Discos que Formaram meu Caráter (Parte 47) – “London Calling” …The Clash (1979) – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Salve moçada do bem!

A nave deu pane, mas estamos de volta.

A batalha contra o tédio constante não pode parar e o viajante das notas e riffs não poderia abandonar vocês por muito tempo. Vagando sem rumo pelo mundo dos discos e espaço avante, trago para vocês mais uma bolacha histórica.

É com muito orgulho que vos apresento: “London Calling” – o terceiro trabalho dos caras do The Clash.

Todos de pé!

Corria o ano de 1979 e as coisas não estavam nada bem no mundo; na Inglaterra, uma recessão escrota pra cacete; a sombra da mesmice parecia não querer sair da cabeça dos caras; a juventude em polvorosa já tinha explodido contra o sistema; o movimento Punk colhia os bons frutos de sua sagaz rebeldia.

No Irã, a crise com os reféns americanos; era petróleo vazando a rodo no golfo do México, o barril do óleo negro nas alturas e a crise enérgica atingia o mundo capitalista como há muito tempo não se tinha notícia.

Dentro desse contexto todo, Joe Strummer, Mick Jones, Paul Simonon e Nicky “Topper” Headon, participantes ativos da primeira onda punk britânica, entraram em estúdio em agosto de 79, cheios de inspiração e conceberam tal obra prima.

Já tendo abalado as estruturas na terra da Rainha, com os excepcionais “The Clash” (1977) e “Give ‘Em Enough Rope” (1978), os caras já mostravam serviço. As letras anarquistas – de cunho político – eram a sua marca. Mas, de repente, a ilha já não era suficiente para acolher toda a fúria; estava na hora do passo seguinte, o mundo precisava da verve do Clash.

Com uma proposta única na época de expor o caos mundial, a intenção do disco é claramente mostrar uma transmissão de rádio de um futuro distópico, onde o medo e a insegurança dominam as mentes e corpos dos seres humanos depois de anos de crise. Um futuro onde o protagonismo não é dos vencedores, e sim dos derrotados.

Flertando com diversos ritmos musicais, que vão do reggae e funk ao Rockabilly, os caras acabaram gravando um disco que realmente mudou de vez a história do rock and roll no mundo.

Vamos ao que realmente importa e tentar entender esta maravilhosa bolacha negra:

O disco começa logo a mil com “London Calling”; a faixa título originalmente chamada “Ice Age” é uma mostra do caos que está por vir; cita um acidente nuclear e também zomba daquilo que o movimento punk tinha se tornado: um caça-níqueis. “Brand New Cadillac” cover de uma canção de Vice Taylor, cantor popular na Inglaterra que fez uma longa jornada no deserto por conta de seu vício em álcool e drogas. “Jimmy Jazz”, uma clara menção à barbaridade na aplicação das leis pelos policiais. “Hateful”, uma narração de uma relação ambígua entre o narrador e o negociante. “Rudie Can’t Fail”, a insegurança que o adolescente tem em se tornar um adulto responsável. “Spanish Bombs”, aborda desde a guerra civil espanhola, até os atentados do Ira em solo britânico. “The Rigth Profile”, o caos pessoal dentro de alguém que vê a realidade escondia. “Lost In The Supermarket”, o consumismo incessante que pode te deixar escravo. “Clampdown”, uma crítica feroz ao sistema, que te faz trabalhar e pensar igual a ele, te tornando preconceituoso, sombrio. “The Guns Of Brixton” outra ode à violência do estado contra os menos favorecidos. “Wrong ‘Em Boyo”, desonestidade, trapaça; você acaba desconhecendo os limites em saber o que é errado. “Death or Glory”, morte ou glória, são apenas opções. “Koka Kola” uma ode às drogas “Coca adiciona vida onde não há”, a propaganda mundana. “The Card Cheat”, a carta na manga que todos temos. “Lovers Rocks” um toque de amor dentro da destruição. “Four Horsemen”, tristeza, miséria, desesperança e ódio, as quatro companhias. “I`m Not Dow”, vitórias diárias sobre nossos desafios. “Revolution Rock”, cover do Jamaicano Dany Rey. “Train in Vain”, promessas não cumpridas.

Que puta disco, nada mais nada menos que foda. Singular em sua forma, arrebatador em tudo.

Quem não conhece, nem merece estar vivo.

Com esse fenomenal disco, o The Clash ganhou o mundo. Não é nem preciso dizer que foi o cartão de visita dos caras neste lado do mundo; abriu as portas do mercado americano e vendeu pra caralho.

Considerado o maior sucesso dos caras, sem perder o caráter revolucionário, o Clash, obrigou a gravadora a vender o disco que é duplo, por preço de álbum simples, para que a mensagem chegassem a todos.

A capa, um caso à parte, a imagem icônica de Simonom arrebentando sua fender ao chão do palco, e a tipografia, uma simbólica homenagem ao álbum de estreia de Elvis. Tão histórico, que virou selo postal em 2010.

Há mais de 40 anos de seu lançamento, um disco revolucionário desde a capa, até as letras e a sinfonia. Um verdadeiro monumento à boa música. Está entre os 500 melhores discos já feitos na lista da Rolling Stone, e em 2007 entrou para lista dos 200 álbuns definitivos do Rock and Roll Fame.

Conheci esta linda conjuntura de músicas, nos meus 16 anos, no longínquo ano de 1996. Desde então, ela faz parte de mim. Foi um verdadeiro soco na cabeça, onde pude receber uma alternativa social em minha vida.

Este disco deu voz aos excluídos e posso considerá-lo uma partitura sagrada do Punk Hardcore. No mais, fica sempre uma pergunta no ar:

Será que existe futuro?

Este texto é dedicado a Anderson Clayton.

*Marcelo Guido é Jornalista. Pai da Lanna Guido e do Bento Guido. Maridão da Bia.

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