Crônica de Domingo: O Lago encantando e a árvore de dinheiro

Por Mariléia Maciel. Jornalista e Laguinhense

Era o tempo em que entendíamos e repetíamos: 31 “alesta” e “alunou”, em vez de “alerta” e “anulou”. E assim as brincadeiras divertiam nossos dias e me levava a crer que o importante na vida era somente a diversão na rua, de onde só saíamos quando os gritos de “….vem pra dentro!” doíam no ouvido. O local preferido era no final da rua em que eu ainda moro, a Mãe Luzia, próximo ao lago, não só pela falta de opção, mas porque era lá o espaço dúbio onde viviam dois extremos, os nossos medos e a curiosidade pelos mistérios e lendas, que o tornavam um tesouro que podia ser descoberto aos poucos. Rodeado de aningas e com poucas casas na margem, era como um santuário, guardado pelo seu Anastácio e pelos seres místicos como o Pretinho do Lago e o Bode Preto. Estes dois imaginários, depois das brincadeiras das noites, se metiam embaixo do mosquiteiro e me atormentavam os sonhos.

Os vizinhos mais antigos, cujas famílias vieram do centro de Macapá pros campos do Laguinho, contavam que no princípio o lago era um poço, mas alguém jogou dentro um jacaré, que se transformou em um gigante que alargou suas paredes até que virou o lago. Não era grande, mas, diante da minha pequenez, parecia com Ness, e seu monstro marinho. A molecada do bairro fazia jangada e papai colocou uma canoa, a Saideira, que usava para sua diversão preferida, que era pescar. Foi na beira do lago que passei a maior parte da infância, nadando, correndo, pescando e inventando quanta brincadeira a imaginação conseguia criar.

Eu morria de curiosidade de chegar do outro lado. Bolava mil maneiras de chegar até lá, desde que não fosse rodeando pela Nações Unidas. A emoção tinha três caminhos: atravessar pelo cano, ir de canoa, ou beirando a margem, entre as inúmeras árvores e as cortantes tiriricas, que nos deixava com as canelas lanhadas. O problema com o cano era minha falta de habilidade em percorrê-lo, correndo, como os outros. Tinha que passar a humilhação de ir de gatinho, me agarrando no tubo, enquanto os outros riam. Nunca cheguei até o final da aventura, na metade o arrependimento tomava conta da minha alma e eu voltava engatinhando, pior, de costas. De canoa eu não podia, papai só a colocava na água quando ia usá-la. Então me aventurei pela margem.

Queria confirmar se a árvore que eu enxergava da veneziana de casa, era da espécie que me contaram: um pé de planta que dava dinheiro no lugar de folhas. Saí com alguns amigos que foram vencidos pela minha insistência e hipnotizados pela ideia de encontrar a tal árvore da riqueza. Seu Anastácio não podia nos ver, porque se intitulava proprietário do lago. Então descemos pelo lado da casa da Dinalva, que o quintal emendava com o lago, e fomos munidos de pedaços de madeiras e uma faca pra nos livrar do mato afiado. Vi então, de perto, as árvores de mucajá, taperebá e tucumam, que eu só enxergava de longe as copas e seguimos adiante.

Depois de uma longa estirada, rezando pra não encontrar o Pretinho do Lago, desviando de carapanãs, com as pernas em sangue, suados e com sede, finalmente chegamos em nosso destino. Sonho realizado, e corremos pra pegar as cédulas que brotavam dos galhos. Foi então que olhei pra árvore da fortuna, e depois pro chão, e tive a certeza que a Casa da Moeda não era no Laguinho. Voltei decepcionada e forçando o pensamento pra lembrar quem começou a mentira. Pegamos o mesmo caminho, os mesmos mosquitos e capim, e eu, mais um contratempo dolorido. Com a raiva na garganta e pressa, porque estava escurecendo, tropecei em um tucumanzeiro derrubado no chão e caí com as coxas em cima do tronco espinhoso. Terminei a aventura em casa, depois de levar um ralho de mãe, que ficou com pena do estrago nas minhas pernas e não me deu umas boas rimpadas. Dormi com a perna pintada de iodo, cheirando a azeite de andiroba e com o sonho de encontrar a árvore do dinheiro frustrado. Apenas uma certeza: o Pretinho do Lago existia, e defendeu sua riqueza de moleques curiosos, por isso não achamos a árvore. Ele foi enterrado junto com seu tesouro quando o lago foi aterrado de lixo e fezes, e com eles, minha infância bem vivida no Laguinho.

Mariléia Maciel
OBS: a foto é de quando o lago não havia sido invadido

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