Dor, amor e revolta nos muros – Crônica porreta de Fernando Canto

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Crônica de Fernando Canto

A mania de rabiscar parece estar presente em todos os homens normais, desde a infância. Não é a toa que as manifestações volitivas do ser humano estão presentes nas ciências e nas artes, e também na contra-cultura, importada de países onde a efervescência de fatos relevantes faz da pichação e do graffiti um meio de expressão dos sentimentos mais diferentes possíveis.

banksy-arrest-hoax-twitterPara muitos, essa forma de expressão não passa de puro vandalismo, de guerrilha cultural ou um “conformismo de rebeldia”. O fato é que isso cria uma relação de ambigüidade arte/sujeira que invade muros, paredes de edifícios, estátuas, monumentos e qualquer tapume de construção.

Os autores atacam dentro da noite com seus frascos de spray em diversas cores. São, na maioria, adolescentes apaixonados e rebeldes. T15610018razem na ação, o signo da angústia e experimentam a sensação dos dias negros da ditadura. O rondar no silêncio da noite para escrever algo aparentemente apolítico nos muros contém o ensurdecimento de uma geração ou propõe estigmas das dores de um novo tempo?

Os graffiti que chegam a Macapá carregam um gosto simbólico do medo, grafitagem_pmap_007da explosão lírica de uma juventude tiranizada pela propaganda e dogmatizada paulatinamente por uma educação obscurecida pelo silêncio dos anos. Essa forma de pensamento leva-nos a refletir sobre as relações liberdade/educação e cultura/senso crítico.

Enquanto liberdade, está implícita a absorção de inegáveis valores que escalamos como seres pensantes, sem repudiar a concordância estabelecida pelos costumes. Não há 1456708_1440635609490795_1495907234_nmétodos pata alcançar a liberdade, mas não há como negar a diferença individual que reza o manto do desejo coletivo, onde muitos homens atingem graus austeros e conservadores, enquanto outros fogem sem deixar rastros por sendas que levam a mudanças.

Escritos da angústia. “Marilena, eu te amo. 10386811_1521928754697212_7654730511295679411_nDaniel”, “Sílvio, volta pra mim. Kátia”, “Paixão, eu te amo. Eu”. Expressões que simbolizam o medo terrível da tutela do amor pela carência medida num ambiente proscrito, pela oração que dá credulidade ao abstrato e materializa o sentimento incontido da juventude de uma cidade em plena evolução urbana.

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