Cry Me a River – Por Arthur Muhlenberg (sobre a classificação do Flamengo)

A semifinal da Libertadores que consagrou o Flamengo como time que joga o melhor futebol do Brasil, apesar da discordância de simpatizantes do PSL, começou de uma forma totalmente inesperada. Ao contrário do que fizeram no jogo de ida no Uruguai do Norte, os imortais tricolores (risinhos abafados) partiram pra cima do Flamengo, tentando imprensar o time maior através da marcação cerrada lá no nosso campo de defesa. Já disseram que o plágio é a expressão mais sincera do elogio. Foi bonitinho eles tentando nos imitar, mas não adiantou porra nenhuma.

Depois de meia hora dessa marcação insana, os maluco já estavam pregadões, com palmos de língua pra fora, torcendo pelo amor de Deus pro 1º tempo acabar antes que um deles caísse duro no gramado. Mas eles não se deram bem, numa hora lá em que faltou fôlego pra dividirem uma bola no meio o Bruno Henrique puxou aquele contra-ataque rápido e violento, Gabigol recebeu na área e mandou o sapato, o goleiro deu mole e Bruno Henrique jogou no barbante, 1×0. Que fase espetacular do Bruno Henrique, suas arrancadas são impressionantes, o cara nasceu no planeta Bolt. E ainda sabe fazer gol.

Time rubro-negro ser classificou para a final da Copa Libertadores, onde enfrentará o River Plate, da Argentina, em novembro (Foto: Alexandre Vidal/Flamengo)

Obtida a vantagem mínima no placar dissipou-se na mesma hora toda a tensão que vinha sendo acumulada ao longo de dias pelos rubro-negros. Tensão que não era pouca, gerada nem tanto pelo grau de dificuldade do desafio esportivo a ser travado em campo, mas principalmente pela solenidade e transcendência do momento histórico. A torcida do Flamengo tem sensibilidade pra dar e vender.

Nenhum torcedor do Flamengo é obrigado a respeitar o Imortal do Pampas (risos comedidos), mas todos tem obrigação de fazer as devidas reverencias ao hiato de 38 anos entre as aparições do Flamengo em finais de Libertadores. O momento exigia sim, um mínimo de contrição por parte dos barulhentos flamengos. Mas com o gol do Bruno Henrique a tensão, junto com a compostura, desapareceu imediatamente. Virou festa.

No intervalo os bares do estádio voltaram a encher e tava todo mundo bem calminho, apreensão entre nós não havia. Até quem assistia ao jogo em casa pela TV aproveitou pra ir ao banheiro tranquilo ou estourar um Caramuru 3 tiros em direção ao vizinho secador. Era muito evidente que o Imortal (risos de claque de programa humorístico) tava mortinho. Só faltava enterrar.

Foto: Mídia Bahia

Já o 2º tempo foi diferente. O Flamengo, provavelmente incentivado pelas furiosas catilinárias do Mister no vestiário, entrou com fogo no rabo e em 30 segundos Gabriel já tinha feito um golaço de canhota pra consignar 2 x 0. Que marcou o início do passeio e também o fim definitivo da verve renightiana.

Nessa hora deu pra ver direitinho os gremistas mais precavidos começado a abandonar o Maracanã. Segundo Lupicínio, eles vão a pé onde o Grêmio estiver. Dava até pra imaginar os infelizes se antecipando pra acompanhar com passo arrastado o Imortal (é ironia, gente) na sua longa caminhada rumo à casa do caralho. Vão ter bastante tempo pra chorar esse defunto.

E esses tricolores fizeram muito bem em dar linha na pipa mais cedo. Em menos de 10 minutos Gabriel fez seu 2º gol, um pênalti daqueles tão evidentes que Daronco, Vuaden et caterva jamais dariam, mas que o juiz argentino apitou com total convicção e sem nem olhar pro monitor do VAR. O que até então parecia ser apenas um passeio meio chato pro Grêmio se transformou rapidamente na versão tijucana do Massacre da Serra Elétrica.

Imagem: Thiago Ribeiro/AGIF

O Flamengo oprimia, não dava espaços, não deixava os gaúchos sequer tocarem na bola. O Imortal (epíteto compartilhado com meu ovo) estava sendo triturado sem a menor cerimônia. A arquibancada apinhada de gente bem vestida, elegante e sincera era um mar vermelho e preto onde um Leviatã indomável emergia, resfolegava e rugia num frêmito hipnótico e assustador. Não se pode culpar os gremistas por se amedrontarem, quando os bares do Maraca fazem promoção vendendo 2 cervejas a 10 real o flamenguista médio fica meio perigoso mesmo e não é bom ficar de bob por perto.

Visivelmente abalados, os gremistas não queriam mais nada com o jogo, arregaram completamente. O domínio do Flamengo era tão humilhante que a gauchada não tinha disposição nem pra apelar ao violento e desleal jogo de fronteira que usualmente se pratica nas coxilhas que ficam pra lá do Mampituba. Baldando assim todas as minhas esperanças no aparecimento das cenas lamentáveis que conferem um charme vândalo à Libertadores.

Inermes, doidos pra voltar invisíveis pra dentro da barriga da mamãe o quanto antes, os grêmio acabaram deixando o Flamengo escolher como terminar aquele duelo tão desigual. E o Flamengo, sem um pingo de empatia ou sombra de misericórdia, optou por esculachar os farroupilhas. Em campo, a disparidade de intensidade entre as equipes era tão evidente que era possível até corta-la com uma faca.

Foto: Olé

Na beira do gramado, contrastando com a expressão glútea que nublava as feições do outrora verboso Renight, Jorge Jesus, que é igual à mãe do Prince na When Doves Cry (she’s never satisfied) gesticulava apoplético, visivelmente muito puto com a timidez do placar parcial de 3 x 0. Tomado pela ira, o estratego luso de longas cãs conclamava o Flamengo a partir pra cima e não fazer prisioneiros com tamanha ênfase que até eu me levantei da poltrona e fui me colocar no segundo pau a espera de um rebote.

Talvez por puro medo do português os nossos beques foram lá na frente fazer graça e se deram bem. O quarto e o quinto gol saíram em rápida sucessão. Sem desmerecer os dotes ofensivos dos nossos zagueiros, deu a impressão de que o amigo Paulo Vitor nos ajudou um pouquinho nessa festa da uva fora de época.

Foto: O Lance

Só não entendi muito bem por que o Flamengo não aproveitou melhor o momento mão de alface do goleiro deles e chutou mais vezes de fora da área. Se fosse no gol, entrava. Depois os marmanjos não sabem por que tão toda hora sendo comidos no esporro por Jesus. Ora, meus amigos, é evidente que levam esporro porque cometem esses erros infantis. No fundo isso é bom, mostra que o Flamengo pode melhorar, ainda não chegou ao seu apogeu.

Foto: Mídia Bahia

Com 5×0 no placar já não fazia mais tanta diferença um gol a mais ou menos, o Imortal (teu cu) estava aniquilado por pelo menos umas 3 encarnações. O time do Flamengo, tenho certeza que os jogadores vão negar isso até a morte, tirou um pouco o pé pra não estragar o velório. Com exceção do fominha Jorge Jesus, não tinha mais ninguém no Maracanã com fissura de gol. A turba rubro-negra, que não é olho-grande, estava plenamente saciada.

E tinha os mais justos motivos pra essa saciedade. Nos dois jogos pela semi da Libertadores o Flamengo tinha feito 10 gols no Grêmio. 10 gols! 10 gols! 10 gols! Meia dúzia deles valeram e outros 4 foram anulados, surrupiados, subtraídos, metidos ou afanados por vocês sabem quem. Mas quando o seu time faz 10 gols em 2 jogos e volta à final da Libertadores depois de quase duas gerações ausente o torcedor não quer guerra com ninguém. Muito menos com o adversário que já tá todo caquerado. Deu até pena deles (mentira deslavada).

As partidas que o Flamengo jogou contra a gauchada (ambas as duas) são um belo cartão de visita pra chegar na final da Libertadores, seja lá em que capital da Ursal ela venha a ser jogada, com muita moral. É por causa desses 10 gols que Marcelo Gallardo está até agora perplexo, catatônico em frente à TV e ninguém mais dorme no Monumental. Ficamos honrados com a admiração, o treinador argentino nem devia se envergonhar por isso. Em Liverpool, que é tão nosso freguês quanto o River, ninguém tá conseguindo dormir também.

Hasta la victoria siempre!

Mengão Sempre

Fonte: República Paz e Amor

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