Cirurgia no pulmão – Conto de Fernando Canto

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Conto de Fernando Canto

Tive um sonho em que fui operado, submerso numa piscina, por um médico amigo meu.

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Antes eu não conseguia respirar direito. Acordava no meio da noite por causa de uma Apneia. Eu estava além do meu peso ideal e não me preocupava muito com dietas. Já passava dos cem quilos.
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Eu fora fumante por 25 anos. Por conta disso tive um carcinoma na boca e uma recidiva cinco anos depois. Com as cirurgias e o tratamento adequado por mais de dez anos os médicos me consideraram curado.

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Mas o pulmão e essas coisas de respiração sempre me preocupavam. Vi meu pai morrer nos meus braços por conta de um enfisema pulmonar em consequência do vício de fumar. Ele já estava com uma idade avançada e sofria com isso. Tinha soluços e tosse, mesmo que já tivesse parado o uso do cigarro havia 16 anos. Aliás, foi uma promessa que fez no túmulo de minha mãe no dia do enterro dela. E cumpriu. Nunca mais pôs um cigarro na boca.

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Ao mergulhar, segurei uma corda estendida no fundo da piscina atendendo ao pedido do médico. Ele aplicou um anestésico na minha costa. Em seguida, com um instrumento cirúrgico pontiagudo, fez duas pequenas incisões abaixo do pulmão esquerdo e eu pude ver dois filetes de sangue se diluírem nas borbulhas da água. Senti dor, mas não tanto a ponto de incomodar.

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Em menos de um minuto ele encerrou o procedimento e saímos juntos da piscina por uma escadaria que dava, creio, em uma enfermaria de um grande hospital.

Ele me mandou descansar. Contudo, eu não podia. Tive a sensação de estar inalando um ar tão puro que se espalhava plenamente pelos pulmões como se o oxigênio explodisse entre as células do órgão. Algo que eu não sentia há tempos. Eu ria e me dava vontade de gritar. Mas eu estava em um hospital e lá havia enfermos em tratamento.

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Mais tarde perguntei pelo médico, um rapaz ainda novo que conheci numa mesa de bar assistindo a um jogo da seleção brasileira na copa do mundo. Torcemos e sofremos juntos com a derrota do Brasil para a Alemanha por 7 X 1. Cheguei a vê-lo e a conversar com ele por várias vezes, sempre no mesmo bar. Fizemos uma amizade bacana que só as feitas nos bares são capazes de permitir, pois geram afinidades e regam sonhos individuais e coletivos. Sua simpatia e discernimento fazia a diferença entre os fregueses do bar. Ele, assim como eu, também cantava e tocava violão.

Tempos depois ele partiu para fazer um doutorado em pneumologia em uma reconhecida universidade de São Paulo. Soube também que ele havia sofrido um acidente de carro e não mais havia retornado para a nossa cidade. Na realidade sempre comentei no bar que desconfiava que ele tinha falecido. Não tínhamos notícias dele, pois não possuía família nem muita amizade com seus pares profissionais daqui.

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Nunca mais encontrei com ele. A não ser nesse sonho em que ele me operava. Agora eu estou bem. Respiro com satisfação e sem dor.

Só tenho a agradecer a você, meu amigo. Que Deus te pague e te guie em direção a luz quando acabares tua missão espiritual entre nós. Um abraço e até o dia da desforra com a Alemanha.

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Lá no bar assistiremos juntos esse esperado jogo e depois tocaremos nossos violões em dueto, para sermos aplaudidos pela turma que sempre nos compensa com um tira-gosto de carne assada de panela e uma cachacinha mineira de fazer cara bonita, pra ninguém botar defeito.

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