Um recorte de jornal sobre meu pai, Zé Penha – Por @PradoEdi

Já escrevi muitas vezes sobre o quanto meu pai, Zé Penha, foi um cara porreta. Sou suspeito, o cara foi, é e sempre será meu herói. Mas quando outra pessoa o elogia, dá ainda mais orgulho de ser filho do negão mais gente boa que conheci. Esse recorte de jornal é de 1998, assinado pelo meu amigo e colega jornalista Édi Prado, publicado no informativo da Companhia de Eletricidade do Amapá (CEA), onde meu velho trampava na época que embarcou para as estrelas. Saudades e amor sempre, Penhão!

Como hoje é sexta, sempre lembro do velho Liverpool Rock Bar

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Hoje é sexta-feira e toda sexta lembro do velho Liverpool Rock Bar, que foi um dos celeiros do rock amapaense. Fundado no final 2004, pelo seu Nelson e sua filha Vânia, o bar, mesmo sem estrutura, fez sucesso entre os amapaenses que gostam de rock and roll.

O Liver foi, até o final de 2009, o refúgio do underground amapaense. Um bar simples, entretanto, frequentado pelas pessoas mais descoladas da cidade. Na categoria “rocker”, foi o bar de rock mais duradouro da história de Macapá.

O Liverpool tinha mesas de bilhar adoradas por 90% dos frequentadores, bandas legais e tínhamos a certeza que íamos encontrar os amigos por lá.

No Liver iam músicos, skatistas, jornalistas, boêmios, malucos, caretas, homossexuais e heterossexuais. Era um local democrático, muito longe de uma “vibe” ou “point”. Alguns, mais exigentes, apelidaram o local de “Liverpalha”, mas viviam por lá.

Hoje temos locais melhores para curtir som, muito mais estruturados, refrigerados e tals, mas todos nós lembraremos do charme sujo que o Liver possuía. A gente quebrava tudo por lá (às vezes, literalmente). Saudades daquela bodega!

Elton Tavares

Segundo de abril (lá vem o Gino de novo)

Crônica de Ronaldo Rodrigues
 
O editor deste site bota uma pressão de vez em quando. Desta vez foi assim: E aí? Alguma coisa para hoje (ontem), primeiro de abril?
 
Retornei dizendo que de mentira, até aquele momento, só o meu salário. Rsrsrsrsrsr.
 
Mas hoje, segundo de abril, eu tenho algo a mostrar. Seria (seria, não. É!) aniversário do Ginoflex. A gente sempre festejava (aliás, continua festejando. Mais tarde, vou tomar umas por ele).
 
Depois que passou dos 50, o Gino não sabia exatamente qual a idade que inaugurava a cada 2 de abril. E eu dizia que ele não tinha nascido no dia primeiro de abril porque ninguém acreditaria. O Gino, qual o Tim Maia, era um personagem que extrapolava a vida real, transgredia qualquer padrão de normalidade. Nem os mais criativos ficcionistas conseguiriam imaginar suas verídicas aventuras.
 
Então, este texto vai em homenagem ao Ginoflex, que estaria completando 59 anos. Ou 57. Ou 58. Impossível saber. Ele mesmo não sabia, já que documentos de identidade já tinham se desgarrado dele há milênios. Eu brincava dizendo que ele era tão velho que, para saber com exatidão os números de sua existência, teríamos que submetê-lo ao teste do carbono 14, aquele elemento químico que detecta a idade dos fósseis. Não à toa ele era também chamado de Ginossauro.
 

Imagino o Gino (des)organizando sua festa de aniversário lá onde esteja neste momento. Som chiadinho de discos de vinil, muita cerveja e aquele cigarrinho que o deixava irritado. Quando faltava.
 
Parabéns, Gino! Continuaremos por aqui, festejando, fazendo um brinde a cada respiração, enquanto não somos convidados a nos retirar desta festa nem sempre divertida chamada vida.

Das Batalha de Confetes, desfiles na Fab, bailes de salão, sambódromo, ao carnaval de 2018 – Crônica de @MarileiaMaciel republicada)

com amigos da Mãe Luzia

Crônica de Mariléia Maciel

Na ala de EmíliasAcho que o primeiro som de surdo, escutei entre 7/8 anos, tocados por brincantes de Piratas Estilizados e Boêmios do Laguinho. Lembro dos ensaios na sede dos Escoteiros, e cheguei a pular carnaval nas batalhas de confetes, descendo a Cândido Mendes, no meio da garotada da minha rua, encharcados de suor e com confetes grudados no rosto. O desfile na Fab, eu assistia da arquibancada, até começar a sair na minha primeira escola, Piratinhas, onde meus amigos da vizinhança se juntavam pra desfilar, primeiro crianças animadas, depois, jovens assanhados.

Dos carnavais de salão também tenho ótimas recordações. Papai sempre gostou de folia, mas preferia bailes de salão, na antiga APA, associação de professores, onde comprava a temporada. Nessa época, me restava o baile infantil, que eu frequentava também do Círculo Militar e outras sedes que promoviam os maravilhosos bailes de salão. Alguns anos depois, ainda menor de idade, eu entrava nos bailes de adulto com minhas irmãs e primas, mentido que esqueci a carteira, aproveitando a distração ou a piedade dos porteiros, comovidos com minha mentira. Uma vez mBoêmios dloe escondi fantasiada no porta-malas do chevette da minha irmã, e esperei muito tempo a fila interminável de carros, toda enrolada, até que chegamos no escuro do estacionamento e desci fedendo a gasolina. O problema era pra entrar, o problema era me esconder quando a polícia passava olhando os documentos, mas estes problemas eram esquecidos, quando eu entrava no salão.

Fiz parte da primeira ala coreografada destas bandas, acho que em 1989, ensaiada no meio da rua, pelo Heraldo Almeida, com cabos de vassoura imitando as lanças indígenas. Passávamos a tarde catando “tento” verde na frente da igreja São Benedito, para fazermos colares, que tinham ainda penas tiradas das galinhas criadas nos quintais. Baile com amigosNo Estilizados, os ateliês de fantasias eram montados nas casas. A ala dos meus amigos era costurada no pátio da dona Dometila, e todo mundo ajudava, pregando lantejoula, colando adereços. Na casa dos “Thunders Cats” também funcionava uma central de costura, e foi lá que inventamos de enfeitar com pedaços de espelho, a fantasia (de novo) de índio, e colocar na costa um mato que pegamos nos campos do Curiaú. No final desse desfile, quem não saiu cortado dos espelhos colados na saia indígena, terminou com coceira do mato, que se desfez com a chuva. Era muito improviso, na hora a gente tinha uma ideia e colocava em prática da maneira mais simples possível.

Transmissão de carnaval 2009Depois os bailes de carnaval sumiram, e veio o Sambódromo, obrigando à profissionalização da festa, que custava caro, e recebia investimentos públicos, por todos os atributos que agregava, do turístico ao comercial e diversão popular. Vieram os blocos de bairro, e eu aderi sem fazer força, ao kubalança, Filhos da Mãe Luzia, Tia Fé, e quantos mais tivessem ao meu alcance. Fui cortejada pela Nação Negra, e cedi aos seus encantos, mas mantive o respeito pelo Piratinhas, agora Piratas Estilizados. O carnaval também se aproveitou de mim, e eu dele, para o trabalho, e assessorei a Liesa, e também a Nação Negra. Delícia dCom meus filhose trabalho, diversão e dinheiro. Sempre gostei da rixa divertida e colorida entre as escolas, alimento meu estoque de histórias. Aproveito o carnaval o quanto posso, e minha família me acompanha, assim como meus amigos, os mesmos de todo ano, e outros novos que sempre chegam.

Mas neste ano, esta alegria se apagou um pouco, com o anúncio da não realização do carnaval de escolas de samba. É um sentimento de traição e covardia. Porque deixamos chegar neste ponto? Porque isso com a única festa em que todo mundo participa sem medo de preconceito?Boêmios do Laguinho É a festa onde negros e mulatas, gente das baixadas e favelas, do funk, do rock e quadra junina, os que bebem sujos nas esquinas de botecos, os que só trabalham neste período, não recebem olhares de preconceito; é a festa onde os homens que se vestem de mulher não são espancados, nem as mulheres que se vestem de homens; onde sair na rua vestido de Tarzan traz risos de alegria, e um adulto com chupeta na boca não parece ridículo.

Mas não tem volta, não tem jeito, não foi a primeira vez, e provavelmente, se não fizermos nada, não será o último ano que não terá o carnaval completo. Vamos pra Banda, bailes, batalhas de confetes, atrás dos trios, vamos botar os blocos nas ruas, colorir a cidade. Não podemos deixar que nossa principal diversão popular, fique somente nas lembranças, vamos brincar, mas vamos trazer de volta nosso carnaval de escolas de samba.

*Crônica de 2016, republicada. 

Quantas recordações (texto lindão da Ana Paula Padrão)

 

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Tenho muita saudade da máquina de escrever. Bater nas teclas com força e ouvir o tec, tec, tec. No fim da linha empurrar o braço mecânico pra esquerda e começar de novo. A, S, D, F, G. A, S, D, F, G.

Tenho saudade do telefone de disco. Eu tinha uma prima que usava três dedos pra discar os seis números. Ela tinha unhas longuíssimas cobertas de esmalte vermelho e entre o indicador e o médio ainda segurava o cigarro. Elegantérrima. Tenho saudades do tempo em que fumar não era politicamente incorreto, apenas fazia mal pra saúde. E do cheiro do óleo bronzeador que também entrou na lista dos vilões sociais. Óleo de urucum, Rayito de Sol e outros menos cotados.download

Tenho saudades da agenda de papel. Todos os telefones anotados com letra caprichada. Tenho saudade até de perder tempo passando a agenda a limpo quando a lista de amigos ficava maior que o número de páginas. Ou quando era preciso apagar alguns nomes. Nunca deletá-los.

pipocaTenho saudade de fazer pipoca na panela. O milho estourava no óleo quente soltando aquele cheiro de sala de cinema. Poc, poc, poc. Também sinto falta do ovo batido em ponto de neve no braço. Sem parar pra não desandar a receita. E tenho saudade da vitrola, da agulha e do vinil girando em três rotações: 33, 46 e 78. Do chiado do velho LP, do drama de um disco arranhado.download (2)

Tenho saudade da manga espada, buraquinho aberto na casca pra beber o caldo. Da goiaba de vez colhida no pé, na primeira mordida vinha metade do bicho que morava lá dentro. E do morango suculento e com gosto de morango. Os morangos de hoje são lindos, mas não têm caldo nem sabor. Tenho saudade de esperar um mês inteiro pela próxima edição do meu gibi preferido e de colecionar figurinhas no álbum. Coladas com cola Tenaz. Cole e descole se for capaz.

download (3)E, acima de tudo, tenho saudade de esperar uma semana inteira pra que as fotos fossem reveladas. Ah, como eram bacanas as máquinas fotográficas não digitais e os rolos de filme rebobinados. Saudade de chamar as coisas de bacanas. Saudade de quando as lembranças não eram instantâneas.

Dito isso, devo confessar que não sou muito boa de memória. Esqueço nomes e fisionomias. Só decoro instantaneamente números e letras de música. E cheiros. E sons. E dores. Mas lembro-me destas últimas pela sensação que produziram, quase nunca pelos personagens que as provocaram. Hoje agradeço essa falha como um dom.download (4)

Tenho saudade do Neutrox amarelo, do pac man, da agenda Cassio, do Leite de Rosas, do sabonete Phebo, chiquérrimo. E ter saudade não é querer ter tudo isso de volta. É apenas a confortável sensação de ter idade pra ter saudade do que não está na moda, do que já passou, do que não existe mais e ainda assim era bom simplesmente porque me fazia bem. É ter experimentado todas as mudanças e ter aprovado algumas, detestado outras.

Tenho saudades do boana paulam português, do romance bem escrito publicado em edição de capa dura. Dos políticos que tinham vergonha de serem tachados de corruptos, ainda que fossem. Dos eletrodomésticos que duravam tanto quanto um casamento, quase a vida inteira. De andar de carro com a janela aberta. Ter saudade é um privilégio. Minha memória não é lá muito boa, mas é sábia. Guarda com nitidez as delícias e arquiva os rancores em gavetas trancadas que eu nunca me lembro de abrir.

Ana Paula Padrão, jornalista e apresentadora de TV.

Cinco anos sem Jork

Há cinco anos uma notícia triste, via telefonema do amigo Anderson Miranda: Jork Dean, funcionário da Caixa Econômica e músico, morreu. O brother que me avisou da tragédia era gerente do banco onde Jork trabalhava. A lembrança da rede social Facebook me recordou dessa perda. Pessoas bacanas ficam sempre vivas no coração da gente.

Jork tinha 37 anos. Ele foi vitima de uma briga de trânsito que resultou no seu assassinato. A comoção tomou conta dos malucos de Macapá, pois Jork era um cara querido e considerado. Conheci o Jork em 1991, quando cursamos juntos a 7º série, na Escola Alexandre Vaz Tavares (AVT).

O cara era um gozador, um sacana gente boa. Ele nunca andou comigo pra cima e pra baixo, mas quando nos encontrávamos era festa, principalmente nos eventos de rock. Também fizemos algumas malucagens juntos (risos).

Não tive coragem de ir ao seu velório e enterro, mas me disseram que foi diferente, ao estilo Jork de ser. A gente não tinha contato no cotidiano, mas existia brodagem entre mim e aquele sacana.

Jork era uma figura pouco (ou nada) ortodoxa, tocava porradas do Metal, mas também era apaixonado por Beatles e Raul Seixas. O cara fazia miséria no baixo, foi um dos melhores músicos amapenses de sua geração, embalou piseiros memoráveis nas noites quentes de Macapá, quando fazia parte da banda Sloth.

Sua morte foi transformada em alerta para crimes como o do que ele foi vítima e em arte, pois familiares e amigos do músico criaram o Festival “Jork and Roll, realizado anualmente na Praça da Bandeira, no centro de Macapá, no período do que seria seu aniversário.

Jorkdean era um figura alegre, sempre com um sorriso no rosto e direto, não fazia rodeios. Tinha personalidade e possuía uma sarcástica malacagem sutil peculiar.

Não é nenhum exagero afirmar que o Jork ajudou a puxar a fila e firmar no Rock no Amapá, sobretudo o Heavy Metal.

Hoje em dia, os roqueiros de Macapá fizeram de Jork uma referência, uma espécie de ícone do maluco gente boa. Ele nunca quis holofotes sobre si, mas sua memória merece ser tratada como tal. Além de extraordinário músico e atitude foda, ele era gente fina demais. Todos sentimos saudades. Valeu, Jork!

Elton Tavares

O que eu diria se pudesse te encontrar depois de 3 meses… (por Mariléia Maciel)

Dona Maria e Elis, mãe e neta de Mariléia Maciel.

Se foram 90 dias, e não passo sequer uma hora sem pensar na senhora com muita saudade no coração. Sei que estás bem agora, sem dores, sem as amarras da cama da UTI, na qual ficou presa exatos 55 dias, no processo de libertação para a nova vida, mas as lembranças de nossa rotina são imensas, e às vezes não tenho como conter a emoção. Todos os dias abro seu quarto como gostas, para o sol entrar. Agora que começamos a mexer em seu guarda-roupa, por necessidade de organizar a casa para receber a família. Ele continuava como a senhora deixou na última vez que a abriu, com seu barla, roupas, azeite de andiroba, e objetos que gostavas, mas te prometo que assim que eu puder vou arrumar, doar o que for servir para outras pessoas, e guardar o que for me trazer belas lembranças. Mas não quero com isso te prender aqui, porque agora és estrela, e esta condição não te permite mais ficar entre nós fisicamente.

Continuo a acordar de madrugada, mesmo não precisando mais, porque aprendi a gostar de ver o dia começar assim. És muito presente, e parece que a qualquer momento vais sair do banho pra começar a se arrumar na frente do espelho. É recente em minha memória sua teimosia pra tomar os remédios, o demorado café da manhã, e o passeio devagar na calçada, pra aquecer os ossos. Me faz falta o almoço meio-dia com a mesa cheia de comida e de gente, o café da tarde, e os cânticos da missa das 18h na televisão. Na hora de jantar, sempre uma indecisão, entre o café ou mingau, sopa, churrasco ou pizza, todas as vontades feitas antes de acabar dia e se preparar para dormir. O murmúrio da reza também me faz falta, e toda noite continuo com ela, pedindo por nós todos.

Em todo esse cotidiano tem sempre seus passos tão lentos e arrastados, sem barulho, mas que eu aprendi a sentir por força da necessidade, porque as noites eram longas e as idas ao banheiro comum, e dava medo pensar na senhora caída por sono e falta de apoio. Nestes anos que passamos cuidando uma da outra aprendi a não ter pressa, e puxei o freio de mão pra ver a vida com seus olhos, e a andar sem desespero. Aprendi o valor da bênção, e o “Deus te abençoe, minha filha” faz muita falta aos meus ouvidos. Aprendi a ser uma mãe mais madura com a senhora, que nunca conheceu sua mãe para pedir bênção e proteção, mas que nunca nos furtou destes cuidados.

Foram cinco anos em que me dediquei de coração à senhora, desde que papai partiu, e precisávamos nos unir mais para cuidar melhor, porque ficou longe do seu grande amor, e saudade dói no corpo, eu sei. Cresci muito espiritualmente, e valeram internamente mais que o mesmo tempo em uma faculdade, porque aprendi com cada dificuldade que passei para aprender a te entender. Só eu sei da grande alegria que era vê-la bem, sem dor nem tonteira. Não me arrependo de nada mãe, nem das oportunidades pessoais e profissionais que larguei, porque sempre apareceram pessoas que me abriram as portas para que eu pudesse trabalhar e ao mesmo tempo ficar com a senhora, nossa família pra me amparar, amigos que entendiam meu horário, e nunca deixaram de se esforçar para estar comigo, mesmo que por poucas horas. Não me arrependo das festas e passeios em que não estive, porque o que aprendi me valeram para esta e outras vidas, como a dar valor em uma noite bem dormida, no amanhecer caminhando, lendo ou produzindo textos, e em um fim de tarde olhando as maresias e o rio, sentada em uma cadeira.

Compreendo as últimas semanas em sua companhia como lições importantes para amadurecer a alma, dar valor em pequenos gestos, e em pessoas que nunca vi na vida, mas que foram essenciais. Nunca achei que subir as escadas do hospital poderia ser um treino emocional, porque para mim, escadas sempre foram uma via de acesso para um piso, mas quando se aproximava a hora da visita eu começava a pensar no que eu poderia ouvir na entrada da UTI dos enfermeiros e psicólogos ou dos médicos, se ia lhe encontrar dormindo ou acordada, consciente ou em delírio, no ventilador ou no bipap, com ou sem diálise e noradrenalina. Eram momentos de sofrimento, mas em cada degrau da escada eu buscava forças e me concentrava em sua saúde, e me controlava para chegar perto da senhora sem demonstrar o que estava sentindo por trás daquela máscara. Naqueles dias aprendi a acompanhar o tempo da natureza olhando o jardim com flores e coqueiro, as mudanças do sol durante o dia. Via as plantas viverem presas na raiz, e comparava à senhora, porque viver não depende de estar livre ou preso, a senhora estava viva, mas presa em uma cama, assim como as plantas nos vasos. Aprendi a valorizar cada profissional que cuidava da senhora, pessoas que nunca tínhamos visto antes, mas pela proximidade, passaram a fazer parte da nossa vida, e vi que o amor ao próximo não depende de anos de convivência, e sim de amor no coração. Foram dias de sentimentos confusos, fortalecimento da fé, e certeza que a vida não termina quando fechamos os olhos e os órgãos param de funcionar.

Tenho certeza que a senhora e papai estão bem, e saibam que a maior lição disso tudo foi a gratidão, a persistência, a fé, o perdão e o amor. Falamos nisso todos os dias, mas nem todos têm a oportunidade de exercer na prática estes sentimentos, e eu tive com vocês dois. Apesar da simplicidade, não é tão fácil assim praticar. Meu coração é só saudade, mas procuro substituir a tristeza pela gratidão por tudo o que fizeram por nós, pelo meu crescimento, por meus filhos, por me ensinarem o caminho certo, mesmo quando me esquivei deles, e tive a oportunidade de retornar novamente.

Vocês continuam a nos olhar, eu sei e sinto. Nosso compromisso continua até o dia em vamos nos reencontrar. A morte não é ruim, o que nos acaba é a saudade, mas me abençoem todos os dias, pra que eu tenha sempre forças para seguir, nunca desistir e ajudar quem deve ser ajudado. Assim que meu coração sinalizar vou começar a mudança, porque ainda é cedo para pensar nessas coisas, talvez amanhã, na próxima semana ou mês. Não tenho pressa.

Bênção, um beijo no coração, e que o próximo ano seja de muita paz e luz para todos nós.

Mariléia Maciel – Jornalista

Quem nos dera um adeus digno – Crônica de Elton Tavares

Várias vezes, sonhei que conversava uma última vez com uma pessoa que partiu. Sim, alguns dirão que tenho muita imaginação, outros que sou ficcionista ou até mesmo assombrado.

Bom, o lance é imaginário mesmo. Quase sempre, imaginamos viagens no tempo para falar com pessoas queridas que se foram ou quem sabe alertá-las sobre um perigo iminente.

Não falo de viagens no tempo provocadas por portais abertos no espaço-tempo como nos filmes “Donnie Darko” e “Efeito Borboleta”, cheios de possibilidades de mudanças e consequências.

Também não queria psicografia, entoação ou algo assim. Falo da oportunidade de uma aparição da pessoa. Do amigo ou ente querido se manifestar logo após a desencarnação. Dessa forma poderíamos dizer ou escutar qualquer coisa do tipo: ‘eu te amo, siga seu caminho, pois vou cuidar de tudo por aqui’

Óquei, pode soar meio lunático, mas sem querer ferir o código de ‘futuro pré-determinado’ denominado Destino, o sindico de tudo isso aqui, de codinome Deus, poderia colocar mais essa cláusula no livre arbítrio: a possibilidade de se despedir. Seria ótimo. E como seria!

Não se trata de “consertar” nada e sim uma última chance de diálogo. Uma conversa franca e um adeus digno.

Elton Tavares

Se vivo, meu pai faria 67 anos hoje

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No dia de hoje (17), se meu saudoso pai estivesse vivo, faria 67 anos. É difícil definir um modelo de vida, acredito que cada um vive da forma que lhe é aprazível. José Penha Tavares viveu tudo de forma intensa e foi um homem muito feliz.

O mais legal é que ele nunca fez mal a ninguém, sempre tratou as pessoas com respeito e foi muito amoroso com os seus. Meu irmão costuma dizer que ele nos ensinou o segredo da vida: “ser gente boa” (apesar de alguns gatos pingados não comungarem desta opinião sobre mim).

Quando o bicho pega, falo com ele. Uma espécie de monólogo, mas juro que sinto conforto em lhe contar meus raros problemas. Acredito que papai escuta e, de alguma forma, me ajuda. Devaneio? Não senhores e senhoras, é que aquele cara foi um grande pai, ah se foi. Portanto, deve mexer os pauzinhos lá por cima.

Ele partiu em 1998, faz e fará sempre falta. Sinto saudade todos os dias. Nosso amor vem das vidas passadas, atravessou esta e com certeza a próxima. Gostaria de lhe dar um abraço hoje, desejar feliz aniversário e tomar muitas cervas com o Penhão, como costumávamos fazer.

Faço minhas as palavras do escritor Paulo Leminski: “haja hoje para tanto ontem”. ou a frase do poema Filtro Solar: “Dedique-se a conhecer seus pais. É impossível prever quando eles terão ido embora, de vez”. Saudade. Feliz aniversário, papai!

Elton Tavares

Poema de agora – Visita Indesejada – @alcinea

VISITA INDESEJADA

Tem uma saudade batendo na minha porta.
Não vou abrir.
Conheço bem essa figura.
Entra
se aboleta no sofá
e não quer mais ir embora.
Abusada
invade a cozinha
adentra o quarto
deita na cama.
Não vou abrir a porta, não.
Não estou pra esse tipo de visita.
Gosto daquela saudade
que chega de mansinho
trazendo lembranças perfumadas,
um verso e um riso
toma uma cafezinho
e vai embora.

(Alcinéa Cavalcante)

Monólogo Mundo Moderno – Texto genial e saudoso Chico Anysio

E vamos falar do mundo, mundo moderno marco malévolo mesclando mentiras modificando maneiras mascarando maracutaias majestoso manicômio meu monólogo mostra mentiras, mazelas, misérias, massacres miscigenação morticínio, maior maldade mundial madrugada, matuto magro, macrocéfalo mastiga média morna monta matumbo malhado munindo machado, martelo mochila murcha margeia mata maior manhazinha move moinho moendo macaxeira mandioca meio-dia mata marreco manjar melhorzinho meia-noite mima mulherzinha mimosa maria morena momento maravilha motivação mútua mas monocórdia mesmice muitos migram mastilentos maltrapilhos morarão modestamente malocas metropolitanas mocambos miseráveis menos moral menos mantimentos mais menosprezo metade morre mundo maligno misturando mendigos maltratados menores metralhados militares mandões meretrizes marafonas mocinhas, meras meninas, mariposas mortificando-se moralmente modestas moças maculadas mercenárias mulheres marcadas mundo medíocre milionários montam mansões magníficas melhor mármore mobília mirabolante máxima megalomania mordomo, mercedez, motorista, mãos magnatas manobrando milhões mas maioria morre minguando! moradia meiágua, menos, marquise mundo maluco máquina mortífera mundo moderno melhore melhore mais melhore muito melhore mesmo merecemos maldito mundo moderno mundinho merda!

Chico Anysio

Quatro anos sem Jork

Jork
Há quatro anos uma notícia triste, via telefonema do amigo Anderson Miranda: Jork Dean, funcionário da Caixa Econômica e músico morreu. O brother que me avisou da tragédia era gerente do banco onde Jork trabalhava. A lembrança da rede social Facebook me recordou dessa perda. Pessoas bacanas ficam sempre vivas no coração da gente.

Jork tinha 37 anos. Ele foi vitima de uma briga de trânsito que resultou no seu assassinato. A comoção tomou conta dos malucos de Macapá, pois Jork era um cara querido e considerado. Conheci o Jork em 1991, quando cursamos juntos a 7º série, na Escola Alexandre Vaz Tavares (AVT).

O cara era um gozador, um sacana gente boa. Ele nunca andou comigo pra cima e pra baixo, mas quando nos encontrávamos era festa, principalmente nos eventos de rock. Também fizemos algumas malucagens juntos (risos).

Não tive coragem de ir ao seu velório e enterro, mas me disseram que foi diferente, ao estilo Jork de ser. A gente não tinha contato no cotidiano, mas existia brodagem entre mim e aquele sacana. .

Jork era uma figura pouco (ou nada) ortodoxa, tocava porradas do Metal, mas também era apaixonado por Beatles e Raul Seixas. O cara fazia miséria no baixo, foi um dos melhores músicos amapenses de sua geração, embalou piseiros memoráveis nas noites quentes de Macapá, quando fazia parte da banda Sloth.

Sua morte foi transformada em alerta para crimes como o do que ele foi vítima e em arte, pois familiares e amigos do músico criaram o Festival “Jork and Roll, realizado anualmente na Praça da Bandeira, no centro de Macapá, no período do que seria seu aniversário.

Jorkdean era um figura alegre, sempre com um sorriso no rosto e direto, não fazia rodeios. Tinha personalidade e possuía uma sarcástica malacagem sutil peculiar.

Não é nenhum exagero afirmar que o Jork ajudou a puxar a fila e firmar no Rock no Amapá, sobretudo o Heavy Metal.

Hoje em dia, os roqueiros de Macapá fizeram de Jork uma referência, uma espécie de ícone do maluco gente boa. Ele nunca quis holofotes sobre si, mas sua memória merece ser tratada como tal. Além de extraordinário músico e atitude foda, ele era gente fina demais. Todos sentimos saudades. Valeu, Jork!

Elton Tavares

Quem nos dera um adeus digno

 
Várias vezes, sonhei que conversava uma última vez com uma pessoa que partiu. Sim, sim, alguns dirão que tenho muita imaginação, outros que sou ficcionista ou até mesmo assombrado. 
 
Bom, o lance não é imaginário mesmo. Quase sempre, imaginamos viagens no tempo  para falar com pessoas queridas que se foram ou quem sabe alertá-las sobre um perigo iminente. 
 
Não falo de viagens no tempo provocadas por portais abertos no espaço-tempo como nos filmes “Donnie Darko” e “Efeito Borboleta”, cheios de possibilidades de mudanças e conseqüências.

Também não queria psicografia, entoação ou algo assim. Falo da oportunidade de uma aparição da pessoa. Do amigo ou ente querido se manifestar logo após a desencarnação. 

Dessa forma podemos dizer ou escutar qualquer coisa do tipo: eu te amo, siga seu caminho, pois vou cuidar de tudo por aqui. É isso!
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Óquei, pode soar meio lunático, mas sem querer ferir o código de ‘futuro pré-determinado’ denominado destino, o sindico de tudo isso aqui, de codinome Deus, poderia colocar mais essa cláusula no livre arbítrio: a possibilidade de se despedir. Seria ótimo. E como seria! 


Não, não se trata de “consertar” nada e sim uma última chance de diálogo. Uma conversa franca e um adeus digno. 
 
Elton Tavares

OUÇA BEM O QUE VOU GRITAR NO SEU OUVIDO – Poema de Fernando Canto

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OUÇA BEM O QUE VOU GRITAR NO SEU OUVIDO

Ouça bem o que vou gritar no seu ouvido:
Este avião segrega a minha dor e sequestra meu desejo.
Mas nem assim tirarei o ranço da mochila pra te machucar nesta viagem.
Sou, bem sabes, um viajante extemporâneo hoje em dia,
Ainda que tenha te seguido em prantos
Por desertos e luas paridas sem orgulho.
Sou estratégia, luta e morte agora.
Um calcanhar de sólido e obtuso aço
A deixar pegadas órfãs de grama ao caminhar.
Por ti gestei palavras e poemas
Ensanguentado de mágoas e lâminas enferrujadas no nosso jardim de amarílis, mas não deixei que mesmo à tua voz renitente a dor fosse objeto de vindita.
Mas ouça bem, porque neste avião a manobra de valsalsa me faz surdo e um surto de angústia povoa meu ser, posta a natureza falsa do cabelo da aeromoça que passa me ofertando um tango e um sanduíche no cartão de crédito.
Tiro da cartola um coelho e um moinho de lágrimas e te digo novamente: ouça-me bem, amore, a minha biografia foi filmada em celular e num segundo milhões de acessos contemplei. Ouça -me: despertei do sonho, da prisão do pesadelo que embalava minha rede branca na varanda. Meu coração já não sofre tanto por ti. Ouça -me. Ouça -me! Você pode me ouvir, sim. O avião pousou. Desembarca. Já!

Fernando Canto