Compondo ‘ladrões’ de marabaixo, tia Zefa completa 100 anos de vida, no AP

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Por Fabiana Figueiredo

Com a maioria das histórias vividas ainda bem vivas na memória, a macapaense Josefa Lina da Silva, conhecida como tia Zefa do Quinca, comemora os 100 anos de vida com orações, dançando e cantando versos nas rodas de marabaixo nesta sexta-feira (26) .

Pioneira do bairro Laguinho, além de ser cantora e compositora de incontáveis “ladrões” de marabaixo, versos característicos da dança, tia Zefa é um ícone para a cultura negra do Amapá.

Nascida no ano de 1916, tia Zefa se recorda bem como era viver na antiga vila de São José de Macapá. Ela também guarda na memória o momento em que foi morar no bairro Laguinho, Zona Norte da capital. Na década de 1940, o então governador Janary Nunes implantou uma política habitacional no vilarejo que fez os negros se mudarem da orla da cidade.

“Eu morava atrás da Igreja São José, no Formigueiro. Macapá era só até ali. Não tinha mais nada, só mato. Não tinha energia elétrica, água encanada, carro e nem avião. Quando Janary chegou querendo aumentar a cidade, quem não podia fazer uma casa melhor, ele botou aqui para o Laguinho e outros para a Favela [atualmente bairro Santa Rita]. Foi assimque saiu o ladrão ‘Pra onde tu vais, rapaz?’, e eu vim pra cá com a minha família”, recorda a centenária.

Zefa diz que desde criança já sabia compor e cantarolar variados “ladrões” de marabaixo. E ela não dispensa entrar na roda para cantar e dançar o ritmo que ela viu crescer no estado. A maior parte da família é envolvida com a manifestação cultural, seja dançando, compondo ou batucando.

Mesmo não sabendo ler e nem escrever, tia Zefa criou e sustentou os filhos lavando roupa para outras famílias e fazendo serviços de roça. Ela afirma que priorizou a educação e se orgulha em saber que os 8 filhos que teve se formaram. Com 100 anos de vida, tia Zefa também tem uma família grande: são 39 netos, 40 bisnetos e 5 tataranetos criados.

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Josefa da Silva Ramos, de 65 anos, é uma dos filhas que seguiu os passos da mãe. Ela conta que aprendeu a produzir remédios caseiros e a cantar nas rodas de marabaixo.

“É uma alegria enorme de todos os amigos e parentes em estarmos ao lado dela hoje, porque foi uma pessoa que orientou cada um de nós. Ela lembra que amanhecia o dia no marabaixo sem beber e comer direito. Sempre gostou de remédio caseiro, me ensinou a fazer muitos deles e também a cantar. Ela é maravilhosa”, disse a filha.

O aniversário da tia Zefa será comemorado a partir de 19h desta sexta-feira, com a celebração de uma missa especial na Igreja São Benedito, no bairro Laguinho. Em seguida, haverá apresentações de marabaixo com a família e amigos da centenária.

“Tudo isso foi ajuda de nosso paizinho. Porque Deus é quem nos dá a esperança e a fé que vamos vencer todas as dificuldades da vida. Eu peço que Ele abençoe as crianças que estão nascendo. Queria que não tivesse tanta bebida e doença porque isso adoece as pessoas e a família delas também”, concluiu a centenária.

Fonte: G1 Amapá

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