Crônica dos casais improváveis (texto da @rebeccabraga sobre uma sexta-feira de 2014)

Por Rebecca Braga
 
Tinha marcado às 19 horas no boteco. Já estava atrasada 6 minutos. Meu telefone toca. Do outro lado, sem nem dizer oi, a voz conhecida avisa:
 
– Eu já pedi uma cerveja. Se você não chegar até eu terminar, eu vou embora.
 
– Tou chegando, vou pegar um táxi.
 
Sigo de táxi e em poucos minutos desço no bar cheio. As mesas já no asfalto, na rua, gente em pé procurando lugar pra se abancar.
 
-Por que que você tem que ser assim? –  Chego sorrindo pra quebrar o clima.
 
Peço um refrigerante pra iniciar e sigo com uma cerveja. Original, porque é sexta e sexta é dia de cerveja gelada.
 
Conversamos sobre a semana, sobre trabalho, sobre amor e a falta dele.
 
Olho ao redor, gente conhecida, sorrio, cumprimento.
 
-Tou te sentindo agoniada. O que tu tens? – Pergunta o amigo de quase duas décadas.
– Nada…
 
Disfarço o incômodo, tomo mais um gole de cerveja.
 
Vejo aquela moça chegando sozinha no bar e penso “que moça bonita”. Não comento nada. Seguimos conversando, sobre relacionamentos. Ele é o tipo que não sabe ficar sozinho. Engata relacionamentos longos e por vezes conturbados. Eu, depois de um casamento, tive alguns namoros, algumas paixões e levei algo como uns quatro anos pra me recuperar de um coração partido. Dessas coisas que terminam muito mal e leva-se muito tempo pra curar.
 
– Eu quero ela! Ali, olha. Ela é linda… – Diz atravessando uma conversa qualquer.
 
Me viro e procuro. É a moça que havia achado bonita.
 
– Ah, eu a vi passar por aqui. Bonita mesmo.
 
Seguimos entre mais cervejas e gargalhadas.
 
Olho pro lado e digo baixinho “Oiê! Tudo bem?”. Só pra que eu possa ouvir, mas ele ouve e diz rindo:
 
– Muito tu esses caras meio los hermanos. Bem o teu tipo. – Refere-se ao cara que procura alguém no bar enquanto fala ao telefone.
 
Risos.
 
– Se você a convidar pra sentar aqui, eu chamo o cara.
 
Silêncio na mesa. A gente se olha e ele solta:
 
-Daí eles ficam juntos e a gente se fode.
 
Mais risos.
 
– Preto, tu queres apostar quanto que esse cara tá procurando essa menina?
-Será?
-Saca só!
 
O hermano atravessa para o outro lado do bar, ela sorrindo, ele se aproximando, o abraço longo e eis que o cara senta na mesa.
 
Muito mais risos.
 
Como ele próprio diz:
 
-A vida é assim: A gente se dá bem. A gente se fode. A gente se dá bem. A gente se fode.
 
Só acho que de vez em quando a gente podia se dar bem. Digo, eu podia, pra variar.
A sexta seguiu e a gente ainda fez muita coisa. Entre amigos, conversas infinitas sobre amor, livros, cinema, política e tudo mais  o que é impublicável.
 
Uma canção pra brindar à vida. E às sextas que ainda virão.
 
Meu comentário: foi exatamente assim. Não tenho nada a acrescentar. Retrata exatamente o que rolou, de maneira bem humorada e muito bem escrita. Perfeito!

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