Diário de bordo – Crônica retroativa de Ronaldo Rodrigues

Crônica retroativa de Ronaldo Rodrigues

Hoje, segunda-feira, 21 de dezembro de 2020 (ufa! Tá quase pra acabar!) estou no barco/navio/casca de noz a caminho de Belém. Férias, finalmente!

Eu aqui entre os passageiros, o único entregue à estranha atividade de escrever. Alguns já me olharam de forma estranha, mas é compreensível; talvez eles nunca tenham visto uma pessoa escrevendo.

Confiro de relance os coletes salva-vidas e os botes. Por que não me causa estranheza ou pânico saber que nem os botes nem os coletes salva-vidas serão suficientes caso os deuses do destino resolvam fazer um remake de Titanic?

O livro que trouxe para a viagem é Rita Lee – Uma autobiografia, uma leitura bem legal. Engraçado é que, sempre que vou lanchar ou dar uma volta, deixo o livro na rede e não aparece ninguém pra roubar…

Fico olhando a extensão do rio e penso o quanto somos agraciados por essa visão. Observo os pássaros que vão atrás do navio por um longo trecho do rio. Eles fazem piruetas e se divertem muito. Fico pensando qual seria o nome desses pássaros. Sei que não são gaivotas e, pensando nisso, me vem outro questionamento: por que não estudei biologia, já que essa curiosidade sobre os animais sempre esteve presente em mim?

Penso na importância de alargar a visão, deixar o olho percorrer os quilômetros de água. Penso nas pessoas que têm esse privilégio e não o usufruem. Vivem suas vidas numa cidade à beira do rio (simplesmente o maior do mundo) e não reservam 10 minutos de sua rotina para a contemplação desse rio.

É muita água, galera! E muita mata! Penso no quanto tudo isso que nos rodeia é gigantesco e, triste, penso também que só não é maior que a ganância humana, que pode nos arrasar.

Pouco depois de deixarmos o porto de Santana, os celulares ficam sem serviço, interrompendo uma internet que já é capenga. Perdemos contato com Houston, com a torre de controle, mas a nossa nave não está à deriva. Amanhã estaremos desembarcando no Porto Líder, no Jurunas, bairro do Rancho Não Posso me Amofiná, tradicionalíssima escola de samba da Cidade das Mangueiras.

Agora, 19h45. A noite trouxe o frio, que a tarde tinha desfeito diante do maior calorão. Penso no deserto que, dizem, tem o dia escaldante e a noite gelada.

Aqui e ali aparecem luzes no meio do breu. São casas isoladas e pequenas cidades. Pequenas mesmo, seis a oito casas. Um povoado, um vilarejo, um pequeno distrito, mas eu sempre chamo de cidade. E, claro, no meio da escuridão, as luzes de algo que nada tem a ver com iluminação: queimadas.

Avisto os prédios de Belém brotando no horizonte e essa visão sempre me emociona. Aí escuto a música Chegada, de José Maria Villar, cantada por Fafá de Belém: “Belém estou chegando agora / chapéu molhado e grosso fumo / eu vim no pipocar das ondas / no dobrar da ponta / no fim do estirão…”.

Em Belém, sou levado ao encontro de pessoas e momentos que ficam na memória do afeto, como a hospitalidade de uma casa de alegria, sorrisos e muitos, muitos livros da minha irmã Socorro; o amigo Cuité, que compõe e canta carimbó; o amigo Walter Túlio, que está aprendendo mandarim; o cunhado Sérgio, que constrói miniaturas de caravelas; a irmã Renilda, grande leitora, que em 2020 bateu a marca de 136 livros devidamente devorados; o amigo Thomé, que pouco encontro em Macapá e que me leva, com suas sobrinhas, à maravilha da Terra do Meio; o amigo e também cartunista Paulo Emmanuel, que me presenteia com uma Nossa Senhora de Nazaré feita de miriti, obra dele. Fora o almoço de peixe frito no Ver-O-Peso, o açaí do grosso, a degustação da manga caída na Praça da República, o rolê pela Marambaia e o passeio pela minha cidade natal, Curuçá. Tudo dentro dos protocolos e distanciamentos necessários.

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Hoje, domingo, 3 de janeiro de 2021, estou chegando a Macapá depois de um upgrade na alma. Voltando de navio, pois as companhias aéreas descobriram que sou milionário e passaram a cobrar preços astronômicos por um voo que não passa de cinquenta minutos.

Observei meu entorno durante a viagem e deixo aqui registrado os perfis de alguns passageiros, companheiros de viagem: o pai cuidadoso com sua esposa e seu bebê de colo; a artesã Maria Aparecida que veio fazendo uma boneca de crochê chamada Bianca; um garotinho muito esperto, falante e perguntador; um rapaz que deu as costas para o rio e ficou grudado em seu notebook; e um casal usando shorts com escudos do Paysandu (ela) e do Clube do Remo (ele).

Bem-vinda, Macapá! Até a próxima, Belém!

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