“Por aí a fora” (em homenagem ao comandante Barcellos, que se vivo, faria 100 anos hoje) – Por Pedro Aurélio Penha Tavares

O ex-governador do Amapá, Annibal Barcellos, se estivesse vivo, completaria 100 anos nesta terça-feira (10). Ele morreu no dia 14 de agosto de 2011, aos 93 anos, de causas naturais. O “comandante”, como era chamado por ser oficial da Marinha, era carioca e veio para as bandas de cá no final dos anos 70, nomeado pelo Regime Militar, no período de 1979-1985. E deputado federal constituinte (1987-1991).

Barcellos errou e acertou muito em sua vida política. Ele foi criticado e combatido, como todo gestor público, mas adorado pela maioria da população amapaense, que mesmo depois da abertura política, o elegeu governador 1991-1995 (primeiro eleito) e prefeito de Macapá, de 1997-2001. Em 2004 foi eleito vereador em Macapá. Ao fim do mandato em 2008, encerrou sua carreira política. O homem era carismático e estrategista.

Annibal Barcellos foi sepultado no Cemitério Nossa Senhora da Conceição, em Macapá. Centenas de pessoas compareceram ao seu velório, realizado na Assembleia Legislativa do Estado (ALE/AP). O cortejo, com direito a homenagens em frente ao Palácio do Setentrião, foi acompanhado por políticos, empresários e centenas de populares.

O ex-governador foi demonizado e endeusado, mas a verdade é que ele preparou o então Território-Federal do Amapá para virar Estado. Em homenagem ao seu centenário, republico o texto “Por aí a fora”, escrito por meu tio, Pedro Aurélio Penha Tavares, escrito para homenageá-lo na época de seu falecimento.

Por aí a fora

Além de todas as obras realizadas pelo comandante Barcellos, visando a estruturação do futuro Estado do Amapá, quando esta terra ainda era Território Federal, o então governador valorizou e capacitou jovens técnicos amapaenses.

Barcellos se preocupou em preparar homens, como constatamos hoje, para comandarem o Amapá. Ele deu condições para muitos cursarem o Nível Superior fora do Amapá, dando bolsas de estudo aos mais carentes e liberando funcionários públicos para se deslocarem a outros estados, em busca do sonhado 3º grau.

Essas pessoas foram prestigiadas quando retornaram ao Amapá, pois muitas delas foram nomeadas para ocuparem cargos na estrutura do Governo de Annibal Barcellos. Essa preocupação com a formação teve continuidade, vários destes amapaenses fizeram especializações e assumiram postos relevantes na gestão do comandante.

Dentre os jovens técnicos que tiveram oportunidade no Governo de Barcellos podemos citar: o delegado Antônio Cardoso, que foi secretário de Segurança Pública; o professor Antonei Lima, que foi secretário de Educação; o engenheiro agrônomo Iraçu Colares, secretário de Agricultura; o administrador Pedro Aurélio Penha Tavares, secretário de Administração; o médico Papaléo Paes, secretário de Saúde; o economista Regildo Salomão, também secretário de Administração, entre tantos outros.

O comandante também deu oportunidade a jovens que não cursaram o nível superior, mas por demonstrarem competência, ocuparam cargos chaves e contribuíram para o desenvolvimento do Amapá. Esse fato mostrou que a preocupação do comandante Barcellos, “efetivamente”, era com o Amapá como um todo.

O visionário

Barcellos chegou a ser questionado pela Justiça, por meio de Ação Popular, quando resolveu construir a Assembleia Legislativa do Amapá, quando ainda não havia deputados. Outro caso similar foi quando o comandante decidiu erguer o prédio do Banco do Estado do Amapá, quando não existia banco e muito menos Estado.

Valorização do amapaense

Vale salientar que, como já foi dito, o comandante sempre deu prioridade aos jovens, entre eles, vale salientar um caso. Quando Barcellos precisou nomear os desembargadores para o Tribunal de Justiça do Amapá (Tjap), na cota destinada ao Judiciário, o então governador procurou saber ser tinha algum amapaense juiz de Direito.

O comandante foi informado que tinha um sim, mas o juiz atuava no estado do Pará. Barcellos mandou chamá-lo e o nomeou desembargador do Tjap, seu nome é Gilberto Pinheiro.

Trocando em miúdos, o comandante Barcellos deixou seu legado, uma história de amor pelo Amapá e pelos amapaenses.

Pedro Aurélio e o “comandante”.

Pedro Aurélio Penha Tavares – Auditor do Tribunal de Contas do Estado (TCE), que foi chefe de Gabinete e secretário de Estado da Administração do velho comandante.

*Fotos encontradas nos blogs Porta Retrato, Repiquete no Meio do Mundo, do professor Nilson Montoril e da jornalista Alcinéa Cavalcante.

Em 1971, time de futebol do Ypiranga Clube, no Estádio Municipal Glycério de Souza Marques, em Macapá. Meu pai era o goleiro

Em pé: Lourival Lima (treinador); Penha, Emanuel, Manga, Bandeirante, Célio Nobre, Evandro, Rodolfo, Chiquinho, Pitel Vavá (Presidente). Agachados: Assis, Jurandir, Jackson, Canhotinho, Almeida, Leorimir e Rato.

Meu pai, Penha, era o goleiro Saudades, Zé. Te amo, sempre!

Fonte: Porta Retrato.

Papo Casal: fui o primeiro a comprar o livro.

Há exatos 10 anos, em 11 de março de 2008, visitei o Ronaldo Rodrigues, que também é Rony. Era noite. Ele morava na casa da Floriano Peixoto (a galera sabe onde) e estava feliz. Tinha chegado os exemplares de seu livro ‘Papo Casal’.

Tenho orgulho de ter sido o primeiro comprador da obra. Nela, RR ironiza o cotidiano e situações comuns dos casais de forma inteligente e divertida. Tenho o livro até hoje, pois a publicação é atemporal.

Elton Tavares

Os 35 anos de história e música da Banda Placa

A banda Placa completa 35 anos de carreira hoje. E de muita história e música. O grupo musical surgiu em fevereiro de 1983, com o fim da da banda “Os Setentrionais”. Sua criação aconteceu em nove de março do mesmo ano, na antiga Praça Zagury, centro de Macapá, com o nome Placa Luminosa. Da formação original da banda, continuam apenas Carlitão e Álvaro de Jesus Gomes, seu irmão.Outros renomados músicos passaram pela Banda, como Joaquim França, Joãozinho Batera, Osmar Júnior, Pintinho, Raimundão, entre outros. Com certeza, eles abriram caminho para que outras bandas passassem.

Desde que surgiu, a Banda Placa tem a inovação como uma de suas principais características. Ao longo de sua história, o grupo desenvolveu vários projetos com o intuito de valorizar a cultura e a música amapaense. o grupo lotou praças, quadras de escolas e clubes e é responsável pela trilha sonora da memória afetiva da então juventude amapaense dos anos 80 e 90.

Carlitão e demais componentes da Banda Placa realizaram projetos culturais, sociais e educacionais importantes fomentadores do legado da produção cultural amapaense e da história de sua gente. Aguns deles foram: A Vida e Obra de Paulo Diniz; Rock Luz; Carnaval do Povo; Música na Escola; Mazagão Velho dois séculos de Cultura; Ponto de Encontro; Placa Esporte Clube; Alé; Frutos e Sementes; Tambores; Nossos Ídolos e Aiô Folia.

A formação atual da Banda Placa possui 12 integrantes, são eles: Carlitão e Batan (vocalistas), Alan Gomes (baixo), Álvaro Gomes (guitarra), Macarrão (bateria), Diego Gomes (percussão), Grilo (percussão), Sinei Sabóia (trompete), Amilson (teclado), Nel (sax e flauta), Valério (percussão) e Xuxu (trombone).

A contribuição da banda Placa para a música amapaense e cultura do Amapá é imensa. Quando o grupo se apresentava em uma festa, a diversão era garantida. Lembro bem dos bons tempos do Carnaval do Povo na Praça da Bandeira. O Carlitão era amigo do meu saudoso pai, Zé Penha e eu nem sei dizer desde quando conheço o Alanzinho. Até hoje os caras seguem pisando forte e fazendo a alegria da população de Macapá. A todos os envolvidos nessa linda história, nossos aplausos e agradecimentos. Parabéns!

Elton Tavares, com informações das jornalistas Rita Torrinha e Flávia Fontes

FLAMENGUINHO ESPORTE CLUBE E AS CANELAS TUÍRAS – Crônica de Fernando Canto

Crônica de Fernando Canto

Claro que um clube que não forma base não pode se desenvolver. Não era bem esse o caso do Flamenguinho que nem filiado era à matriz lá no Rio de Janeiro. Nascido no bairro do Laguinho sob a coordenação do empresário José Lima, um maranhense que no fim da década de 60 organizou o time, o Flamenguinho era formado por garotos bons de bola na sua maioria oriundos do Morro do Sapo, ali da Rua São José e arredores.

Um time apaixonado pelo Mengão que realizou dezenas de partidas sem perder para qualquer rival da cidade ou do interior. Um plantel – grupo de atletas selecionados – como diziam os locutores esportivos, feito por uma seleção de moleques que só queria mesmo era “bater bola” fosse aonde fosse: na piçarra solta, no campo de terra dura, na grama ou na lama. Em qualquer lugar lá íamos nós jogar com a camiseta hering branca, onde o escudo do time estava cuidadosamente pintado no peito em serigrafia, calção preto e… descalços.

Da minha parte lembro que joguei no time titular na posição meia-direita. Tinha um futebol razoável, mas ao ponto de barrar uns e outros que depois viriam se tornar grandes jogadores aqui em outros estados. O primeiro time do Flamenguinho realizou invicto, 56 partidas, graças ao talento de atletas como Zé Wilson Jucá, Bolinha e Vevé, de uma zaga em que estavam João Cabral, Careca, Jonas e Chico. No gol o titular era o Quincas Semblano e o Lulu era o reserva. Havia o Valdenor, o Marinho Louro, O Nardo Tupinambá, o Carlos e o Nazaré. Mais o Eugênio, o Raimundo “Barriga Mole” e o Agostinho (Mimim) Tupinambá. O Jorge Cabral era o assistente técnico e o Jorge “Gainete” era o treinador. Ah, o nosso mascote era o Iran, filho do treinador.

Ainda hoje há quem conteste bravamente os resultados da performance do time. Inclusive o Norberto Tavares, meu amigo, que estudou comigo no GM e depois jogou em clubes semi-profissionais como o Amapá e o São José. Mas isso é coisa do passado. Não vou discutir uma ou duas partidas que possivelmente o time perdeu. Na verdade joguei só essas partidas e venci, acho eu.

Agora vejo essas fotografias com a cara séria desses moleques atrevidos do Morro do Sapo. Meninos que tiveram trajetórias bem diferentes, mas que nunca deixaram de ser craques apesar da tragédia pessoal de alguns.

Não pertenci ao segundo time do Flamenguinho. Nessa altura tinha trocado a bola pelo violão e tocava no Grêmio Jesus de Nazaré e nas missas da juventude da igreja de São Benedito. Zé Wilson e Bolinha jogaram em grandes times locais; Everaldino, o Vevé, virou o “Índio”, atuando pelo Rio Negro de Manaus e Jonas foi um cracão do Esporte Clube Macapá. Eugênio, Chico, Marinho, Lulu, Quincas, Mimim, Nardo, Barriga Mole, Careca e Nazaré viraram funcionários públicos do mesmo jeito que o Gainete, os irmãos Jucá e eu. Carlos voltou para o interior e o Vevé sumiu de vez. Valdenor também. Ah sim, o mascote virou militar.

Decorridos cerca de quarenta anos chegam esparsas e não muito boas notícias sobre aqueles adolescentes de 13, 15, 16 anos. Dizem que Bolinha, com excesso de peso, se recusa a fazer cirurgia de redução de estômago, um e outro têm doença degenerativa, coisas assim.

O fundador e mantenedor do time, seu Lima faleceu ainda jovem, não tanto quanto o zagueiro Cabral que morreu de tiro num acampamento, aos 18 anos, justamente quando servia o Exército em plena zona de conflito armado no Araguaia, sul do Pará.

Na foto que tenho ninguém sorri. Calculo que é por causa do sol do meio do dia derramado sobre o capim seco do velho campo do América, onde um dia tivemos nossas vitórias e cansamos nossos pés em busca de um futuro cheio de glórias que se avistavam além da poeira do campo. E certamente multiplicamos nossos sonhos para mais longe ainda da pose estática da fotografia. Uma foto que “historiadores oficiais” esquecerão, mas que nós nos lembraremos rindo na nossa solidão, quando a voz materna nos mandava tomar banho, á tardinha, para lavarmos bem nossas canelas “tuíras” e cheias de cicatrizes.

* Fotos surrupiadas do magnífico blog Porta Retrato, do jornalista João Lázaro.

“Trovão Azul”, o Chevette do Bruno (uma crônica minha sobre um carro, amizade e boas lembranças)

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Ao procurar curiosidades sobre a data de hoje, li que o último Chevrolet Chevette, carro da General Motors que foi lançado no Brasil em 1973, saiu de fábrica em 12 de novembro de 1993. E lá se vão 24 anos.

Meu pai teve esse modelo de automóvel. Aliás, meu velho possuiu dois Chevettes: um branco, que comprou zero Km na Sevel, todo bonitão, com painel emadeirado e tudo, e outro na época de vacas magras, amarelo e todo corroído, que apelidamos de “fuinha”. Era horrível aquele carango!

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Mas sobre Chevettes, lembrei mesmo foi do “Trovão Azul” (em alusão à série de TV na qual um helicóptero era chamado assim), o carro do querido amigo Bruno Jerônimo. A gente aprontou muito naquela viatura de doidos.

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Eu e Brunão

O Trovão Azul era igual a coração de mãe, sempre cabia mais um maluco. Ali não pegava mau olhado, era protegido por São Raul Seixas e devidamente defumado. Bons tempos aqueles do Chevette do Brunão, Quiosque Norte Nordeste (na Praça Floriano Peixoto), da antiga turma.

O Trovão Azul não tinha acessórios e nem ar condicionado. Nem era superconfortável, mas todos queriam andar naquele Chevette. Ora, senão!

Lembro de uma vez que íamos, eu e Bruno, para a casa da Giselda, lá no Boné Azul, era niver da Luíza, filha dela. Dois motoqueiros bateram com capacete em cima do Trovão Azul… deu muita raiva, quase sai porrada, mas eles foram embora. Tantas emoções, já diria o Roberto…

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O Samuel transformou o Trovão Azul num Chevette de playboy…

O Trovão Azul percorreu Macapá e nos levou em várias aventuras e poucas desventuras. Ele era um carro velho, mas cheio de histórias bacanas, totalmente impublicáveis.

Os anos passaram, o Brunão vendeu o Trovão para o Samuel (que o transformou num Chevette de playboy), as coisas mudaram muito, cada um da velha turma cuidou de si e a vida seguiu.

Naquela época, a gente vivia contanto moedas para nossas reuniões etílicas regadas a rock. E isso é uma lembrança feliz. E como é!

Elton Tavares

26 anos do lançamento de Nevermind, o antológico álbum da banda Nirvana

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Na manhã do dia 24 de setembro de 1991, uma terça-feira, começaram a chegar caixas nas lojas de discos dos Estados Unidos e da Inglaterra trazendo CDs e vinis com uma capa azul, com um bebê nu nadando atrás de uma nota de um dólar em um anzol. A quantidade de cópias, pouco menos de 50 mil, dava a exata dimensão da expectativa moderada que a gravadora Geffen esperava vender de Nevermind, o álbum de uma banda nova vinda do interior do país, chamada Nirvana.
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Ainda fruto do final da década de 1980, Nevermind seria mais um disco de rock independente numa época assolada por Michael Jackson, boy’s bands e cabeludos do heavy metal. Porém, o disco quebrou o mainstream, tirou Michael Jackson do topo das paradas e transformou o grunge melancólico e a cidade de Seattle no centro do mundo. O disco está na lista dos 200 álbuns definitivos no Rock and Roll Hall of Fame (Uma espécie de ranking da fama do rock).

Obra, de certa forma, sombria e ainda sim capaz de embalar festas em qualquer parte, com uma sonoridade que, mesmo depois de 26 anos, permanece atual. Nevermind, mesmo vindo depois do primeiro álbum do Pearl Jam, (o material do Nirvana engoliu o disco de estreia da outra banda de Seattle) conseguiu – por causa de uma junção de letras, formato e até mesmo “descompromisso” estético – chegar a mais pessoas e conversar com elas de uma maneira mais direta e idealmente imperfeita.

Em conjunto com tudo isso o segundo disco do Nirvana também é comparado por alguns grandes nomes da indústria musical a um lançamento dos Beatles. As realidades são diferentes, mas o impacto de Nevermind no mercado musical e na audiência é, realmente, inquestionável, a ponto de gerar shows caóticos e superlotados por quase todos os lugares que banda passou em seu auge.

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Embebido em todas essas circunstâncias, com letras diretas e marcantes, completando o combo de trabalho, o disco tem uma das capas mais icônicas de todos os tempos – que já recebeu homenagens das mais diversas -, e conta com o clipe de “Smells Like Teen Spirit“, gravado com pouca produção e grana, que se tornou um sucesso instantâneo na MTV e elevou o hype do álbum às alturas, colaborando para que o status do Nirvana fosse muito além dos contemporâneos, Pearl Jam e Soundgarden.

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Desde o seu lançamento, Nevermind já vendeu mais de 30 milhões de cópias. Número comparável com o Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band, dos Beatles. As 12 músicas logo se tornaram um clássico e o impacto que o disco causou na música e na cultura pop é sentido até hoje. Recentemente, o jornal inglês The Guardian citou o disco como um dos eventos mais importantes da história do rock. O Nirvana chegou a se apresentar no Brasil em 1993.

Formado por Kurt Cobain, Dave Grohl e Krist Novoselic, o Nirvana acabou com a morte prematura de Cobain. Aos 27 anos, em 5 de abril de 1994, o letrista e líder da banda se suicidou.

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Meu comentário: naquela época, nós caçávamos sons novos como as bruxas eram perseguidas durante a Inquisição, ou seja, incansavelmente. Tempos de festinhas de garagem e TDK 90 minutos, com os nomes das músicas anotadas no papel interior da capa da fita cassete.

O Nevermind surgiu para os jovens amapaenses no mesmo período que outra boa nova, a MTV. Lembro como se fosse ontem, em 1992, a recém chegada emissora exibia o vídeo de “Smells Like Teen Spirit” incessantemente e nós não enjoávamos. Foram grandes momentos para a minha formação cultural. Eu tinha 16 anos e toda aquela adorável barulheira ainda ecoa no meu coração.

Viva os 26 anos de lançamento do Nevermind, eu escutarei Nirvana para sempre, assim como Beatles, Led Zepellin, Ramones e Pink Floyd. Musica é a trilha sonora das nossas vidas e a da minha é o bom e velho Rock And Roll.

Elton Tavares

Fontes: Fontes: Veja; Omelete e das minhas quase três décadas escutando Rock and Roll.

Milli Vanilli: a maior farsa da história da música (Égua-moleque-tu-é-doido)

No fim dos anos 80, um duo alemão ganhou o mundo após o lançamento de seu primeiro CD. Com uma mistura de reggae e dance music, o Milli Vanilli foi alçado ao status de estrela mundial graças ao sucesso de faixas como “Baby Don’t Forget My Number”, “Girl I’m Gonna Miss You” e “Blame It On the Rain”. Aqui no Brasil, a música de maior sucesso acabou sendo “Girl You Know It’s True”, que seguia bem a linha das demais faixas do debut, All Or Nothing.

Frank Farian, entre Fab Morvan e Rob Pilatus

Entre 1988 e 1990, Fab Morvan e Rob Pilatus eram os reis do pedaço. Todo mundo queria o Milli Vanilli, para a alegria do produtor Frank Farian, que era a cabeça pensante do projeto. Antes de Fab e Rob se juntarem ao projeto, Frank reuniu uma banda formada por Charles Shaw, John Davis e Brad Howell, além de duas cantoras, as gêmeas Jodie e Linda Rocco. Eles formariam o Milli Vanilli mas, segundo Frank, o grupo seria invendável, apesar do talento. Foi aí que Morvan e Pilatus, dois dançarinos aspirantes a modelos, apareceram e se tornaram a cara do projeto.

Verdadeiros cantores

All Or Nothing foi lançado e, apesar de críticas quanto ao som parecido com projetos anteriores de Farian, a popularidade do Milli Vanilli foi crescendo na Europa. Foi quando o produtor resolveu pegar o álbum, recriar algumas faixas extras, colocar o nome de Girl You Know It’s True e lançar nos Estados Unidos. Foram cinco singles lançados, com “Girl You Know It’s True” alcançando a 2ª posição nas paradas americanas, “All or Nothing” ocupando o 4º posto e os 3 primeiros lugares “Baby Don’t Forget My Number”, “Girl I’m Gonna Miss You” e “Blame It On the Rain”. Tudo ia bem, a adoração do público era incrível, os shows estavam lotados e o grupo tinha recebido uma indicação ao Grammy como artista revelação. Aquele era o projeto de maior sucesso de Frank Farian e nada de estranho poderia acontecer. Nada.

Em julho de 1989, a banda tinha uma apresentação ao vivo na cidade de Bristol, nos Estados Unidos. Era mais um show normal para o grupo, com direito a 80 mil pessoas esperando para ouvir os sucessos ao vivo e ainda a presença da MTV americana, que gravaria o show para um especial.

O cenário era dos melhores. Era a consagração do Milli Vanilli e tudo corria bem, até que o grupo começou a tocar “Girl You Know It’s True”. A fita cassete que continha as vozes da música sofreu algum dano, travou e o sistema de som do local ficou repetindo inúmeras vezes a frase “Girl You Know It’s…”. Pela primeira vez, ficou evidenciado o playback da dupla, o que fez com que Fab ficasse desesperado e saísse correndo do palco.

Ainda que o episódio não tivesse abalado a confiança dos fãs, que continuaram comprando CDs, ouvindo as músicas e indo aos shows como se nada tivesse acontecido, o episódio gerou uma suspeita de fraude em torno do grupo.

As suspeitas aumentaram quando o rapper Charles Shaw declarou a um repórter de New York que a dupla não era responsável pelas vozes em nenhuma das faixas do álbum. Dias depois, Shaw retirou as acusações e fingiu não ter falado nada a respeito. Até hoje, acredita-se que Frank Farian pagou U$1,5 milhão a Shaw para que ele não falasse mais nada sobre o assunto. Ainda que as críticas continuassem, as coisas pareciam ter voltado aos eixos. Em fevereiro de 90, o Milli Vanilli levou para casa o Grammy de Artista revelação e, durante os meses que se seguiram, o primeiro CD continuava quebrando recordes de venda. Tudo parecia superado, inclusive com Rob e Fab já pensando em seu novo CD.

O Milli Vanilli se tornou maior do que Frank Farian poderia imaginar e isso influenciou em sua relação com a dupla. Enquanto ele tentava administrar o ego de Rob e Fab e pensar no futuro, a dupla se comparava com Bob Dylan, Mick Jagger, Paul McCartney ou Elvis Presley em entrevistas e prometiam um trabalho ainda maior para o futuro. Foi então que, em 15 de novembro de 1990, Frank não aguentou, convocou uma entrevista e abriu o jogo: As vozes gravadas no álbum de sucesso de Milli Vanilli não eram as de Rob Pilatus e Fab Morvan, mas de Charles Shaw, John Davis, e Brad Howell. Como Farian precisava vender o projeto, ele se aproveitou da imagem de Rob e Fab e do fato deles serem bons dançarinos (???) para criar o produto final e colocar no mercado. Segundo Frank, a decisão de revelar tudo veio da dificuldade de administrar a dupla e da pressão que os dois estavam fazendo para cantar no novo álbum.

Com a revelação, tudo foi por água abaixo. Contrato encerrado com gravadora, Grammy revogado (com a dupla tendo que devolver as estatuetas recebidas) e reembolso de, pelo menos, dez milhões de cópias de seus álbuns vendidos até então. Aquilo caiu como uma bomba no cenário musical e devastou a vida de Fab, Rob e Frank, que tentou dar continuidade ao projeto, já que o novo álbum estava gravado e pronto para ser lançado. Com o nome de The Real Milli Vanilli, os membros verdadeiros passaram a ser destacados e o álbum acabou recebendo o nome de The Moment Of Truth, sendo lançado no começo de 1991 na Europa. Com três singles, “Keep On Running,” “Nice ‘n Easy” e “Too Late (True Love)”, o resultado não foi nada expressivo. No mercado americano, Farian excluiu qualquer associação com o Milli Vanilli. Por lá, o projeto recebeu o nome de Try ‘N’ B e o disco ganhou três faixas extras. Por lá, a recepção foi positiva.

Enquanto Frank tentava se reerguer, Rob e Fab seguiam escondidos. Depressivo, abusando da mistura de álcool e remédios e ainda viciado em cocaína, Pilatus chegou a tentar suicídio em novembro de 91 ao cortar os pulsos e tentar se jogar da janela do hotel Sunset Strip, em Los Angeles. Foi contido pela polícia enquanto gritava que importunaram a sua família. “Estou farto disso. Eu não queria magoar ninguém”. No entanto, a dupla acreditava que podia cantar e seguir a carreira. Se mudaram para Los Angeles, assinaram um contrato com o Joss Entertainment Group e lançaram, em 1993, o álbum Rob & Fab. Morvan era a voz principal da dupla, enquanto Pilatus era responsável pelos raps das faixas. O resultado foi amplamente criticado pela mídia e o trabalho rendeu apenas um single, “We Can Get It On”.

O CONCEITO “MILLI VANILLI”

Com tudo o que aconteceu, era normal que o Milli Vanilli se tornasse referência para a cultura popular. Entre citações em filmes, seriados e músicas de artistas como 50 Cent e Outkast ou a história do cantor sertanejo Johnny Percebe (???) na novela Torre de Babel, todas evidenciavam o fato deles terem enganado todo mundo vendendo uma história que não era a real.

Contudo, a referência mais legal de toda a história foi protagonizada pelo próprio Milli Vanilli em um comercial de chicletes, que começa perguntando “até quando o sabor do chiclete dura?” enquanto a dupla está cantando uma ópera. Até que a ópera falha e eles são pegos no playback.

O QUE PODEMOS TIRAR DISSO?

De lá pra cá, Morvan lançou um álbum em 2003, intitulado Love Revolution, trabalhou como locutor e DJ, mas nenhuma das tentativas deu resultado. Em 2012, ele trabalhava em um segundo disco, que até hoje não foi lançado. Considerada por muitos como a maior farsa da história da música, o Milli Vanilli chegou a ter cogitada a possibilidade de sua história virar filme, tendo o roteiro produzido por Jeff Nathanson (O Terminal e Prenda-me se for capaz). No entanto, o projeto acabou não tendo sequência.

Farian e os verdadeiros cantores

Ainda que a fraude não mereça ser recompensada, o Milli Vanilli acabou rendendo uma das histórias mais interessantes do cenário musical e, se for analisar friamente, não é algo que está tão longe dos nossos ouvidos atualmente. Ainda que hoje em dia as coisas não sejam feitas de forma tão descarada, o pensamento de Farian lá em 1988 de que “o produto precisa ser atrativo para ser vendido” ainda faz parte do que consumimos (ou nos é oferecido) musicalmente.

Candidatos a Milli Vanilli temos muitos, mas o que não temos é produtor que queira dar a cara a tapa e ver a sua carreira ir para o ralo, da forma que Farian fez, certo?

Fonte: Audiograma

Há exatos 40 anos, morreu Elvis Presley

Há exatos 40 anos, em 16 de agosto de 1977, morreu Elvis Aron Presley. Após algumas temporadas em hospitais e prestes a iniciar uma turnê, o Rei do Rock and Roll morreu em Memphis (EUA), vítima de hipertensão cardíaca. Nessa época com sua carreira já em decadência, Elvis morreu vítima de overdose de tranquilizantes. Ele vendeu mais de 1 bilhão de discos e viveu somente 42 anos de idade.

Elvis Aron Presley nasceu em Tupelo (Mississipi) em 8 de janeiro de 1935. Com 10 anos comprou seu primeiro violão. Nove anos depois, ele era um caminhoneiro pobre que entrou nos estúdios da gravadora Sun, em Memphis, e grava um acetato para dar de presente à mãe em seu aniversário. Lá gravou duas canções: My Hapiness e That’s when your heartaches begin.

Meses depois, quando precisou de um cantor para gravar um compacto, o dono da Sun, Sam Phillips, lembrou-se do rapaz. Nascia o rock’n’roll.

Por causa de suas roupas justas e do jeito como mexia os quadris, ficou conhecido como Elvis, the pélvis. Em 1956 assinou contrato para participar de seu primeiro filme Ama-me com ternura, que ficou famoso por sua bela música tema Love me tender.

Por isso, monstros sagrados do Rock o reverenciam:

Eu acredito que a música pode curar. As pessoas encontram paz na música. Toda vez que eu me sinto triste, eu coloco um disco de Elvis e me sinto melhor. ” Paul McCartney.

Eu agradeço à Deus por Elvis Presley. Agradeço a Deus por ter mandado Elvis para abrir a porta para que eu pudesse atravessar e caminhar pela minha estrada….” Little Richard.

Antes de Elvis não havia nada” – John Lennon.

Alguns dizem que ele ainda está entre nós. Acho pouco provável. Portanto, viva o Rei! Esteja ele onde estiver.

Elton Tavares

Túnel do Tempo: há 11 anos, Titãs fez show memorável em Macapá

Há exatos 11 anos, a banda de rock Titãs fez um show memorável na área externa da Chopperia, em Macapá. Mesmo sem Arnaldo Antunes, Nando Reis (que deixaram a banda para seguir carreiras solo) e Marcelo Fromer (falecido em 2001), a apresentação foi sensacional!

O ano era 2006. Paulo Miklos, Branco Mello, Tony Bellotto, Sérgio Britto e Charles Gavin se apresentaram em alto nível. Estávamos eu, Anderson, Adelina e Edmar. Também encontrei o Franck, Paulo, Najara e Edinho. Sem falar em dezenas de outros amigos. Não sei quantas milhares de pessoas estavam lá. Só sei que o show foi firme demais!

Os caras estão na ativa há 40 anos. Titãs é uma das seis maiores bandas do Rock Brasil, ao lado de Legião Urbana, Os Paralamas do Sucesso, IRA, Engenheiros e Barão Vermelho. Quem me conhece sabe: sou Rock And Roll, mas sinto falta de grandes shows na minha amada Macapá, pois estamos “longe demais das capitais”.

Tudo bem que, vez ou outra, vem uma banda bacana, mas não é frequente como deveria.

Torço para que ainda rolem várias noites históricas de rock no meio do mundo e deixemos de ser uma sonífera ilha. Sim, os velhos Titãs fizeram um show antológico em Macapá. E lá se vão 11 anos.

Elton Tavares

De Rocha completa sete anos no ar

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Parece que foi ontem, mas já faz sete anos. O ano de 2009 foi bem legal, mas as duas coisas que mais gostei nele foram o show do Radiohead e a criação do blog De Rocha.

Incentivado por uma ex-namorada (por sinal muito gente boa, como a maioria das minhas ex-namoradas), comecei escrever na página virtual. Foi no dia 15 de novembro, há exatos sete verões.

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A gíria “De Rocha” nomeia este blog porque nós, grande parte dos nortistas amapaenses e paraenses, a usamos quando queremos passar credibilidade sobre determinado assunto.

Na página, sempre publiquei fotografias, notícias, músicas, poesias, futebol, crônicas, contos, gifs, informes sobre fatos, eventos, pessoas públicas, bandas, arte, muita arte, e assuntos de interesse da população.

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A promoção da cultura, em todas as suas vertentes, sempre foi o principal objetivo do De Rocha, além de expor meus pontos de vista, críticas leves e pesadas ou elogios amenos e exagerados aos que merecem. Foram tantos artistas, músicos, bandas, incontáveis eventos. Também publiquei textos do trampo por onde passei na carreira de assessor de comunicação. Além disso, falei muito da minha amada e preciosíssima família. E isso tudo misturando blá-blá-blá abobrístico, pois a vida sem humor é horrível.

Apesar da “internet soviética”, como diz o amigo jornalista Régis Sanches (ex-colaborador deste site), dos acusadores, fiscais e críticos, o De Rocha virou sucesso. Confesso que, quando comecei a escrever, nem imaginava que minha página virtual seria tão bem aceita. Isso aqui abriu portais, portas, janelas, gavetas e até alçapões em minha vida (risos).

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Sei que rolou muito atrevimento, ironia, polêmicas, sarcasmo, verdades doloridas de se ler, alfinetadas, acidez e até idiotice de minha parte. Mas também rolou tanta homenagem, tanto amor real, tanta coisa legal. Claro que cometi alguns erros, não poderia ser de outro jeito. Mas tudo é aprendizado. Me arrependo de ter magoado algumas pessoas. De verdade!

Nestes sete anos, somados blog e site, fiz novas amizades, expandi meus conhecimentos e incentivei amigos a criarem seus próprios blogs (mesmo que alguns não admitam).

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Por aqui passaram vários colaboradores. Alguns deles nem são mais meus amigos, mas sou grato pelas contribuições. Cada um teve papel importante na formação deste espaço. Também agradeço aos parceiros que continuam por aqui. Em especial aos amigos Fernando Canto, Ronaldo Rodrigues, Patrícia Andrade, Mariléia Maciel, Gilvana Santos, Hellen Cortezolli, Marcelle Nunes e Rita Torrinha, além do velho e saudoso Tãgaha Luz (In memoriam). Obrigado, meninas e caras.

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O blog morreu há dois anos, quando foi criada esta página eletrônica (dados do antigo endereço foram migrados para cá). Passado todo esse tempo, mantenho-me como comecei: jornalista, assessor de comunicação, compulsivo por atualizações da página, cronista, crítico, ex-blogueiro e editor de um site ético e sem rabo preso com ninguém (apesar de muita gente confundir o espaço dado a amigos assessores com favorecimento).

Tenho a ousadia de usar as palavras do escritor Caio Fernando Abreu: “Acho que fiz tudo do jeito melhor, meio torto, talvez, mas tenho tentado da maneira mais bonita que sei”. Uma eterna luta do bem contra o mal dentro de mim, mas com 99% de vitórias da luz.

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Ah, desculpem os palavrões em alguns textos, mas isso também é liberdade de expressão.

Em analogia à data, li que a palavra “sete”, o número cabalístico, em hebraico é a mesma para “jurar” (garantir). Portanto, garanto que seguiremos no caminho das sete virtudes: Fé, Esperança, Caridade, Prudência (às vezes não muita), Justiça, Força e Temperança.

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Aqui a bola sempre foi minha. Você pode discordar, mas é isso o que penso e ponto. Com essa frase, agradei muito mais do que provoquei repulsa. Meu muito obrigado a vocês, senhores e senhoras que compõem o leitorado do De Rocha, sejam admiradores, críticos e detonadores (que de certa forma também são admiradores). Sigamos aplaudindo, criticando, discordando e incentivando as boas práticas. Valeu pra caralho!

Elton Tavares

O Mestre da Tocha e a gratidão do jovem compositor – Crônica de Fernando Canto

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Hernani Victor Guedes, cercado pela família, conduzindo a Tocha Olímpica – Macapá – 17 – 06-2016 – Foto: Jaezer Dantas

Crônica de Fernando Canto

Hoje vi na tel72b22d4e8f3c8ad50e917eefcb11a34d531cd5a8evisão o apresentador Huck fazendo surpresa a um jovem compositor desconhecido. Uma dupla de cantores famosa fez os arranjos e cantou sua música no programa, prometendo que a gravariam. Foi algo sensacional, pois o jovem se emocionou e agradeceu. Olha, fazia muito tempo que eu não via TV aos sábados! Eu também me emocionei pelo trabalho da produção e pelo reconhecimento do talento do rapaz. Foi a realização do sonho dele, que na sua humildade o partilhou na plateia com a namorada.

Dois dias atrás eu já havia me emocionado com a disposição do seu Hernani Victor Guedes, que aos 93 anos conduziu a tocha olímpica nas ruas de Macapá, juntamente com mais de cem atletas. Eu acompanhei tudo pelas redes sociais e nem quis me meter na mais imbecil polêmica do século que já vi no Amapá, aliás uma imbecilidade de proporções olímpicas, sobre os condutores e acompanhantes da tocha. crise-das-oligarquias-imagens-10-638-300x180Mas que cada qual enterre suas posturas anti- amapaenses em seus flaites peludos e fique com suas derrotas políticas antecipadas dentro dos seus armários de ouro. É verdade que muitas vezes há injustiças nas escolhas de nomes para representar um povo. Nem sempre os critérios são iguais. Mas certamente a tentativa de acertar superou o desejo de fracasso, para o desespero de uma minoria insignificante.

Os Mocambos (1972)
Passada essa tentativa triste de boicotar o evento, eu só queria levar meu pleito de gratidão ao seu Hernani, e dizer o quanto ele foi importante na minha vida, posto que ninguém é só importante para um lado da pessoa. Se o foi no lado artístico atingiu em cheio toda a minha personalidade individual e social. É como um médico que ao curar uma parte do corpo colabora para o corpo em sua totalidade. Ao lembrar o compositor que me referi acima, lembro também que conheci seu Hernani quando acompanhei ao violão a sua música “Declaração”, interpretada por Manoel Sobral, e que ficou em segundo lugar no III Festival Amapaense da Canção, no Ginásio Coberto Paulo Conrado, em 1971. Esse ano foi minha estreia como compositor. Concorri com “Laguinho, Laguinho, Laguinho”, samba feito em parceria com Odilardo Lima. A música “Balada de Amor e Dor” de Isnard Lima e Nonato Leal ganhou o primeiro lugar, com a inesquecível interpretação de José Maria Silva Santos, que mais tarde viria a ser o conhecido cantor internacional Jomasan.

Os Mocambos na fortaleza

No ano seguinte ganhei o segundo lugar nesse mesmo festival, ocorrido no auditório da Rádio Difusora de Macapá, interpretada e depois gravada por Jomasan no conjunto Os Mocambos, liderado por seu Hernani. Integrei o grupo como guitarrista-base. No dia que estreamos na saudosa Assembleia Amapaense, todos elegantemente vestindo paletós, o violinista Hernani também superelegante no seu smoking, fez uma pausa, pediu que acendessem as luzes e anunciou que gravaríamos um LP em Macapá. R-5963795-1407531772-2556.jpegSolicitou a todos para sentarem que ele mostraria uma das músicas do repertório a ser gravado. E o conjunto atacou com “Devaneio”, cantada pelo Jomasan, na época o nosso querido “Zé Maria Vaca Preta”. A plateia gostou e pediu bis. Após os aplausos ele me puxou lá de trás dos outros componentes do grupo, já que era guitarrista-base, e me apresentou como o compositor da música. Quando viram aquele moleque cabeludo, magro, imberbe e tímido, de 17 anos sendo puxado pelo líder do grupo para ser apresentado à sociedade como uma debutante, aplaudiram demoradamente. Eu não sabia o que fazer e me emocionei muito. Nem sei se agradeci os aplausos. Ainda bem que logo acenderam a luz negra e o grupo recomeçou a festa. Quando ela acabou eu “saí com beira”, junto com a minha timidez. Depois 13450111_623707031129705_4392815613256574479_ndisso era sempre cumprimentado pelos que estavam no baile. E assim a vida seguiu.

Após 45 anos de convivência com o seu Hernani, que sempre me incentivava a ir para Belém estudar, mormente no ano na Operação Engasga, vi suas fotos na internet conduzindo a tocha olímpica em Macapá e fiquei muito contente. Não pela proeza da sua idade avançada, mas pelo respeito que tiveram com esse cidadão que foi atleta, formador de músicos e fomentador da cultura quando pouco havia de cultura e arte a fazer e a participar, e sobretudo de viver disso na nossa terra. A gente vivia mesmo era de brisa.

Eu não sei o que oOs Mocambos (1972) jovem que foi tomado pela surpresa diante das câmaras de TV vai fazer. Espero que ele consiga viver como compositor, pois hoje isso é possível. E reitero que me emocionei com o quadro, pois me vi no lugar dele.

Eu me vi, sim, como naquele sábado no pequeno palco da Assembleia Amapaense, em 1973, onde o inesquecível Hernani Victor Guedes, anunciou a música de minha autoria e a acompanhou com seu violino melodioso. Tocou com a habilidade de um Paganini, viajando entre os acordes mágicos de uma partitura invisível e sagrada, na qual seus sonhos – e os meus – voavam presentes àquela hora, e que depois foram sendo realizados pouco a pouco. Obrigado, mestre Hernani.

Fernando Canto – Fortaleza, Benfica, 18.04.2016