Lá se vai mais um ano -`Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Hoje, 31/12 de 2019, fecharemos mais um ciclo, mais uma década, mais um marco imaginário no qual sempre nos colocamos, teremos mais tempo.

2020 está na nossa porta, a turma da Austrália, que nossos colegas “terraplanistas” insistem em dizer que não existe, vão comemorar primeiro, como sempre. Esses caras, se existirem (risos) devem ser uns privilegiados.

Vem aí mais umas quatro estações de novo, mesmo que sejam apenas singularidades terrenas, ou apenas muito sol e muita chuva, como se tem sempre por aqui.

Vem aí mais oportunidade para se reconstruir, para sermos melhores, para mudarmos. E se não deu neste ano, que tenhamos força para conquistar o objetivo no ano que vai entrar.

Que tenhamos tempo para usufruir, para abraçar quem sempre nos quer bem, para andar na chuva e sorrir como crianças, que os interesses mundanos e hostis não nos façam perder frações preciosas de existência.

Que sejamos mais corteses, mas menos submissos. Que nossas ambições não ultrapassem nossa moralidade e quem se aproximar só nos traga positividade. Procuremos o sucesso, mas nunca em troca da infelicidade alheia.

O livro da vida que cada um escreve vai ganhar novos capítulos. Tristezas e decepções por decreto devem ficar em 2019. Não levemos nada de ruim para os próximos 12 meses. E que nossas conjecturas humanas só nos levem para o lado do bem.

Serão mais 365 batalhas que serão vencidas com coração, que o ano novo traga força para matar quantos leões aparecerem e que nada, mais nada mesmo, nos tire a capacidade de tentarmos ser felizes.

Se 2019 não foi bom, comemore, já tá acabando, se foi , comemore mais ainda.

Eu do fundo do coração desejo um ano não menos que espetacular para todos, que se tivermos que chorar que seja de alegria, e que nossos desafios se tornem conquistas. Nunca esqueçamos que somos responsáveis pela nossa própria história.

E parafraseando “Mar de Gente”, “ brinde casa, brinde a vida, brinde amores, brinde a família”.

Feliz Ano Novo.

*Marcelo Guido – Jornalista, Pai da Lanna e do Bento e Maridão da Bia.

Nostalgia e Luz – Crônica de Natal de Fernando Canto

Crônica de Fernando Canto

Hoje de manhã me vi subitamente abatido por um ataque de nostalgia.

No meu caminho para o trabalho observei um homem ateando fogo no lixo. Tinha uma vassoura nas mãos e cuidava com atenção para que as chamas não se espalhassem sobre a calçada. Aquele ato, pensei, era um resquício da herança cultural indígena tão presente em nossa vida cotidiana.

De repente me veio a lembrança do tempo que Macapá caminhava lenta, em sua vivência pacata sob o sol do equador, quando vizinhos se respeitavam e eram amigos; quando cada um sabia das necessidades do outro e ninguém hesitava em pedir uma xícara de óleo, um pouquinho de farinha, um teco de colorau, de pó de café ou de pimenta-do-reino, ou quando trocavam gentilmente deliciosos pratos de comida, feita com abundância para a família.

Lembro que às vezes, pela manhã, minha mãe varria as folhas do cutiteiro que sombreava a frente de nossa casa e fazia a sua fogueira no lixo amontoado. Ele também era o alvo dos moleques da baixada que quebravam nossas telhas com as tentativas de apanharem os frutos jogando pedras e paus na árvore. A pequena fogueira fazia pouca fumaça, mas ia se juntando com a fumaça da vizinha e da outra vizinha e da outra vizinha. E ninguém se incomodava porque a fumaça era fugaz, se dispersava com o vento vindo das marés do Amazonas, lá adiante.

À noite trafegava em sua beleza estelar na escuridão. Crianças brincavam de roda à boca da noite e adolescentes gastavam suas energias na brincadeira de “pira” ou de “bandeirinha”, sob a luz da lua ou das lâmpadas pálidas dos postes da CEA. E, quando a luz se apagava, íamos até mesmo ouvir dos mais velhos as histórias de assombração, pregar peças de visagens aos poucos passantes da noite ou observar os satélites que cruzavam os céus do equador entre as estrelas.

Naquele tempo meu pai deixava aberta a porta de casa para que eu e meus irmãos não incomodássemos seu sono, certo de que ninguém ousaria abri-la para roubar. Era um tempo em que bastava a presença de um cãozinho para o possível gatuno se escafeder. E até as criações de galinhas e patos não eram protegidas da ousadia das “mucuras velhas” de plantão, que roubavam os animais para fazer tira-gosto de suas bebedeiras noturnas. Ah! E como eles sabiam fazer isso. Há casos em que roubavam a própria casa.

Os quintais não tinham cerca, tinham caminhos de atalhos, tinham campinhos, leiras de verduras e árvores frutíferas. As ruas eram tão nossas que ao fim da tarde viravam campos de futebol, em jogos que só terminavam ao anoitecer. Cada um respeitava seu cada qual: o dono da bola podia ser ruim no jogo, mas era o dono, e pronto. Ninguém furtava a merenda do colega nem caderno nem brinquedo.

Ainda que eu não queira culpá-la, mas depois que a televisão chegou nada mais foi igual. A molecada ia assistir a programação na casa do seu João de Deus onde havia o único aparelho de TV no bairro. Seu João colocava um vidro azul no vídeo para que as cenas das novelas “Meu Pedacinho de Chão” e “Vejo a Lua no Céu” parecessem mais coloridas. Doce ilusão! E dava o exemplo de patriotismo acompanhando em pé com a mão no peito o Hino Nacional, no fechamento da programação, por volta de meia-noite. O sagrado jantar familiar ficou mais apressado porque a novela ia começar e todos iam para a sala assistir aos folhetins de Janete Clair.

Mas ainda que brote da minha memória, eu não vejo com saudade essas lembranças. A saudade é mais profunda, é mais poética e mais densa que a nostalgia, que é uma palavra originária do grego e significa “regressar”, “voltar para casa”. E nesse regresso emocional, observo que as pessoas quase já não varrem as folhas que caem das árvores na frente de suas casas, nem fazem mais fogueira com medo de denúncias de vizinhos aos órgãos ambientais e por acharem que é um trabalho exclusivo dos garis da Prefeitura. E assim, as fumaças que eram como bandeiras ou cantos de galos se espalhando, já não enfeitam mais as manhãs ensolaradas da minha cidade. A solidariedade dos vizinhos foi substituída pela individualidade de cada morador aprisionado em suas portas e muros gradeados, pelo medo tácito da violência urbana.

As pedras jogadas nas mangueiras e cutiteiros se transformaram em duras palavras atiradas até em quem não tem telhado de vidro. A energia vital dos adolescentes é gasta nas baladas, quando longe dos pais, muitos enveredam pelos caminhos das drogas. As antigas histórias de assombração agora são contadas pelo Rádio e pela TV nos noticiários da violência no trânsito, brigas de gangues e mortes cruéis por motivos fúteis. O olhar real da juventude que acompanhava o curso dos satélites no céu escuro da noite tornou-se um virtual olhar, onde o romantismo de outrora foi trocado pela racionalidade dos programas dos computadores e celulares on line na Internet e pela comunicação ingênua das redes sociais.

Ah, os ladrões… Desde que mundo é mundo temos ladrões, prostitutas e assassinos e os seus trabalhos diferenciados sob a Lei, porque não há sociedade sem crime, ainda que teimemos em construir nossa utopia. Os ladrões de um passado (nem tão longe assim) eram de patos e galinhas, que ao menos não sujavam o nome de nossa terra e nem nos envergonhavam nacionalmente com negociatas políticas e atos de corrupção explícita.

Nem se comparam com muitos da atualidade que usam a pele de cordeiro para, como lobos ferozes, roubar o dinheiro público, enriquecer às custas do povo e trair cinicamente os que neles confiaram pelo voto. Naquele tempo as cercas inexistentes nos quintais davam a todos a liberdade de fazer seus próprios caminhos, de realizar seus atalhos e se apressar para a vida que viçava lá fora, principalmente pelo caminho da educação, pulsante nas escolas públicas, onde os professores eram mais que isso: eram educadores e amigos. Ensinavam também, como no ato do seu João de Deus em frente à TV ouvindo o hino nacional, a respeitar os valores da Pátria, apesar da era de obscurantismo da ditadura militar.

Hoje olhamos para os costumes sociais e familiares em mudança e nos molhamos de nostalgia. Tudo mudou com os avanços tecnológicos, que tanto facilitam a nossa vida. E tudo começou com a televisão, essa invenção incrível, pois quando a luz apagava na hora de um programa ninguém mais conversava. A família ia para o pátio da casa olhar a rua espelhada de chuva, e uns se perguntavam aos outros: será que foi geral? Será que ela vai voltar? Já pensou? Ficar sem TV o resto da noite… Afirmo, pois, com certa tristeza que foi aí que começou a morte do diálogo familiar.

E as ruas? Ora as ruas. Ruas de tempos abençoados que não testemunharam atropelamentos fatídicos, apenas quedas de bicicleta ou boladas na cara de algum passante desatento. Ruas da minha cidade transformada, ruas que hoje absorvem o sangue dos mortos diariamente em cada esquina, ruas não mais tangidas pelos protestos do povo inconformado, ruas esburacadas pela angústia no rosto da juventude sem emprego, ruas que se tornam rios de chuva e trazem doenças inevitáveis, ruas que lêem os passos cansados dos que tem pouca mobilidade física, ruas escuras, ruas das violências noturnas, ruas dos loucos, dos bêbados, das putas, dos travestis e dos moralistas de plantão.

Mas elas são também as ruas dos sonhadores como nós, que tentamos enfeitar a madrugada e trazer a música e o sol no cavalo alado da nostalgia, para iluminar um mundo futuro ausente de dor e de vergonha, mas cheio de luz e de perdão.

Não deixemos, pois, por isso mesmo, a luz ir embora dos nossos corações.

É Natal (Belíssima crônica de Natal de Alcy Araújo Cavalcante)

É Natal

Por Alcy Araújo Cavalcante
(1924-1989)

Sabeis que é Natal. Não é necessário que eu diga isto. O anúncio da renovação do milagre do nascimento de Jesus está nesta música que vem de longe, que desce do céu e flutua, em pianíssimo, em torno de nossa alma e toca de leve o coração dos homens. O milagre está, também, nesta luz que vem do alto e ilumina os espíritos, está no riso das crianças, na oração da rosa, na lágrima dos que sofrem, no canto dos pássaros, no sussurro da brisa, no murmúrio do rio e na saudade de minha mãe rezando.

Tudo é tão bonito que as lágrimas de dor e de saudade de infâncias inexistentes são poesia pura. O belo é tanto que não resisto à vontade vesperal de anunciar que é Natal, antes que a noite chegue, antes que seja oficiada a Missa do Galo, antes que dobrem os sinos na igreja comunicando a vinda do Messias.

Tudo é luz em torno do mundo. As trevas não prevalecerão quando cair a noite acendendo mistérios. As vozes dos anjos, o coral dos pastores de Israel, a lembrança dos Reis Magos estão presentes. Há perfume. Os turíbulos de Deus espargem incenso e mirra, porque é Natal no mundo e renasce a esperança no cumprimento da palavra dos profetas.

Mais uma vez é Natal!

Chegam as vozes da infância perdida nos caminhos e o coração enxuga saudades. Os sinos, à meia-noite, vão bimbalhar lágrimas distantes. Vêm de presépios inanimados e risos perdulários afogam angústias cotidianas. A dor se esconde por trás de mágoas indormidas e as horas se ocultam nos relógios, para que a poesia do Natal não passe e o musical minuto dure mais um segundo na eternidade deste dia.

É Natal!

Reza a minha alma de joelhos pelo menino sem brinquedos que perdi, na minha pobreza de sempre.

É Natal!

Repetem meus arrependimentos nas estradas.

E uma alegria imensa absorve as tristezas que fabriquei no mundo. Um sentimento infinito de bondade apaga as dores que construí durante o meu ontem irreversível. Uma ternura imensa acende felicidades futuras, porque é Natal, neste sábado do mundo. Há um polichinelo no bazar. Pertence ao menininho doente que Jesus chamou para o seu reino. Uma boneca abandonada já não chama mamãe para a garota loura que um anjo levou pela mão naquela manhã de sol. Mas outros brinquedos coloridos fazem ciranda em torno das árvores de Natal e milhares de crianças são felizes nos lares cristãos de meu país sem coordenadas. Enquanto isto, Deus sorri, pleno de Amor, por trás da Eternidade.

Fonte: Blog da Alcinéa Cavalcante

O poder do Natal: A incrível trégua não oficial da primeira guerra mundial, em 25 de Dezembro de 1914.

Não há a menor dúvida de que realmente aconteceu – a trégua de Natal não oficial de 1914 – mas até hoje, muitas pessoas não estão totalmente a par dos detalhes e extensão deste notável hiato na guerra, que ocorreu durante aquelas poucas horas do quinto mês do primeiro ano de conflito.

Para a maioria das pessoas, a trégua foi observada pelos britânicos e alemães na parte mais ao sul do saliente de Ypres, na Bélgica. Entretanto, ela ocorreu em vários outros pontos do Fronte Oeste e por outros combatentes, notadamente os franceses e belgas, embora o fato é que os alemães estavam situados em território francês ou belga inibiu qualquer grande demostração de boa vontade para com os oponentes alemães.

Registro histórico das tréguas em tempo de guerra

Tréguas em períodos de guerra não eram tão incomuns. Exemplos de interrupções temporárias em conflitos datam de séculos atrás e incluem as guerras Peninsular e da Criméia (entre os ingleses e franceses na primeira e ingleses e russos na segunda). Histórias similares são contadas a respeido de refeições trocadas entre os lados opostos durante a Guerra Civil Americana e, em 1900, na Guerra dos Boers, na África do Sul.

De fato, em várias arenas da Primeira Guerra Mundial a tradição continuou além do Natal. O extraordinário líder da guerra de guerrilha alemão na África Leste, Coronel Paul von Lettow-Vorbeck, era famoso por suas cavalheirescas – segundo alguns civilizadas – maneiras em que ele conduzia a guerra. Por exemplo, após humilhar as forças indianas lideradas pelos britânicos na batalha de Tanga, no início de Novembro de 1914, líderes de ambos os ladosse reuniram sob uma bandeira branca para trocar opiniões acerca da ação e para compartilhar uma garrafa de brandy.

Entretanto, este estilo de cortesia foi considerado extinto com a aparição da relativamente nova forma de guerra mecanizada que caracterizou a Primeira Guerra Mundial, certamente como era combatida no Fronte Oeste. Apesar disso, não eram incomuns breves cessar-fogo serem taticamente aceitos e observados por uma ora ou mais, como durante o café-da-manhã em setores mais calmos onde apenas poucas jardas separavam as tropas aliadas das germânicas; um caso de “viva e deixe viver”.

Início com árvores de Natal e cantigas

Embora existam muitas histórias individuais acerca de como o Natal não oficial foi iniciado em vários setores, para a maior parte ele foi iniciado pelas tropas alemãs estacionadas defronte às forças britânicas onde uma distância relativamente curta separava as trincheiras ao longo da Terra de Ninguém.

Muitos soldados alemães tinham, como era seu costume na véspera de Natal, começado a montar árvores de Natal, adornadas com velas acesas – com a exceção que, desta vez, foram posicionadas ao longo das trincheiras do Fronte Oeste.

Inicialmente surpresos e, então, desconfiados, os observadores britânicos reportaram a existência delas para os oficiais superiores. A ordem recebida foi que eles não deveriam atirar mas, em vez disso, observar cuidadosamente as ações dos alemães.

A seguir foram ouvidos cânticos de Natal, cantados em alemão. Os ingleses responderam, em alguns lugares, com seus próprios cânticos. Aqueles soldados alemães que falavam inglês então gritaram votos de Feliz Natal para “Tommy” (o nome popular dos alemães para o soldado britânico); saudações similares foram retribuíadas da mesma maneira para “Fritz”.

Em algumas áreas, soldados alemães convidaram “Tommy” para avançar pela “Terra de Ninguém” e visitar os mesmos oponentes alemães que eles estavam tão absortos em matar poucas horas antes. Edward Hulse, um tenente dos Scots Guards, com 25 anos de idade, escreveu no diário de guerra do seu batalhão: “Nós iniciamos conversações com os alemães, que estavam ansiosos para conseguir um armistício durante o Natal. Um batedor chamado F. Murker foi ao encontro de uma patrulha alemã e recebeu uma garrafa de uísque e alguns cigarros e uma mensagem foi enviada por ele, dizendo que se nós não atirássemos neles, eles não atirariam em nós”. Consequentemente, as armas daquele setor ficaram silenciosas aquela noite.

A notícia se espalha

Estórias começaram a se espalhar sobre visitas trocadas entre as forças aliadas (incluindo algumas francesas e belgas) e os inimigos alemães. Tais visitas não estavam restritas aos soldados rasos somente: em algumas ocasiões, o contato inicial foi feito entre oficiais, que definiram em conjunto os termos da trégua, acrescentando somente o quanto seus homens poderiam avançar em direção às linhas inimigas.

Estes termos normalmente permitiam o enterro das tropas de cada lado que jaziam ao longo da “Terra de Ninguém”, alguns mortos há apenas uns dias, enquanto outros haviam esperado meses pela dignidade de um funeral – todos, porém, tiveram que ser deixados onde haviam caído, pois metralhadoras cobriam o local onde eles jaziam na desolação entre as trincheiras opostas.

Naturalmente, homens das equipes encarregadas dos funerais entraram em contato com os membros das equipes similares do inimigo quando, então, conversas foram entabuladas e cigarros trocados. Cartas foram encaminhadas para serem entregues para famílias ou amigos vivendo em cidades ou vilarejos beligerantes.

O mais notável de tudo foi, talvez, a história da partida de futebol entre o regimento inglês de Bedfordshire e as tropas alemãs (alegadamente vencido por 3-2 pelos últimos). O jogo foi interrompido quando a bola foi murchada após atingir um emaranhado de arame farpado. Em muitos setores a trégua durou até a meia-noite de Natal; enquanto em outros durou até o primeiro dia do ano seguinte.

Reação oficial e do público

As reações à trégua de Natal vindas de várias fontes vieram em várias formas. Os Governos aliados e o alto-comando militar reagiram com indignação (principalmente entre os franceses). O Comandante-em-Chefe britânico, Sir John French, possivelmente tinha previsto a suspensão das hostilidades no Natal quando emitiu uma ordem antecipada alertando suas forças para um provável aumento da atividade alemã durante o Natal: ele, portanto, instruiu seus homens para redobrar o estado de alerta durante esta época.

Após a trágua ele escreveu severamente: “Eu emiti ordens imediatas para prevenir qualquer recorrência deste tipo de conduta e convoquei os comandantes locais para prestarem contas, o que resultou em punições severas”. A igreja Católica, através do Papa Benedito XV, tinha solicitado anteriormente uma interrupção temporária das hostilidades para a celebração do Natal. Embora o Governo alemão tenha indicado sua concordância, os aliados rapidamente discordaram: a guerra tinha que continuar, mesmo durante o Natal.

Quase imediatamente à trégua, as mensagens enviadas chegaram para os familiares e amigos daqueles servindo no fronte através do método usual: cartas para casa. Estas cartas foram rapidamente utilizadas por jornais locais e nacionais (incluindo alguns na Alemanha) e impressas regularmente.

O autor de Sherlock Holmes, Sir Arthur Conan Doyle, comentou em sua história da guerra o “episódio humano em meio às atrocidades que tem manchado a memória da guerra”.

Sir Horace Smith-Dorrien, o Comandante do II Corpo britânico na época, reagiu com uma simples instrução: “O Comandente do Corpo, portanto, ordena aos Comandentes de Divisão para incutirem em todos os seus comandantes subordinados a absoluta necessidade de encorajarem o espírito ofensivo das tropas, enquanto estiverem na defensiva, por todos os meios à sua disposição. Relações amistosas com o inimigo, armistícios não oficiais (i.e. ‘nós não atiramos se vocês não atirarem’, etc.) e a troca de tabaco e outros confortos, não importa o quão tentadores e ocasionalmente agradáveis possam ser, estão absolutamente proibidos”.

A visão do soldado no front

Nas cartas para casa, os soldados na linha de frente foram praticamente unânimes em expressar seu espanto com os eventos do Natal de 1914.

Um alemão escreveu: “aquele foi um dia de paz na guerra; é uma pena que não tenha sido a paz definitiva”.

O Cabo John Ferguson contou como a trégua foi conduzida no seu setor: “Nós apertamos as mãos, desejando Feliz Natal e logo estávamos conversando como se nos conhecêsse-mos há vários anos. Nós estávamos em frente às suas cercas de arame e rodeados de alemães – Fritz e eu no centro, conversando e ele, ocasionalmente traduzindo para seus amigos o que eu estava dizendo. Nós permanecemos dentro do círculo como oradores de rua. Logo, a maioria da nossa companhia (Companhia ‘A’), ouvindo que eu e alguns outros havíamos ido, nos seguiu… Que visão – pequenos grupos de alemães e ingleses se extendendo por quase toda a extensão de nossa frente! Tarde da noite nós podíamos ouvir risadas e ver fósforos acesos, um alemão acendendo um cigarro para um escocês e vice-versa, trocando cigarros e souvenires. Quando eles não podiam falar a língua, eles tentavam se fazer entender através de gestos e todos pareciam se entender muito bem. Nós estávamos rindo e conversando com homens que só umas poucas horas antes estávamos tentando matar!”

Bruce Bairnsfather, o autor dos famosos cartuns ‘Old Bill’, resumiu os sentimentos de muitas das tropas britânicas quando ele escreveu: “Todos estavam curiosos: ali estavam aqueles malditos comedores-de-salsicha, que tinham começado aquela infernal guerra européia e, ao fazer isso, nos enfiaram no mesmo lamaçal junto com eles… Não havia um átomo de ódio em qualquer dos lados aquele dia e ainda, no nosso lado, nem por um momento havia a vontade de guerrear e a vontade de deixá-los relaxados”.

Uma vez e somente uma

No entanto, a reação foi de tal monta que precauções especiais foram tomadas durante os Natais de 1915, 1916 e 1917, usando mesmo o expediente de realmente aumentar os bombardeios de artilharia. Os eventos do final de Dezembro de 1914 nunca mais foram repetidos.

Investigações foram conduzidas para determinar se a trégua não oficial foi de alguma maneira organizada de antemão; o resultado da apuração foi negativo. Aquilo foi um evento genuinamente espontâneo, que ocorreu em alguns setores mas não em outros.

Embora a história dos conflitos inclua numerosos exemplos de gestos generosos entre inimigos, a trégua de Natal no Fronte Oeste foi talvez o mais espetacular e, certamente, o mais renomado de seu tipo. Boa vontade para todos os homens – por um período.

Mesmo naquele aparentemente pacífico dia de Natal, a guerra não foi completamente esquecida; muitos dos soldados que apertaram as mãos de Tommy ou Fritz em 25 de Dezembro de 1914, trataram de observar a estrutura das defesas do inimigo, de modo que se pudesse tirar vantagem de qualquer falha nas defesas no dia seguinte…

Fonte: Grandes Guerras

O Craque Dener – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Dos campos de terra, ao palco celeste. Os Deuses do futebol conspiram sempre nos terrões localizados nas várzeas, “campos” onde grama é algo raro, surgem talentos natos. Em um desses veio para o mundo da bola o genial Dener.

Negro, baixo, magro como muitos de seus pares, tinha o dom de comandar a pelota como poucos. Esguio, liso como peixe ensaboado, deixava para trás seus adversários, que ficavam a mercê de seu talento como míseros “Joões” sem pai nem mãe.

Dribles desconcertantes foram sua marca maior, tal qual Umbabarauma , o ponta de lança africano de Benjor. Dener era o arquétipo máximo do bom jogador.

Honrou em sua curta passagem pela vida três dos maiores pavilhões do futebol. Portuguesa, Grêmio e Vasco. Deixou boquiaberto o grande Maradona. Don Diego teve sua reestreia no futebol portenho ofuscada pelo desempenho maior do camisa 10 de São Januário.

Foram realmente poucos títulos, a Copinha de 91 pela Lusa, o Gauchão de 93 pelo Tricolor e a Taça Guanabara de 94 pelo Gigante. Mais sua contribuição foi eterna para o espetáculo. Até hoje quem entende um pouco de futebol, não importando a identificação clubística , coloca o garoto do Canindé entre os melhores que já pisaram em um campo de futebol.

Pepe, eterno canhão da Vila, rendeu-se ao Gênio comparando ao incomparável Rei do futebol :“ foi o mais próximo que chegamos de um novo Pelé”. Pegar a bola em uma linha central, sair driblando em zigue-zague com o objetivo máximo de levar a criança para dormir no fundo das redes adversarias era sua constante dentro de campo.

Dener era o suprassumo da coerência futebolística, para ele um drible bonito era sim, mais bonito que um gol. Ele era o espetáculo.

Calou críticos, que ousaram dizer que o campeonato gaúcho era muito pesado para ele, levou o Maracanã ao delírio em um inesquecível Vasco x Fluminense, onde a torcida Vascaína bradou em alto e bom som, “E cafuné , o Dener é a mistura do Garrincha com Pelé”, fez o gol mais bonito já feito no solo sagrado do Canindé , contra a Inter de Limeira, virou musica na voz de Luiz Melodia, “ se vocês querem um conselho vou dar, deixem o menino driblar” e literatura nas mãos de Luciano Ubirajara Nassar autor de “ Dener , o Deus do Drible”.

Sua vida passou como ele passava pelos beques , seu drible mais desconcertante foi com certeza na miséria e sua carreira foi rápida como um raio. Dener Augusto de Sousa deixou órfãos os amantes do bom futebol no dia 19 de abril de 1994, em um fatídico acidente automobilístico na lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro.

Talvez o próprio Deus, boquiaberto com tanto talento daquele menino negro, resolveu escala-lo para seu time celeste para o jogo de domingo.

Ficou a história de um dos que, em pouco tempo, provou ser um dos melhores no mundo da bola.

Dener, Deus e Drible, os “D” em caixa alta, atitude mais que correta.

* Marcelo Guido é Jornalista, Pai da Lanna Guido e do Bento Guido. Maridão da Bia.

Discos que Formaram meu Caráter (Parte 35) – “Lado B Lado A” …O Rappa (1999) – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Muito bem moçada Rocker que nos acompanha nessa linda, longa e salutar viagem muito louca pelas ondas sonoras e discos revolucionários! Diretamente de sua nave, o viajante da música vem trazer mais um grande e indiscutível clássico. Apresento a vocês:

Lado B lado A – terceiro trabalho do Rappa.

Palmas pra ele!

Corria o ano de 1999 e a boa turma d’O Rappa, colhia os bons frutos conquistados com o esplendoroso “Rappa Mundi” (Já falei desse por aqui) e encontravam-se tranquilos já extremamente consolidados como banda de respeito no cenário nacional.

Visto isso, a intenção não seria de relaxamento; pelo contrário, Yuka, Falcão, Lauro, Xandão e Lobato, estavam cada vez mais se esmerando no discurso de ordem e procurando uma evolução musical que talvez nunca tenha sido vista por essas bandas. Não era hora daquele disco experimental que geralmente as bandas fazem para continuar um “tour” eterno falando sempre mais do mesmo.

Os caras preparavam uma surpresa para os fãs da banda; algo que além de ser ouvido, pudesse ser pensado. Nada muito progressivo, para ser chato e não tão difícil nas letras, para não passar batido. Era um disco para se viver, sentir.

Mesmo sendo reconhecidamente uma banda rock, os caras nunca esconderam suas influências ligadas ao Hip Hop, samba e afins; o que para muitos poderia parecer uma heresia, a rapaziada conseguia unificar e assim fazer algo próprio. As letras, magnificamente bem dosadas e falando do cotidiano fantástico do cidadão comum, que vive nas inúmeras comunidades cariocas e, por que não, nos muitos “brasis” que se espalham por todo nosso território.

Eu tinha 19 anos quando tive contato com este disco, e realmente pirei com os grooves e batidas eletrônicas misturadas a baixo, guitarra e bateria – muito bem trabalhados pelos caras. A poesia de Yuka, estava afiada e não teria como dar errado.

O disco é pancada do começo ao fim. Deixando o papo furado, vamos logo ao que interessa e dissecar este disco:

Começamos com uma batida suave que vai para uma porrada sonora em “Tribunal de rua”, uma batida policial intimidante, todos do bairro já conhecem essa lição. “Me Deixa”, estar de bobeira querendo apenas se divertir, deixar de lado o que te oprime. “Cristo e Oxalá”, o encontro de suas entidades positivas, falando a verdade, mostrando que o que salva é realmente a cultura e a fé. “O que sobrou do céu”, o dia-a-dia de quem é realmente excluído, vítima de uma opressão. “Se não avisar o bicho pega”, o sempre ‘Estar ligado’ para não ficar para trás. “Minha Alma (a paz que eu não quero)”, o comodismo, aquilo que não te atinge, não faz parte do teu cotidiano, não te interessa. “Lado B Lado A”, as incertezas diárias, desafios diários, a necessidade de ter o corpo fechado ou ser um guerreiro para poder passar por isso. “Favela”, ode a todas as comunidades, da onde pulsa o sangue e movimenta a cidade, homenagem aos grandes do samba. “O Homem Amarelo”, a ida para o desconhecido, mas central do ‘buzum’ fala outra língua.

“Nó de Fumaça”, a esperteza e sagacidade necessária para sobreviver às dificuldades. “A todas as Comunidades do Engenho Novo”, um samba rock, estilo Jorge Ben, um abraço nas comunidades, onde tem coisa boa e ruim. “Na palma da Mão”, o silêncio constrangedor depois de um tiroteio.

Uma bolacha realmente fantástica, onde crítica social e brasilidade são recorrentes em todas as letras e sons, sem o vitimismo geralmente exacerbado neste tipo de obra.

Medalha de ouro na categoria disco foda.

Este foi o trampo que consolidou Marcelo Yuka como um dos maiores letristas críticos desse país e mostrou o total comprometimento da banda com as causas sociais.

Eleito pela revista Rolling Stone como um dos cem maiores discos de música brasileira.

Um disco ímpar, que rendeu duas obras primas, se formos falar de clipe. Os vídeos de “O que eu sobrou do céu” e “Minha Alma” levaram o Brasil a outro patamar quando o assunto é esse.

Se você não conhece esse este trabalho, não tem gabarito para empunhar a medalha de foda, fique na sua e saia fora.

Por que no TRIBUNAL DE RUA da vida, você não pode dizer ME DEIXA, muito menos esperar por CRISTO E OXALÁ, ou o que vai te restar é somente O QUE SOBROU DO CÉU, meu brother SE NÃO AVISAR O BICHO PEGA, e MINHA ALMA, não é LADO A LADO B da vida, ela é de FAVELA. Sou HOMEM AMARELO dou muito NÓ DE FUMAÇA nas dificuldades da vida e agradeço de coração A TODAS AS COMUNIDADES DO ENGENHO NOVO, tendo levar minha história na PALMA DA MÃO.

Este texto é dedicado a João Moraes, Ramon Lamoso, Fabricio Ofuji, Fábio Evangelista, Gustavo Sousa Cruz, Rodrigo Ramthum, Alex Rodrigues, Eduardo Nicholas e Vinicius Loures. Todos meus irmãos de Brasília.

* Marcelo Guido é Jornalista. Pai da Lanna Guido e do Bento Guido e Maridão da Bia.

Dezembro e a saudade (crônica republicada de Elton Tavares)

CACol_gio

Dezembro é sempre bacana. Lembro dos anos 90, eu e meus velhos amigos de recuperação ou já reprovados, tomando as saideiras do ano no velho Bar Xodó . Quem estudou no saudoso Colégio Amapaense quando o boteco existia lá no canto sabe do que falo.

Diziam que, da velha turma, ninguém “prestaria” pra nada. Afinal, como aquele bando de jovens biriteiros teria futuro? Sim, nós nos divertimos muito, mesmo com todos os sonhos e incertezas daquele momento. Quando não tinha grana para cerva, era rum, vodka ou cachaça. Nós éramos metidos a rebeldes (rebeldia muitas vezes sem sentido, natural de adolescentes).

Tempos de festas de garagem, estilo de vida meio Bukowski e com trilha sonora rock’n’roll, claro! Internet, Rede Social e toda essa modernidade era coisa de cinema. Eu tinha feito curso de datilografia (com o Werlen), estava aprendendo a mexer no MSDOS (programa de computador com tela preta e letras verdes) e tempos de disket. Quem tinha celular era rico e tocava sempre Legião Urbana. 

Bom, apesar de termos tomado cervas pra esta vida e para a próxima nos tempos do Xodó (ainda bebemos bem, mas não como naquela época), cada um seguiu seu caminho da melhor forma.Xodó

Só que eu, meu irmão Emerson (era o mais moleque entre nós) Walbene, Zeca (Edmar, também conhecido como poeta), Frank, Klinger, Negão (Helder), Junhão (Alessandro Rigamont Junior, Venilson, Topo (Josoelson), Rico, Juciram, Boca, Patrick, Sandro, Marruá (Lígia), Adriano (Bago), Índio (Rômulo) e Marcelo nos demos bem, sim!

Também fiz amizade com o Ewerton, Ismênia, Delano, Renato (Atayde ou Punk), Cacu (Elho), Anderson Favaceumagroho, Anderson Miranda, Newton Barata, Rodrigo (Juarez), Adelson, Zagalo, Rizandra, Jéssica, Glauci, entre tantos outros. É, fiz muitas amizades nos anos 90. A maioria delas bem sólidas e que me gabo de perdurarem após mais de 20 anos.

A maioria daquela galera formou e “vingou”. Quem não possui curso superior se garante na profissão que escolheu seguir. Claro que existem alguns que realmente não quiseram porra nenhuma com a vida mesmo. Mas isso é problema deles.xodoAlbino

Sinto saudade da velha turma, daqueles dias incríveis da nossa feliz juventude irresponsável. Mas tudo virou lembrança boa e experiência de vida, pois graças a todas as coisas bacanas e difíceis que passei naquela época, não me tornei um babaca que se norteia somente por teorias de vida. Aprendi muitos valores morais naqueles tempos.

Sim, dezembro chegou e com ele todo esse sentimento legal de fim de ano, de renovação, de esperança. E com este mês vem sempre a saudade dos que já partiram, dos amigos, dos tempos do bom e velho Colégio Amapaense e Xodó. Eu sempre escrevo sobre minhas memórias afetivas e essas estão no fundo do coração. 12400675_1957125681178307_1652223358896026548_n

Afinal, dia desses li a frase: “Saudade: sentimento do que valeu a pena”. E tomar todas aquelas cervas no bar do Albino com os velhos amigos do C.A. Valeu. E como. É isso!

Elton Tavares

*Texto republicado em todo início de dezembro e assim será enquanto eu sentir saudades de uma época mágica. 

DISCUSSÃO DE BAR – Pequenas histórias diárias (parte 2) – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Existem casos que acontecem com a gente que dão sentido à vida. Talvez sem essas estórias, historias e “causos”, a vida perderia um “Q” de graça e – por que não – o próprio sentido.

Isso realmente aconteceu comigo.

Bares da vida são lugares extremamente democráticos, onde sua condição financeira, classe social, escolaridade e outras congruências não fazem a mínima diferença. No bar, todos somos iguais.

Frequentador nato de botecos que sou, costumo interagir com vários tipos de pessoa. Quão divertido é toda essa simbiose de conhecimento inútil, tiradas inesperadas e palavrões. De tudo se aprende. É realmente um ambiente de saber, uma escola para a vida.

A discussão de bar deveria ser alvo de estudo pelas mais importantes universidades e centros mundo, porque em nenhum outro ambiente está concentrada uma gama tão grande de especialistas sobre os mais inimagináveis assuntos correntes.

Encontramos advogados de causas ganhas, engenheiros de obras prontas, historiadores de fofocas, técnicos de futebol, comentaristas de mesa redonda, craques de futebol, cozinheiros fantásticos, conselheiros espirituais; ou seja, uma verdadeira Barsa etílica.

Certa vez, me meti numa discussão em um bar. Assunto corrente: futebol, claro. Especialista que sou no jogo, não iria perder a oportunidade de mostrar ao meu oponente que não seria fácil ganhar a “quisinba”. O negócio estava feio.

Ringue montado, eu inspirado rebatendo todo tipo de argumento, as pessoas em volta vibrando, o tintilar dos copos americanos juntos aos cristais “Cica”, fumaça de cigarro. O oponente ia às cordas e voltava; eu já me divertia com tal situação. Na maior das tranquilidades, sem utilizar de argumentos ou ofensas pessoais (coisa rara em um bar).

Torcedor do Vasco que sou, é muito difícil ganhar discussões futebolísticas com teu time por baixo. Teu conhecimento sobre títulos, partidas memoráveis, artilheiros, história do clube e bons jogadores tem que estar em dia. E estava.

Em um ato impensável resolvi me levantar para consolidar minha vitória. Com o dedo em riste, me posicionei na frente do adversário e o impensável aconteceu.

Minha calça caiu. Putaquepariu! Nunca! Nem em meus piores pesadelos tal coisa tinha acontecido comigo. E todo meu conhecimento futebolístico não foi páreo para uma única frase do meu oponente:

“LEVANTA ESSA TUA CALÇA FILHO DA PUTA”.

Entre gargalhadas aleatórias, no qual tu tens que participar, se não acaba ficando enfurecido com o acontecido, fui derrotado.

Uso roupas quatro números maiores que o meu, desde a adolescência, e meus cintos nunca tinham me traído, até esse dia.

Duas coisas eu aprendi com tal episódio:

Não devemos ter plena confiança em nossos cintos e que ninguém ganha uma discussão com as calças abaixadas.

*Marcelo Guido é Jornalista, Pai da Lanna Guido e do Bento Guido e Maridão da Bia.

Hoje é o Dia do Evangélico

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Hoje, 30 de novembro, é o Dia do Evangélico. A data foi instituída no município de Santana e no estado do Amapá, em 2003 e 2004, respectivamente. Ambas as Leis foram homenagens aos evangélicos amapaenses, que de acordo com a história, formou-se mediante muitas perseguições. Os evangelizadores teriam sido vítimas de vários ataques. De acordo com a história, uma decisão radical do antigo vigário de Macapá, Padre Júlio Maria Lombaerd, ordenou a queima de livros dos protestantes em praça pública, com a ajuda da polícia e convocação da população.

Motivado pelas leis amapaenses, o então presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, por meio da Lei nº 12.328, de 15 de setembro de 2010, instituiu o Dia Nacional do Evangélico a ser comemorado em 30 de novembro de cada ano.

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De acordo com o G1 Amapá, 28% da população amapaense é evangélica. Cerca de 187 mil protestantes. Ou seja, a cada 10 amapaenses, 3 são da religião cristã.

Òquei!

Então, sou totalmente a favor da liberdade religiosa, ideológica e de expressão. Reconheço o importante trabalho social dos evangélicos, que combatem a pobreza, drogas, prostituição, fome e outros males sociais.

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Porém, sou contra a pregação sem limites de uma meia dúzia e a corrupção de poucos seguidores da referida religião. Neste caso, concordo com a minha amiga Juçara Menezes (jornalista manauara e ex colaboradora deste site): “gente que faz da Bíblia sua procuração para julgar a tudo e a todos”.

Não quero que este texto provoque a discórdia ou promova a intolerância. Só é uma análise sobre atos extremos. Não duvido da fé das pessoas, só não gosto da falta de compreensão dos carregadores de Bíblia para com os que NÃO querem ser evangelizados.
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Gosto do espiritismo. Já a maioria da minha família é católica e alguns são evangélicos. Acredito que todos procuram ser felizes com a religião que lhes parecer mais aprazível. Sou a favor da laicidade, tenho amigo evangélico, umbandista, espírita, messiânico, budista, católico, ateu ou jedi.

São pessoas diversas, diferentes e divergentes quando o assunto é religião. Mas realmente não me importo. Por mim, cada um com a sua devoção. Só não deixo que me digam o que fazer com a minha, pois não faço isso com ninguém e respeito a fé de todos. Acredito em Deus e graças a ELE, tenho uma sorte dos diabos,

Um grande abraço aos irmãos cristãos, sobretudo aos que exercem sua crença e fé com respeito com outras religiões. Parabéns aos evangélicos pelo seu dia!

Elton Tavares

Bar do Redondo – Conto de Luiz Jorge Ferreira

De onde estou posso vê-lo. Cercado de uma meia dúzia de pessoas, as quais eu não reconheço. Esta trajando laranja, cor que me lembra Yellow Submarine. Fala muito gesticula como se apanhasse uma mosca branca no ar. Os outros mais velhos o escutam com atenção.

Olho ao redor e encontro a mesa mais próxima. Puxo a cadeira e sento. Alguém pede um violão. Talvez ele cante Irene. Adoro Irene, penso enquanto aceno ao garçom. Que não encontra o violão. Plagiando a Irene que conheci em Belém do Pará. Das palavras dos gestos e dos planos loucos de democracia plena. No meio da vigilância noturna da polícia política, em meio a Festa de Arraial na Igreja de São Raimundo. Pichando muros.

Igreja Matriz de São Raimundo Nonato, padroeiro do Bairro da Aldeia e a Praça do Centenário. Fotografia do acervo de Edenmar da Costa Machado.

O bar está quase deserto. Afora as pessoas que estão com ele temos um casal sentado perto do palco, um tablado mais alto que o assoalho uns quinze centímetros. Atores. Ela vestida de abelha e ele de rei. Provavelmente o Rei da Escócia. Provavelmente vindos de uma peça.

O pano que cobre a mesa de Caetano tem a figura do Zodíaco. Talvez ele role os dados.

Estalo os dedos para o garçom, um velho conhecido dali mesmo, eu um solicitador frequente de seus serviços.

Chico! Sai um Gim! Chico parece não me escutar. O bar está às moscas. Mas o ar parece pesado. E ainda são duas e meia da manhã. As cerejas que carrego amassadas no bolso da japona espreitam no fundo do copo. O palito espetado, balança como fosse pêndulo, sem Norte.

Arranco a cutícula do dedo mínimo da mão direita. Não ergo a voz receio gritar desafinado e chamar a atenção deles. Batuco os dedos na mesa como um ritmo Caribenho. Eles me olham e sem dar importância voltam aos seus assuntos. Bebem vinho do Porto.

Abro meu livro de Saint Exupéry e finjo ler. Caetano está de safári e sandálias. Amarra os cabelos com um cordão de rastafári. Finjo ler por que logo levanto para ir ao banheiro. E passo bem perto deles. Discutem Joyce. O monólogo. Um dia apenas de setecentas páginas.

Volto, eles já se foram. Vinte anos depois, em 1988, no dia 8 de Agosto. Volto aqui. Só. Com medo da noite. Não da polícia política. Dos assaltadores. O bar cedeu duas metades esquerdas, uma para a cafeteira americana que serve café com hortelã e mostarda e a outra parte para que guardem carrinhos de amendoim e de vendedores ambulantes quer entopem o centro da cidade, com suas guloseimas inúteis.

Sento à mesa descascada que parece eternizar-se ali. Chamaria o Chico, garçom para que me trouxesse um Gim. Mas Chico morreu. Tento estalar os dedos para chamar o que se esforça para entre as mesas muito próximas rápido para chegar aos clientes, mas nada. Os dedos já não emitem som quando os estalo. Tento batucar com eles um som Caribenho, eles se contorcem sem êxito. Sai um som desafinado e sem definição.

O garçom chega e peço um guaraná diet. Puxo o cachecol. Sobra um medo, filho da revolução, e da sua polícia política. Um tremular de mãos agiganta-se. Herança ganha do exílio e das torturas físicas e psicológicas. Tudo tem um leve sabor amargo, distante. Parece que só me contaram. Tudo agora é historia com h minúsculo.

Bebo todo o copo de guaraná com duas pílulas coloridas. Esqueço o ritmo dos dedos. Parece que passo pela mesa. E ainda Joyce e agora outros que nas palavras que abortaram, perpetuaram-se, inclusive ele.

Vou ao banheiro devagar, entro retiro o tampão da sonda e solto a urina politicamente correta. Olho para a sonda alaranjada. Olho no espelho enquanto lavo as mãos. Há um senhor de idade refletido no espelho. Talvez seja ele que se lembre de Irene e não eu.

Vinha aqui para curtir a solidão desde a época do cursinho. Hoje parece que ela nunca deixou de ser minha. Vinte anos depois imagino que este lugar ainda esta lotado. Mas não está. Volto, eles já se foram. Todos se foram. Inclusive Irene de Belém do Pará, a que fingia me namorar encostando-se à parede enquanto pichava. Abaixo a Ditadura.

Eu saio como entrei. Calado. Nem a garoa, me acompanha. Na banca. Há uma manchete no jornal que diz que Fidel Castro foi operado. Está solitário, doente, e muito mal.

Até ele?

Luiz Jorge Ferreira

*Do livro de Contos “Antena de Arame” – 2° Edição 2017 – Rumo Editorial. São Paulo. Brasil.

Pequenas histórias diárias: A BONDADE HUMANA

Por Marcelo Guido

Existem casos que acontecem com a gente que dão sentindo à vida. Talvez sem essas estórias, histórias e “causos”, a vida perderia um “Q” de graça e – por que não dizer – o próprio sentido.

Isso realmente aconteceu comigo.

Corria o ano de 2018. Minha esposa encontrava-se, na época, desconfortável com sua forma. Por mais que dissesse que não via problema, a nega – como carinhosamente costumo chamá-la – andava meio pra baixo. Tomou a decisão de começar a se exercitar, logicamente foi apoiada por mim (quem é marido sabe do que estou falando). Modalidade escolhida: corrida.

Mas não seria uma corrida qualquer, seria MATINAL! Isso mesmo, meus caros leitores: a nega sairia nos primeiros raiares de sol; o cantar do galo seria seu primeiro compromisso, quando a madrugada se despedisse, ela estaria prontamente vestida com roupa colada, meias grossas, uma camisa minha (claro que não vou mostrar o que é meu) e um indefectível rabo de cavalo. Estava pronta a nova etapa da vida.

Um detalhe – e que detalhe! – é que temos um lindo e belo rebento. Por isso precisávamos da colaboração de todos em casa. Escutei a seguinte frase no começo da empreitada “vou começar a correr, e tu vai acordar e FICAR com o Bento”. Quem seria eu pra discordar dela, além de amar muito a nega eu me AMO muito.

Poderia ser pior, a missão poderia ser “vou correr, e tu vai CORRER comigo”, quem me conhece sabe que não sou muito chegado a desgastes.

Eis que a Nega se vai, correndo feliz em busca de seu objetivo e eu pude ficar dormindo feliz em minha cama até que… ele acordou. Sim o Bento, precisamente às seis horas da manhã de um domingo, abriu seus olhos e sua primeira palavra foi “mamadeila”. Acabou meu sossego.

Fazendo a bendita massa para saciar a fome do pequeno, com os olhos repletos de remela e quase fechando me queimei com a água. Vendo meu filho consumir o conteúdo do recipiente com a voracidade de um peregrino imaginei que o mesmo iria encher a pança e voltaria a dormir. Ledo engano.

O “mi hijo” sentiu a falta da presença da mãe, começou um choro infernal – que rapidamente me despertou – e eu tentava acalmar com todo tipo de gracejo, imitava bicho, voz fofa, carregava no colo e nada; o choro tomava conta do ambiente e quem ouvia poderia imaginar a surra que Jesus levou no filme do Mel Gibson (spoiler: ele ressuscita).

Desesperado sem saber o que fazer, ele me deu a dica “papai descer”. Como assim filho, são sete e quinze da manhã – volta o choro. Não tem argumento melhor que um choro no “pé do escuta rock”.

Descemos, meu filho de fralda e chinelinha e uma mamadeira – a segunda da manhã na boca – e eu mais desgrenhado que um urso, a barba arrepiada, sem camisa com um short folgado e descalço. Eu era um misto de Bicho-Papão com poodle maltratado.

Começamos o nosso rolé (isso mesmo, rolê é coisa de paulista).

Primeira parada: Praça da Bandeira, os poucos transeuntes que se arriscavam a estar pelo passeio público naquele momento se assustavam com minha figura. Meu filho com a desenvoltura e disposição de um cão “sajico”, e eu tão disposto quanto uma velha múmia.

Seguimos, atravessamos a rua e eu comecei a imaginar onde iriamos parar se fôssemos adiante na Avenida Iracema Carvão Nunes, felizmente ninguém na rua. E paramos na Praça do Barão.

Aquela areia amarela, pisada, puxando mais para um laranja. Meu filho se encantava . E eu só queria dormir.

Eis que a poucos, uma nobre senhora vem se aproximando de nós e munida de sua bolsa e vestes sóbrias começa a nos indagar: “Pelo amor de Deus, onde vocês passaram a noite?” Continuando sem me dar chance de resposta “essa criança já comeu algo hoje?” “Jesus amado, tome senhor; é pouco mais o senhor pode tomar um café”. Juro, pela felicidade dos meus filhos, que quis me enterrar naquele campo. Expliquei e agradeci do fundo do coração, que não havia a necessidade, eu agradecia muito sua ajuda mas que tinha passado uma noite tranquila em minha casa, que por sinal era ali pertinho. “E a mãe dele, está onde, que não sabe que ele está assim até uma hora dessas?”. Eu olho para a quadra de basquete e vejo minha nega voltando de sua de sua corrida.

Agradeci aquela nobre alma e voltei com meu filho no colo, minha nega suada e eu rindo, por ter sido confundido com um morador de rua.

Existem pessoas no mundo que ainda se preocupam com o próximo. E isso é muito bom.

Outro dia eu conto mais.

*Marcelo Guido é jornalista, pai da Lanna Guido e do Bento Guido. Maridão da Bia.

38 anos do soco de Anselmo Vingador – Um texto para flamenguistas

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Como bom flamenguista, sempre leio, assisto e ouço tudo sobre o Flamengo. Entre os títulos conquistados pela máquina rubro-negra dos anos 80, comandada por Zico, um fato marcou a Libertadores de 1981, conquistada no dia 23 de novembro daquele ano: um soco. Sim, uma porrada desferida por Anselmo, atacante do Flamengo no zagueiro Mario Soto, do clube chileno Cobreloa.

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Vamos por partes. Depois de passar invicto até a final, o Mengão, campeão brasileiro de 1980, decidiu com o torneio com o Cobreloa. No primeiro jogo das finais, realizada no Maraca, o time da casa venceu por 2×1, com dois gols de Zico. Na partida de volta, no Chile, o time do Flamengo apanhou muito dos donos da casa (agressões mesmo), liderados pelo zagueiro Mario Soto (o brabão) e acabaram ganhando o jogo por 1×0.

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Nessa partida, o Mengo ficou desfalcado dos jogadores Lico, com um corte na orelha e Adílio, ferido no olho. Ambos abatidos pelo defensor chileno. Li em algum lugar que ele agredia os jogadores brasileiros com uma pedra no punho fechado, se é fato, não sei dizer. Relatam jornais da época que o próprio Pinochet (um dos enviados de Satanás à Terra), nas tribunas, virou-se para um adepto e disse chocado: “Não está exagerando, o nosso Mario Soto?” Imagine como o cara estava “virado no cavalo do cão”…

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Então rolou a “negra”, uma terceira partida, em campo neutro, realizado há exatos 38 anos, no Estádio Centenário, em Montevidéu, no Uruguai. O Mengão, que tinha infinitamente mais bola, venceu pelo placar de 2×0, com dois gols do Galinho.

Mario Soto, do Cobreloa do Chile, após levar um soco de Anselmo, do Flamengo, na finalíssima da Taça Libertadores da América de futebol. Montevidéu, Uruguai. Publicada na revista Placar, edição 1206, em 1223/11/2001, página 37.

Mas ainda faltava a forra contra Soto, foi aí que, no finalzinho do jogo, o técnico do Mengo, Paulo César Carpeggiani, chamou Anselmo, um jovem atacante de 22 anos, e disse: “ vai lá e dá um soco na cara do Mario Soto”. Anselmo entrou na partida, se aproximou do zagueiro chileno e, na primeira jogada, deu um pau na cara do chileno, que foi a nocaute. O lance causou um porradal, o jogador do Flamengo foi expulso junto com Mario Soto. A decisão logo acabou e o Flamengo virou campeão da América.

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Depois foi só festa. No desembarque do time no Galeão, a delegação se deparou com uma imensa faixa escrito: “Anselmo vingador!” Pronto, Anselmo era tão herói quanto Zico. Mesmo suspenso, o “Vingador” viajou com o time para o Japão, onde o Mengão derrotou o Liverpool e sagrou-se Campeão Mundial Interclube, em 1981.

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Li várias reportagens sobre este fato, mas as duas melhores declarações foram:

Este episódio exprime uma contradição insolúvel do futebol e da vida. Todos nós temos discursos humanistas e politicamente corretos em favor do espírito esportivo e do sentimento cristão. Mas quem sofre uma agressão covarde não esquece. Futebol é arte, balé, xadrez, mas é um jogo viril e abrutalhado em que façanhas como a de Anselmo refletem o alto grau de testosterona e de agressividade primitiva que nos leva a correr atrás da bola. Nosso lado civilizado homenageia aqueles que descartam a vingança física e se contentam com dar o troco na bola e no placar. Mas dentro de cada fã do futebol existe um brutamontes-mirim que não resiste à poesia de um murro bem dado” – Jornalista Braulio Tavares – Jornal da Paraíba.

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Tenho sobre essa porrada uma tese irrefutável – ali, graças a Anselmo, as ditaduras latino-americanas que assombraram o continente durante a Guerra Fria começaram a desabar. O destino do próprio Pinochet foi selado naquele momento. Não é a toa que, em recente pesquisa publicada na Inglaterra, acadêmicos de renome consideraram que as três quedas mais impactantes da história foram a do Império Romano, a do Muro de Berlim e a de Mario Soto na final da Libertadores.” – Luiz Antonio Simas, professor carioca.

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Anselmo Vingador!

Bom, acredito que em certos momentos, extremos claro, um murro vale mais do que mil palavras (risos). Aquele soco lavou o peito de milhões de rubro-negros. Viva o Mengão e o Anselmo Vingador! Há 38 anos, direto do túnel do tempo…E hoje seremos novamente campeões da América. Mengão sempre!!

Elton Tavares – Jornalista e flamenguista em tempo integral (e bom de porrada, rs).  

20 de Novembro Dia da Consciência Negra – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Por que precisamos desse dia?

Criada em 2003, a data nos remete ao passado e tem o intuito de fazer uma reflexão da inserção do negro na sociedade brasileira, escolhido o dia 20 de novembro não à toa , já que é a data atribuída à morte de Zumbí dos Palmares, um dos maiores e históricos lideres negros que já habitou nossa pátria.

Mas por que ainda hoje precisamos refletir se somos no papel um país multirracial, se nosso sangue miscigenado encantou o pai da seleção natural Charles Darwin, se nossa sociedade é tropical, abençoada por Deus e bonita por natureza ?

É amigos, quem nos dera não precisar! Vivemos um verdadeiro “apartheid” não oficial. Isso porque a política nefasta, que por muitos anos foi responsável pela segregação na África do Sul, é aplicada em nosso país na pior forma, a forma oculta.

A necessidade de uma data oficial como essa é para lembrarmos que a cada 100 vítimas de assassinatos no Brasil , 71 são negras, que a extrema maioria de nossa massa carcerária nos presídios é negra, que a maioria das famílias que vivem na miséria no Brasil é negra. Por isso a reflexão.

A dívida que se tem com o povo afrodescendente é mil vezes maior , foram 400 anos de escravidão, marca essa que para poder tirar de nossa história, precisaríamos ser redescobertos.

O Brasil foi um dos últimos países a deixar de ser escravista. Por isso a reflexão. Para mostrar para muitos que politica de cotas raciais, instituída no Brasil apenas em 2014, não trata-se de uma esmola, e sim de uma reparação histórica para com o povo negro. Por isso a reflexão.

Pra lembrar a todos que foi só a partir de 2003, mais exatamente no dia 09 de janeiro, com o advento da lei 10.939, que o currículo escolar brasileiro teve que colocar a temática “Historia da Cultura Afro –Brasileira” para que os alunos pudessem entender o por que do respeito com a cultura Afro.

Só por esses aspectos, o dia da consciência negra já se faz necessário.

Refletir sobre os erros para que nunca mais eles sejam repetidos, para que o jovem negro possa ter orgulho de sua raça, origem e cor. Por mais cabelos naturais e menos alisamentos nas meninas . Que o orgulho negro seja realmente reconhecido.

Precisamos deste dia para saber que ascensão social do negro não é um favor, e sim um direito. Para que as escolas, repartições e universidades sejam sim um espaço de ampla inclusão.

Zumbi vive em cada jovem médico negro, em cada advogado negro em cada ministro negro, em cada professor negro.

Para que intelectuais históricos, como Machado de Assis e Castro Alves possam ser referenciados como realmente foram.

Para que o elevador social que é quase um templo- já diria Jorge Aragão – seja esquecido e realmente fique no passado. Para que Wilson Simonal saia do limbo cultural o qual foi colocado.

Para que máximas como a do grande educador Paulo Freire , reconhecido mundialmente pelos serviços prestados à educação, sejam enterradas de vez: “os negros nascem proibidos de serem inteligentes” .

Para que nossa sociedade seja mais justa e menos hipócrita.

Viva Zumbi, Cartola, Ivone, Jovelina, Mano Brow , Ben Jor, Leci, Serginho Chulapa , D2, Tony Tornado, Tim Maia, Mussum e todos aqueles que um dia lutaram por igualdade, meu máximo respeito.

Um Salve para todos os negros.

*Marcelo Guido é Jornalista, Pai da Lanna e do Bento e maridão da Bia.

Nossos Batuques – Por Fernando Canto

Por Fernando Canto

O batuque é uma parte do conjunto de atos que acontecem em louvor aos santos de Mazagão, Igarapé do lago e Curiaú. Ocorre durante e após as obrigações religiosas de uma vasta programação festiva, na qual os membros dessas comunidades têm grande e ativa participação. Consiste ainda na música e dança próprias, caracterizados pelo ritmo rápido produzido por instrumentos rusticamente confeccionados por artesãos locais.

No Igarapé do Lago, durante a festa de Nossa Senhora da Piedade, são usados tambores como o “cupiúba”, feito da árvore “cupiubeira”. Este tem um metro de comprimento e serve para fazer a marcação rítmica; o “macacaúba”, feito da árvore do mesmo nome e o “cajuna”, o menor deles, usado mais na procissão, preenchem os vazios da marcação do batuque, onde também são utilizados a “taboqueira”, espécie de ganzá feito de “taboca” em cujo interior se põem grãos de milho e sementes de tento, e o “rapador”, confeccionado com bambu, com gomos escavados por fora e tocados com uma vareta. Os pandeiros são feitos de tiras de árvores, couro de animais e fichas de refrigerantes. São utilizados ainda o clarinete, o violão, o cavaquinho e a viola. Quando tocam nos salões, um pedaço de pau chamado “rolete” é posto sob os tambores para que os batuqueiros tenham maior comodidade.

Já no Curiaú o batuque era realizado somente na festa de São Joaquim, padroeiro do lugar, ou em comemorações especiais, porém hoje, devido à diversificação de devotos de outros santos, ocorre diversas vezes ao ano, não necessariamente no só centro comunitário, mas nas casas dos promesseiros. Ali, os dois (ou mais de dois) tambores utilizados têm o nome de “macacos”. São eles, o “amassador” e o “repinique”, feitos da árvore do “macacaueiro”. O primeiro tem a função de marcar e o segundo de dobrar o ritmo. Seus pandeiros (três) são feitos com a madeira do cacaueiro e do couro de carneiro ou de sucuriju. Da mesma forma que no Igarapé do Lago, os batuqueiros do Curiaú tocam seus tambores, sentados neles, que ficam sobre um tarugo de acapu, inclinados, para melhor repercutirem. Do lado de fora do salão, onde ocorre o batuque, fica permanentemente acesa uma fogueira para esquentar e esticar o couro dos tambores e pandeiros.

Durante as festas realizadas em louvor a Nossa Senhora da Piedade, em Mazagão Velho e Ajudante, o batuque é tocado em dois tambores, sendo que um terceiro batuqueiro, sentado no tambor de marcação ou “amassador”, toca com duas baquetas na parte traseira do tambor “repinique”, para incrementar o ritmo. A “taboqueira” e o “rapador” também fazem parte do grupo de instrumentos da percussão do batuque.

Outro ritmo amapaense que muito se assemelha ao batuque de Mazagão Velho, pela forma de ser tocado é o “Zimba”. Esse nome não tem relação com o que diz Mário de Andrade, no seu Dicionário Musical Brasileiro. O musicólogo explica que o nome vem significar o mesmo que “sanza”, um “instrumento de lâminas, percutidas com os polegares, também conhecido como “zimba” e “kibanda” entre os Babunda e os Bakwese (África), classificado nos grupos das marimbas ou m’bichi, por Stephen Clauvert. O zimba, enquanto música e dança folclórica, é praticado na localidade de Cunani, município de Calçoene. Suas músicas e formas de dançar são semelhantes ao Carimbó da costa paraense, uma área geográfica habitada por pescadores tradicionais que se fixaram no litoral do Amapá.

*Fotos surrupiadas dos blogs Som do NorteAmapá, minha amada terra!.