Discos que formaram meu caráter (parte 50) – “Pela Paz em Todo Mundo”… Cólera (1986) – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Muito bem nação Rocker, o misterioso viajante dos sons regula sua nave e aparece de volta na vida de vocês para trazer mais míssil sonoro que abalou estruturas, mudou vidas e com certeza tocou pra caralho na trilha sonora de muitos, muitos de vocês, falo com lagrimas no rosto, com muito de:

“Pela Paz em Todo Mundo”, segundo trabalho dos caras do Cólera, salva de palmas pra ele.

Já corria o ano de 1986, o Brasil respirava os ares da democracia, os generais estavam largando o osso, e 25 anos de ditadura estavam começando a dar o adeus que tanto esperávamos que fiquem pra lá seus velhos cães e viva a liberdade.

Na ativa desde 1979 os caras do Cólera já tinham consolidado um papel marcante na cenário Punk nacional, com os excepcionais “1.9.9.2” (1984) e “Tente Mudar o Amanhã” (1985) e tinham passado o ano de 1985 colhendo os louros do reconhecimento pelas suas obras.

A banda andava muito na ativa, fazendo shows em conjunto com outras bandas colocando para frente o movimento que ajudou a fundar, moldar e que começava a ganhar corpo não só nas ruas de São Paulo, mas no país inteiro. As possibilidades de se poder protestar contra um sistema que te oprime e te reduz a nada já estava aberta, faltava a direção correta a se seguir. Ninguém, nem a famigerada matéria do Fantástico que pintou os punks como simples desordeiros sem cérebro , nem teu tio reacionário padrão que achava que aquilo tudo era só “folga de moleque mimado”.

Dentro deste contexto Pierre , Val e Redson entram em estúdio e com faixas simples e melodias boas conseguem dar um sentido ao movimento com um disco que antes de tudo é revolucionário do começo ao fim.

Para quem um dia chegou a acreditar que seria muito difícil levantar a voz em português contra as mazelas sociais, esta bolacha é um verdadeiro cala boca, com a sagacidade de poucos, Redson, consegue como poucos alocar em notas curtas versos simples e diretos sobre assuntos como militarismo, exclusão social, ecologia, violência urbana, autogestão,  dentre outros que incomodavam e incomodam ainda hoje muitos de nos dentro deste Brasil Varonil.

Balelas a parte , vamos dissecar a bolacha e mostrar a todos o que tem dentro dela:

O disco começa com a sugestiva “MEDO”, o medo mesclado com a raiva dos novos tempos que estão por vir, clamar por mudanças. “FUNCIONÁRIO”, o ponta pé contra a padronização em tudo. “ SOMOS VIVOS”, ao grito de “não” contra o que é imposto contra a sua vontade. “ ALTERNAR”, as correntes que te prendem precisam ser arrebentadas. “MULTIDÕES”, pessoas sem opiniões, correndo atrás apenas dos lucros. “DIREITOS HUMANOS”, a exclusão social de muitos. “GUERREA”, a negação a guerra imposta pelos governos. “VIVO NA CIDADE”, as más condições das cidades entupidas de pessoas. “HUMANIDADE”, a auto reflexão necessária para que haja uma verdadeira mudança. “ALUCINADO”, o caos da sociedade entorpecida. “CONTINÊCIA”, o que te espera nas forças armadas. “NÃO FOME!”, o básico para que se possa pensar. “ADOLESCENTE”, a liberdade para poder protestar contra o mundo. “PELA PAZ” , faixa título, te chama a pensar o que tu está fazendo pela paz.

São 14 faixas, que na moral vão te convidar a pensar. Putaquepariu que puta disco. Se tu não conhece não perde tempo. Tua medalha de foda corre um certo risco.

Este disco, transformou o punk rock nacional, tirando aquela pecha troglodita do “vamo quebrar tudo”, para algo muito mais inteligente, perder o rigor cru, que é uma marca registrada do movimento.

Como já disse é revolucionário do começo ao fim, sem uma vírgula a ser tirada, é um disco atemporal, que apesar de quase quarenta anos de sua gravação continua vivo, relevante e pode ser tocado hoje em dia, infelizmente.

Este disco vendeu 30 mil cópias na época de seu lançamento,  um marco ainda hoje no cenário independente, foi considerado o segundo melhor álbum de punk rock do Brasil pela revista Rolling Stone. E fez do Cólera a primeira banda Punk nacional a excursionar pela Europa.

Uma verdadeira obra de arte , conservando a qualidade singular do punk nacional que antes de tudo sempre foi um som de protesto.

Salve Redson, que se foi em 2011 mas deixou um grande legado.

*Marcelo Guido é Jornalista, pai da Lanna e do Bento e maridão da Bia.

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