DINHEIRO PERDIDO – Crônica de Fernando Canto

Crônica de Fernando Canto

Um dia desses, quando eu passava na Avenida Santos Dumont, vi um homem idoso com dificuldades para andar. Ele se apoiava em uma bengala esperando o ônibus que já se aproximava do ponto. Notei que caíra um papel do seu bolso. Pela cor parecia uma nota de vinte reais dobrada. Tentei avisá-lo antes que ele entrasse no ônibus, mas os vidros do meu carro estavam fechados, o sinal estava vermelho e havia uma grande tensão no trânsito, devido o horário. Acompanhei pelo retrovisor sua dificuldade para entrar no coletivo, e ninguém, nem sequer o ciclista que esperava para atravessar a rua, ali próximo, percebera o que eu havia visto. O sinal abriu e eu fiquei angustiado. Pensei: alguém terá a sorte de achar esse dinheiro por causa do azar do homem velho, que talvez só tivesse aquele dinheiro para almoçar ou para comprar remédio. Tive a ideia de retornar, “dando o balão” até o ponto, mas desisti em favor da minha pressa e por deduzir que àquela hora alguém já teria achado a cédula. E depois, o que eu faria com ela se a encontrasse? Como devolveria? A quem?

Muita gente já achou dinheiro na rua, pois muitos obviamente também já perderam. Um bolso furado, uma troca de objetos, esquecimento e tantas outras formas de perder já aborreceram milhares do mesmo jeito que fizeram o sorriso de outros. Para os que perdem só resta se lamentar, porque dificilmente o achador vai entregar o que achou a quem não sabe que perdeu. Para os que acham, resta dizer que a sorte lhes sorriu e gastar o dinheiro na primeira oportunidade. Claro que há casos de muito dinheiro achado, carteiras porta-cédulas recheadas que foram devolvidos por pessoas honestas na polícia ou diretamente a seus verdadeiros donos. Alguns achadores ganham notoriedade pelo papel cumprido como cidadãos, outros são obrigados a devolver o que acharam pressionados pela família ou por grupos ao qual pertencem. Mesmo assim são criticados por aqueles que sempre vão dizer que o achador que devolve é um “otário”, um “babaca”, uma “besta”, além de outras expressões que tentam por em dúvida o dever ético do cidadão, principalmente pelos exemplos corporativos de impunidade que a toda hora testemunhamos no Brasil.

Claro que ainda convém falar, neste momento, sobre os conceitos que rondam as cabeças da juventude brasileira, dos políticos e da população em geral que acompanhou ou não, nas ruas das principais cidades do país, os protestos indignados. Esses fatos foram amplamente debatidos, mas não exauridos, porque ainda falta muita pressão popular e mudanças oriundas dela. Lógico que não podemos nos apartar dos acontecimentos nem esquecer que votamos nos legisladores e governantes.

A vigilância democrática não é um mero contrato de prestação de serviço terceirizado, que acaba num prazo determinado. Mesmo que o tempo passe é necessário orientar sistematicamente as novas gerações para que todos tenham seus direitos constitucionais garantidos. Se o Brasil desperta, certamente desvendará as incertezas do horizonte e procurará, pela insistência dos seus habitantes, aproximá-lo da realidade, com olhos mais argutos e mãos mais experientes, para evitar a corrupção que assola o país e deixa um grande contingente populacional sob a miséria inclemente.

Olhando o Brasil vejo que a gente quase nada faz para evitar que ele sofra prejuízo. Na verdade, ainda que não queiramos, deixamos que os oportunistas de plantão se aproveitem das coisas que não damos valor e os chamamos de sortudos e inteligentes. E quem garante que os que chamam os outros de “babacas” porque devolvem o “dinheiro achado” vão mudar seus conceitos sobre ética e moral? Talvez seja por isso que não conseguimos matar a fome de milhões de irmãozinhos brasileiros nem suprir a todos com remédios e serviços básicos de educação e saúde. Parece que nos apoiamos em bengalas, perdendo dinheiro, quando pegamos o ônibus da história que até agora ainda é visto pelo retrovisor.

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