Carnaval 2020: serviços melhoram entorno da área onde ocorrerão os desfiles das escolas de samba e aquecem economia

A Prefeitura de Macapá iniciou no último sábado, 25, os serviços de limpeza, iluminação e recapeamento na área onde acontecerá o desfile das escolas de samba, localizada atrás do sambódromo e entorno do Estádio Zerão. Em 2020, o prefeito de Macapá, Clécio Luís e o senador Davi Alcolumbre conseguiram resgatar a festa.

Os serviços de infraestrutura melhorarão toda área de entorno e bairros adjacentes como o Zerão, Universidade e Pedrinhas. Entre essas ações estão a limpeza, iluminação do entorno, que já foi iniciada, desvio de trânsito, segurança durante todo o evento e dispersão coordenada. Ao todo, dez escolas de samba estão habilitadas para o certame (chamada pública).

O fomento para a realização do evento é resultante da articulação do senador Davi Alcolumbre e por intermédio de patrocínio e do Tesouro municipal. O valor destinado é de R$ 1,5 milhão. O evento contará também com recurso de emenda parlamentar do deputado federal Vinícius Gurgel, no valor de R$ 1 milhão.

Segundo o secretário de Gabinete da prefeitura e coordenador do evento, Sérgio Lemos, os serviços melhoram toda a infraestrutura dos bairros do entorno, além de aquecer e movimentar a economia criativa. “Estruturaremos a área para aprimorar o trabalho conjunto e fazer a melhor festa de resgate do desfile. Também programaremos as ações integradas para garantir que tudo siga conforme o planejamento realizado”.

“O desfile das escolas de samba é uma manifestação cultural que apresenta importante conteúdo social, político e econômico, aumenta a ocupação nas redes hoteleiras, aumenta também o número de clientes em restaurantes, bares, lanchonetes, de serviços de taxistas, mototaxistas, cabeleireiros, costureiras, manicures, artesãos, o que fomenta a cadeia econômica e gera emprego e renda à população”, explicou.

Há quatro anos, o tradicional Carnaval do Amapá, que ocorria no sambódromo, juntamente com os desfiles de blocos, não é realizado na cidade. As dificuldades financeiras alegadas pelo Governo do Estado e a interdição do espaço inviabilizaram a festa.

Participaram da ação no sábado, 25, secretários de Manutenção Urbanística, Claudiomar Rosa e de Obras, David Covre; o diretor-presidente do Instituto Municipal de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Maykom Magalhães; o diretor-presidente do Instituto Municipal de Turismo, Alex Pereira e representantes da Secretaria de Iluminação Pública.

Lilian Monteiro
Assessora de comunicação/PMM
Contato: 98409-3733

Carnaval 2020: Central do Carnaval é inaugurada em Macapá

Foi inaugurada neste domingo, 26, a Central do Carnaval 2020 de Macapá, um pontapé inicial para a maior festa popular do país. O espaço nasce com uma proposta criativa e inovadora. No local, os foliões podem escolher a sua programação dentre a variedade de circuitos e também a estrutura como frisas, camarotes, arquibancadas.

Segundo o secretário de Gabinete, Sérgio Lemos, o espaço também fará a divulgação do evento nos municípios vizinhos, no Platô das Guianas e no estado do Pará. “É importante perceber que o carnaval tem uma ampla movimentação e aumenta a ocupação nas redes hoteleiras, aumenta também o número de clientes em restaurantes e bares, lanchonetes, de serviços de taxistas, mototaxistas, cabeleireiros, costureiras, manicures, artesãos, o que fomenta a cadeia econômica e gera emprego e renda à população”, explicou.

Na Central do Carnaval, a população pode adquirir ingressos e abadás para as programações do desfile das escolas de samba, nos dias 21 e 22 de fevereiro, e para a micareta, nos dias 23, 24 e 25 de fevereiro. “A expectativa é receber milhares de pessoas nos dois dias de desfiles dos grupos especial e acesso”, explicou a presidente da Liga das Escolas de Samba do Amapá, Lizete Jardim.

A Central do Carnaval está localizada no primeiro piso do Amapá Garden Shopping. Ela oferece praticidade e facilidade de acesso a seus clientes, e funcionará de segunda a domingo, das 10h às 22h.

Amelline Borges
Assessora de comunicação/PMM

Poema de agora: PASSO CEGO – Ori Fonseca

PASSO CEGO

Estavas tu cismando na janela,
Em um momento em que o tempo congela,
E tudo silencia acomodado
Dentro dos olhos teus de olhar nublado.

Eu, que passava desapercebido,
Travei meu passo manco e combalido.
Senti que as pernas eram pedras frias
Desfiguradas pela ação dos dias.

Demos as mãos num caminhar confuso,
Eu confiando em teu olhar difuso,
Tu confiando no meu passo errante.

Perdemo-nos num pântano distante…
Agora, nossas marcas são eternas:
Ceguei-te os olhos, me quebraste as pernas.

Ori Fonseca

Senador conversa com beneficiários do Bolsa Família e BPC sobre o 13º salário permanente

O senador Randolfe Rodrigues (Rede) apresentou, ainda em dezembro, relatório favorável a Medida Provisória nº 898 que garante o pagamento do 13º salário aos beneficiários do Bolsa Família e ainda propôs a extensão para os que recebem o Benefício de Prestação Continuada (BPC). A reunião será amanhã (28), às 10h, no Teatro das Bacabeiras.

O senador deve fazer a leitura do relatório no dia 04 de fevereiro. Ele propõe que as famílias inscritas no Programa, já com direito à 13ª parcela do benefício em 2019, passe a receber o benefício permanentemente. Randolfe retirou do texto o termo “2019” e transformou o 13º em um benefício anual para todos os inscritos no Programa.

“Também inclui uma emenda ao texto que fixa um reajuste anual no Programa, que hoje depende da vontade do presidente da república. Entendo a importância do Bolsa para tantas famílias que dependem do benefício financeiro para sobreviverem”, explicou.

O senador acredita que o BPC tem por objetivo principal amparar pessoas à margem da sociedade que não possuem condições de prover seu próprio sustento. “Com a concessão do 13º aos que recebem o BPC, corrigiremos essa desigualdade e garantiremos a isonomia entre esses beneficiários e os demais do INSS, que já recebem a renda extra”, completou.

Randolfe ainda sugere o aumento do limite de recebimento de benefícios por família de 2 para 5 anos, em casos de adolescentes, igualando aos casos de famílias com crianças.

A MP 898, do 13º salário do Bolsa Família, tem até 24 de março para ser votada pelos parlamentares.

Assessoria de comunicação do senador Randolfe Rodrigues

Atravessar o Rio de Cada Dia – Crônica paid’égua de Fernando Canto

Fernando Canto – Anos 70, em Belém (PA).

Crônica de Fernando Canto

Recebi do amigo Gama um poema onde o autor lembra os inúmeros episódios que vivemos na época de estudantes em Belém. Estávamos nos meados da década de 70. O governo militar havia fechado o Congresso no famoso “pacote de abril” e instaurara a figura do senador biônico, entre tantas outras anomalias criadas contra a democracia. Tudo em nome da ordem e da manutenção do status quo, que perduraria por mais 10 anos.

O poeta me contou da largura do rio que conheceu como uma ponte bailante ao som do vento, nas longas travessias que percorreu em busca de algo bom. No seu camarim de madeira flutuante disse dos dias e noites que passou ouvindo o barulho dos motores e cheirando o óleo queimado no vai-e-vem da rede em que sonhava.

Nas margens opulentas dos furos entre as ilhas pôde sentir o preparativo da longa ópera que se descortinava em nosso futuro. E viu policiais armados com porretes batendo os estudantes que debatiam o regime político. E viu todos nós correndo como loucos “sobre os paralelepípedos desnivelados para se esconder”. E respirou, aliviado, “sentindo ainda o bafo quente daqueles cavalos ofegantes/ ouvindo o estalido agudo da ferradura/ na distante noite escura”, em que tantos foram tantas vezes presos que viram fenecer seus sonhos, que roeram seus próprios quebrantos na ausência da luz.

O poeta me fala da sua necessidade de voltar a terra, do inevitável compromisso familiar assumido e do rio que parecia ter se alargado mais na hora da volta. Era um abismo, mais que um pélago oceânico, era um abismo de imensurável fundura. Mesmo assim recolheu a âncora no cais do porto e singrou, quase exaurido, em sua epopéia estudantil vencida e terminada.

No curso das nossas vidas, pela dor, redescobre os nós bem antes apertados, porém que se tornaram frouxos, distantes e reticentes. Informa que não somos mais os mesmos, posto que o mundo e seus problemas são maiores. Nós nos descrevemos em palimpsestos, e escrevemos novas histórias em nossas lembranças, “agora a nossa menor distância”, ele me diz.

Verdade, não há mais cantorias na casa do Isnard, lá em Belém, e o violão acompanhando “Devaneio” entre doses de caipirinha e um Minister colocado na ponta da corda de aço. Nem nas férias em um domingo de sol na Fazendinha se ouvirá mais o canto revolucionário de Vandré cantando aos berros “Pra não dizer que não falei das flores” para um público ignorante dos problemas brasileiros. O som da viola em sol maior não permanecerá vívido na lembrança de que “O terreiro lá de casa/ não se varre com vassoura/ varre com ponta de sabre/ e bala de metralhadora”. Ah, e depois, será que nos lembraremos de Glauber com o seu premiado “Deus e o Diabo na Terra do Sol”?

Mudamos sim, velho camarada, sem perceber que sabemos do “equilíbrio de uma cor”, que sabemos que “o mundo é outro e outros somos nós”, como me dizes. Ser outro é o retrato da mudança, pois mudar significa se deslocar de um lugar ou de um tempo para outro, transformar a sua própria realidade com todos os senões que vida traz, com todo o rufar dos tambores que nos despertam para que não fiquemos sem memória.

E viver, tens razão, é lembrar, é não deixar morrer a chama de Mnémone, mas também atravessar com coragem o rio de cada dia, às vezes mais largo, abissal em suas entranhas, mas às vezes estreito como um córrego em minha realidade.

**Fotos encontradas no Google, blogs da Alcinéa Cavalcante e Fernando Canto.

O ostranauta – Crônica porreta de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

O ostranauta é um cara ensimesmado, circunspecto, sorumbático, meditabundo, que viaja sem rumo ao redor de seu umbigo.

O ostranauta é todo aquele que segue a vida dentro de sua carapaça de tartaruga. Ele ouve os sons ao seu redor, está conectado com o mundo, mas prefere o seu próprio planeta, a sua ostra. Por isso, ele é um ostranauta.

A bordo de sua ostra, ele se imagina dentro do útero, da caixa de fósforos, da gaveta, da concha… Há uma multidão de inadaptados, esquecidos, marginalizados, banidos. Mas o ostranauta, mais do que ser um exilado, é um exilado por opção, um autoexilado. Ele não quer mesmo papo com o mundo exterior. Só o que interessa é o seu grupinho das redes sociais. Ele tem milhões de horas de internet grátis à sua disposição. Tempo e assunto são coisas que não faltam. Não se sabe se os assuntos são interessantes. Na maioria das vezes, quantidade é uma inimiga terrível da qualidade. Alguns aproveitam a modernidade da internet para disseminar ideias racistas, homofóbicas, xenofóbicas, claustrofóbicas… Outros ostranautas ficam apenas se divertindo com piadas bobas, que não precisariam de toda essa tecnologia para existir. Ou postando / compartilhando / curtindo vídeos idiotas. Ou sacaneando saudavelmente seus amiguinhos (reais e virtuais). Ou…

Entre num ônibus e você verá vários ostranautas guardados no seu mundinho. Vá ao shopping e encontre o maior número de ostranautas por metro quadrado. Eu estou me esforçando para ser um ostranauta. Preciso acompanhar os tempos, senão vou acabar falando sozinho. Que nem os ostranautas.

O Amolador – Conto porreta de Fernando Canto

Conto de Fernando Canto

“Fazia um silêncio de princípio de mundo”.
(Dalcídio Jurandir)

Contam que qualquer desgraça, a menor que fosse, já era esperada pelos trezentos e tantos moradores da Vila Vistosa de Manga Rosa. Há três meses não chovia e a terra rachava tal como os pés dos lavradores. Os moradores viviam acabrunhados pelos cantos e todos eles martelavam uma angústia terrível, embora houvesse quem espichasse um fio de esperança e levasse alguns fiéis a crerem mais no futuro.

Catarino, o amolador, deslizava suavemente o rio na sua ubá com o intuito de passar uns tempos em Manga Rosa, continuando sua peregrinação profissional entre as pequenas comunidades das ilhas, nas quais arregimentara grande prestígio e a consideração dos pescadores, dos comerciantes, dos lavradores e madeireiros. A bordo, sua mulher Renilda apalpava e penteava os cabelos lisos que de longos transpareciam auriluzentes contra o sol da tarde.

Fora um dia desmedido. Nunca se vira um arco tão claro e tão flamejante no céu daquelas paragens onde tanto chovia e tanto verde medrava antigamente sobre os barrancos aluviais. Os dois comentaram o tempo da última viagem à vila e a estreiteza do rio e suas margens lamacentas, pois mesmo com a maré elas permaneciam distantes, assim como se o rio se recusasse a dar seu conteúdo àquela gente pobre que dependia exclusivamente de sua passagem por ali.

À medida que remavam vinha a seu encontro um canto, que de murmúrio passava a ser um coro de lamentos. Era um antigo cantochão pronunciado em latim.

Aportaram com dificuldade no barro da beira do rio, puxando a pequena embarcação para a praia, como se tivessem certeza de que a maré subiria.

– É uma ladainha, disse Catarino. – O estranho é que não é tempo de festa do padroeiro, nem Semana Santa.

– Pode ser que alguém tenha morrido…

– É, tem muita cobra nesta ilha.

Subiram o cais do vilarejo banhados pelos últimos raios de luz. Na rua principal havia uma pensão onde conseguiram um quarto de chão batido, meio úmido. Armaram suas redes em escápulas ruidosas, e exaustos da viagem adormeceram sem se importarem com os carapanãs que vibravam as asas num barulho infernal.

Na casa de Maneco Barbosa, o cantador de ladainhas, alguém deu a notícia de que Catarino chegara ao povoado. Os presentes, que tomavam café após a reza, ensaiaram um sorriso. Não que aquilo fosse uma grande informação, mas de qualquer maneira representava um alívio para os produtores locais, pois na região não existia pedra que pudesse amolar terçado, enxada ou qualquer outro objeto cortante.

Amanhã a gente conversa com ele. O amolador de facas pode ser a redenção de nossa vila. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, disse Maneco, com as mãos para o alto.

Para sempre seja louvado, responderam os presentes, olhando para a cumeeira da casa infestada de aranhas.

O dia nasceu seco. E a aparência desértica realçava ainda mais a acidez das coisas vivas da cidadezinha. Um raro vento levou abruptamente as derradeiras folhas da gigantesca e quase secular mangueira que a frente do esquecido lugar tinha como símbolo. As folhas amarelas flutuavam como painas, confundindo-se no ar, fazendo evoluções fortuitas, desenhando letras imaginárias de uma escrita que talvez significasse um pedido de socorro. Tal como aquelas gentes, a árvore descascava, empretecia e enrugava sob a impiedosidade do sol, cujos raios caíam como bólidos de fogo, incessantemente e sem misericórdia. As gentes diziam não acreditar em castigo, mas acreditavam, embora antecipassem visões de desgraça em virtude da falta de material de trabalho e da ausência de chuvas.

O mais impressionante era a indisposição geral de procurar ajuda, mudar-se para outra vila ou se enfiar para rezar na velha capela construída pelos ancestrais. Todos os moradores eram de origem católica, batizados por padres italianos que raramente apareciam ali para rezar uma missa e batizar as crianças.

Contam que certa vez chegou um pastor de uma dessas inumeráveis seitas que grassam no interior e lá tentou se estabelecer. Convocou os moradores para um culto, mas apenas o doido Gonçalo apareceu. Os dois acabaram discutindo, indo às raias da violência, o que obrigou o presbítero a abandonar a vila às pressas.

As circunstâncias naturais e materiais promoviam pensamentos trágicos quanto ao futuro do lugar. Quase tudo o que se conseguia para comer estava no rio retraído pela estiagem. Porém o peixe estava rareando e os pescadores não se atreviam a ir além da curva do Furo do Ninguém. Atribuíam sua panemeira às últimas palavras do pastor expulso pelo doido, quando de certa maneira houve a conivência de todos: “Esta terra há de torrar e este rio será uma estrada de barro seco. Vocês vão viver agruras até a chegada do próximo milênio, tudo porque recusaram a palavra do Senhor”, dissera, ao embarcar em uma noite chuvosa, sob vaias, risos de deboche e chavões do tipo “praga de urubu não mata cristão”.

Porém, esse fato não abalou a maioria dos habitantes. Mesmo acabrunhados com a brusca transformação de seu meio de vida e apoquentados pela incerteza do tempo, consumiam com certa frequência o que ainda restava de cachaça na pensão do Naldo, conversando sobre suas próprias mazelas, tristes e sérios. Nunca riam. Mesmo sob o efeito do álcool.

Sonolento e ainda intrigado com o que vira na véspera, Catarino sentou na rede, balançou-se um pouco, chamou Renilda e resolveu ligar seu inseparável rádio de pilha para sintonizá-lo em uma emissora da capital.

Viu atônito sair primeiro uma, depois três, depois dezenas de cabas peçonhentas do interior do aparelho que estava repleto de uma massa seca e acinzentada. Com paciência e refeito do susto, o amolador o limpou cuidadosamente, mas desistiu de ouvir qualquer programa matinal. Lá fora os carrancudos moradores estavam à sua espera.

Temos o maior prazer de receber o nosso estimado amigo em nossa terra, cumprimentou-o o rezador Maneco, apertando-lhe a mão. – Como vê, estamos satisfeitos com a tua presença. Faz uns quatro anos que nós não apertamos as mãos.

Catarino tentou sorrir, mas desistiu da ideia. Formigas de fogo devoravam seus tornozelos. Ofereceram-lhe uma barraca para morar e instalar sua oficina, gesto que conseguiu agradecer embora agoniado com as ferroadas.

Dia seguinte, sob o comando do cantador de ladainhas, o povo organizou uma fila imensa, munido de suas ferramentas enferrujadas para apreciar o trabalho de Catarino, já devidamente instalado e pedalando o esmeril para afiá-las. Crianças curiosas metiam-se entre os adultos para ouvir o incessante barulho da máquina de amolar e observar com seus olhos brilhosos as faíscas da pedra. Quem tivesse dinheiro e quisesse pagar o trabalho, pagava. As senhoras, deslumbradas com o novo fio das facas, corriam para descascar velhos pedaços de macaxeira armazenados nas despensas. Um dos derradeiros bois do povoado foi sacrificado em nome da coletividade e repartido entre as famílias, com a anuência do proprietário, que o mantinha vivo com palmito moído no pilão. Lavradores recorreram aos depósitos para catar sementes e plantá-las nas roças abandonadas. Jovens e velhos rasparam as barbas e se perfumaram. As mulheres depilaram os sovacos e os pelos das pernas com navalhas afiadas, improvisaram salões de beleza para tirar cutículas e queimaram pulgas e piolhos, locatários dos seus longos cabelos. Alguns homens cortavam lenha e outros penetraram na mata estorricada procurando vestígios de frutas e raízes. Até caçavam para suprir a necessidade alimentar da comunidade.

Naldo, o dono da pensão, convidou a todos para uma festa que queria dar no centro comunitário em homenagem a Catarino e sua mulher, por terem conseguido a união dos moradores e a esperança comum de os mesmos sobreviverem com maior coragem através do trabalho. Até já sorriam. Faltava agora chegar o período chuvoso.

A festa começou com discursos e aplausos, mas infelizmente terminou logo, assim que um rapaz embriagado quis dançar com Creuza, uma das mais bonitas moças do lugar.

Recusado, o bêbado chutou o rádio de pilha que Catarino havia emprestado para o evento, e de dentro dele saíram novamente centenas de cabas coloridas dispostas a picar os convivas. No corre-corre alguém puxou de uma peixeira e acertou o infeliz causador da confusão, que rolou no chão estrebuchando. Dois de seus irmãos, revoltados e armados com canivetes, partiram para cima do agressor e o mataram, fugindo em seguida.

Quando o dia amanheceu, enterraram os mortos em caixões improvisados, sem o tradicional rito de encomendação das almas.

***

Catarino ficou surpreso ao receber aquelas pessoas deformadas, carrancudas e nervosas vindas do cemitério, trazendo objetos para amolar. Cada qual tinha o semblante carregado, agravado pelo inchaço das ferroadas.

Nos dias sequentes os homens nunca mais rasparam as barbas e nem as mulheres se depilaram. Foram ficando cada vez mais feios, sujos, embrutecidos. O amolador constatou que a maioria das ferramentas afiadas retornava a ele diariamente. Alguma coisa além do habitual estava acontecendo.

O vai-e-vem das ferramentas foi fundamental para que Catarino tomasse pé da situação: suas pedras de amolar estavam gastando em excesso, assim como os objetos dos moradores da vila. Facas, serrotes, tesouras, formões, enxadas e foices afinavam dia a dia, enquanto o estoque de esmeril diminuía. Ele e sua mulher notaram que outras coisas também modificavam.

Observaram, por exemplo, que as pessoas envelheciam e entanguiam precocemente, talvez por causa da quentura e da claridade da estiagem. Dava pena ver moças com tantos pés-de-galinha e rapazes de testa e pálpebras encarquilhadas. Velhos há pouco dispostos para o trabalho agora eram lassos, espectros impossibilitados de andar. As crianças pareciam albinos fugindo do sol, e os cães, feridentos, desabavam constantemente em alguma rara sombra, com um palmo de língua para fora.

Tomava conta da vila a desolação. Havia uma irritação permanente e recíproca entre todos, e até as lembranças recentes eram pequenas. Ninguém, nem Maneco Barbosa, conseguia recordar na íntegra a ladainha aprendida havia décadas com os padres italianos. Vegetais que outrora abundavam os arredores enterravam-se no solo poeirento, afundando até o caule. Seus galhos secos ficavam como dando adeus à vida, tal como mãos de afogado no pedido de socorro.

Os alimentos rareavam e o povo padecia de fome inevitável. Só o casal de amoladores tentava compreender a vala que sobrara do rio, lembrando o que lhes contaram sobre as proféticas palavras do pastor expulso do povoado. Na sua simplicidade pensavam eles que talvez tudo aquilo tivesse sua origem na Justiça Divina ou no mínimo fosse de origem política, pois acostumados a andar na região, nunca haviam visto tanta desassistência e tanta miséria. O amolador recordou que antes de ali chegar, em toda a região chovia. E muito, exceto em Manga Rosa que de vistosa nada mais tinha. Aliás, lembrou, nem cobra existia mais naquelas brenhas. Tudo virara alimento para a população faminta.

Decidiram mudar. Num momento de folga calafetaram a ubá que ainda jazia no barro seco da antiga praia e a empurraram para a vala, aquilo que restava do rio. Iriam pela manhã. Quase nada tinham para levar de volta e não havia necessidade de se despedirem.

À meia-noite um vento assobiou entre os galhos das árvores, correu penetrando as casas de pau-a-pique e se alojou no centro do rio. Outro vento desenvolveu o mesmo percurso. E outro. Mais outro…

Renilda foi a primeira a acordar. Chamou o marido no momento em que um clarão vindo do céu quase os cegou quando penetrou pela janela aberta. Três segundos foram o suficiente para toda a população sair à rua após o forte trovão que ensurdeceu a todos. Seguiu-se uma tempestade sem precedentes. Então gritos e orações se misturaram a choros incontroláveis. Choveu por cinco horas e ninguém mais dormiu.

A árvore símbolo e os outros vegetais secos da vila amanheceram com uma profusão imensurável de besouros. Eram tantos que pareciam formar uma espécie de teto sobre o lugarejo. Mesmo assim, os homens estavam mais alegres e muitos se cumprimentavam sem irritação ou desconfiança. E havia sinais de muita, muita chuva por desabar. Eles que se preparassem, pensou o amolador, a água que se aproximava era tanta que poderia matá-los afogados.

Catarino apanhou sua pequena bagagem e caminhou o rio junto a Renilda. Reconsertou a ubá, tirou a água do casco e substituiu o toldo de palha destruído pela chuva.

Ao fim do conserto, partiram devagar, contemplando a Vila Vistosa de Manga Rosa, lugar de coisas inomináveis, palco da miséria exacerbada e de homens endurecidos pelas circunstâncias. Um adeus era muito para quem partia a salvo com os corpos marcados, cansados e gastos como as pedras de esmeril que ainda sobraram.

 

*Este conto de Fernando Canto está publicado no e-book “Os tempos Insanos“.

 

PJDE recebe Associação dos Notários e Registradores do Amapá e Corregedoria de Cartórios Extrajudiciais de Macapá

A Promotoria de Defesa da Educação do Ministério Público do Amapá (PJDE/MP-AP) recebeu na terça-feira (21), a corregedora permanente de Cartórios Extrajudiciais de Macapá, juíza Liége Gomes, e o vice-presidente da Associação dos Notários e Registradores do Amapá (ANOREG), tabelião Francisco Erionaldo, para uma reunião com o propósito de facilitar o acesso da instituição aos registros civis de crianças e adolescentes em idade escolar.

“O nosso principal propósito é estreitar os laços com o Ministério Público Estadual, além de nos colocarmos à disposição prestando informações que são necessárias para que a Promotoria da Educação desenvolva seus projetos e procedimentos, a fim de atender às demandas da sociedade. Escolhemos especificamente esta Promotoria, para estabelecer prioridades no atendimento da atenção à educação da primeira infância, seja através das creches ou a própria educação básica. Assim, os cartórios têm condições de fornecer informações do quantitativo de nascimentos para que o MP-AP possa desenvolver ações no sentido de propor melhorias ao Poder Executivo”, pontuou Liége Gomes.

O vice-presidente da ANOREG explicou que este meio poderá agilizar procedimentos internos na PJDE. “Estamos à disposição do MP e informamos que a Associação disponibiliza o banco de dados nacional para pesquisas sobre o registro civil, facilitando os âmbitos dos ofícios e, também, da comunicação entre os cartórios e órgãos institucionais”, esclareceu Francisco Erionaldo.

Outro ponto discutido durante o encontro foi a Central de Informações de Registro Civil (CRC), um banco de dados digital com a finalidade de obter informações de registros nacionais de estudantes, sem tanto gasto com ofícios em papel.

“Agradecemos a cordialidade e gentileza da corregedora permanente de Cartórios Extrajudiciais de Macapá, doutora Liége Gomes, e do vice-presidente da Associação dos Notários e Registradores do Amapá, tabelião Francisco Erionaldo, que se dispuseram a vir até a Promotoria da Educação esclarecer sobre os afazeres da Corregedoria e dos cartórios, enquanto registradores de pessoas naturais. Dentro disso, observamos que, por lidarmos com crianças e adolescentes em idades escolares, a ausência de informações oficiais estava nos causando dificuldades para o acesso dessas pessoas à educação. Assim, nos sentimos mais seguros para dispor de ajuda bem mais eficiente, no sentido escrevermos uma educação de qualidade à melhoria do sistema educacional”, concluiu Roberto Alvares, titular da Promotoria da Educação.

Serviço:

Tanha Silva – Diretora de comunicação
Texto: Louise Dias
Assessoria de Comunicação do Ministério Público do Amapá
Contato: (96) 3198-1616
E-mail: asscom@mpap.mp.br

O novato – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

Eu notei que a bola que Edson Sampaio chutou sem querer nele deixou uma marca colorida no seu braço.

Quando terminou o jogo, fomos à quadra de bocha onde fica o bar do clube, como de costume, tomar umas cervejas e jogar conversa fora. Ele tomou banho e foi logo embora. Como era o primeiro domingo dele no meio do nosso grupo, Diniz, Catarino, Rodrigo e Robertão, atribuíram esta pressa à falta de entrosamento com o resto dos meninos.

Nos outros domingos foi mais ou menos igual. Jogava bem. Jogava bem no meio do campo, distribuía a bola, não reclamava de voltar para ajudar a defesa e quando o sol esquentava muito, cansado, mas não suado, pedia substituição. Entravam os que habitualmente chegavam atrasados. David, Thales, Cristiano, Junior, Jadson e Léo.

A única coisa estranha era quando ele interrompia o jogo para dar conselhos sobre o uso de brinco, pulseiras, piercing e outros apetrechos usados por nossos jogadores durante a partida. Queria evitar ferimentos. Pensei.

De outra feita, Pedro e José chutaram dois rebotes que pegaram nas suas costas. Ficou um pouco tonto. Sentado na quadra. Dododo correu para apanhar o spray analgésico. Suspendeu sua camiseta e foi quando eu vi de novo a repetição das marcas coloridas. Eram como se no local a pele houvesse sumido e um estranho tampão luminoso ocupasse o seu lugar. Parecia o centro de um olho de peixe, colorido e furta-cor. Podia parecer como uma tatuagem, mas aos meus olhos acostumados a feridas, cicatrizes, abrasões, queimaduras e outras mil formas de perda de pele. Não era.

Era como se ele carregasse sob a pele muitas lampadazinhas fosforescentes de cores diferentes em um mesmo local. Observei que o jato spray do analgésico como que evaporou quando caiu sobre a região brilhante. Carneirinho e Gardenal o carregaram para fora da quadra. O jogo continuou.

Naquele mesmo dia, assim que ele deixou o banheiro, eu entrei. Mesmo sem acender a luz eu notei um brilho próximo ao ralo. Parecia que tinham jogado mercúrio, algo líquido que escorreu deixando um rastro luminoso. Derramei bastante água. Até mesmo urinei sobre a mancha. Fui para a mesa com o resto da turma e esqueci. Soube, então, que meu filho havia apanhado as chaves do meu carro e fora levá-lo de carona. Aguardei que meu filho retornasse e fomos embora. Perguntei se ele, o novato, estava bem. Junior disse-me que quando o levou ele estava arfante e pouco falou.

Atribuí ao sol muito forte, sob o qual jogamos, sem substituição nenhuma.

Ele quis ficar próximo ao Mercado Municipal, onde o Tamanduateí cruza o Tietê, sobre aquela ponte. Olhei para o Junior, intrigado. Por certo morava por ali.

Desse domingo em diante, nunca mais veio jogar. Ficamos preocupados, mas agora, já seis meses transcorridos, o fato foi esquecido. Nunca descobri quem o convidou para jogar conosco. Vai ver que apareceu por lá à toa e o convidaram para completar o time.

Atirei fora o frasco de analgésico spray.

Desde aquele domingo, tenho lavado o carro muitas vezes, mas permanece forte um cheiro de amônia.

*Do livro de Contos Antena de Arame – Rumo Editorial – Segunda Edição – 2018 – São Paulo.

Mazagão velho, a cidade que atravessou o oceano, completa 250 anos

Mazagão Velho, no frame de vídeo (documentário em produção) cedido pelo amigo Aladim Júnior

Mazagão Velho completa 250 anos de fundação nesta quinta-feira, 23 de janeiro. A minha família paterna veio do Mazagão, não do Velho, mas do “Novo” (que não tem nada de novo). Bom, vou falar um pouco da cidade e depois da relação do local com o meu povo.

Foto: Elton Tavares

O município de Mazagão tem uma história peculiar, rica em detalhes sobre o Amapá. Mazagão foi fundada porque o comerciante Francisco de Mello pretendia continuar com o comércio clandestino de escravos, mas pressionado pelo governador Ataíde Teive, resolveu cooperar, fornecendo índios para os serviços de construção da Fortaleza de São José, na capital do Amapá, Macapá.

Fotos: Max Renê

Em retribuição, foi anistiado e agraciado com o título de capitão e diretor do povoado de Santana; mas, por conta de uma epidemia de febre, que acometeu os silvícolas, foi transferido para a foz do Rio Manacapuru, e, pelo mesmo motivo em 1769, para a foz do Rio Mutuacá.

Mazagão Velho, no frame de vídeo (documentário em produção) cedido pelo amigo Aladim Júnior

Em 10 de março de 1769, D. José I, Rei de Portugal (POR), desativou a cidadela de Mazagão, na então colônia do Marrocos (MAR); eram 340 famílias sitiadas pelos mouros. Elas foram transferidas para Belém (PA). Para alojar estes colonos, o governador mandou construir um povoado às margens do Rio Mutuacá. Em 7 de julho de 1770, começaram a ser transferidas 136 famílias para a Nova Mazagão, hoje cidade de Mazagão Velho, como já se denominava o lugar, pois desde o dia 23 de janeiro de 1770, havia sido elevado à categoria de Vila.

Foto: Gabriel Penha

Na verdade, meu saudoso avô paterno, João Espíndola Tavares, nasceu na região do alto Maracá, no Sítio Bom Jesus – localidade de difícil acesso. Para se chegar ao local, as embarcações precisavam passar por muitas cachoeiras do município de Mazagão. E minha santa vó, Perolina Tavares, bisneta do senador do Grão Pará, Manoel Valente Flexa (que foi manda-chuva em Mazagão, no tempo em que lamparina dava choque), também nasceu naquelas bandas. Ah, meu vô foi prefeito do Mazagão (preso pelo golpe de 1964, a então “revolução”).

Lá eles namoraram, casaram e constituíram família. Meu pai, Zé Penha e meus tios Maria e Pedro, nasceram no Mazagão. Os filhos mais novos do casal, Socorro e Paulo, nasceram em Macapá, onde minha família paterna é uma das pioneiras. Meu vô partiu em 1996 e meu pai depois dele, em 1998. Mas a família Tavares preserva a dignidade, o respeito e a amizade – fundamentais para a vida – aprendidos no Mazagão e trazidos para a capital amapaense.

Quando criança, fui ao Mazagão, mas não tenho essas lembranças na cachola. Retornei ao município em 2009, quando meu avô foi homenageado na Loja Maçônica da cidade, por ter sido um de seus fundadores. Depois em 2010, a trabalho, para cobrir a Inauguração da Ponte sobre o rio Vila Nova, na divisa da cidade com a vizinha Santana. E depois, em 2012, para a cobertura do aniversário de fundação da antiga vila (há exatos oito anos).

É, minha família paterna veio do Mazagão (na década de 50). De lá trouxe uma nobreza que admiro e muito me orgulho. Não sei explicar a sensação de ir lá, mas a senti todas as vezes. Parece um lugar em que já estive há muito, muito tempo. Quem sabe noutra passagem por aqui. Do que tenho certeza, é que tais raízes nos deram muita cultura, histórias legais e respeito às tradições. Meus parabéns, Mazagão!

Elton Tavares
*Este texto é parte da monografia que escrevi para o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Comunicação.

 

O homem curvo – Crônica de Fernando Canto

 

Crônica de Fernando Canto

Meus olhos infantis ainda enxergam o homem sentado na ponta do trapiche; a trouxa ao lado e a calça escura balançando ao vento. Sua silhueta lembra um soldado descansando da campanha e o jeito magro e curvo parece mostrar mais lassidão, assim como um cavalo magro e velho pastando em campo infértil.

Há três dias aquele homem está sentado no mesmo lugar como se estivesse pescando sem linha, sem caniço ou anzol na maré seca de ondas ralas. Isso é motivo de preocupação. Mas a minha preocupação infantil é jogar meu futebol na praia lamacenta da frente da cidade. Não consigo, porém, me concentrar. A bola é chutada para dentro do rio que já vem enchendo. É lateral. Vou pegá-la adiante e vejo o homem mais perto. Ele está lá. Impassível. É uma estátua viva. “Joga a bola G.”, meus amigos gritam. Eu deixo a pelada de praia, me visto, apanho os jornais que me restam para vender e resolvo ir onde o homem está.

Um sol de equinócio racha meus cabelos escorridos e o solado dos meus pés acostumados que são a andar descalços sobre a enorme ponte de madeira. Ando quase 500 metros, encontrando pessoas e vou vendendo jornais. Ainda bem que o vento espanta esse sol abrasador. Barco chega, barco parte, ancora, aporta e descarrega. E o homem lá. Seu modo esquisito de se comportar dá a impressão que compartilha um segredo com as águas ondeantes do rio, pois elas chegam e varam os pilares do ancorandouro associando uma música estranha aos meus ouvidos.

Aproximo hesitante do homem curvo e ele não dá a mínima. Nem diz, como os outros adultos “Sai daí menino, é perigoso ficar na beira do trapiche”. Ofereço-lhe o último exemplar do jornal e ele fala “Não sei ler”. Mas eu respondo “Eu leio pro senhor”. “Não precisa, ele diz, eu sei de tudo o que se passou aí atrás, por isso estou aqui olhando as águas.”

Sento ao lado dele e fico horas jogando conversa fora. Parece que agora sei tudo sobre ele e entendo porque ele está ali há tanto tempo sem dormir, sem se alimentar e sem fazer as necessidades fisiológicas. Compreendo sua sede de olhar o rio que vem e que vai, assim como se apresenta o destino no meu entendimento de menino trabalhador. No calor da empatia lhe pergunto tudo. Ele me diz que só não pode dizer o que traz na sua trouxa. Fico aflito, mas ele me conforta, passando as mãos nos meus cabelos.

A manhã passa e um dia inteiro fica no passado. Eu ainda estou ao lado do homem contemplando o rio e os pássaros que flecham com seus voos o céu do poente e da nascente. Não sei quantos dias já se passaram. Sei apenas que num certo momento, na hora em que nascem os raios de sol, ele me fita e diz: “Vou embora. Mas vou deixar minha trouxa aqui neste trapiche. Por favor não abra. Adeus”.

Como se suas pernas fossem de pau, compridas, iguais às dos palhaços do Circo Garcia, ele levanta e segue para dentro do rio até desaparecer no canal.

Lembro que chorei muito. Ao chegar em casa a febre inevitável do encantamento me fez delirar por tantos dias que quase fui internado no Hospital Geral. Mas nada como um chá de ervas e outros esforços familiares para eu ficar bom. Até benzeção e banho de cheiro me ajudaram na retirada do quebranto.

Ao olhar, hoje, o rio e as ondas se quebrarem no trapiche, na emoção de pisar no baluarte de Nossa Senhora da Conceição, sobre a Fortaleza de São José de Macapá, não vejo mais a silhueta do homem curvo. Mas tenho a ligeira impressão que ele ainda está lá. Não sumiu no canal. Todavia, creio que se ele não estiver, está a sua trouxa de sarrapilha encostada num pau de amarração dos barcos. E nela, intuo, reside algo bom, tão bom quanto a esperança que precisa ser guardada numa trouxa qualquer, sob pena de homens e crianças perderem o encantamento que mora no barro e emerge sempre do fundo do rio.

*Publicado no livro “Trapiche – Ancoradouro de Sonhos”. Edição comemorativa à reconstrução do Trapiche Eliezer Levy. Org. Márcia Corrêa. Desenho de Manoel Bispo e foto do pescado feita Alexandre Brito. Foto do antigo porto, em frente da capital amapaense (1966) cedida pelo jornalista e estudioso da história do Amapá, Edgar Rodrigues.

Mais de 50.000 títulos foram cancelados no Estado do Amapá

Por Beatriz Belo

O período eleitoral está chegando e o título de eleitor é um documento imprescindível na hora do voto. Mas fique atento. O Estado do Amapá teve 52.277 (cinquenta e dois mil, duzentos e setenta e sete ) títulos cancelados e 7.367 (sete mil, trezentos e sessenta e sete) títulos suspensos, sendo Macapá o município com maior número de cancelamentos, chegando a 29.662 (Vinte e nove mil, seiscentos e sessenta e dois).

Os eleitores que tiveram o documento cancelado têm até o dia 6 de maio para regularizar a situação junto à justiça eleitoral. Nesta data também é o último dia para fazer alistamento eleitoral, transferência e revisão para zonas eleitorais no exterior.

Como consultar a situação eleitoral?

Para saber se o seu título foi cancelado, basta acessar o site (http://www.tre-ap.jus.br/) e clicar na opção “situação eleitoral” que está localizada nos “serviços ao eleitor”. É necessário somente do nome completo e data de nascimento ou número do título de eleitor na hora da consulta. Outra opção de consulta é telefonando para qualquer cartório eleitoral.

Como regularizar?

Caso precise regularizar o documento e emitir boleto de multas, o eleitor precisa comparecer ao cartório eleitoral com documento oficial com foto e comprovante de residência. Se tiver título de eleitor, comprovantes de votação, de justificação ou quitação de multa, pode levar ao cartório para contribuir e facilitar na solução do problema.

Quer saber mais sobre o título de eleitor? Acesse http://www.justicaeleitoral.jus.br/titulo-eleitoral/

Eleição 2020, conheça o portal das eleições e fique bem informado http://www.justicaeleitoral.jus.br/eleicoes/

Serviço:

Fernanda Picanço
Assessora de Comunicação
Tribunal Regional Eleitoral do Amapá
(96)3198-7504 (Ramal 7504)

Poema de agora: ELO PERDIDO – Pat Andrade

ELO PERDIDO

passo ao largo dos eventos
as pessoas me evitam
os olhares se evadem
me desvio dos lugares

a vida me faz
reinventar o caminho
cada vez mais
me recuso ao carinho
saio sempre de fininho
e não volto atrás

abomino o óbvio
virei entrave,
me vejo estorvo
nesse elo perdido
pseudomundo
onde penso que vivo

PAT ANDRADE

Música de agora: Bitter Sweet Symphony (Sinfonia Agridoce) – The Verve

Bitter Sweet Symphony (Sinfonia Agridoce) – The Verve

Porque é uma sinfonia agridoce, esta vida
Tente fazer finais encaixarem
Você é um escravo do dinheiro, então você morre
Eu te levarei pela única estrada em que já estive
Você conhece aquela que te leva aos lugares
Onde todas as veias se encontram, yeah

Sem mudanças, eu posso mudar
Eu posso mudar, eu posso mudar
Mas eu estou aqui no meu molde
Eu estou aqui no meu molde
Mas sou um milhão de pessoas diferentes
De um dia para outro
Eu não posso mudar meu molde
Não, não, não, não, não

Bem, eu nunca rezo
Mas esta noite estou ajoelhado, yeah
Eu preciso ouvir alguns sons que identifiquem a dor em mim, yeah
Eu deixo a melodia brilhar, deixo-a limpar minha mente, eu me sinto livre agora
Mas as rotas aéreas estão claras e não há ninguém cantando para mim agora

Sem mudanças, eu posso mudar
Eu posso mudar, eu posso mudar
Mas eu estou aqui no meu molde
Eu estou aqui no meu molde
E eu sou um milhão de pessoas diferentes
De um dia para outro
Eu não posso mudar meu molde
Não, não, não, não, não
Eu não posso mudar
Eu não posso mudar

Porque é uma sinfonia agridoce, esta vida
Tente fazer finais encaixarem
Você é um escravo do dinheiro, então você morre
Eu te levarei pela única estrada em que já estive
Você conhece aquela que te leva aos lugares
Onde todas as coisas se encontram, yeah

Você sabe que eu posso mudar, eu posso mudar
Eu posso mudar, Eu posso mudar,
Mas eu estou aqui no meu molde
Eu estou aqui no meu molde
E eu sou um milhão de pessoas diferentes
De um dia para outro
Eu não posso mudar meu molde
Não, não, não, não, não…

Eu não posso mudar meu molde
Não, não, não, não, não,
Eu não posso mudar
Não posso mudar meu corpo,
Não, não, não

É apenas sexo e melodia violenta e silêncio
É apenas sexo e melodia violenta e silêncio
(Eu te levarei pela única estrada em que já estive)
É apenas sexo e melodia violenta e silêncio
(Eu te levarei pela única estrada em que já estive)
Já estive
Em que já estive
Em que já estive
Em que já estive
Em que já estive
Alguma vez você já esteve?
Alguma vez você já esteve?
Alguma vez você já esteve?