CONVERSA FORA – Miniconto de Fernando Canto

Miniconto de Fernando Canto

Todos os dias, no final da tarde, quando sentavam em frente às suas casas, os vizinhos daquele bairro jogavam conversa fora. E tanto falavam, falavam, que as palavras foram tomando conta das ruas e avolumando em monturos de lixo viciados, pois eram palavras feias, chulas, fesceninas, pornofônicas e grossas como os moradores. Ninguém ali tinha uma palavra amorosa, uma frase doce ou um sussurro carinhoso. Eram palavras de ódio que a pobreza e a riqueza dos homens e mulheres de todas as idades usavam contra si e contra tudo. E tanto foram as conversas despejadas pelas bocas sujas das pessoas que elas também foram se afundando num lodaçal indefinível que a enxurrada de escombros palavrais trouxe, sem que elas percebessem. As palavras precisavam ser lavadas, mas ninguém sabia o que era isso e então todos pereceram no esgoto medonho, onde mora a monstruosa língua viva que se alimenta da comunicação entre os seres humanos.

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