DR. MEDEIROS – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

“- Não, Dr. Jorge Montalverne, eu concordo com o senhor. Esta febre que tenho não tem regredido com os medicamentos que tomei. Mas d’ai a necessidade de eu ser internado no Hospital São Lourenço ser enorme…”

“- Senador Medeiros, eu pondero para o seu bem. Lá estaremos com o Sr. mais próximo, os exames poderão ser feitos mais facilmente a qualquer momento, e quando o parecer de um colega se fizer necessário, ele estará lá a mão. Além do mais, tudo que este hospital tem de melhor e moderno se deve ao Senhor. Sem a sua intervenção, verbas não teriam chegado até nós para equipá-lo e modernizá-lo. É como se o Sr. estivesse em sua casa.”

“- Isso é verdade e muito me orgulha. Estive lá há coisa de dez dias, quando inauguramos o isolamento da UTI de adultos. Mas toda aquela maquinaria fazendo Brum… Brum…, meteu-me medo, Dr. Jorge.” O Senador Ubaldo Medeiros olhou para sua esposa que, calada e com ares de preocupação, estava sentada no canto do sofá. Dr. Jorge, então, apressou-se a dizer: “- D. Conceição vai estar ao seu lado.” “– Estarei lá meu amor”, disse com a voz trêmula.

“- Então, fazemos assim, eu vou à noite e me interno”, respondeu. “- Passaremos despercebidos…, disse o Doutor. “- Após conhecermos os resultados dos exames que fará, você terá alta e viajaremos para Brasília,” repetiu a mulher ávida em tentar convencê-lo. Ele escutava calado. “- Não quero que a notícia da doença se espalhe, fica mal para as minhas futuras pretensões políticas.”

“- E estes exames?” perguntou apontando um monte de papéis sobre a mesa. “- Não foram conclusivos,” apressou-se a dizer o médico e levantou-se como se o Senador houvesse concordado com tudo. “- Vamos amanhã de madrugada, Dr. Jorge! Deixe-me perguntar mais uma coisa, em que andar fico?” O médico olhou sem entender bem o Senador. “- É que…O hospital tem uma fama de que quem desce os andares até a altura das raízes do ipê roxo, aquele gigante defronte ao Hospital, é sinal, de que vai…” O Medico sorriu. “- Ora mais esta. Relacionar a melhora ou a piora dos pacientes com as raízes de uma árvore…,” disse o médico “ – … São estórias, Senador! Estórias que o povo cria.”

O Senador deu-se por satisfeito quando o elevador parou no sexto andar. Por ser tão cedo, não havia repórteres, nem encontrou nenhum conhecido, só as freiras que administravam o hospital é que tinham vindo recebê-lo. Quando amanheceu, observou o apartamento, amplo, limpo e arejado, mais parecia um grande escritório. Jornais do dia, telefone, fax, computador, internet, televisão a cabo. Estava cansado é verdade e um pouco febril, mas atribuiu aquilo ao esforço de ter acordado cedo. Foi à janela e, por ela, via a copa do grande Ipê Roxo. Estava ali, um pouco acima do parapeito, todo bordado de branco pelas fezes das andorinhas. Não teve muito tempo para olhar de novo. Uma hora, eram os enfermeiros colhendo sangue, as visitas, os telefonemas, os e-mails e, por último, no fim do segundo dia, a visita do Dr. Jorge.

“- É a péssima noticia…” “- Mas esta reforma que vai me forçar a descer para o quinto andar, estava prevista? Tossiu um pouco, antes de concluir. O médico balançou afirmativamente a cabeça. “- Calma Senador! Já estava prevista, só não contávamos com a necessidade de fazê-la agora. Pane na parte elétrica. O Sr. fica no apartamento abaixo, um andar, e nem vai se dar conta da mudança.” “- Mude-me, então, de madrugada, doutor.”

Assim foi feito. De manhã, observou que eram parecidos os apartamentos, mas já não se encontrou em um escritório. Havia alguns aparelhos na parede que ele descobriu serem de oxigênio e de outros gazes, trouxeram-lhe mais alguns remédios e ao caminhar para olhar pela janela, já não consegui ver a mancha branca sobre a copa, mas lá estava o Ipê Roxo. Amiudaram-se as medições dos enfermeiros, diminuíram os telefonemas, pouco assistiu aos noticiários da televisão e quase não leu os jornais, estava bem cansado. Haviam guardados seus sapatos e apenas um par de chinelos estavam arrumados ao lado da cama. A maleta com suas roupas sumira, por certo a mulher a colocara em algum armário.

Ao final do terceiro dia, Conceição entrou com cara de espanto. “- O que houve?”, perguntou, “-… Não encontrou o Dr. Jorge?” A tarde toda, ele estivera tossindo e com muita febre, apesar dos novos remédios que haviam lhe feito tomar. E por isso resolvera chamar o médico e amigo. “- Não… Ele precisou viajar de urgência, mas deixou o Dr. Henry encarregado do seu tratamento. Inclusive, este me disse que o andar onde ele dirige e atende é o quarto.” “- O quê?” O Senador quase engasga de todo, ficou lívido. Levantou-se com dificuldade e ela correu para ajudá-lo. “- Não…Não…E não. D’aqui eu não saio.”, gritou. “- Calma!”, disse-lhe, minutos mais tarde, o medico plantonista quando chegou com a medicação injetável e dependurando frascos que ligou aos seus braços. “- Tragam a maca, vamos mudá-lo. O que acontece?”, perguntou. “- Simplesmente porque Dr. Jorge viajou e eu tenho mais facilidade de atendê-lo no quarto andar aonde sou o responsável? Ficarei mais próximos ao Sr.”

Então, o Senador deixou-se levar, já tinha perdido todas as suas forças no acesso de raiva ao receber a notícia que desceria mais um andar. Olhou para janela. Achou que havia desmaiado. Quando voltou a consciência, viu que haviam mais frascos ligados aos seus dois braços, respirava com um tubinho no seu nariz, e seu peito tinha muitos fios que levavam a um aparelho que, naquele momento, não emitia luzes. Mas percebeu que estava ligado, porque produzia um tic-tac que o importunava. Observou, também, que havia se urinado e que estava de fraldas. Conceição estava ao seu lado e segurava sua mão.

“- Cadê o médico? ”, perguntou com a voz entrecortada. “- O Dr. Henry já foi.”- ela respondeu. “- E eu como estou?”
“- Está bem. Amanhã farão novos exames e…” “- Mais exames?” Olhou para os braços esticados. Havia perdido peso, tossia, respirava com dificuldade, estava sem forças, não controlava mais urina e fezes, o Dr. Jorge havia viajado e aquele quarto, com cara de quarto de hospital, sem nada a não ser tubos e fios espalhados para ali e para acolá. Sem TV, sem telefone, sem armário, nu como ele. E o tic-tac a espreita…

Olhou para a janela. Podia vê-lo. Melhor ainda, podia olhar seu tronco enorme encostado, parecendo que ia quebrar a janela, entrar e retira-lo d’ali. Passou o dia bem. Pensou mesmo em pedir sua subida para o sexto andar. Mas falar com quem? Desde o meio-dia, Conceição sumira. Fora receber os resultados dos exames e nada. As freiras não entravam mais ali, os enfermeiros tinham diminuído suas visitas e só podia ouvir o barulho das ambulâncias com os doentes chegando. Como companhia constante tinha uma ou outra andorinha planando e, próxima à janela, o tronco da árvore que, presente e iluminado pela luz da fachada do hospital, parecia observá-lo. Deu-lhe a impressão que Conceição, quando retornou, estava gripada. Ela ficava assoando o nariz, andava coberta com uma mascara branca no rosto, pouco conversava. Ele, triste, tentara chegar à janela muitas vezes, mas não conseguia. Os poucos passos que o separavam da janela eram demais. Ela entrava e saia.

À noite, teve o cuidado de amarrar sua perna direita à cama para ninguém mudá-lo de lugar enquanto dormia. Exausto de inutilmente chamar o médico que lhe atendera de manhã, adormeceu. Acordou com movimentos no quarto, havia um outro médico focando em seus olhos com uma lanterna e uns outros mais de longe aguardando. “- Que houve Doutor?”, perguntou cansadamente. “- Nada Senador, é rotina.”

Virou a cabeça com dificuldade. Estava sem os óculos, mas, mesmo assim, percebeu a presença do Dr. Jorge. Ele havia chegado. Com certeza, conversara com Conceição e tinha vindo avisá-lo que subiriam novamente para o sexto andar. Dr. Jorge falou-lhe alguma coisa como tomografia no terceiro andar. Sentiu que seu coração disparara, pois as pequenas luzes do aparelho ao seu lado piscaram aceleradas. Tentou falar sexto andar, mas foi em vão. Podia ver, adiante das costas do Dr. Jorge, que o tronco do Ipê se avolumava e que o médico estava totalmente vestido dos pés à cabeça de uma roupa verde. Desmaiou.

Abriu os olhos. Havia muitas luzes. Mesmo assim, pareciam fracas. Havia novos tubos: no seu pênis, no seu nariz, na sua boca, e um grande no seu pescoço que, desconfortavelmente, o forçava a respirar. Outros pacientes também estavam deitados, separados por biombos. Nem Conceição, nem um só rosto conhecido. Enfermeiras e freiras passavam caladas, cobertas da cabeça aos pés e olhavam apenas um pouco para cada um. Quis falar e perguntar pela mulher, pelo médico, mas nenhum ruído saiu. Os pés estavam na direção de um painel de vidro e a cabeça próxima a uma janela na qual não podia ver, mas imaginou ao perceber o apagar e o acender da luz colorida sobre seu corpo. Devia estar à altura da enorme letreiro com o nome do hospital que ele mesmo inaugurou. Um pouco acima da entrada das Ambulâncias, no primeiro andar, sobre o necrotério, bem próximo às raízes do tronco de Ipê.

Um silêncio profundo se rompe. Ouve-se um barulho estridente de buzina. Ele desperta. Com suas mãos tateia a maciez conhecida do colchão, o rendado do travesseiro. Acende o abajur. São quatro horas da manhã. Escuta a voz do motorista. “- O Senador Ubaldo Medeiros já está de pé? Está na hora de levá-lo para o hospital.” Ele, então, escuta Conceição responder. “- Vou acordá-lo. Breve estará pronto.” O motorista permanece com o carro ligado. O Senador Medeiros, sonolento e trêmulo, desce as escadas.

* Do livro Antena de Arame – 2018 (II Edição) – Rumo Editorial – São Paulo. 

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