Discos que Formaram meu Caráter (Parte 44) – “Selvagem”…Os Paralamas do Sucesso (1986) – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Muito bem moçada esperta, o Lunático Viajante das notas e riffs esta de volta de algum lugar muito louco, dentro da própria cabeça para trazer a vocês mais um indefectível disco.

Todos e de pé, salva de tiros e honrarias em geral para:

“ Selvagem” , terceiro álbum de estúdio dos caras do Paralamas do Sucesso, enxuguem as lagrimas de emoção e vamos a ele.

Corria o ano de 1986, já contamos aqui que a década perdida estava demais para as bandas de rock no Brasil, o fresco da liberdade estava sendo muito bem aproveitado pela molecada, os anos de ditadura que colocaram uma mancha negra na história do país, estavam de saída. A abertura politica, anistia e outras conquistas começavam a gerar frutos, e mesmo com o Sarney na presidência realmente o rincão brasileiro parecia ser o país do futuro.

Dentro deste contexto, Hebert, Bi e Barone que já haviam mostrado ao tinham vindo com os espetaculares “Cinema Mudo”, de 83 e o “Passo do Lui” de 84, e eram um dos baluartes da nova geração do rock brazuca, resolveram que já estava na hora de mostrar as mazelas do nosso país em letras contundentes, mesmo por que falar de sol, mar e mulatas já era função da bossa nova. E se antes eles estavam felizes por irem tocar na capital, a verve séria e rebelde do segundo disco iria ser mais uma vez aproveitada. A Função de banda bonitinha já era muito bem trabalhada pela turma da Blitz.

A inesquecível apresentação no Rock in Rio colocaram os caras na crista da onda, pasmem o rock estava em alta e tocando em rádios no brasil todo, e um pensamento politico era necessário.

A mistura salutar e marcante do reggae com o rock, a lá The Police já estava conhecida e uma brasilidade nas letras e atitudes já era aguardada por muitos fãs, ter o que dizer era quase que uma obrigação. Não seria só uma moda de verão, o movimento tinha que se consolidar.

Credenciados por serem os padrinhos da turma de Brasília, leia se Legião Urbana, Capital Inicial , Plebe Rude dentre outras tiveram a oportunidade e confiança de entrarem em estúdio para fazer o que queriam fazer no terceiro disco. A proposito a banda é do Rio de Janeiro, e não do Planalto Central.

Entraram em estúdio entre fevereiro e março de 86, trabalharam as letras em conjunto e ainda fizeram uma ótima parceria com o Gilberto Gil, o ministro, reza lenda que o pai da Preta recebeu uma fita com toda melodia de a “Novidade” e
pelo telefone , passou toda letra. Testemunhas do episódio dizem que Hebert veio as lagrimas com genial letra do mestre Gil.

Vamos deixar de delongas e dissecar este belo exemplar de boa música:

O disco começa com “ Alagados”, maravilhosamente critica, expondo as mazelas dos mais sofridos e excluídos dentro da sociedade brasileira, fazendo uma alusão clássica entre a comunidade onde nasceu o rei Bob Marley, com a comunidade da Maré. “Teerã”, denuncia de uma guerra, que apesar de na letra falar de uma cidade do outro lado do mundo, mostra quem mais sofre nas batalhas diárias. “ A Novidade”, as dimensões do paradoxo, um mundo desigual, de um lado a eterna festa, para outros a miséria. “Melô do Marinheiro”, uma viagem clandestina, para conhecer o primeiro mundo, nada é fácil para o brasileiro mesmo de “gaiato”. “Marujo Dub”, instrumental para relaxar. “ Selvagem”, a apresentação real dos vários segmentos sociais, as armas para defesa. “ There`s Party”, a uma festa no mundo, mas você esta sozinho. “ O Homem”, mostra as várias facetas do ser humano, que pode ser bom ou ruim. “Você”, versão própria de um clássico do Grande Rei do Soul Tim Maia.

Putaqueopariu que disco foda, não menos que fantástico. Politizado realmente deu um recado que deveria ser ouvido por todos. Se alguém se atrever a cogitar uma medalha de foda sem conhecer este artefato, nem vai passar na seletiva.

Vendeu pra porra, segundo maior sucesso de vendas dos caras. Rendeu ouro e Platina além de abrir as portas para o festival de Montreux na Suíça em 1987, deste show saiu o ao vivo “D”. Os caras excursionaram também pela América Latina onde ficaram muito conhecidos do Uruguai, Argentina , Venezuela e Chile (do Pinochet).

Pode colocar na conta dos caras, a primeira realização brasileira de um álbum de rock com influencias anglo – americanas magistralmente mescladas (eita) com sons locais e principalmente latinos, deixou que som saísse da classe média atingisse como um raio as camadas mais populares.

Hoje sabemos que se tornou, um verdadeiro caminhão de hits e duvido que alguém ainda não tenha se pego cantando pelo menos um trecho de alguma musica presente neste disco.

Conheci este disco através do meu Tio Ibis, que apesar de muita onda errada, manjava muito de som e não tinha pudores em apresentar pra molecada, valeu Tio.

A capa uma das mais sensacionais já feitas, cria do Ricardo Leite com o irmão do Bí o Pedro Ribeiro, uma semana sem tomar banho, acampado e com um arco e flexa que ganhou de um índio , tal foto estava pregada na parede do cômodo na casa dos avós dos irmãos onde a banda ensaiava, do lado do pôsteres do Alceu , do Hendrix e de outros. Antes de qualquer musica ser composta já havia sido decidido que aquela seria a capa, pois segundo Bí, mostrava a independência , provocação e que a eles podiam fazer o que queriam, e podiam mesmo.

A temporal, mais de 30 anos de seu lançamento continua atual, por que os punhos ainda continuam fechados pra vida real, os negros, a policia , o governo continuam apresentando suas armas e para uns a festa continua e é eterna tal qual a miséria de outros.

No mais, a Rolling Stone o coloca na lista dos melhores discos de Rock Nacional já feitos e colocou os Paralamas do Sucesso no Hall das melhores bandas que este país já produziu.

*Marcelo Guido é Jornalista. Pai da Lanna Guido e do Bento Guido. Maridão da Bia.

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