Chico, Besouro e o Bem Amado

                                                                                            Por Wellington Silva

Depois de vermos tanta baboseira nacional, finalmente, eis que surge, muito comentadas no meio intelectual e nas massas, duas fantásticas produções cinematográficas para salvar a nossa ruinzinha imagem perante a comunidade internacional:A vida de luz e pura caridade cristã de Chico Xavier e a bela construção histórica da vida cultural dos capoeiristas e candomblecistas no recôncavo baiano, liderados por mestre Besouro, escolhido pelos Orixás para cumprir a sagrada missão de libertar da opressão toda uma cultura de resistência afrodescendente.
O primeiro, Chico Xavier, por mais que fosse uma produção de poucos recursos, em todos os níveis, por si só já seria uma bela obra justamente pela abordagem histórica daquele que foi em vida encarnada o Grande Luzeiro do espiritismo no mundo, de origem muito pobre, escarnecido e incompreendido por alguns e depois amado por uma grande multidão de brasileiros oriundos de todos os cantos do País.
Creio que Nelson Xavier, que brilhantemente interpreta Francisco Cândido da Silva Xavier, estudou profundamente todas as características gestuais de Chico, sua forma simples e angelical de comunicação, seu simples vestuário, costumes e hábitos.
O ator Tony Ramos, um mestre da dramaturgia brasileira, encarna um pai ateu desconsolado pela perda repentina e prematura do filho, filho que foi vítima do disparo acidental de uma arma de fogo, arma acidentalmente acionada por seu melhor amigo.
Ao seu lado contracena Cristiane Torloni, atriz que desempenha com muita competência e comoção o difícil papel de uma mãe sofrida com a perda irreparável do filho. O destino encarregara-se de cruzar o caminho do casal com o de Chico. O casal inicialmente vê o conhecido médium com muita resistência e desconfiança e custa a crer na autenticidade das cartas enviadas pelo filho desencarnado. As evidências são tão irrefutáveis, incontestáveis, que o casal depois resolve, numa decisão inédita da justiça brasileira, absolver o réu.
A comparação da assinatura do morto, assinada na carta psicografada por Chico Xavier, com a assinatura da sua carteira de identidade, é autenticada como verdadeira por especialistas. E assim Chico vai espalhando sua luz, libertando pessoas do mal e ao mesmo tempo contraindo perseguições de um padre que insiste em dizer que sua obra é do Satanás, assim como Jesus foi perseguido e acusado por sacerdotes exploradores da fé de obreiro do inferno.
A vida de Chico Xavier é um filme para crentes, descrentes, desesperançosos, pessoas angustiadas por algum motivo, para a família, para alguém em busca de respostas, enfim, a vida de Chico é um exemplo de caridade e amor para a humanidade.Besouro também é simplesmente fantástico. Dotado de bem elaborados efeitos visuais especiais, conta com apoios de peso tais como o da Petrobrás, Bradesco, Odebreth, TAM. Logo na abertura, a narração de Mauro Gonçalves emociona.
A luta de Besouro se passa no recôncavo baiano, em 1924, época em que estava proibida a exibição, organização e “ajuntamento” de capoeiristas e candomblecistas. Qualquer manifestação desse tipo sofria a imediata repressão coronelista da época.
Discípulo de mestre Alípio, Besouro, ágil e veloz na capoeira como um besouro, muito jovem é predestinado a provocar solitariamente o coronelismo e a combater seus abusos e excessos praticados contra seu povo. Através de efeitos especiais fantásticos, no filme Besouro recebe a força dos Orixás, de Iemanjá, Ogum e de seu próprio mestre desencarnado, mestre Alípio, covardemente assassinado pelos capangas de um coronel.
Besouro, portanto, é um filme para os amantes da capoeira, das artes marciais, dos cultos afros e de toda a beleza e magia que compõe o rico mosaico de nossa cultura brasileira.
A vida de Chico Xavier e Besouro são duas obras excelentes, que podem ser referenciadas em qualquer canto do mundo como Made in Brasil, aprovadas pelo Inmetro, por assim dizer, sem enganação. Tropa de Elite tem um outro foco: mostra a realidade da violência do tráfico, sem apelação, e o envolvimento de mauricinhos e patricinhas da elite carioca. Mostra principalmente o enraizamento da corrupção na polícia convencional e a ação independente do BOPE para combater todos esses vícios. É por essas e por outras que todos aguardam com ansiedade o lançamento nacional do Tropa de Elite II.
O que continua pegando muito mal para nossa imagem são as pornoporcarias e a violência da violenta avacalhação explícita da imagem do Brasil mostradas em produções de filmes de muito mal gosto. Produções que insistem em ganhar uma premiação que nunca chegará, sim porque lá fora qualquer mesa julgadora sabe discernir perfeitamente o que presta e o que não presta. E o que não presta nem vai a julgamento ou nem concorre a nada.
Será que não estaria na hora, com tantos recursos técnicos disponíveis e muito desperdício com baboseiras, de começarmos a focar seriamente nossa história, a começar por Tiradentes, ou que tal o descobrimento do Brasil, que já havia sido descoberto pelos tupis guaranis a muito tempo ?
O certo é que, enquanto muitos países estão focados em excelentes produções cinematográficas, com forte viés histórico, não tão caras assim, como os tailandeses, coreanos e indianos vem ultimamente fazendo, boa parte da produção cinematográfica brasileira ainda vive envolvida com temáticas de muito mal gosto, repetimos.
Se o cliente pode adquirir, através da Loja Submarino, o Bem Amado, obviamente louco de saudades para ver o autêntico Bem Amado com Paulo Gracindo e Lima Duarte, gênios/mestres/atores principais da fantástica obra de Dias Gomes, o primeiro, intérprete inimitável de Odorico Paraguassú e, o segundo, intérprete inimitável de Zeca Diabo, pergunto: Porque então, a própria Globo, associada com produtores e patrocinadores, não faz recortes bem elaborados da novela O Bem Amado para compor o filme O Bem Amado ?
Não consigo ver o Bem Amado sem o autêntico Odorico, brilhantemente interpretado pelo saudoso Paulo Gracindo, repito, e o Zeca Diabo, sem a interpretação fantástica de Lima Duarte. Não consigo ver o Bem Amado sem as autênticas Cajazeiras e o autêntico Dirceu Borboleta, o saudoso Nezinho do Jegue, e toda a beleza nostálgica que foi o autêntico Bem Amado. Se não for original, fica tudo muitíssimo sem graça, como um pouco sem graça está o humor brasileiro sem vermos na TV os arquivos do gênio nacional do humor, Chico Anysio, e de Jô Soares, criador do Viva o Gordo.
Gosto do humor popular do Casseta e Planeta, Pânico na TV e do QCV.Seria muito bom ressuscitar e repassar os bons e velhos programas humorísticos como a Escolhinha do Professor Raimundo ou a Praça é Nossa com Costinha, Rony Cócegas, Vera Verão, e tantos outros grandes talentos esquecidos. Seria um laboratório para muitos com audiência garantida justamente pela expressão de nostalgia e criativa e inteligente capacidade humorística dessas saudosas ou lendárias figuras do bom humor brasileiro.

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