Conto sertanejo – Por de Rebecca Braga (@rebeccabraga)

 

Conto de Rebecca Braga

“Vai Azulão
Azulão companheiro vai
Vai ver minha ingrata
Diz que sem ela
O sertão não é mais sertão
Ah, voa, Azulão
Azulão, companheiro vai…”

Os pássaros voltam pra casa. Estiveram migrando durante os últimos meses, viajando em bando. São os últimos dias de seca e as chuvas precisam ser anunciadas. O sabiá não cantou por noves meses e a passarada toda, todas as plantas secas, todos os animais sabiam que chegava a hora de cantar.

Resistindo ao sol, desabrochando em um jardim de cactos, numa paisagem estéril, a delicada florescência, a singela flor se faz diferente de toda a paisagem. Entre o verde possível pela capacidade de tirar água onde água não há, formam-se pétalas de uma cor clara, o cálice comprido é um esperançoso copo para guardar a água da chuva.

Talvez a flor não chame atenção pelas cores, ou pelo cheiro, mas pela capacidade de resistir, de sobreviver, de existir. Isolada entre os espinhos, nascida daquela terra rachada, de pedras e de árvores mortas, é a própria vida, a força da natureza.

No início de tarde o sabiá canta monótono, repetindo a mesma melodia, uma flauta tocada em seu próprio dialeto. O céu fecha. Longe, uma cerca ao lado de uma casa de taipa guarda cabras magras que correm de um lado pro outro balançando sinos desformes feitos de metal amassado. As crianças espichadas olham as nuvens pesadas.

-Corre, moleque, que o sabiá cantou! – grita uma mulher velha encostada na porta apontando pra bacias e uma cisterna fechada.

Era a primeira chuva depois de meses de sol rachando o solo e derretendo a paisagem como em uma pintura surrealista. O céu choveu por dias até que os primeiros raios de sol saíram por frestas nas nuvens brancas de bordas amareladas. Os pássaros se põem a sair sacudindo as penas e asas, inundam de som e cores aquele pedaço de mundo.

Azul-claro brilhante, de bico forte, ele surge entre as árvores cantando dez notas, repetidas em variados tons. O Azulão pousa num pedra ainda úmida e mexe a cabeça rápida e curiosamente. Nos olhos pequenos o reflexo das pétalas claras da flor de cactos entre os espinhos. Pousa perto, mas não tão perto. Observa de longe. Os espinhos dos cactos fazem aquela flor perigosa, e por isso, perigosamente desejável. Ele observa. Curioso e atento. Num repente se lança num voo e não volta mais.

Os dias caminham vagarosos no sertão. Até que o pássaro volta e pousa na mesma pedra, que com a chuva foi ficando macia, coberta de musgo. Ao pé do cacto, próximo da pedra ele passa a cantar logo depois do alvorecer enquanto a flor clara toma banho em dias de chuva, ou se bronzeia em dias de sol.

Conhecido por ter um dos cantos mais bonitos do sertão, o Azulão há tempos não entoa em surdina, o canto guardado dentro do peito do passarinho que se hipnotizara por uma flor, ainda que já fossem dias esses de achar uma parceira de voo para os meses que se aproximavam. Mas ele, não. Ele permanecia ali, cantando todos os dias pra ela, para a flor nascida da aridez da caatinga, imóvel, presa, solitária entre espinhos.

Não tardou até que o calor se fizesse por mais dias, semanas, meses seguidos novamente e a chuva fosse só uma lembrança. Estava na sua natureza de passarinho partir. Mas como deixar a flor? Inquieto voava por sobre o cacto como quem quisesse pousar com os pés delicados nos espinhos.

A flor se abria inteira pra receber um beijo do bico e um frescor do vento das asas dele que batiam desesperadamente. Um cheiro suave e fresco se dissipava das pétalas frágeis da flor que resistia aos verões mais cálidos e às chuvas mais sólidas.

Já iam embora os últimos pássaros rumo ao sul e o Azulão sombrio entoa uma alvorada, o seu canto mais bonito. Por dois minutos repete milagrosamente seis notas variando de tal forma o volume do seu canto que, ora parece estar voando longe, ora parece estar aos pés da flor. A flor, resignada, sabedora da natureza dele, se fecha lenta e não desabrocha exceto em noites de lua cheia.

Ele parte, mas jamais parte de verdade. Ouve-se o canto mata-virgem do Azulão todas as noites em que ela desabrocha pra se banhar de luz. E quando cantam os sabiás no sertão, anunciando as chuvas, ele volta e ela floresce. Entre espinhos ela permite as visitas de vento das asas e o som de um coração pequenino batendo tão rápido e tão forte que ela sente a própria seiva de si correndo dentro dele.

São o alimento um do outro. Ela se alimenta do canto do pássaro. Ele se alimenta do cheiro da flor de cactos do sertão. Uma simbiose improvável, e por isso de uma beleza sem par, rara como os amores raros.

*Escrito em 31 de março de 2016.

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