícil ficar aqui reparando de citação em citação, ou supondo o que cada verso quereria nos dizer. Fato é que suas letras nos remetem a um universo rico, de quem está envolto em ideias e referências múltiplas.

A juventude, o coração estudantil, o nordeste, as dificuldades da cidade grande, o protesto político e os amores são a pauta do nosso Bob Dylan nordestino. Belchior é fantástico e que bom, repito, que está sendo tão revisitado. Se estava mesmo, e acredito que sim, traduzindo para o popular a comédia de Dante, gostaria muito de lê-la. Mas gostaria mais ainda, acredite, de bater um papo com Belchior, de conversar sobre poesia, literatura e futebol. Nos dias de hoje, certamente, ambos evitaríamos a política. Mas isso, na verdade, acho que já faço toda vez que coloco “Alucinação” pra tocar. Cada música é uma conversa com ele, e com todos os nossos.

Com coração selvagem, meu bem, mil vivas à Belchior!

27 de agosto: Dia do Psicólogo – Por Janisse Carvalho (psicóloga)

Desde 1879 quando Wundt criou o 1o laboratório para analisar o comportamento humano, a psicologia tem firmado seu importante papel de revelar ao ser humano a sua dimensão humana. Parece um trocadilho barato mas nem todos nós seres humanos somos capazes de olhar pra nós mesmos com honestidade e compaixão. Então, o que acontece? Não conseguimos olhar o outro da mesma forma. É daí que começam os grandes problemas da humanidade: falta de empatia, intolerância às diferenças, incompreensão das limitações humanas. Por isso saímos julgando e condenando os outros… enfim, entendimento e convivência ficam difíceis!

O principal objetivo de um trabalho psicológico, terapêutico, é o autoconhecimento. Pessoas que se conhecem tendem a ser mais conscientes de si, reconhecer seus limites e potenciais! Mas autoconhecimento não implica em ficar fechado em si. Autoconhecimento é dialético, transcende o sujeito! Quem fica no discurso dizendo que autoconhecimento é balela, alienação; ou, quem fica só no discurso exaltando esse processo como único capaz de melhorar o mundo e ignora o contexto ao redor sem leitura crítica sobre a necessidade das lutas coletivas, se perdem na vida. Os primeiros ficam focados nas explicações de que é preciso mudar as estruturas inscritas numa dimensão coletiva e ignoram as vontades pessoais que muitas vezes é a que prevalece quando ganham alguma luta. Os segundos ficam restritos aos discursos no campo pessoal e vão continuar sofrendo pois o sofrimento é individual e coletivo. Essa dicotomia não ajuda em nada, pelo contrário, só atrapalha. É preciso superar essa dicotomia como dizia Silvia Lane!

Eu costumo dizer que antes de mergulhar para dentro de mim eu queria fazer a revolução no mundo, acabar com as injustiças sociais, lutar contra a opressão e trazer dignidade para humanidade. Hoje se faço isso comigo já me dou por satisfeita. Dizia que tínhamos que melhorar o mundo depois as pessoas. Mas aprendi que não. Conheci a dialética: Mudar a mim mesma, melhorar a mim mesma, também deve implicar em melhora o mundo, num movimento dialético, de vai e vem, ao mesmo tempo agora. Continuo empenhada na luta coletiva, mas olhando pra mim e a partir de mim!

Hoje aprendi que mergulhar em mim mesma, ter respeito pela minha história, ser auto compassiva comigo, ter consciência das diferenças dentro de mim, das minhas idiossincrasias, me fez olhar pros outros e ser mais sensível e tolerante. Nem sempre consigo, pois não sou perfeita, mas acredito que a consciência desse limite já é um avanço! Ainda falta muito, mas já percebi que esse mergulho é infinito, como o Criador que existe em mim!

Janisse Carvalho e este editor. Saudades sempre!

Hoje ainda quero mudar o mundo, mas nunca sem antes passar por mim!

*Janisse Carvalho, psicóloga paraense/amapaense e professora universitária e secretária de Assistência Social do município Alexania (GO).

Hoje é o dia do Estagiário (minha homenagem aos acadêmicos que correm atrás de seus sonhos)

Hoje, 18, é o Dia do Estagiário. A celebração é em homenagem ao jovem trabalhador que ingressa no mercado de trabalho e coloca em prática tudo o que aprende em sala de aula. Foi por meio de um decreto em 1982, que a data foi instituída.

Eu, nos tempos de estagiário.

Por experiência própria, sei que não é fácil cumprir dupla jornada (às vezes, tripla). Fui estagiário na TV Amapá e no Portal Amazônia e comprovei que estudar e trabalhar é dureza mesmo. Cumprir com as atividades acadêmicas e o trampo do estágio requer responsabilidade, compromisso e muita força de vontade.

Também trabalhei com muitos estagiários no TRE/AP e no MP-AP. Sempre tento ter uma relação de amizade sem frescura com eles – com as cobranças normais que o trabalho exige, mas com momentos de descontração. Só não consegui umas duas vezes, mas nem vale a pena contar.

Com Halanna Sanches e Vanessa Albino, estagiárias de jornalismo do MP-AP e queridas colegas de trampo.

Bacana que consegui me tornar amigo da maioria deles. Em nome das estagiárias e colegas de trampo, jornalistas Halanna Sanches e Vanessa Albino, rendo homenagens a todos os estagiários.

Ser estagiário de jornalismo é…( já passei por isso, com algumas exceções, claro):

Pegar umas pautas bem ordinárias e achar isso o máximo.

Assinar uma matéria de dez linhas e achar isso o máximo do máximo.

Ouvir, sempre que pintar uma roubada na redação, alguém dizer: “Pede pro estagiário”.

Concluir que o início é difícil; mas ter também a certeza de que, com o tempo, a coisa piora.

Ter pique total, topar qualquer parada.

Viver à procura de um estágio melhor. Para abandonar a merda do estágio atual.

Sonhar (dormindo e acordado) com uma efetivação.

Fazer tudo o que um repórter experiente faz, mas ganhar como estagiário.

Ser culpado pelas cagadas que saem no jornal. Até que se prove o contrário.

Sofrer bullying, tipo ser comparado às crianças do lixão da novela pelo Duda Rangel.

Colocar a mão no queixo e se perguntar: “Porra, jornalismo então é isso?”

Fazer uma reportagem duca e exclamar: “Porra, jornalismo é isso!”

Descobrir que a prática é muito melhor do que as aulinhas chatas da faculdade.

Desejar que a bolsa-auxílio seja uma bolsa Prada ou uma Louis Vuitton. Legítimas.

Fonte: Desilusões Perdidas.