Catita, mamãe! – Conto de Heluana Quintas

Conto de Heluana Quintas

Minha mãe sempre foi implacável com as catitas. Todas as madrugadas em que uma catita se apresentou num intervalo de sono da minha mãe, a agilidade miúda da bichinha perdeu para a perseverança robusta do matriarcado Quintas. Sem negociação, a gente de toda a casa levantava, empunhava rodo e vassoura num limbo de sonolência e gritaria.

Apresentavam-se, a contragosto, os deselegantes cavaleiros da remela por volta das duas da manhã, madrugando por tempo indeterminado à espreita da espreita do minúsculo ratinho. Alvo eliminado, às vezes a batalha se prolongava no sonho do sono curto, por que a noite mal dormida é o afago da angústia, a gêmea siamesa do pesadelo. Nessas ocasiões, a praga reaparecia ainda que a matasse mil vezes. E assim, o rato roía as horas do rádio-relógio.

Em mais uma noite, lá estávamos eu de um lado do fogão e mamãe do outro. Eu de rodo, ela de vassoura, ele franzino e de pelo cinza claro, escondido silenciosamente debaixo do Electrolux branco de seis bocas. Minha perna já formigava quando o animal fez uma breve e destemida corrida na minha direção, parou e me fitou profundamente. Me vi gigante nos olhos do ratinho. Paralisada com terror de mim mesma, o ratinho de repente crescia na minha frente.

O rodo já não servia para acuá-lo senão para me proteger. Esqueci o formigamento e permanecemos sustentados pela mira um do outro. O rato e eu moramos na iminência do ataque e da clemência, dois pontos pulsantes de luz vermelha no rádio-relógio da cozinha. Naquela madrugada nada avançava. Até que eu desisti. Abandonei a insistência em compreender se o rato pretendia ou não me atacar e aceitei que ele me vencesse pelo blefe. Soltei o rodo no chão e a trava do relógio. O rato correu pelo canto da parede e alcançou a porta rumo a liberdade. A derrota fez um sono tranquilo.

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