Crônica do amor reencontrado (Por Régis Sanches)


Como a Fênix, o Anjo GalaHell sacudiu a poeira e levantou. Havia dez meses estava entorpecido. Desde a quarta-feira de cinzas de 2013. Agora, com a euforia do Ano Novo ao seu redor, ele pensou:

– De que me valeu todos os tragos de vodka com Tampico? Qual foi o resultado prático das noites mal dormidas? E as madrugadas solitárias? Sem beijos, sem afagos… sem amigos…Apenas sobrevivendo no Inferno…

Pensando bem, estava na hora de ligar o “pause”.

Desta vez, não seria uma parada técnica. Como na Fórmula 1, para trocar pneus ou repor a gota de gasolina. O cálculo, agora, economizar tempo. Porque há vidas em jogo…

O flash back foi inevitável. O turbilhão de imagens apareceu na tela de sua memória em milionésimos de segundos.

Eram fotogramas de um sujeito dormindo pelas calçadas, as roupas sujas, como uma formiga no formigueiro. E todos os dias, após a ressaca moral, uma voz lhe dizia:

– Quando você vai para com isso???
– já chega, você não acha?
– Você não é mais um menino….
– Você pode beber sua cachaça, mas não beba o seu juízo…

Assim, aos 52 anos, o Anjo GalaHell descobriu que não é eterno. Embora, tenha levado uma vida errante. Esbanjando saúde, talento e energia por um razoável tempo. 

Era o bastante para sentir na alma que nada acontece por acaso. Na passagem do ano mais dramático de sua breve existência, enfim, uma luz no fim do túnel. 

Foi naquele abraço de Final e Ano, que GalaHell ouviu a frase definitiva:

– Desejo apenas sabedoria para você em 2014!!! Cuide-se… 

Do fundo do último suspiro, de 2013, um sussurro ecoou:

 – Não há limite para a loucura humana. Talvez, você siga atrás do odor da cachaça, da vokda, whiskey e seus derivativos, porque não consegue viver sem uma dor latente. Veja, você tinha tudo ao seu alcance. Emprego, a mulher dos sonhos e uma criança para amparar e transmitir os seus conhecimentos. Mas jogou tudo para o alto em troca de transes passageiros.

GalaHell pegou um papel em branco e rabiscou um poema. Era um rascunho, apenas. Mas tinha as cores do vinho tinto de sangue.A mente foi clareando. As palavras cada vez mais nítidas, sinceras. E pensou: “Mentiras, nunca mais!”.

No limiar do renascimento, GaleHell desfocou a visão interior para a violência. Pensou em Júlio Natan, cuja vida foi abreviada aos 15 anos em pleno Festival Quebra Mar.

Rebuscou na memória a imagem de sua filha, Bebel. E ligou o “pause”. Chega de transe. É hora de viver o aqui e agora. Sem neurose, sem psicose, com uma dose exagerada de sabedoria. Nunca é demais reconhecer os próprios erros.

Neste exato momento estou pensando em cada acorde, em cada solo de guitarra do show “Para Sempre Rock and Roll“. Sei que o tempo é o senhor da razão. E que o tempo não para. Por isso, tenho uma certeza:

Todo amor perdido pode ser encontrado. Nem que seja sob a forma de um Anjo GalaHell, renascido das cinzas de uma quarta-feira de Carnaval.

Feliz 2014!!!

Régis Sanches – Jornalista, ex colaborador deste blog e guitarrista. 

*Meu comentário: Beck, estou torcendo por você!

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