Discos que Formaram meu Caráter (Parte 43) – “Never Mind The Bollocks, Her`es The Sex Pistols” … Sex Pistols (1977) – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Salve moçadinha esperta!

Ondas sonoras e nebulosas trazem de volta a nave louca do som. O alardeado viajante musical vem novamente salvar os leitores do tédio secular que, infelizmente, ainda assombra a vida de muitos.

Agora, deixem de lados suas preocupações mundanas, para celebrar mais um histórico artefato musical. Peço o mais digno respeito e salva de palmas para:

“Never Mind The Bollocks, Here’s The Sex Pistols”, o primeiro álbum de estúdio dos caras do Sex Pistols.

Corria o ano de 1977, e a merda estava agarrada na Inglaterra; a terra da Rainha andava mal das pernas: recessão fodida, desemprego em alta, inflação galopante. Uma verdadeira apatia tomava conta da população – principalmente da parte mais jovem. A ideia de seguir à risca a vida pré-moldada de seus pais doía nos nervos da garotada.

Em um espaço tomado pelo conformismo, uma centelha de revolta floresceu em Londres, para tomar de assalto e abalar todas as seculares estruturas da sociedade britânica. Estava vivo o Sex Pistols.

Capitaneados por Johnny Rotten e Sid Vicious, sobre a batuta de Malcolm McLaren, a molecada instaurou o caos nas rádios britânicas e colocou um alfinete sujo no chá das cinco daquela galera bem-nascida.

Aos poucos os caras chamaram a atenção da opinião pública. Seus shows eram um misto de cagada com energia; eram sempre motivo de problemas para os organizadores e autoridades; sempre acabavam em confusão. Nada mais Punk.

Canalizar aquilo tudo que estava ocorrendo, era questão de tempo e nesse contexto os caras entraram em estúdio para, da forma mais simples, com acordes pobres e sonoridade suja com letras que falavam o que os jovens queriam ouvir, atacaram a chutes de coturno toda a mesmice que pairava sobre a sociedade britânica.

Depois de serem rejeitados por quase todas as gravadoras do Reino Unido, finalmente assinaram com a Virgin e lançaram o single “God Save The Queen”, no qual atacavam veementemente a família real e toda a submissão imposta por ela à sociedade.

As rádios se recusavam a tocar e os caras eram atacados por onde andavam. Mas, o melhor aconteceu: a música estourou e – mesmo de forma clandestina – a molecada caiu no gosto da turma de Londres e de todo o Reino Unido.

Vamos deixar de lari-lari e esmiuçar todo esse histórico calhamaço de sons subversivos e revolucionários:

O disco começa a todo vapor com “Holidays in The Sun” uma crítica mensurável a os que tem grana para passar as férias em bons lugares. “Bodies” uma ode sobre aborto. “No Feelings”, a valorização das relações interesseiras. “Liar”, cobrança aos políticos, promessas não cumpridas. “God Save The Queen”, mesmo nome do hino nacional, uma ferrenha crítica à família real. “Problems”, problemas causados pelo conformismo, você não pode ficar só reclamando. “Seventeen”, questões sobre a idade. “Anarchy in the U.K.”, a chamada para a revolução anárquica. “Submission”, a submissão de todos perante a família real, e seus asseclas. “Pretty Vacant”, contra o sistema e contra todos, a mais bela identificação de um vagabundo. “New York”, crítica feroz à cena londrina. “E.M.I.” a aceitação cega é sempre um mau sinal.

Foda-se do disco! Forjado na amargura dos tempos difíceis, onde o grito de rebeldia – que estava preso a todo descontentamento de uma geração inteira – finalmente pode ser ouvido por todos.

Foi lançado dentro de um barco, para a polícia não encher o saco. Ficou em 38º lugar nas paradas britânicas e ganhou o mundo. Seu sucesso acabou implodindo o grupo, mas essa é outra história.

Não menos que medalha de ouro para ele na categoria disco foda. Essencial em qualquer coleção de quem se mete a entender de Rock.

Se você não conhece, nem tente sonhar com seu certificado de foda.

Never Mind The Bollocks, Here’s The Sex Pistols representou uma mudança radical em todo mundo; bandas como The Clash ou caras como o Billy Idol só surgiram depois dele. Antes de tudo, um disco que abriu muitas portas. A semente estava plantada.

Conheci este belo exemplar de som ainda nos meus 14 anos, e isso já era 1994; ajudou a moldar minha vida. Depois dele, nada de se conformar com o que estava preparado. Agora era viver pelas próprias perspectivas.

Importante historicamente, o último gênero musical que chutou tudo para o alto, destruiu e reconstruiu. E sem tirar ou colocar méritos de quem inventou o Punk. Este disco levou o movimento para as massas.

E mesmo hoje, 43 anos depois, continua inspirador, porque contra a mesmice do dia-a-dia não tem melhor remédio.

Não esquentem seus colhões, chegaram os Sex Pistols.

Marcelo Guido é Jornalista. Pai da Lanna Guido e do Bento Guido , Maridão da Bia.

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