Conheci um cara chamado Hollyland

Mayara La-Rocque e Hollyland

Adoro retratar figuras, aliás, já postei este texto aqui duas vezes. O escrito é da minha amiga, Mayara La-Rocque. Ela descreve, com perfeição, um velho brother nosso, o Hollyland. O Holly, como o chamo, é um maluco da velha guarda. Não vou negar, já fiquei puto com ele em algumas ocasiões (risos), mas é o tipo de pessoa que você não consegue ficar bolado por muito tempo com ela. Existem algumas curiosidades sobre o sacana, ninguém sabe ao certo o seu nome ou idade e ele não conta. Claro, adoramos aquele cara. Aí está o texto:

Conheci um cara chamado Hollyland.

Por Mayara La-Rocque

Nos conhecemos andando pelas ruas e estradas, pelos caminhos de pedras e terra. Nos debatemos no vazio das horas, em conversas infindas, cerveja e pôr-do-sol. Ele era um cara de muito papo. Tinha a prosa na ponta da língua. Tagarelava à toa, tagarelava com o tempo.

Hollyland era uma figura que nunca se preocupava com suas vestimentas; ora usavaeuehooly calças jeans e camisas de botão, ora bermudas e camiseta; as vezes, as peças eram todas de uma cor só, ou então, de várias cores ao mesmo tempo. Era um cara descombinado. Mas, desajeitosamente, tinha seu próprio jeito de andar; um andar que titubeava pelos bares das esquinas. Usava a barba por assim fazer e dizia que esse era o charme para o seu sorriso – assim barbudo, seus dentes realçavam mais e seu riso delineava todo o seu rosto.

Apesar de não se importar muito com a aparência, curiosamente, se preocupava com seus sapatos. Estes sim, lhe diriam seu caminho, e até quando continuar andando. Falava pra mim, que seu caminho era um vastidão de terra e por isso seus sapatos deveriam estar destituídos de buracos, para que não possibilitasse a poeira de entrar. Deveriam estar flacidamente confortáveis para que, no trajeto, não machucasse seus pés por entre as pedras.

Hollyland dizia que no início de seu riso, também haveria esse mesmo deserto, no qual se plantariam flores e se emanariam extensões de florestas verdes, verdes, imensamente verdes… Nessas florestas sempre haveria sombras para o seu descanso. Seus pés sempre foram o sustento de tudo. Os sapatos, o sustento de seu sustento. E o sorriso, a essência desse sustento – a essência da manutenção da vida.

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Eu e Holly – 2014

Ele seguia quase sempre debaixo do sol, suando a testa, procurando algo pra fazer, ou simplesmente um barato para curtir. Gostava de um bom papo e quando falava era quase sem pausa, e emitia de quando em quando, um gaguejado. Mas, mesmo assim, parece que nunca perdia a fala. Até que um dia, o vi falar, vagarosamente, sobre o amor. Sua voz pesava tanto quanto os intervalos entre as palavras, e sua boca fechada, deixava um silêncio denso, torto, grosso, espesso… sim, Hollyland também falava de amor. Fazia metáforas. Sentia o amor como uma doença encravada no peito. Não se podia arrancar, não se podia arrancar… nem os remédios podiam curar.

Mas seguia assim, descombinadamente dançando, fazendo motejos com os braços, mexendo para cima e para baixo, e com seus dedos indicadores que apontavam sua própria direção. Com a barba mal feita, malandrosamente rindo, carregava o motriz para que continuasse seguindo em frente. Tinha em mente que enquanto continuasse andando, continuaria sonhando com as flores, com as florestas verdes, verdes, sempre verdes. Sonhando com a sombra, enfim, para o seu descanso.

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