Discos que Formaram meu Caráter (Parte 39) – “V” …. LEGIÃO URBANA (1991) – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Muito bem meus consagrados, o viajante das ondas sonoras vem de muito, mas de muito longe… Especificamente das profundezas dos pensamentos desconexos da pífia e vã realidade para trazer mais um disco para o deleite de vossas senhorias. Preparem seus ouvidos e suas melhores memórias afetivas para:

“V” – quinto trabalho dos caras da Legião Urbana. Salva de palmas, por favor.

Corria o ano de 1991 e as coisas por aqui não andavam menos que caóticas, no campo de visão que abrange a economia e o social. A ressaca da última eleição presidencial já tinha passado, a alegria pela eleição direta depois de mais de 20 anos de ditadura era passado e convivíamos com uma recessão escrota, inflação nas alturas, moeda sem valor e sem as nossas cadernetas de poupança – um abraço dona Zélia Cardoso de Melo.

No meio musical, a invasão do centro oeste tomou de vez as rádios, TVs e afins. Calças apertando os colhões eram moda e, capitaneados por Leandro e Leonardo, e pelos filhos do seu Francisco, músicas com temática de amores sofridos e desilusões tomavam conta das programações. Estava realmente uma merda.

Mas era 1991, o ano mágico para o Rock, onde todos os deuses da inspiração estavam conspirando juntos para que as bandas lançassem discos não menos que fodas – e um pouco dessa luz tinha que brilhar pra cá. Coube a Russo, Dado e Bonfá salvarem nossas vidas.

Já gozando de uma popularidade avassaladora e colhendo os ótimos frutos do excelente “As Quatro Estações” de 1989 (Já falamos desse por aqui) a rapaziada da Legião entrou em estúdio para conceber essa obra prima.

A pressão sofrida pelos caras, para não serem repetitivos, depois do grande sucesso do disco anterior e os problemas com álcool e drogas do frontman estavam em voga na época; e a responsabilidade em cima do trio, que iria pela primeira vez lançar um álbum diretamente em CD, era muito grande, chegando a incomodar.

Mas as temáticas das letras que iam de crise econômica até os problemas com álcool e drogas, passando pelo cotidiano junto de um belo trabalho de melodias, não deixaram a peteca cair e este disco consagrou-se como um dos mais belos exemplares musicais já produzidos em todo o rock nacional.

Nele, sem dúvida alguma, estão reunidas as mais belas letras escritas por Renato Russo que, com um minuciosos cuidado, fez questão de nos deixar músicas atemporais e eternas: “… Me preocupo em fazer texto, que daqui a 200 anos, a pessoa que pegar e não vai precisar de nota de rodapé.” Explicou na época.

A turnê de lançamento do álbum – que foi a mais bem preparada de todas, com ensaios constantes, palco exclusivo, som, luz e outros badulaques especialmente escolhidos pela trupe – era para ser uma maravilhosa ópera rock em três belas partes, mas acabou sendo um fracasso, por conta da fase sombria de Renato, que entrou em um esquema autodestrutivo. Sua descoberta da Aids em 1990, seu flerte com a heroína e seu longo histórico com o álcool fizeram esta bela Nau naufragar depois de algumas apresentações em Natal- RN.

Vamos deixar de papo e desmontar esse excelentíssimo santuário de boas canções:

“Love Song”, cover de uma cantiga escrita em português arcaico no século XIII por Nuno Fernandes Torneol, fala de amor. “Metal Contra as Nuvens”, soturna, com 11 minutos e 28 segundos, dividida em quatro partes (e a preferida da Bianca Lobato), uma maravilhosa opereta. “A Ordem dos Templários”, bela e instrumental, inclui a peça “Douce Dame Joule” de Guillaume de Machaut, escrita no século XIV é a “Pornography” da Legião. “A Montanha Mágica”, a dependência química retratada em versos. “Teatro de Vampiros”, retrato da crise econômica vivente na época, introdução adaptada da peça “Canon” de Johann Panchelbel. “Sereníssima”, um sagaz flerte com o rock progressivo. “Vento no Litoral”, romântica, mas saborosa ganhou versão da Cassia Eller. “O Mundo anda Tão Complicado”, o cotidiano de quem aventura se na vida a dois. “L’Âge D’Or”, uma alusão a Young Marble Giants – grande banda punk do País de Gales que Renato Russo era fã declarado. “Come Share My Life”, canção tradicional do folclore estadunidense.

Espetacular, sombrio, mas não menos que belo. Que disco foda do começo ao fim das rotações.

Se tu não conheces nem deves sonhar com uma medalha de foda.

Vendeu menos que o anterior, foi massacrado pela crítica na época, mas caiu no gosto dos fãs; Platina Triplo, colocou o Rock nacional de volta nas rádios e rendeu até uma apresentação para o projeto “Acústico MTV”, que foi lançado depois.

A inscrição “Bem-vindo aos anos 70” no CD nos faz alusão aos ganchos sonoros, que vão do progressivo ao Hard Rock.

Lembro me de me dirigir até a “Na Figueiredo” em Belém e comprar uma camiseta deste disco lá por 1995 (comprei a do Arise do Sepultura também). Não lembro quem ficou.

Sem dúvida alguma, é um disco atemporal e essencial em qualquer discografia de alguém que pretende entender de rock.

Antes de tudo nos ensina que nenhuma história termina do avesso sem final feliz, sem coisas bonitas para contar, e que vale a pena viver, porque temos sempre muito ainda por fazer.

*Marcelo Guido é Jornalista. Pai da Lanna e do Bento, maridão da Bia.

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