Minhas dezenas de fitas K7 e a nostalgia

Ano passado, ao procurar meus livros dentro do armário do quarto, dei de cara com minhas duas caixas de sapatos repletas de fitas cassete. Constituída por dois carretéis de fitas magnéticas, a fita cassete é popularmente abreviada como K7. Esse tipo de “tecnologia” foi desenvolvida pela empresa Phillips, em 1963, para substituir a fita de rolo e o formato 8-track, que eram semelhantes, mas muito menos práticos e mais espaçosos.

A tecnologia desse artefato traz uma fita de áudio de 3,15 milímetros de largura, que rodava a uma velocidade de 4,76 centímetros por segundo. Antigamente a gente ouvia tudo na fita K7, no vinil e, muito depois, CD. Hoje, apesar de alguns ainda usarem o “Compact Disc”, quase tudo é no MP3 e MP4.

Minhas caixas, com quase 40 fitas, têm de tudo: Sony, Maxell, Bulk, Basf, Phillips e TDK, de 40, 60 e 90 minutos. A maioria não pmicrosystemossui mais capa, mas as que ainda têm estão com os nomes das músicas ordenadamente anotadas no papel interior da fita.

Naquela época, nós caçávamos sons novos como as bruxas eram perseguidas durante a Inquisição, ou seja, incansavelmente. Época de micro system Sanyo (Alguém aí se lembra do que é “rewind”?), walkman Sony e festas de garagem.

Dentro das caixas os velhos companheiros: Depeche Mode, The Smiths, New Order,The Cure, Iron, U2, A-ha, David Bowie, Queen, Pearl Jam e Nirvana (muito Nirvana) Titãs, Ira!,Paralamas, Legião Urbana (muito Legião), Barão Vermelho, Engenheiros… todos esses e outros heróis da juventude. Além de umas do velho Chico Buarque.Fita Cassete - Foto

Fizeram sucesso no final de 80, todos os 90 e início dos anos dois mil. Não tenho vergonha de ser tão antiquado. Meu brother André fala sempre, em tom pejorativo, que todo mundo já gravava CDs em 1999 e eu fitas. Bons tempos!

Aliás, gravar fitas era porreta. Quando curtia muito um som, todo um continha somente uma música (podia ser 30 ou 45 minMinhasFitasutos de cada lado, com a mesma canção). Às vezes, ficava com o dedo no tape deck, esperando o locutor da FM calar a boca e soltar o som para que eu o tomasse. Oh, saudades!

Enrolar e desenrolar fitas com lápis ou caneta, sem falar em limpar cabeçotes do tape deck, isso sim é nostalgia.

A fita cassete não voltou como o vinil, que hoje é objeto cult. No máximo, estão em forma de adesivos de smarthfones (que acho legal pra cacete).

imagesÉ, minhas velhas e empoeiradas caixas de sapato não estão somente repletas de fitas cassete, mas de ótimas lembranças. Eu as olhei por dezenas de minutos e as guardei novamente no armário, na memória e no coração…

Elton Tavares

*Informações sobre a construção das fitas encontradas no site Wikipédia

As praças dos velhos tempos – Crônica porreta de Fernando Canto

 

Crônica de Fernando Canto

Creio que todos nós nos lembramos de algum logradouro público da cidade como um espaço que marcou determinado momento de nossas vidas. E, claro, nada como um passeio nas praças de Macapá para fazer vir à tona os clipes nos quais fomos felizes protagonistas ou solitários incompreendidos frente às decepções e vicissitudes que a vida traz, inexoravelmente.

Quando Macapá era menor um passeio à praça significava um caminho para a conquista. Depois da missa ou depois da matinê do cinema, um toque na mão da namoradinha, um ousado “tocha” na despedida era “a glória” dos enamorados, era o sonho realizado sob o embalo da canção romântica interpretada por Ronnie Von que tanto sutumblr_mdlmayxg841re4txro1_500_largecesso fez na década de setenta. Alheios aos acontecimentos políticos, nem dávamos conta das transformações que se operavam no país naqueles tempos. O importante era a afirmação como homem e a curtição daquilo que chegava a nós de forma inócua, como os modismos americanos: a calça Lee, os cabelos longos e o som do Credence Revival de do Jonnhy Rivers, que o Agostinho e o Velton esnobavam em danças supostamente de moda para agitar a juventude nos salões dos clubes da cidade. A versão tupiniquim do calhambeque do Roberto Carlos e das roupas e sapatos da novela “Cavalo de PraçadaBandeira-fotos-antigas-de-macapá-433Aço”, também faziam sucesso, mesmo que a ainda não tivesse televisão funcionando em Macapá.

Nessa época todas as atividades cívicas se concentravam na Praça da Bandeira, bem como a do Barão (área em frente aos Correios) era usada para educação física dos alunos dos colégios próximos e a Veiga Cabral (área onde está hoje o Teatro das Bacabeiras) servia para a instalação de circos e arraiais de festas de santos. A da Bandeira fora a Praça da SPraça-Veiga-Cabral-2audade, onde havia três velas enormes em homenagem ao deputado Coaracy Nunes, ao promotor e suplente de deputado Hildemar Maia, e ao piloto Hamilton Silva, mortos em acidente no Macacoary, no final dos anos cinqüenta. A do Barão era a antiga Praça São José, onde ficava o pelourinho na planta desenhada pelo engenheiro João Gaspar de Gronfelds, em 1761. Depois virou Largo de São João e finalmente Barão do Rio Branco, no início do Território Federal do Amapá. A que hoje chamamos Veiga Cabral já foi a Praça de São Sebastião, onde foi fSem títuloundada a Vila de Macapá pelo governador Mendonça Furtado. Situada em frente à Igreja de São José, entre as ruas Formosa (hoje Cândido Mendes) e São José (a única que não mudou de nome desde a fundação de Macapá), já foi palco do Marabaixo, de comícios e de muitos concertos musicais realizados no coreto pelas bandas dos alunos do Padre Julio Lombaerd e do Mestre Oscar.

Vale ressaltar que nessa planta de Gronfelds, só havia então duas praças, e Macapá começava a ser planejada espacialmente por ele, cujas concepções nós estamos usufruindo até hoje. Segundo o urbanista e professor Alberto TostesOs Mocambos (1972), os grandes quarteirões e as ruas largas foram idealizados por Gronfelds porque o nosso clima quente e úmido é de massa equatorial, então toda a força para suprir essa diversidade vinha exatamente do rio Amazonas, daí a sua preocupação, antes mesmo da construção da fortaleza de São José, em planejar ruas largas e imensos quarteirões, em contraste com as ruas estreitas das cidades européias e coloniais. Ao resto, o engenheiro militar idealizou um grande sombreamento a partir do plantio de árvores para fazer a cobertura climática, o que suscita uma visão sustentável de cidade concebida há quase 250 anos.

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“A Praça é do povo”, recitava impetuosamente Castro Alves, é nela que se cruzam diariamente sonhos e textos, interesses e esperas, risos e lágrimas e tudo o mais que os seres humanos deixam escapar pelas janelas da alma. Suas aparências, sem dúvida, como dizem os pára-choques de caminhão, refletem o estado administrativo da cidade: são os espelhos das intenções e dos gestos políticos. Por isso, então, merecem os mais profundos cuidados no corte da grama, na poda de árvores e no conserto dos passeios e bancos, usados freqüentemente poempinando pipa (25)r quem tem pouca mobilidade. Não podem ficar à míngua, tomadas pelo mato, como a que existe na descida em frente à residência governamental, um velho e rasgado cartão postal, destruída por vândalos e esquecida pelo poder público, sob o testemunho triste dos velhos coqueiros balançantes na contraluz da nascente.

*Fotos encontradas nos blogs da Alcinéa, Alcilene e Porta Retrato.

Tragédia do Novo Amapá completa 38 anos

Era noite de 6 de Janeiro de 1981, quando o barco ribeirinho Novo Amapá naufragou na foz do rio Cajari, próximo ao município de Monte Dourado (PA), levando as águas mais de seiscentas pessoas. Trezentas destas perderam a vida e dezenas passaram horas de pânico e desespero, imersas na água e na escuridão.

A embarcação, com suporte para transportar no Máximo 400 pessoas e meia tonelada de mercadoria, partiu do Porto de Santana com mais de 600 passageiros e quase um tonelada de carga comercial. Seu destino era o município interiorano de Monte Dourado, com escala em Laranjal do Jari.

A lista de passageiros, segundo a Capitania dos Portos na época, tinha registrado cerca de 150 pessoas licenciadas pelo despachante Osvaldo Nazaré Colares. Mas na embarcação havia mais de 650 vidas. O despachante (falecido em abril de 2001, vitima de Dengue Hemorrágica) afirmou que só foi informado da tal lista após já ter partido há certas horas e que a lista foi deixada sob sua mesa, quando ele estava ausente.

Segundo a lista da Capitania dos Portos do extinto Território Federal do Amapá, menos de 180 puderam sobreviver.

Um dos donos do barco morreu no acidente, e o outro, Manoel Jesus Góis da Silva, recuperou a embarcação, que voltou a navegar. O barco foi içado do fundo do rio no mesmo ano do acidente. O nome foi mudado para “Santo Agostinho” e até 1996, a embarcação fez a rota Belém-Santarém-Belém, no Estado do Pará.

O fato entrou em processo jurídico um ano depois da tragédia o advogado Pedro Petcov assumiu o caso, rolando pela Justiça Federal por quase 15 anos. Após a morte do advogado em 1996, o caso foi arquivado sem ter alcançado o principal objetivo: indenizar os familiares das vitimas mortas e os sobreviventes. E lá se vão 38 anos da tragédia.

* Texto encontrado no extinto Portal Extra
**Imagem cedida pelo jornalista Edgar Rodrigues.

O breve relato sobre a Little Big, a saudosa banda de skatistas de Macapá

As lembranças do Facebook me trouxeram uma foto da saudosa banda Little Big. Na postagem, os componentes do grupo e brothers das antigas contavam causos e marcavam um reencontro. Aí bateu a nostalgia e resolvi republicar este texto. Saquem:

A primeira formação da Little Big foi com Antônio Malária, no vocal, Ronaldo Macarrão, no contrabaixo, Tibúrcio, na guitarra, e Paulo Neive, na bateria. Todos skatistas.

A banda quase acabou com a saída de Tibúrcio. Patrick Oliveira (hoje líder da stereovitrola) assumiu este posto de forma brilhante. Houve um rodízio na cozinha da Little. A bateria contou com participações do Zico, Ricardo Kokada e Kookimoto, mas quem emplacou mesmo foi o Mário (não lembro o sobrenome do Mário e nem sei por onde ele anda, mas o cara tocava muito).

Eles tocaram juntos da segunda metade dos anos 90 até meados de 2002. Era a banda que mais agitava o rock and roll em Macapá.

A Little foi a banda de garagem mais duradoura e badalada daquela época (certeza de casa cheia onde os caras tocavam). No repertório, tinha punk, indie, hardcore e manguebeat. Chegaram a desenvolver um som próprio, com composições do Antônio Malária, um flerte com o batuque e marabaixo, misturados ao rock.

A banda ganhou força com a percussão de Guiga e Marlon Bulhosa. Inspirados, chegaram ao topo do underground amapaense com as canções autorais “Baseados em si”, “São Jose”, “Beira mar” e “Lamento do Rio”. Quem viveu aqueles dias loucaços lembra bem do refrão: “Eu sou do Norte, por isso camarada, não vem forte”.

Com os amigos Ronaldo e Antônio, da Little Big.

A banda embalou festas marcantes do nosso rock, teve seus anos de sucesso pelas quadras de escolas, praças, pista de skate, bares (principalmente o Mosaico) e residências de Macapá. Quando os caras executavam “Killing In The Name“, do Rage Against The Machine, a casa vinha abaixo. Era PHODA!

Era rock em estado bruto, sem muitos recursos tecnológicos ou pedaleiras sofisticadas. Os caras agitavam qualquer festa. Quem foi ao Mosaico, African Bar, Expofeiras, Bar Lokau, festas no Trem Desportivo Clube e Sede dos Escoteiros, sabe do que falo.

Vários fatores deram fim à Little Big, como desentendimentos internos e intervenção familiar. Eles não estouraram como banda autoral porque não tiraram os pés da garagem.

Em 2012, os caras se reuniram e tocaram em uma festa, mas eu perdi a oportunidade de vê-los, pois estava para Laranjal do Jari a trabalho. A Little Big agitou as noites quentes de Macapá e embalou os piseiros de uma geração. Uma banda que faz parte da memória afetiva de muitos amapaenses roqueiros e já quarentões. E foi assim.

“De um tempo que fomos para sermos o que somos” – Fernando Canto.

Elton Tavares

O melhor comercial de natal dos anos 80 (do Banco Nacional)

Quero Ver Você Não Chorar

Quando eu era moleque, adorava quando passava o comercial de natal do extinto Banco Nacional na TV. O jingle da propaganda, “Quero Ver Você Não Chorar”, é muito legal e marcou o período natalino da minha geração. Me emocionei muito agora. Esse comercial resgata a minha infância e muita coisa boa que vivi nela…Meu saudoso pai, minha mãe, meu irmãozinho caçula e tanta coisa legal daquela época..

O comercial é de 1985 (eu tinha nove anos) e faz parte de minha memória afetiva. É emocionante e nostálgico. Assistam:

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“Quero Ver Você Não Chorar”

Quero ver você não chorar
Não olhar pra trás
Nem se arrepender do que faz

Quero ver o amor vencer
Mas se a dor nascer
Você resistir e sorrir

Se você pode ser assim
Tão enorme assim eu vou crer

Que o Natal existe
Que ninguém é triste
Que no mundo é sempre amor

Bom Natal um feliz Natal
Muito amor e paz pra você
Pra você…

37 anos do soco de Anselmo Vingador – Um texto para flamenguistas

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Como bom flamenguista, sempre leio, assisto e ouço tudo sobre o Flamengo. Entre os títulos conquistados pela máquina rubro-negra dos anos 80, comandada por Zico, um fato marcou a Libertadores de 1981, conquistada no dia 23 de novembro daquele ano: um soco. Sim, uma porrada desferida por Anselmo, atacante do Flamengo no zagueiro Mario Soto, do clube chileno Cobreloa.

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Vamos por partes. Depois de passar invicto até a final, o Mengão, campeão brasileiro de 1980, decidiu com o torneio com o Cobreloa. No primeiro jogo das finais, realizada no Maraca, o time da casa venceu por 2×1, com dois gols de Zico. Na partida de volta, no Chile, o time do Flamengo apanhou muito dos donos da casa (agressões mesmo), liderados pelo zagueiro Mario Soto (o brabão) e acabaram ganhando o jogo por 1×0.

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Nessa partida, o Mengo ficou desfalcado dos jogadores Lico, com um corte na orelha e Adílio, ferido no olho. Ambos abatidos pelo defensor chileno. Li em algum lugar que ele agredia os jogadores brasileiros com uma pedra no punho fechado, se é fato, não sei dizer. Relatam jornais da época que o próprio Pinochet (um dos enviados de Satanás à Terra), nas tribunas, virou-se para um adepto e disse chocado: “Não está exagerando, o nosso Mario Soto?” Imagine como o cara estava “virado no cavalo do cão”…

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Então rolou a “negra”, uma terceira partida, em campo neutro, realizado há exatos 34 anos, no Estádio Centenário, em Montevidéu, no Uruguai. O Mengão, que tinha infinitamente mais bola, venceu pelo placar de 2×0, com dois gols do Galinho.

Mario Soto, do Cobreloa do Chile, após levar um soco de Anselmo, do Flamengo, na finalíssima da Taça Libertadores da América de futebol. Montevidéu, Uruguai. Publicada na revista Placar, edição 1206, em 1223/11/2001, página 37.

Mas ainda faltava a forra contra Soto, foi aí que, no finalzinho do jogo, o técnico do Mengo, Paulo César Carpeggiani, chamou Anselmo, um jovem atacante de 22 anos, e disse: “ vai lá e dá um soco na cara do Mario Soto”. Anselmo entrou na partida, se aproximou do zagueiro chileno e, na primeira jogada, deu um pau na cara do chileno, que foi a nocaute. O lance causou um porradal, o jogador do Flamengo foi expulso junto com Mario Soto. A decisão logo acabou e o Flamengo virou campeão da América.

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Depois foi só festa. No desembarque do time no Galeão, a delegação se deparou com uma imensa faixa escrito: “Anselmo vingador!” Pronto, Anselmo era tão herói quanto Zico. Mesmo suspenso, o “Vingador” viajou com o time para o Japão, onde o Mengão derrotou o Liverpool e sagrou-se Campeão Mundial Interclube, em 1981.

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Li várias reportagens sobre este fato, mas as duas melhores declarações foram:

Este episódio exprime uma contradição insolúvel do futebol e da vida. Todos nós temos discursos humanistas e politicamente corretos em favor do espírito esportivo e do sentimento cristão. Mas quem sofre uma agressão covarde não esquece. Futebol é arte, balé, xadrez, mas é um jogo viril e abrutalhado em que façanhas como a de Anselmo refletem o alto grau de testosterona e de agressividade primitiva que nos leva a correr atrás da bola. Nosso lado civilizado homenageia aqueles que descartam a vingança física e se contentam com dar o troco na bola e no placar. Mas dentro de cada fã do futebol existe um brutamontes-mirim que não resiste à poesia de um murro bem dado” – Jornalista Braulio Tavares – Jornal da Paraíba.

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Tenho sobre essa porrada uma tese irrefutável – ali, graças a Anselmo, as ditaduras latino-americanas que assombraram o continente durante a Guerra Fria começaram a desabar. O destino do próprio Pinochet foi selado naquele momento. Não é a toa que, em recente pesquisa publicada na Inglaterra, acadêmicos de renome consideraram que as três quedas mais impactantes da história foram a do Império Romano, a do Muro de Berlim e a de Mario Soto na final da Libertadores.” – Luiz Antonio Simas, professor carioca.

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Anselmo Vingador!

Bom, acredito que em certos momentos, extremos claro, um murro vale mais do que mil palavras (risos). Aquele soco dado que lavou o peito de milhões de rubro-negros. Viva o Mengão e o Anselmo Vingador! Há 37 anos, direto do túnel do tempo…

Elton Tavares – Jornalista, flamenguista em tempo integral e bom de porrada. 

O último voo do Pavão – Crônica de Fernando Canto republicada

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Mestre Pavão – Foto: Chico Terra

Por Fernando Canto

Na segunda-feira, 11 de maio de 2009, o mestre Pavão bateu suas belas asas para nunca mais.

O homem do marabaixo partiu para encontrar-se com seus ancestrais, os mesmos que lhe ensinaram a tocar tão bem a caixa, o tambor que anunciava bons augúrios nas pavãotardes do Laguinho. Com ele Pavão comunicava a seus pares, os agentes populares do sagrado, que a festa do Divino e da Santíssima Trindade já tinha início. E todo um ritual deveria ser obedecido, desde o Domingo da Aleluia, passando pelos preparativos da seleção dos mastros nas matas do Curiaú, até a sua derrubada e escolha dos próximos festeiros no Domingo do Senhor. Com ele se foi um arcabouço cultural de grande valia para a memória do nosso patrimônio imaterial. Foi-se também a sabedoria dos que fazem acontecer as manifestações mais legítimas do povo. E restou apenas o espanto dos que ficaram. Doente, não mais participava ativamente dos eventos do marabaixo como nos velhos tempos, mas sempre dava um jeito de ir em sua cadeira de rodas aos mais importantes, para ouvir o rufar das caixas e ver as saias da negras velhas rodarem sob o ritmo intenso oriundo de além-mar.

pav3Pavão levava muito a sério o que fazia no marabaixo. Até brigava por ele. Seu amor pelo folclore certamente foi herdado do avô Julião Ramos, o grande líder negro, que na época da implantação do Território Federal do Amapá disseminou o ritmo e a dança para todo o Brasil. No domingo, véspera da sua morte, sua filha Ana perguntou-lhe se ia ao marabaixo do Dia das Mães na casa da Naíra – uma das festeiras desse ano no bairro do Laguinho. Ele disse que não ia porque estava indisposto, mas mandou todo o pessoal de sua casa para lá, pedindo que não deixassem a ”cultura morrer”. Mal sabiam todos de sua casa que a cultura do marabaixo, nele impregnada, estava morrendo um pouquinho com ele.

pav2Justo que consideramos a memória como o deciframento do que somos à luz do que não somos mais, a morte é o abismo que tudo leva e engole inclusive o segredo da identidade, aquilo que nos pertence social e culturalmente. Posto isto, quantas conversas não foram abruptamente cortadas numa gravação para um trabalho de conclusão de curso dessas tantas faculdades da capital? Assim sendo, o que restou de seus depoimentos, desse depósito memorial tão importante para que se analise o marabaixo? Ora, sabe lá quantos pesquisadores egoístas guardam suas fitas encarunchadas e vídeos empoeirados que nunca vão se abrir para ninguém?

Mestre Pavão a todos respondia com a maior paciência, paciência esta que aprendeu a ter com a doença intratável que lhe fez perder uma perna. Mestre Pavão dava a todos o seu conhecimento vívido e vivido intensamente em setenta e dois anos de repetição ritualística que a sua memória avivava e exprimia no vai-e-vem dos olhos.pav1

Aqui peço licença poética ao escritor moçambicano Mia Couto que escreveu o “Último Voo do Flamingo”, para parafraseá-lo, dizendo que o nosso pavão alçou seu último voo na tarde amena de maio. Um voo curto,é certo, porque pavões não voam quase nada, mas são aves do paraíso por excelência. Sua luxuriante plumagem em profusão de dourados, verdes e azuis à luz do sol reflete uma miríade de cores, onde o vermelho e o branco parecem estar presentes como se preparando para um desfile da Universidade de Samba Boêmios do Laguinho, a escola do coração do mestre. Convém lembrar aqui que o simbolismo do pavão carrega as qualidades de incorruptibilidade, imortalidade, beleza e glória, que por sua vez se baseia em outro aspecto além destes: a ave é predadora natural da serpente, e em certas partes do mundo, mesmo seu aspecto maravilhoso é creditado ao fato da ave transmutar espontaneamente os venenos que absorve do réptil. Este simbolismo de triunfo sobre a morte e capacidade de regeneração, liga ainda o animal ao elemento fogo.pav4

Fogo, sim, do marabaixo quente, do “Caldeirão do Pavão” com seu caldo revitalizador do carnaval que tanto o mestre amava e por isso se enfeitava nos áureos tempos dos desfiles da FAB. Vai em paz, Pavão, tua plumagem tem cem olhos para vigiar o que deixaste entre nós.

(*) Publicado No livro “Adoradores do Sol”, de Fernando Canto. Scortecci, São paulo, 2010. Minha homenagem a um dos mais importantes divulgadores do Marabaixo.

*Fotos encontradas nos sites do Chico Terra; Rostan Martins; Memorial Amapá (Neca Machado); Tribuna Amapaense e Federação Folclórica do Amapá e jornalista Mariléia Maciel. 

28 anos do Estádio Zerão

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Hoje (17), o Estádio Milton de Sousa Corrêa, o popular “Zerão”, completa 26 anos. A inauguração do Zerão, contou com as presenças do craque Zico e o então presidente Fernando Collor (sim, aquele que nos fez pintar a cara pouco depois). Isso na gestão do governador Gilton Garcia. O público naquele dia foi de 10 mil pessoas.

No Zerão, vi meu Ypiranga ser campeão amapaense de futebol do primeiro campeonato no novo campo, com direito a golaço do Miranda, agora comandante do Corpo de Bombeiros do Amapá (CBM/AP), como “Gol do Fantástico”.

É, vivi algumas fortes emoções no Zerão. Tanto como torcedor, quanto jornalista. Uma pena que o estádio ficou em ruínas por um período e fechado por sete (7) anos. Reinaugurado em 15 de fevereiro de 2014.

O Estádio do meio do mundo ainda está longe de ser uma grande arena de futebol, assim como este esporte está anos luz de ter um grande campeonato no Amapá. Mas seguimos na torcida para que um dia isso ocorra, de fato. E lá se vão 28 anos.

Elton Tavares

Há 29 anos, morreu Raul Seixas

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Raul Seixas foi encontrado morto em seu apartamento no dia 21 de agosto de 1989, há 29 anos. Nascido em Salvador (BA) em 28 de junho de 1945, ele foi um dos pioneiros do rock no Brasil. O músico baiano teve divraul-2ersas fases ao longo de sua carreira. Na Bahia, ainda jovem, foi defensor do rock’n’roll – que naquela época pregava uma mudança radical nos costumes. Com versões de Dick Glasser e dos Beatles, lançou com a banda Os Panteras o LP “Raulzito e Os Panteras”, em 1968.

No restante dos anos 70, a popularidade de Raul só fez aumentar. Em 1973 saiu o primeiro álbum como artista solo, ‘Krig-ha, Bandolo’, já com músicas escritas em parceria com o escritor Paulo Coelho, no qual continha os hits ‘Metamorfose Ambulante’, ‘Ouro de Tolo’, ‘Al Capone’ e ‘Mosca na Sopa’.hqdefault (1)

Longe de ser só musical, a dupla com Paulo Coelho fez com que Raul aprofundasse o seu interesse por questões místicas. Em 1974, criaram a Sociedade Alternativa, baseada nas ideias do bruxo inglês Aleister Crowley. Os principais preceitos da crença foram divulgados na música Sociedade Alternativa, lançada no LP Gita, de 1974.

Raul ainda lançou 2 discos em que a parceria com o “mago” produziu canções famosas: Novo Aeon e Há 10 Mil Anos Atrás.

A partir de 1977, os discos do músico baiano ganharam menos atenção da crítica e em 1978 o cantor passou por complicações decorrentes do consumo excessivo de álcool que lhe acompanhariam pelo resto da vida.tumblr_m9opqfNEQL1r8v3wxo1_1280

Já em 1987 surge a canção ‘Muita Estrela, Pouca Constelação’, a primeira música em parceria entre Marcelo Nova e Raulzito. Um ano depois, já em carreira solo, Marcelo convidou Raul para participar de um show que faria na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador. O que seria uma participação virou uma turnê de 50 shows por todo o Brasil, e terminou no lançamento de um dos discos mais importantes do rock nacional, ‘A Panela do Diabo’. O disco vendeu 150 mil cópias e rendeu a Raul um disco de ouro póstumo.

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Raul criou uma mistura entre blues, folk e música brasileira que o distinguiu de outros artistas que faziam rock na época, como a Jovem Guarda. Já em seu primeiro disco solo, o cantor misturava baião, country rock e música gospel em canções como Ouro de Tolo e Metamorfose Ambulante.

raulzito-2Btra-C3-A7oPassou pelo brega, pelo rockabilly, pelo blues, pela MPB e diversos outros estilos que ampliaram o conceito de ‘roqueiro’, como Raulzito era visto na adolescência. Longe de ser só um representante da Sociedade Alternativa, ele se questionava, fazia crônicas, dialogava com canções da MPB e tinha consciência de que precisava se dividir entre a verdade do universo e a prestação a pagar, como canta em Eu Também Vou Reclamar.

Em 26 anos de carreira ele lançou 21 discos. Com toda a certeza, foi um dos maiores gênios da música brasileira. E lá se vão 29 anos de saudades. A obra deste artista sensacional inspirou e inspira muitos de nós, fãs. Tanto pelo fascínio da linha tênue entre a feliz loucura da autenticidade, quanto pela sinceridade à bruta, sempre poetizada em um rock and roll dos bons. Viva Raul!

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Coragem, coragem, se o que você quer é aquilo que pensa e faz. Coragem, coragem, eu sei que você pode mais” – Raul Seixas

Elton Tavares, com informações de sites de música, revistas de rock e documentários sobre Raul Seixas.

Boas lembranças de nossos pais – Por Allison Veríssimo

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Allison Veríssimo

Meu pai, Zé Penha e minha mais que maravilhosa mãe, Lúcia Vale, foram muito amigos do casal Aílson e Vera Lobato. Desde meados dos anos 80, quando papai e tio Aílson foram funcionários do Banco da Amazônia (Basa) e mamãe e tia Vera trabalharam juntas na Escola Zolito Nunes (na época, ambas professoras).

Consequepapaietioailsonntemente, fomos (eu e meu irmão Emerson) criados como primos dos filhos do casal amigo, os queridos Alice, Allison e Andrew.

Há pouco mais de um ano, o Allison lembrou de um lance bacana de nossa infância. Me emocionei com o relato. Leiam:

“Esses dias me vieram à mente, um fato muito agradável de minha infância. Estávamos no BASA Clube, o ano era 1990, nossa família e mais a família do saudoso tio Penha. Era um domingo. Daqueles super quentes, típico de nossa capital. Meu pai e tio Penha estavam tomando cerveja – eram grandes amigos.

Pelo meio da tarde, começou o famoso bingo que rolava por lá, já tradicional e um dos prêmios era um vídeo game. Fiquei enlouquecido com a idéia de poder ganhar aquele aparelho, era a realização de um possível sonho.

Pois no final bateram juntos, meu pai e o tio Penha e foram então pra disputa da pedra maior. Nessa, o tio Penha levou a melhor e ganhou o vídeo game para meus primos Elton Tavares e Emerson Tavares (sim, primos, pois foi como tal que crescemos). Chorei muito, pois não acreditava que tinha chegado tão perto e havia perdido aquele prêmio.

Mas o Tio Penha me disse que a noite eu teria uma surpresa. Fomos pra casa e quando eu esperava, ele chegou com um Atari. Eu não acreditava naquilo! Aquele vídeo game alegrou muito a nós por muitos anos, mas o que mais me marcou foi a amizade entre nossos pais, além da generosidade do saudoso Tio Penha… imagino que deve estar com meu velho lá em cima de boa, olhando por nós… velhos, vocês fazem muita falta, mas estamos aqui tentando nosso melhor para honrar vocês sempre da melhor forma.

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Lembrei muito do Tio Penha esses dias e resolvi relembrar esse dia bacana para ilustrar sua marcante passagem nesse mundo! Só Saudades!”

Allison Veríssimo

Papai morreu em março de 1998 e tio Aílson partiu em julho de 2013. Ambos foram caras porretas. É como eu e Allisson tentamos sermos. Seguimos com nossas nostalgias, com a esperança de um dia encontramos os dois do outro lado ou na próxima vida, sei lá. Mas na tentativa de fazer valer cada dia por aqui. É isso!

Elton Tavares

*Republicado por conta do Dia dos Pais. 

Hoje é o Dia Mundial do Rock !! (meu texto em homenagem ao melhor estilo musical da galáxia)

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Amo Rock and Roll e hoje (13) é o Dia Mundial do Rock. O gênero sonoro mais legal de todos, fruto da junção do Jazz e Blues, é celebrado nesta data porque em 13 de julho de 1985, o produtor Bob Geldof organizou o “Live Aid”, um show histórico e simultâneo, realizado em Londres (ING) e na Filadélfia (EUA). O objetivo era o fim da fome na Etiópia.

Já em 2005, Bob Geldof organizou o Live 8, para pressionar os líderes do G8 a perdoar a dívida externa dos países mais pobres. Desde então, o dia 13 de julho passou a ser conhecido como Dia Mundial do Rock.

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Lembro o momento exato que me apaixonei perdidamente pelo Rock. Em 1989, assistia a novela Top Model (sim, naquela época eu não tinha tantas opções) e torcia para o Gaspar (Nuno Leal Maia), um hippie remanescente de sua geração e surfista quarentão, lembrar-se da sua esposa, Maria Regina Belatrix (Rita Lee), que o havia abandonado.

Tudo porque durante as lembranças do cara, em imagens preto e branco, tocava “Stairway to Heaven”, canção clássica do rock and roll, da banda inglesa Led Zeppelin. Era firme. Eu tinha 13 anos. Muito antes, eu já curtia rock nacional e Beatles. Acho que curto som bacana desde 1986.

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Desde que cai de amores pelo Rock, foram muitas festas nas quadras de escolas de Macapá, bares, boites, shows na capital amapaense e fora dela. Shows memoráveis e emocionantes nas grandes cidade e festivais inesquecíveis.

Aqui na minha aldeia já vi apresentações de várias bandas nacionais. Fora do Amapá, já fui para quatro festivais Lollapalooza, onde assisti aos shows do Interpol, The Smashing Pumpkins, Raimundos, New Order, Pixies, The XX, Metallica, Duran Duran e The Strokes. Isso sem falar nas excelentes apresentações de Rancid, Jimmy Eat World e Criolo. Também rolou de ver, graças a Deus, Red Hot Chilli Peppers, U2, Pearl Jam, The Killers, Radiohead, Morrissey e The Cure (o melhor de todos).

Além disso, procuro incentivar por meio de divulgação todos os eventos rockers no Amapá. Nos anos 90, produzi algumas festas e até criamos um movimento chamado Lago do Rock, em 2004. Coleciono grandes momentos felizes na vida. A trilha sonora dessa memória afetiva é 90% Rock. Bons tempos!

Dizem por aí que o Rock morreu, ele nunca morre, só está em constante mudança, assim como nossas vidas. O rock é imortal, ele nos salva da mesmice, basta protegê-lo de mãos erradas. Enfim, viva o rock and roll!

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O Rock n’ Roll me salvou. Graças a ele, não tenho uma vida ordinária e nem me tornei um idiota “eclético”. Não só amo o estilo, mas vivo o Rock. Portanto, Feliz Dia Mundial do Rock e LONG LIVE ROCK N’ ROLL!

O Rock é energia, o desejo ardente, as exultações inexplicáveis, um senso ocasional de invencibilidade, a esperança que queima como ácido” – Nick Horby – Romancista inglês

Elton Tavares

 

 

O carroceiro (relato porreta sobre a antiga Macapá) – Por Floriano Lima

Os mais antigos como eu, lembram o apogeu desses veículos em nossa Macapá. Transportando a madeira, o cimento e até mesmo fazendo “mudança”…ficavam em seus pontos de frete, na feira central, no Buritizal e outros locais. Mas nunca um carroceiro foi tão folclórico como o “Mucura”, que o conheci e conversei pessoalmente com ele.

Era um “galego magro dos olhos claros” com voz rouca e “metido” a galanteador, que sempre que as moças passavam, ele “jogava” todo o seu charme. Até que aconteceu o fato que entrou no imaginário popular. Ele “deu” a sua tradicional “cantada”, sendo que a mesma era casada e participou ao “digníssimo”, que tomando as “dores” da amada partiu ao seu encontro.

Chegando entre os carroceiros perguntou: Quem é o “Mucura” aqui? Ele, pensando que era um “gordo” frete, respondeu: Quantas carradas patrão ? O sujeito respondeu: só duas e desceu o braço no Mucura. Desde esse dia, quando se aproximavam dele, diziam…quantas carradas patrão ? São histórias de uma Macapá que não existe mais…

Floriano Lima

“Por aí a fora” (em homenagem ao comandante Barcellos, que se vivo, faria 100 anos hoje) – Por Pedro Aurélio Penha Tavares

O ex-governador do Amapá, Annibal Barcellos, se estivesse vivo, completaria 100 anos nesta terça-feira (10). Ele morreu no dia 14 de agosto de 2011, aos 93 anos, de causas naturais. O “comandante”, como era chamado por ser oficial da Marinha, era carioca e veio para as bandas de cá no final dos anos 70, nomeado pelo Regime Militar, no período de 1979-1985. E deputado federal constituinte (1987-1991).

Barcellos errou e acertou muito em sua vida política. Ele foi criticado e combatido, como todo gestor público, mas adorado pela maioria da população amapaense, que mesmo depois da abertura política, o elegeu governador 1991-1995 (primeiro eleito) e prefeito de Macapá, de 1997-2001. Em 2004 foi eleito vereador em Macapá. Ao fim do mandato em 2008, encerrou sua carreira política. O homem era carismático e estrategista.

Annibal Barcellos foi sepultado no Cemitério Nossa Senhora da Conceição, em Macapá. Centenas de pessoas compareceram ao seu velório, realizado na Assembleia Legislativa do Estado (ALE/AP). O cortejo, com direito a homenagens em frente ao Palácio do Setentrião, foi acompanhado por políticos, empresários e centenas de populares.

O ex-governador foi demonizado e endeusado, mas a verdade é que ele preparou o então Território-Federal do Amapá para virar Estado. Em homenagem ao seu centenário, republico o texto “Por aí a fora”, escrito por meu tio, Pedro Aurélio Penha Tavares, escrito para homenageá-lo na época de seu falecimento.

Por aí a fora

Além de todas as obras realizadas pelo comandante Barcellos, visando a estruturação do futuro Estado do Amapá, quando esta terra ainda era Território Federal, o então governador valorizou e capacitou jovens técnicos amapaenses.

Barcellos se preocupou em preparar homens, como constatamos hoje, para comandarem o Amapá. Ele deu condições para muitos cursarem o Nível Superior fora do Amapá, dando bolsas de estudo aos mais carentes e liberando funcionários públicos para se deslocarem a outros estados, em busca do sonhado 3º grau.

Essas pessoas foram prestigiadas quando retornaram ao Amapá, pois muitas delas foram nomeadas para ocuparem cargos na estrutura do Governo de Annibal Barcellos. Essa preocupação com a formação teve continuidade, vários destes amapaenses fizeram especializações e assumiram postos relevantes na gestão do comandante.

Dentre os jovens técnicos que tiveram oportunidade no Governo de Barcellos podemos citar: o delegado Antônio Cardoso, que foi secretário de Segurança Pública; o professor Antonei Lima, que foi secretário de Educação; o engenheiro agrônomo Iraçu Colares, secretário de Agricultura; o administrador Pedro Aurélio Penha Tavares, secretário de Administração; o médico Papaléo Paes, secretário de Saúde; o economista Regildo Salomão, também secretário de Administração, entre tantos outros.

O comandante também deu oportunidade a jovens que não cursaram o nível superior, mas por demonstrarem competência, ocuparam cargos chaves e contribuíram para o desenvolvimento do Amapá. Esse fato mostrou que a preocupação do comandante Barcellos, “efetivamente”, era com o Amapá como um todo.

O visionário

Barcellos chegou a ser questionado pela Justiça, por meio de Ação Popular, quando resolveu construir a Assembleia Legislativa do Amapá, quando ainda não havia deputados. Outro caso similar foi quando o comandante decidiu erguer o prédio do Banco do Estado do Amapá, quando não existia banco e muito menos Estado.

Valorização do amapaense

Vale salientar que, como já foi dito, o comandante sempre deu prioridade aos jovens, entre eles, vale salientar um caso. Quando Barcellos precisou nomear os desembargadores para o Tribunal de Justiça do Amapá (Tjap), na cota destinada ao Judiciário, o então governador procurou saber ser tinha algum amapaense juiz de Direito.

O comandante foi informado que tinha um sim, mas o juiz atuava no estado do Pará. Barcellos mandou chamá-lo e o nomeou desembargador do Tjap, seu nome é Gilberto Pinheiro.

Trocando em miúdos, o comandante Barcellos deixou seu legado, uma história de amor pelo Amapá e pelos amapaenses.

Pedro Aurélio e o “comandante”.

Pedro Aurélio Penha Tavares – Auditor do Tribunal de Contas do Estado (TCE), que foi chefe de Gabinete e secretário de Estado da Administração do velho comandante.

*Fotos encontradas nos blogs Porta Retrato, Repiquete no Meio do Mundo, do professor Nilson Montoril e da jornalista Alcinéa Cavalcante.

O antigo Bar Xodó e o velho Albino (texto republicado)

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Meu amigo Fernando Canto escreveu uma vez: “Lembrar também é celebrar. E quando se celebra se rememora, ou seja, se re-memora num tudojunto inebriante, pois o coração aguenta. E ao coração, como sabes , era atribuído o lugar da memória – re-cordis“.

Portanto, quem tem mais de 35 anos, bebe desde os anos 90 e estudou no Colégio Amapaense gostava do antigo Bar Xodó e de seu proprietário, Albino Marçal Nogueira da Silva, o velho Albino. Albino era uma figura querida por mim e pelos meus amigos. Principalmente pelo Edmar Campos Santos, o nosso ilustre “Zeca”.

Eu e o Zeca “gazetávamos” aula e íamos beber no Xodó. Escutávamos todas as histórias que Albino contava, ouvíamos suas músicas antigas, ríamos quando ele cortejava as garotas e fingíamos surpresa a cada vez que nos mostrava seu diploma em couro de carneiro. Era divertido.12038305_1027354530650172_9082153324834620988_n-300x222

O Xodó era um botecão no estilo antigo. Tinha um banheiro apertado, com cheiro forte de desinfetante (creolina) e frases sacanas na parede. Ah, lá tinha de tudo: fotos, velas acesas, objetos inusitados para o lugar (como um boneco do Pelezinho)… Acho que dentro do Xodó tinha até bainha de foice.

Para todos aqueles que matavam aula na década de 90 só para reunir com a galera, beber, falar besteira, aquele boteco no canto da Rua General Rondon com a Avenida Iracema Carvão Nunes era o local perfeito. Os biriteiros da velha Macapá se reuniam lá para “molhar a palavra” e botar os papos em dia. Bons tempos…

Albino faleceu halbinoá alguns anos e o Xodó fechou logo em seguida, duas grandes perdas. Quem não viveu aquela época não entende tal saudosismo, pois o nome do bar era apropriado.

Vez ou outra tenho necessidade de escrever sobre aquela época. Tempos felizes e, entre tantas ótimas lembranças, Albino e o seu Xodó foram vivências marcantes na minha memória afetiva, pois o antigo bar e seu proprietário eram nossos xodós. É isso.

Elton Tavares

*Texto republicado por motivos de saudades dessa época.