Divaganças e desesperações – Crônica de Lulih Rojanski

Crônica de Lulih Rojanski

Tenho um amigo que anda pensativo sobre o destino da humanidade, sobre o que somos e o que estará reservado a quem tem, por uma vida inteira, se dedicado a errâncias. Graças a Deus é só um. Nas ocasiões em que o encontro, sinto-me tentada a lhe dizer, com toda a crueza que tenho aprendido com o ser humano, o que penso sobre a epígrafe de um livro do Saramago – As intermitências da morte – que diz: “Saberemos cada vez menos o que é um ser humano”. Mas tenho medo que lhe soe como uma terrível verdade. E que isto lhe mate o resto de esperança de descobrir de repente que somos qualquer coisa que os céus aproveitem mais tarde.

Prefiro continuar a vê-lo com o olhar perdido nas lonjuras do rio Amazonas e ouvi-lo dizer as estranhezas permitidas a quem está na casa dos setenta. Eu respeito sua cabeça branca. Outro dia me disse, com os olhos rútilos mirando o copo de cerveja: “Semana que vem vou passar 14 dias sem beber”. Apertei-lhe a mão com firmeza e lhe disse: “Claro, amigo, eu compreendo como será longa sua semana”. Ele não entendeu. Estava outra vez pensando na singular finalidade de nossa existência e importância no cosmos, se todos os seres vieram dos seres do mar, para onde irão os bons e os bobos, os maus e os malas, etc. Eu pensei no meu último desejo para o dia do juízo final: lasanha de espinafre.

Eu não mato suas esperanças, mas também não as alimento. Ando impressionada com a constatação de que o ser humano não muda, apesar da determinação científica de que a evolução nunca cessa. No futuro não teremos pelos no corpo… E daí, se estamos cultivando, em nosso profundo interior, monstros cada vez mais peludos e perversos que se expressam em nossas desumanidades diárias? Também ando dada a estas obviedades existenciais.

Depois de sua insólita promessa, meu amigo disse que não está contente consigo, que quer mudar, que a burrice e a truculência com que tem se defrontado têm-no levado a repensar suas atitudes. E aparentando ter captado em meus olhos uma expressão de ceticismo nada sutil, arrematou: “Ei, eu estou mudando devagar. Reciclagem só é fácil numa lata”. Foi minha vez de estender os olhos para as lonjuras do rio. E meio envergonhada de minha própria desesperança, me limitei a divagar: “Por que todos os barcos são brancos?”.

*Crônica do livro Pérolas ao Sol

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