Discos que formaram meu caráter (parte 8) Cabeça Dinossauro- Titãs (1986) – Por Marcelo Guido (por conta dos 35 anos do Cabeça Dinossauro)

É gente ano novo, muita coisa para ser feita e muita coisa pra ser deixada pra depois. Mas vamos lá com nossa insólita viagem pelo mundo irreal no qual me coloco à disposição de vocês neste blog do agora municipal Elton Tavares.

O disco a ser tratado hoje se chama “Cabeça Dinossauro”, terceiro trabalho de estúdio dos paulistas Titãs. Chegou para nossas vidas no sexto ano da “Década Perdida”, ou para os mais saudosistas a “Década Divertida”, melhor falando de 1986.

Antes de tudo, é necessário dizer que o ano de 85 não tinha sido uma maravilha para os caras,  eles que já tinham feito a juventude cantarolar com “Sonífera ilha”, se divertir em “Televisão” e dançar agarradinho em “Insensível” (Faixas presentes nos outros discos da banda), agora tinham que lidar com estigma de “drogados e subversivos”.

Falo da prisão de Arnaldo Antunes e de Tony Bellotto por porte de heroína. De repente a banda engraçadinha formada por oito caras esquisitos (tinha até um ruivo) que alegrava as tardes de sábado no Chacrinha tinha caído em desgraça. A barra andava pesada como já disse, não dava mais pra ser uma banda “Pop”, os pais das garotinhas não gostavam mais deles, a família brasileira não os tolerava mais, promotores de justiça os utilizavam como exemplo em suas esdrúxulas sentenças. Pra onde correr agora?

A resposta veio tão forte quanto um soco no meio da cara, tão libertador como um chute na costela (quem desfere o golpe, quem recebe, sinceramente não sei se concorda comigo). O clima de “sem saber o que fazer” foi logo transformado em um belíssimo “Foda-se”, e esse clima nos proporcionou esse belíssimo álbum.

Estudando a Bolacha:

Bom a “BOMBA” no bom sentindo começa coma faixa titulo “Cabeça Dinossauro”, pra avacalhar logo só tem 3 versos, “Cabeça Dinossauro”, “Pança de Mamute” e “Espírito de Porco”, com uma sonoridade bem pesada é o abre alas (carnaval minha gente), pra todos verem que os caras estavam realmente putos, vai para sugestiva “AAUU”, que vem com porrada extrema do vocal de Sergio Brito, nos fala das regras que temos, ou não que respeitar e seguir “Esta na hora de almoçar, está na hora de jantar” está bela canção virou até trilha de novela, chega em  “Igreja”, uma verdadeira critica as instituições religiosas mas enfaticamente a igreja católica , causou furor dentro e fora da banda, Arnaldo Antunes que se dizia religioso não concordava com as criticas inseridas na canção e se retirava do palco quando a musica era executada no palco, e claro eles tinham que falar em “Policia”, escrita pelo ex- encarcerado Tony Bellotto faz criticas duras e ferozes contra a intuição de segurança, foi regravada anos depois pelo Sepultura, “Estado Violência”, nos faz pensar em nossa relação com as leis, sobre ate onde nos realmente somos livres para pensar e agir, ate onde vai nossa liberdade em uma sociedade corroída pela hipocrisia, “Face do Destruidor”,  com apenas 34 segundos é um porrada seca nos ouvidos e por ser tão rápida nem chegou as rádios, “Porrada”, saúda, parabeniza e enche de mimos os que fazem algo, e mostra o que merece quem não faz nada.

“Tô Cansado”, mostra o cansaço com a rotina, cansaço com o comum, o igual já não satisfaz mais o conformismo já era, “Bichos escrotos” executada pela banda desde 1982, veio a luz nesse disco, foi censurada nas rádios por um bipe sonoro no magistral verso “Vão se foder”, já era hora da terra dar lugar para os bichos escrotos, “Família”, escroteia com classe as relações familiares, sua família comum onde tem um bebê chorão, cachorro, gato, galinha onde as manias são comuns e a filha não pode fugir de casa, “Homem Primata” nos mostra a verdadeira realidade que vivemos, não fazemos nada de diferente do que os primatas já faziam criamos e destruímos no nosso dia-dia. E somos escravos do nosso “Capitalismo Selvagem”. Chegamos em “Dívidas” fala da nossa relação com nossas contas, como nossas vidas são baseadas em uma relação de “corre-corre” atrás de valores, como nossos momentos mudam quando não conseguimos ou quando conseguimos saldar nossos credores. Termina com “O que” que nada mais é que uma poesia de Arnaldo e é um divisor de águas na sonoridade da banda, batidas eletrônicas passam a partir dessa musica a fazer parte da vida da banda.

Esse emaranhado de emoções fortes, criticas coesas, e um foda-se generalizado, foi lançado sem nenhuma expectativa e acabou rendendo disco de ouro, virou clássico e trouxe do limbo os Titãs. Não se pode deixar de mencionar que os caras estavam afiados e que apostaram tudo no que queriam realmente fazer. Um Discão.

Dizer que o disco é punk pode parecer exagero, existem viagens por dentro do reggae (Familia), Funk (O que), batidas da tribo Xingu (Cabeça dinossauro), mas a possibilidade discussão sobre vários pilares da sociedade valeu a pena. Ninguém sabia o que aconteceria  com os caras a pecha de drogados, fracassados e incompreendidos ainda estava em cima. Depois de “Cabeça” o milagre se fez. Trata-se de um trabalho radical, feito sem pressão de mercado por caras putos e ariscos que estavam vivendo uma estranha realidade. O alto nível não cai em nenhum momento.

A partir de “Cabeça Dinossauro”, os Titãs passam a ser levados a sério. Considero este um dos melhores discos da minha vida. Bem vindo há os anos 80.

Marcelo Guido é Punk, Mario, Pai, Jornalista e professor. “Também não gosta de padre, madre e muito menos monta presépio”. 

*Republicado pelos 35 anos desse disco completados hoje. 

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