O FERNANDO DE TODOS NÓS – Crônica de Carlos Bezerra (*)

Meu querido amigo e herói literário, Fernando Canto. Foto: arquivo da família Canto.

Por Carlos Bezerra (**)

Sou um homem de sorte, para a tristeza dos meus inimigos, que eu os tenho e muitos., pois não aceito compactuar com a lassidão moral que devasto o mundo no geral e o Brasil no particular, recusei-me a morrer há uns anos atrás, de modo que continuo vivo, lépido e lampeiro.

Graças a isso tive o privilégio de participar do lançamento do livro “O Bálsamo e Outros Contos Insanos”, do escritor amapaense (o Pará das nossas origens que me perdoe) Fernando Canto.

Foi uma noite de gala para a nossa incipiente, mas nem por isso, menos viçosa Cultura. Presentes, amigos de todos os naipes. Escritores, compositores, poetas e cantadores, alguns já de renome, outros nem tanto, mas todos, ímpares nos seus campos de atuação. Uma noite de alegria, de confraternização, de fé e de esperança nos destinos da nossa tão maltratada terra. Noite de música. O Grupo Pilão, impecável como sempre, nos remete para a beleza e a angústia das nossas florestas ancestrais. A presença de Manoel Sobral, Zaide, Obdias, Jamil, Luiz Guedes, Hélio Pennafort, Bomfim Salgado, Isnard Lima, Graça Vianna, Manoel Bispo, Vitória, Hernani Guedes, Zé Miguel, entre tantos outros, nos dá ideia dos que compareceram para levar o abraço, o carinho e o incentivo ao nosso escritor do qual o Brasil ainda ouvirá falar. É possível que esteja possuído do puxa-saquismo mais deslavado mas, um dos meus credos é o de que os meus amigos não têm defeitos. Quanto aos inimigos, se não os tiverem, eu arranjo um.

Fernando Canto – Caricatura do artista plástico e ilustrador J. Márcio. Colorida pelo designer Adauto Brito.

Fernando Canto é uma das mais belas páginas do livro extraordinário chamado Amapá. O Amapá das ruas poeirentas, do motor de luz na praça da igreja, do Trapiche Eliezer Levy, da Doca, do Merengue, da Piscina Territorial, da nossa juventude perdida que não voltará jamais, nem ela nem as ruas seguras e casas idem, pela ausência de maldade dos macapaenses de então. Fernando torna mais verdadeira a afirmação do nosso poeta maior, Álvaro da Cunha, quase esquecido mas nem por isso menor: “A lua minguante do Amapá, brilha mais do que a lua cheia de qualquer outro lugar”.

O Brasil e o mundo tiveram muitos Fernando: o Noronha, o Católico, O Lopes, o Dias, o de Magalhães, o de Melo e atualmente o Cardoso. Nós, amapaenses, tivemos mais sorte. O nosso Fernando é Bálsamo, é literalmente Canto.

Jornalista Carlos Bezerra – Foto: Tribuna Amapaense.

(*) Crônica publicada no jornal Diário do Amapá. Macapá, sexta-feira e sábado, 18 e 19 de agosto de 1995.
(**) Jornalista e cronista amapaense, in memoriam.

Das tristezas invisíveis de todos nós – Crônica de Lú de Oliveira

Crônica de Lú de Oliveira

Não é comum que alguém às vezes nos fale: Você parece triste hoje. Comumente respondemos: Ah… impressão sua. Não, não é. Na maioria das vezes, a tristeza existe e é real, porém a tornamos invisível. Eu por exemplo, não costumo falar das minhas tristezas. Elas são minhas e ponto final. Não é que eu seja egoísta, mas de que adianta espalhar que estou triste se ninguém poderá resolver minha situação?

Vivemos num mundo onde as pessoas comumente são curiosas. Querem a todo custo saber o que se passa na vida alheia. Para quê? Não sei. “Fuçam” nas redes sociais para ver se conseguem alguma informação com respeito às nossas vidas.

Havendo informações, começa o “disque-disque”. Alguém pode dizer: Ah, ela finge que é feliz nas redes sociais mas vive num “inferno”. Definitivamente não é isso. Quando estou um pouco “triste”, as pessoas percebem. Minha vida não é um mar de rosas, mas também não tenho tanto a reclamar… Tenho muito mais a agradecer. Aliás… só tenho a agradecer.

Tenho tido muitos motivos para profundo agradecimento… isso vale também para as tristezas. Os problemas nos fazem crescer. Nos fazem buscar soluções. O que não é benção. é lição. Não vou “agigantar” problemas. Vou buscar soluções e/ou, conformar-me com o que não pode ser mudado.

Isso… Bola pra frente! Meu falecido pai sempre dizia: “Levanta, sacode a poeira e dá volta por cima”.

Então… Vamos lá!

Beijos da Lú!

“Aqui é meu Bairro”: antigo paredão deu origem ao nome do Beirol

Por meio do projeto “Aqui é meu Bairro”, a Prefeitura de Macapá tem como objeto a nova delimitação e definição dos bairros da cidade. Por meio de Projeto de Lei, propõe a alteração, delimitação e criação de bairros no município de Macapá. A proposta legislativa apresenta 61 bairros devidamente individualizados, por intermédio de georreferenciamento, com sua espacialização dentro do perímetro urbano devidamente definida.

De acordo com o historiador Edgar Rodrigues, o nome do bairro Beirol é oriundo de um antigo paredão existente ali, no fim do século passado. O paredão servia de referência para que os artilheiros da Fortaleza de São José de Macapá praticassem o tiro ao alvo, usando os centenários canhões da fortificação. A crônica da época conta que o padre Gregório Álvares da Costa, terceiro vigário de Macapá, se destacava como exímio artilheiro nestes exercícios. A ele competia dar lições de tiro e de arte militar aos soldados da fortaleza. Os exercícios de tiro ao alvo eram praticados nos dias santificados e nas datas cívicas.

Logo após a implantação do Governo Territorial, foi construído no local, que ainda não se chamava Beirol, o primeiro presídio de Macapá, mas também ficou conhecido com o nome do bairro. Assim desfaz-se o comentário tradicional de que o bairro tivesse se originado do presídio. No local, encontravam-se a maioria das estações transmissoras das emissoras de rádio e televisão do Amapá; as antenas da Embratel [local onde está localizado hoje o Conjunto Mucajá]; o balneário do Araxá.

Atualmente, pode-se encontrar no bairro a sede campestre do Sesc, a estação de tratamento de água da Caesa, quartel da Polícia Militar do Amapá, uma Unidade Básica de Saúde, Centro Didático Esportivo, Centro Integrado de Atendimento ao Público para emissão de documentos e a Paróquia São Pedro.

A prefeitura convida a população da cidade de Macapá a participar da consulta pública. Os interessados em conhecer, opinar e contribuir com este trabalho, que resultará na aprovação de uma Lei, devem enviar suas contribuições até 27 de agosto de 2020, por meio do cadastro e preenchimento do Formulário de Consulta Pública, no link: https://macapa.1doc.com.br/b.php?pg=wp/detalhes&itd=12.

Secretaria de Comunicação de Macapá
Cliver Campos
Assessor de comunicação
Contatos: 98126-0880 / 99175-8550
Fotos: Gabriel Flores

Quem tem “medinho” de assumir que tem medo? – Crônica de Lú de Oliveira

Crônica de Lú de Oliveira

Tenho medo de aranha. Tenho uma teoria, seria isso? Não sei. Tenho uma ideia fixa que, se você tentar e não conseguir matar uma aranha, ela vem e tenta se vingar de você. Sei disso.

Na minha casa sempre aparecem aranhas grandes. Eu as mato. Às vezes com dificuldade e “muita” luta. Uma vez, comecei uma situação com uma aranha umas 21h e terminei de madrugada. Ela se escondia e depois voltava e aparecia bem perto de mim. Juro! Eu tinha certeza que ela queria se vingar por eu estar “tramando” a sua morte.

Mas meus medos não param por aí. Tenho medo de fantasma, assombração e coisas do tipo, até porque, tenho algumas histórias “sinistras” na minha vida com relação a isso. Leia a postagem da casa mal assombrada e entenderá tudo.

Meus medos não param aí. Tenho pavor de ficar doente. Tenho horror a altura. Tenho medo de pessoas desequilibradas, é… sabe aqueles malucos que saem atirando ou esfaqueando todo mundo? Só o fato de pensar em ser ferida de arma branca, já me causa arrepios. Então… tenho medo de levar choque elétrico ou anafilático. De acidente de carro, de ônibus, avião, bicicleta ou até mesmo de ser atropelada na rua ou estar andando e “pumba”: cair em um buraco e quebrar uma perna! Tenho medo de raios e trovões, e de terremotos, maremotos e afins. Tenho temor das pessoas que odeiam e fofocam, e julgam e condenam. Fico apreensiva quando tenho pesadelos, tenho verdadeiro pânico de que as coisas aconteçam na realidade.

Quando eu era criança, tive por muito tempo, medo que um bicho entrasse no meu ouvido e “comesse” meu cérebro. Parece uma coisa comezinha, mas confesso, deslavadamente que passei mais de um ano dormindo com touca para proteger as orelhas. Lembro que certa feita, li um livro de terror – O cemitério, do Stephen King – meu Deus! Fiquei literalmente aterrorizada por muito tempo. Meu cérebro processava o que eu lia e as imagens apareciam na minha frente como um filme. Eu queria dormir com a luz acessa, mas minha mãe não deixava, falei que estava com medo e ela deu a dica: acende uma vela pro seu anjo da guarda, gostei. Meu anjo também, já que recebeu luz por quase um ano.

Decididamente, não posso assistir filmes de terror. Não consigo dormir. Tenho medo da morte. Não do fato de morrer em si, mas daquela coisa: e depois? Para onde vou? Vou?

Pois é. Sou assumidamente uma medrosa. Será? Acho que bem no fundo não sou. Sou apenas uma pessoa que não tem medo de falar que tem medo. Que assume que é vulnerável mesmo sendo “corajosa” diante de situações inusitadas. Um ser muito forte que enfrenta situações de risco, mas que ainda conserva um inestimável respeito a uma simples e aparentemente inofensiva barata. Que tem a ousadia de um guerreiro para participar de um esporte de luta, mesmo que com adversários notadamente mais fortes, mas que foge de uma mera contenda.

Tenho medo dos políticos inconsequentes que desviam verbas e isso me faz ter medo do hospital público, da segurança pública, de depender um dia de um abrigo de idosos que seja de administração pública. Tenho medo que novamente façamos as escolhas erradas e paguemos caro por isso. E você? Tem medo do que? De quem? Espero sua resposta. Beijos da Feia.

Sim. Os sonhos também mudam – Por Lú de Oliveira

Por Lú de Oliveira

Os sonhos mudam e não há problema nenhum nisso… Quando eu tinha 17 anos, meu sonho era ser atriz. Cheguei a fazer um curso livre em Curitiba, no Solar do Barão e circulava no meio. Por várias questões, meu sonho ficou paralisado e a vida foi me levando por outros caminhos. Sim. Outros sonhos foram aparecendo. Agora, depois de anos, a vida me apresentou a oportunidade de realizar aquele antigo sonho… o sonho dos 17 anos. Fiz o ENEM e entrei para a Federal fazendo o quê? Teatro. Os primeiros meses foram maravilhosos; “coleguinhas” novos, descobertas, leituras e muito trabalho… Só que com o passar dos dias fui me convencendo cada vez mais que meus sonhos mudaram. Meus ideais hoje são outros, minhas prioridades mudaram e aquilo que eu pensava ser um sonho, hoje já não tem mais importância. Minha realidade mudou. Eu mudei!

A arte está impregnada na minha vida, mas em uma nuance diferente: hoje sou uma feliz Contadora de Histórias e é isso que quero fazer até o restante dos meus dias. Se aparecer uma oportunidade, vou atuar, mas sem correr atrás daquele sonho de mocinha. Acordei. E você? Deixou algum sonho para trás? Acorde! Talvez viver o hoje, o aqui, o agora, seja mais importante que tudo! Em tempos de COVID, ficar vivo, hoje é o foco.

Hoje também é o Dia do Estudante e do Garçom. Minha homenagem a eles!

Além do Dia do Advogado, explicado em outra publicação desta terça-feira (11), hoje também é o Dia do Estudante e o Dia do Garçom. Não encontrei a origem da data para os queridos servidores de mesas, mas o importante é lembrar desse profissional que sempre nos trata com atenção e carinho. Já para os que estudam, o motivo tem a ver com a data em que foram criados os dois primeiros cursos de nível superior no país: Ciências jurídicas e Ciências sociais. Isso ocorreu no ano de 1827, por decreto de D. Pedro I.

Eu, na faculdade de Administração e Marketing, antes de cursar jornalismo.

Nunca fui um bom estudante. Na verdade, sempre fui um aluno relapso, irresponsável e vadio, mas tive que me espertar depois de adulto e estudar para “ser alguém”. Bom, acho que tá deu certo.  Portanto, hoje saúdo a todos os que correm atrás na difícil missão de estudar. Muitos viram noites, aturam professores chatos (a maioria dos mestres são legais, mas tem cada “abençoado” otário)  e devoram livros para serem profissionais e viver seus sonhos.

Já os valorosos e fundamentais garçons são especiais. Falarei um pouco sobre este admirável profissional. Dou valor neles, de fato. Se for gente fina então, gosto mais ainda. Muitas vezes com atendimentos personalizados, esses profissionais se tornam personagens “folclóricos” na história de um bairro, comunidade ou mesmo cidade. “Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda”, como disse o escritor Antonio Prata, “gostamos de trocar ideia no boteco, até mesmo com estes nobres trabalhadores”.

Arte de Ronaldo Rony.

Naqueles espaços democráticos chamados de bares – antenas sociais, segundo o amigo Fernando Canto – em que nós, halterocopistas convictos, nos deliciamos com cervejas enevoadas, garçons são anjos. Se forem do tipo que dão o “choro” da bebida destilada, não roubam na hora do bêbado pagar a conta e, às vezes, ainda dão aquela cerva “de ganho”, com certeza viram brothers e ainda  asseguram a assiduidade e amizade dos clientes.

Adoro fazer amizade com garçom. De chamar pelo nome mesmo e, se der, que ele beba comigo no final de seu trampo. Esses caras regam nossos papos, enquanto rola a velha difusão de idéias, devaneios porretas, ou mentiras engraçadas. Sim, molhar a palavra depende desses figuras.

Acredito que o bom humor e paciência são fundamentais para esses ilustres profissionais. Já conheci muitos garçons nesses meus 29 anos de birita. Alguns folclóricos e outros ranzinzas.

Meus parabéns e homenagens a eles, funcionários exemplares na arte de servir aos boêmios gorozeiros. Amigos, aquele abraço!

Elton Tavares

E se eu matasse alguém? – Crônica de Lú de Oliveira

Crônica de Lú de Oliveira

Nossa! Que pergunta mais “estapafúrdia”. Não é? É. Mas essa é ideia. Fiquei pensando muito na questão das amizades sinceras e nas pessoas com as quais podemos contar nos momentos mais difíceis das nossas vidas. Não achei nenhum exemplo melhor do que esse.

Vejamos: Quando ficamos doentes, muitas pessoas nos auxiliam: amigos, vizinhos, parentes, “aderentes”, conhecidos e até estranhos. Quando precisamos de dinheiro, sempre tem um parente mais abastado ou um amigo “bonzinho” e generoso que pode nos socorrer, sem contar que temos a opção mais simplificada de “socorro” que são os empréstimos, consignados e afins. Quando o assunto é coração partido, sempre tem um ombro amigo pronto para ouvir as lamentações e dar aqueles “valiosos” conselhos, sempre com prestimosos lenços para secar as lágrimas que nesses casos, teimam em cair. Mas e se você, por qualquer motivo, matasse alguém? Com quem poderia contar?

Fiquei imaginando aquele primeiro impacto da notícia. Quantas pessoas seriam capazes de perguntar como você está mesmo antes de perguntar porque você fez o que fez? Quantas seriam capazes de pensar na sua inocência mesmo antes de saber os detalhes do fato? Quantos iriam te acompanhar na delegacia, enfrentar a mídia, te visitar no presídio por anos a fio? Sem contar que, no início, quando acontece uma tragédia dessas, muitas pessoas aparecem para prestar solidariedade, no início, visitam, apoiam, conversam, mas com o passar dos dias, das semanas e dos meses, tudo vai caindo no esquecimento. A vida continua, pelo menos para eles.

Fiz essa pergunta para vários colegas, um deles, o Setúbal, disse que contaria apenas com três pessoas: seu pai, sua mãe e sua noiva, Adele. Não contente com a resposta inquiri: Será que sua noiva esperaria durante dez longos anos por você? Será que ela se satisfaria apenas com as visitas íntimas regulamentares? Ele titubeou. Balançou a cabeça. Senti que ele ficou com a “pulga atrás da orelha”.

Janete, outra colega, disse que apenas sua mãe seria capaz de aguentar um “calvário” desses. Foi categórica ao afirmar que seu companheiro *Oscar, certamente não iria nem apoiá-la nem esperá-la. Marílis, minha amiga, disse que analisaria cuidadosamente a situação, que antes iria avaliar em que circunstâncias tudo ocorrera, mas que de antemão adianta: só faria isso pelos filhos. Mais ninguém.

Eu, por minha vez tenho certeza que poderia contar em absoluto com três pessoas: meu filho mais velho, não que eu não confie nos outros, simplesmente por uma questão de idade, de maturidade, com meu irmão caçula, o Lúcio e com o meu marido, que, pelo que conheço, tenho certeza que, além de me apoiar incondicionalmente, me esperaria nem que eu passasse mais de vinte anos na prisão.

Não vou incluir minha mãe porque ela tem uma visão diferente da vida, não iria dar-se ao trabalho e acharia humilhante uma visita desse tipo. Não iria, eu sei. Tenho certeza que receberia apoio irrestrito também, surpreendam-se, da minha sogra. Isso mesmo. Além dela me visitar quantas vezes a distância permitisse, sei que me sustentaria em orações e me escreveria incontáveis cartas de próprio punho, como se fazia antigamente. Na questão dos filhos, tem um outro porém: com o passar dos anos, cada qual vai buscar seus horizontes, cuidar da mulher, da sua prole…e pronto!

Sei que essa é uma postagem polêmica e bastante questionável, mas vale como uma reflexão, como um “pit stop” na vida atribulada que levamos para pensar nas pessoas que nos amam verdadeiramente. Serve para darmos valor nas suas existências e principalmente para olharmos a situação por outro prisma: E se alguém que julgamos amar matasse alguém? Para quem seríamos um porto seguro e por quanto tempo? Por quem estaríamos dispostos a sacrificar nosso domingo, nosso lazer, nosso “arzinho refrigerado”, nosso churrasquinho com amigos para “encarar” uma cadeia fétida para cumprir o ritual da visita?

Entraríamos no presídio de cabeça erguida? Nos sujeitaríamos com naturalidade às revistas indiscretas? Faríamos isso por anos e anos sem reclamar? Sem lamuriar? Seríamos capazes de esperar nosso amor por 10, 15 ou 20 intermináveis anos? Perguntas. Respostas. Dúvidas. Certezas. Incertezas. Pelo sim e pelo não… Melhor não matar ninguém! Beijos da Lu!

Daquelas tardes de domingo – Por @alcinea

Cine Macapá – Av Raimundo Álvares da Costa esquina com a Rua Tiradentes

Por Alcinéa Cavalcante

A cidade era pequena e todo mundo ia a pé logo depois do almoço pro cinema. Ninguém reclamava do sol quente, ninguém se queixava do calor.
Os meninos levavam dezenas de gibis embaixo do braço pra trocar na fila. As meninas sonhavam com o dia em que o Zorro tiraria a máscara.
Lembro de “seu Pedro” na portaria recebendo a molecada com um largo sorriso. De vez em quando deixava um entrar sem pagar ingresso, pois tinha uma pena danada das crianças que não tinham dinheiro para o ingresso.

Fonte: Blog da Alcinéa

Eu lembro, pai. Muito obrigado! – Texto atualizado e republicado por motivo de saudades.

Lembro da minha infância com alegria. Eu e meu irmão fomos agraciados com excelentes pais, que nos proporcionaram tudo de melhor possível (e muitas vezes impossível, mas eles fizeram mesmo assim). Graças a Deus, minha mãe continua aqui e é meu anjo da guarda.

Lembro todos os dias do meu pai, José Penha Tavares. Ele faz muita falta. Não só hoje, que é Dia dos Pais, mas sempre. E sempre fará. Difícil compreender as indecifráveis razões de Deus para algumas despedidas.

Lembro que nós nunca fizemos a primeira comunhão, nem eu e nem Emerson, pois fugíamos das aulas de catecismo para ir com o papai pra AABB. Ele ia jogar bola e nós curtíamos a piscina. Apesar de não ter sido um frequentador de igrejas, Zé Penha tinha muito mais Deus no coração do que a maioria dos carolas que conheço.

Lembro-me de quando ele me levava para ver seus jogos de futebol. Era goleiro dos bons. Lembro quando tinha mais ou menos uns quatro anos ele me chamava de “Zôk”, apelido dado por causa da risada que eu dava quando ouvia o nome da moto Suzuki.

Lembro que sempre foi nosso herói, meu e do meu irmão Emerson. Depois, também virou ídolo de muitos amigos, por conta do nível caralístico de paideguice que ele tinha. Lembro que poucas vezes vi meu pai triste ou irritado.

Lembro-me das poucas broncas, de algumas porradas, de poucas discussões. Disso mais lembro de esquecer. Lembro muito mais das viagens, da parceria, da amizade, da proteção, da admiração que tinha e tenho por ele.

Lembro-me de papai nos levar para jogar bola, ao cinema, circo, arraial ou qualquer lugar em que ficássemos felizes. Éramos moleques exigentes, mas lembro que ele e mamãe sempre davam um jeito, mesmo com pouca grana. Lembro dos ensinamentos e sei que uma porção grande de bondade que trago em mim herdei de meu pai.

Lembro que conviver com meu pai era viver no paraíso. Lembro-me de como todos o amavam e até hoje, todos sentimos saudades. Lembro que já são 21 anos sem você. Lembro, Zé Penha, de o quanto fomos parceiros, confidentes e grandes amigos. Aliás, pai, fostes o melhor de todos. Lembro de como eras sensacional, cara. Incrível, mesmo!

Lembro de tudo amorosamente, pouquíssimas vezes com lágrimas nos olhos, mas a maioria com sorrisos. Pois o que mais lembro é que tu, pai, era a personificação da alegria e bom humor. Enfim, de vida. Lembro de ti, Zé Penha, todos os dias. E amo lembrar o que fostes e o que representas. Obrigado por todo o amor. Um beijo em ti. Estejas tu nas estrelas ou em qualquer lugar além do meu coração. Amo-te, pra sempre. Feliz Dia dos Pais!

Elton Tavares

*Texto atualizado e republicado por motivo de saudades.

Pai – Crônica de Lulih Rojanski

Senhor Casemiro, pai de Lulih. Foto: Arquivo pessoal da escritora.

Crônica de Lulih Rojanski

Meu pai tem nome de poeta: Casemiro. Nasceu no Rio Grande do Sul, na década de 1930, mas não chegou a se antenar nunca na efervescência cultural da época, na Revolução Industrial, na nova poesia modernista, nos romances regionalistas, na popularização dos automóveis et cetera. Morava nos mais longínquos rincões gaúchos e precisava plantar e criar o que ia comer. Mas ouvia rádio nas altas oito horas da noite, cansado da roça, espiando pela janela a cadência das estrelas sobre o matão e com a cama já preparada para dormir. O arado à espera para a madrugada do outro dia.

Por isso sei que os ouvidos de meu pai foram educados pela mais pura música sertaneja de raiz, aquela que cantavam Cascatinha e Inhana, Tonico e Tinoco, Pena Branca e Xavantinho… Aquela mesma que ele teimava em continuar ouvindo em discos antigos quando eu já era adolescente e morria de rir de seu gosto pré-histórico.

Um dia, muito tempo depois – eu já era bem adulta – surpreendi meu pai encantado com uma música que eu costumava ouvir nas ocasiões em que tentava desvendar o que fazer para unir o fio das minhas saudades à presença real do objeto de minhas saudades… Era Louis Armstrong cantando What a wonderful world.

Dia desses entrei no supermercado no justo momento em que no sistema de som ambiente Louis Armstrong iniciava: I see trees of green, red roses to / I see them bloom for me and you / and I think to myself/ what a wonderful world… A música de meu pai, pensei, e então de repente me lembrei que era o dia de seu aniversário: 13 de julho. Seu Casemiro estava fazendo 86 anos.

Deixei lá na cestinha o pacote de arroz com brócolis que fui comprar. Saí do supermercado para chorar de saudade do meu pai no meio do sol do meio-dia, pois já era tempo de me arrepender das tantas vezes que zombei do sertanejo que havia em sua alma, as mesmas vezes em que ele desligou o disco de suas poucas manhãs de folga somente para me agradar.

Hoje é o Dia Internacional da Cerveja

Como todos que nos acompanham sabem: este site possui a sessão “Datas Curiosas”, onde escrevemos sobre dias comemorativos inusitados, engraçados e em homenagem à pessoas e situações. Pois bem, hoje é o Dia Internacional da Cerveja. Mais porreta logo, hein?

Comemorado na primeira sexta-feira de agosto. A data foi inventada em 2007, em Santa Cruz na Califórnia (E.U.A.). É festejada em mais de 50 países por amantes fervorosos de cerveja. O dia é baseado em três propósitos declarados: reunir amigos para saborear a referida bebida; celebrar com responsabilidade (o que nem sempre rola) e ter o sentido de união mundial com outros cervejeiros de todo o planeta, ou seja, unir o mundo para celebrar a bebida (desculpa de gorozeiro, sei bem como é).

Na Europa realizam-se vários festivais da cerveja, especialmente em países como a Bélgica e a Alemanha. Enquanto a bebida alcoólica mais antiga e popular do mundo que é, pode encontrar a cerveja em qualquer bar, restaurante ou pub, não tendo desculpas para não aderir a este dia mundial da cerveja.

Quem me conhece sabe: sou chegado numa cerva gelada e não gosto de somente sujar o bico, dou valor mesmo é em encharcar.

Ah, pra mim, quase todo dia é dia de tomar umas, seja chopp, cerveja barata ou requintadas. Bebo cerveja desde os 14 anos. Herdei do meu saudoso pai o gosto pelo produto. Meu irmão também entorna bem, graças a Deus. Aliás, toda a minha família paterna é chegada (risos). Em tempos normais, sem pandemia, bebo durante a semana, principalmente depois de um expediente exaustivo, nada como afogar o stress com uma boa bebida e um papo descompromissado com a galera. Sabem como é, a vida é muito curta pra nos divertirmos somente nos fins de semana.

Amo cerveja. Tanto que sou fã de citações como: “trabalhar de ressaca é para os campeões” e “trampar de ressaca é para os jedis (ou siths)”. Nada que comprometa meu desempenho, claro.

Curiosidades sobre a cerveja: 

Existem vários tipos e variedades de cerveja.

Em média, o processo de produção da cerveja demora 20 dias.

Existem copos específicos para beber cada tipo de cerveja.

A cerveja tem muitos benefícios para a saúde, incluindo os ossos, a insônia, o colesterol, o cabelo, a pele, o sistema imunológico e cardiovascular.

As garrafas castanhas ajudam a manter a frescura da cerveja.

A cerveja mais cara do mundo é a Vielle Bon Secours que custa 880 euros.

A melhor cerveja do mundo é a Westvleteren 12, com 10,2% de álcool.

Então, queridos leitores, já que tem uma data específica, vamos todos curtir essa unanimidade mundial, pois há poucas coisas em que o mundo inteiro concorda, e cerveja é uma delas! Portanto, cervejeiros alterocopistas, uni-vos e ergam seus copos. Que esta sexta seja de muita paz, amor e cerveja!

Elton Tavares

Túnel do Tempo – Crônica de Lulih Rojanski

Crônica de Lulih Rojanski

Levei trinta anos para aprender a letra de uma das canções que mais me encantaram na época que eu considerava quase o meio da vida: lá pelos 14 anos. Se, por aqueles dias, alguém com poderes para previsões tivesse me dito “você vai aprender a cantar esta música daqui a trinta anos”, eu teria tido um arrebatamento, uma crise existencial. Como é que eu ia saber o que seriam trinta anos adiante? Era a mesma noção que eu teria hoje de trezentos.

Testei isso em minha filha mais nova, minha pequena bailarina, quando ela pediu pela trigésima vez sua sonhada sapatilha de ponta. “Você vai ganhar daqui a trinta anos”, disse, e fiquei esperando a reação. Foi de total descrédito. Os adolescentes não acreditam em mais nada do que a gente diz, mas fazem menos dramas. Ou talvez eles tenham se dado conta que, com a rapidez com que as coisas têm andado, 30 anos vão se passar num zás.

Pois quem imaginaria? Aprender aquela música foi um dos meus maiores desejos, quando meu acesso aos discos, aos aparelhos eletrônicos e à sintonia das boas rádios era difícil. Trinta anos depois, e assim, quase do nada, pesquisando sobre a vida de Oswaldo Montenegro nas veredas do Google, me encontro com ela, clara e transparente, com todas as mágicas palavras que fizeram o encanto da minha meninice. Embora na época eu não percebesse, já era a letra que me atraía mais que a melodia.

Eu deveria saber que ela haveria de me chegar um dia. Estava escrito. Não preciso dizer que agora a tenho cantado diariamente, envolta em uma espécie de espiral de túnel do tempo. Para muitos, pode não ser uma grande canção. Pra mim, sua beleza está no sentido que o tempo lhe deu, no que ela representa para minha história particular. Ei-la:

Drops de hortelã – Oswaldo Montenegro e Glória Pires

Eu andava meio estranho
Sem saber o que fazia, eu não sei
Andava assim, eu não sei
Se era feliz
Eu achava que faria uma canção
E a melodia, eu não sei
Andava assim, eu não sei
Se era feliz
Eu achava que faria aquilo que não sei
Que amaria, eu não sei, fazer desenhos com giz
Eu achava que faria uma canção nissei
Eu me sentia, eu não sei, um americano em Paris
Eu achava que tamanho
Tinha a ver com poesia, eu não sei
Mas toda vida eu deixei
A vida entrar no nariz
Eu me mandei pra Curitiba
E como gosto dessa vida!
Eu não sei
Mas a paixão que eu falei
Me lembra o anis
Fiz um drops de hortelã da bala que eu te dei
Para atirar no porém da frase que eu nunca fiz
Eu andava meio estranho
Sem saber o que fazia, eu não sei
Andava assim, eu não sei
Se era feliz
Eu achava que faria uma canção
E a melodia, eu não sei
Andava assim, eu não sei
Se era feliz
Fiz um drops de hortelã da bala que eu te dei
Para atirar no porém da frase que eu nunca fiz

RAPADURA – Crônica de Flávio Cavalcante (@PedraDeClariana)

Foto: Tribuna Rural

Crônica de Flávio Cavalcante

Hoje, no sitio Macacos, distrito de Mangabeira, Município de Lavras da Mangabeira, visitamos um dos últimos engenhos de rapadura em funcionamento na região centro-sul do Ceará. Segundo o proprietário, senhor Gabriel Holanda Nunes, conhecido como Bié, de 79 anos, a “moagem” funciona desde à época do seu avô, quando ainda movida pela força animal, por juntas de boi. Dos 36 engenhos que funcionavam em Mangabeira, apenas o do sítio Macacos continua ativo, produzindo a tradicional e deliciosa rapadura.

Fotos: Tribuna Rural

Em meio roças, moendas e fornalhas, vários profissionais desempenham suas atividades na produção do saboroso tijolo, tais como os plantadores da cana, bagaceiro, caldeireiro e cacheador. Entre eles, o mestre, que, com sua experiência e prática, decide o momento exato em que o mel pode se transformar em rapadura.

Além dos conhecimentos práticos, adquiridos ao logo de séculos de observação e experiências, várias crenças e superstições envolvem o funcionamento do engenho. Uma delas consiste em parar toda a produção na primeira segunda-feira de agosto, pois esse dia é considerado de “má sorte” e pode causar um acidente ou uma pane nas máquinas.

No engenho dos Macacos, ao contrário de outras indústrias modernas, não há a adição de produtos químicos para aumentar o teor de sacarose na rapadura. Utiliza-se apenas as misturas tradicionais, como a cal, logo após a moagem da cana, que serve para limpar a garapa. No fim do processo, o mestre da rapadura também adiciona o sebo de gado, para endurecer o mel e fazer jus ao conhecido nome do produto final.

Ouvindo atentamente a explicação, meu tio Paulo Danúbio, professor aposentado, perguntou:

Seu Bié, o sinhô vende esse balde de Sebo de Gado?

– E o senhor vai botar um engenho de cana? – indagou o simpático proprietário da moagem.

– Não, seu Biê, quero ver se esse sebo serve pra endurecer outras coisa…

A foto do comandante Guerreiro – Crônica de Fernando Canto

Foto: Arquivo pessoal de Fernando Canto

Crônica de Fernando Canto

Contemplo a foto aérea tirada no ano de 1948 pelo comandante Guerreiro, piloto e instrutor de vôo do Aeroclube de Macapá, e gentilmente cedida pelo também piloto Paulinho Lopes.

Lá embaixo, depois do retilíneo trapiche Eliezer Levy, está a velha fortaleza de São José, encravada sobre a terra bruta, além das falésias de granito que a separam do grandioso rio. Ao lado dela a praia de areia branca, um dos pouquíssimos lugares da cidade privilegiados com a bela paisagem natural do Amazonas, junto ao Araxá, a vacaria e o Aturiá, que também se espraiam no horizonte. Árvores circundam a estrela de cinco pontas concebida por Gallucio e abrigam um lugar ainda sem o círculo militar, construído 20 anos depois.

A cidade parece puxá-la de dentro do rio, procurando trazê-la para mais perto do coração, mas ela resiste: é o próprio coração da cidade a pulsar ofegante em sua pujante trajetória de amor e de proteção a esta terra. A preamar mostra que ela se situa em uma península dividindo a orla em duas pequenas baías e não há dúvida que abarca o sonho territorial de mais de dez mil almas ávidas de progresso e bem estar, contidos nos inflamados discursos janaristas da “Mística do Amapá”. É ela o único vínculo que temos com o passado. É o legado arquitetônico que simboliza o desenvolvimento da cidade, apesar da igreja de São José ser mais antiga. Único elo, enfatizo, posto que gerações anteriores se omitiram da necessidade de preservar nossa memória e nossas referências dentro da cidade. Posto que por muito tempo ela quase era engolida pelo mato e um dia foi até curral de bois num tempo de degredos e segredos revelados pelos entes do rio-mar.

A frente da cidade jaz, ali, gravada na fotografia do comandante Guerreiro e até o rio é uma massa estática sob um trapiche sem embarcações observado pela pedra do Guindaste, antes de ser quebrada e abrigar o santo protetor. O velho Macapá Hotel espera imponente novos rostos que se aproximam à procura de trabalho e exibe orgulhoso o seu recente corpo construído para receber os visitantes. À sua direita o estaleiro emite os barulhos do calafetar os barcos que partirão para suprir novas necessidades. Casas se escondem sob as árvores frutíferas em bairros ainda desabitados e a asa do avião do comandante plana em vôo sobre a cidade que cresceria sob a égide do sol e a energia que brota diariamente entre a água e a luz.

*Crônica escrita em 2009.