Cordilheira – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

De todas as palavras, esta era a mais exata, definitiva, avassaladora do meu pobre vocabulário: cordilheira. Sempre que a usava, mesmo antes de saber seu significado, sentia uma força de montanha crescendo, após um repouso de três milênios, do fundo do peito e ocupando meu pequeno mundo, que nesses momentos ficava imenso.

Olhava as pessoas e elas, aos meus olhos, eram grupos de montanhas. Os edifícios, no ângulo do meu olhar, se transformavam, também, em cadeias de montanhas. Observando o frêmito do tráfego causado pelos automóveis, estes eram montanhas, mas se moviam tão rápido que não havia tempo hábil para que eu os retivesse na memória, que já dava sinais de falha desde o último outono.

Quando estive diante do pelotão de fuzilamento, condenado por ver coisas que não existiam aos olhos da maioria das pessoas, senti no fundo do peito que ainda não seria o meu fim. O comandante ordenou que eu dissesse alguma coisa, como o último ato a que teria direito. Nem foi preciso pensar muito, já que a palavra final, que também era a inicial, já estava lá, pulsando, aquela palavra que esteve sempre presente, me salvando nos momentos mais cruciais da minha existência.

Impaciente com a demora, o comandante berrou para que eu pronunciasse minhas últimas palavras. Mas não eram palavras, era uma apenas e, antes mesmo de eu abrir a boca para liberá-la, ela se fez ouvir no ar tempestuoso daquela tarde:

– Cordilheira!

A palavra, que para mim sempre representou doçura, veio investida de toda a fúria e derrubou o comandante, o pelotão de fuzilamento, as muralhas da prisão, o medo, a angústia, a falta de emoção…

Como sempre acontecia, a minha palavra favorita me libertou, com o poder devastador que as palavras têm. Creio que existe uma palavra que ocupa de forma decisiva a vida de outras pessoas. Penso nas palavras como uma cadeia de montanhas, uma cordilheira de palavras que inquietam, que apaixonam, que estão prontas a abraçar, abrigar e afagar aqueles que são capazes de ouvi-las.

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