De Super-Homem a Asterix, minhas HQ favoritas – Crônica porreta de Fernando Canto

Crônica de Fernando Canto

Quando leio uma revista em quadrinhos hoje é natural que as lembranças povoem repentinamente na minha cabeça, tão importantes o foram como instrumento de aprendizado, num tempo em que não havia grandes obras para serem lidas, a não ser na Biblioteca Pública, um lugar obscuro e quase inacessível para alunos adolescentes como eu que não tinham a orientação dos professores para essa atividade. Na época tudo parecia se resumir no aprendizado de sala de aula.

Lembro que as portas dos cines Macapá e João XXIII ficavam cheias de jovens com revistas debaixo do braço nas tardes e noites de domingo. Estavam ali para trocarem suas revistas já lidas, por outras não lidas, ou preferencialmente por novas. Era uma prática saudável num tempo sem televisão quando a cultura visual estava mais direcionada para o cinema, com seus filmes e seriados, e para os quadrinhos. Era tempo do Território Federal governado por militares. Todos viviam sob uma ditadura severa que se estendia aos seus prepostos: diretores, professores e inspetores das escolas. Os quadrinhos nem sempre eram vistos como instrumentos educativos. Frequentemente os pais eram chamados pelos mestres quando um aluno era flagrado com alguma revista “imprópria”, tipo quadrinhos eróticos. O resultado era uma suspensão na escola e em casa sempre uma repreensão ou surra de galho de cuia no moleque aluado.

Romantismo ou saudosismo, a leitura dos quadrinhos possibilitava viajar com os heróis na luta contra o mal e dava para imaginar que um dia derrotaríamos o inspetor, o professor e o diretor que nos controlavam e eram nossos “inimigos mortais”, nessa ordem.

Batman e Robin, Super-homem, Zorro, Jim das Selvas, Tarzan, Congo Bill, Tex, Búfalo Bill, Príncipe Valente e tantos outros, descortinavam novos horizontes naquela garotada ávida por conhecimento e que esperava dias melhores para as suas vidas. As revistas traziam propaganda de pé de página, anúncios de cursos por correspondência, como o de madureza ginasial (um tipo de curso supletivo), o de detetive profissional, de rádio e eletrônica, etc. É inesquecível o anúncio de um tipo de brilhantina: “Dura lex sed lex, no cabelo só gumex – fixa e dá brilho aos cabelos”.

 

Mas a gente lia de tudo, inclusive as histórias dos personagens de Walt Disney e de Maurício de Souza, que chegavam recentemente naquele restrito mercado que se resumia nas livrarias Zola, de Francisco (…) e Martins, de (…) Martins, onde também se podia comprar livrinhos de literatura de cordel, como as aventuras de Pedro Malazarte e de Bocage, entre outros.

Anos depois, já na Universidade, pude defrontar com personagens mais sofisticados dos HQ, como os famosos (…) japoneses, os coloridos e novos super-heróis, tais como o Hulk, o Surfista Prateado e o Quarteto Fantástico. Nessa ocasião conheci as aventuras de Asterix, o Gaulês, dos franceses Gosciny e Uderzo. Pirei. Fiz coleção, mandei encadernar e releio sempre. Os personagens dessas histórias são os habitantes de uma aldeia que detém o poder de uma poção mágica usada para derrotar os romanos em situações e aventuras muito loucas.

Há alguns anos ganhei de um filho um presentão: uma edição comemorativa dos 80 anos do velho Uderzo, com histórias desenhadas por famosos artistas das HQ da Europa, nas quais seus personagens encarnam os heróis Asterix e Obelix e sua aldeia irredutível na Gália de 50 anos A.C. Um primor de desenhos de discípulos agradecidos.

Agora só me resta reler o livro comemorativo e esperar que “o céu não caia na minha cabeça”, como dizem os personagens dessas belas e engraçadas histórias.

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