Dragão do Mar – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

A taberna estava azeda com a grande quantidade de marinheiros, bucaneiros, ex_piratas, vendedores de bugigangas e meretrizes aposentadas.

Era um barulho de goles, de tosse, de gargalhadas, de copos de couro lançando dados nas mesas e engasgos mil.

Quem mais gritava era o louro careca, um misto de maritaca e papagaio que engaiolado no alto da escada que ia até o sótão praguejava e xingava.

Aquele se possuísse saliva e pudesse cuspir já o teria feito dezenas de vezes.

Um marroquino vesgo, de bruços tatuado, cutucava-lhe com uma vara de apagar o castiçal de velas dependurado perigosamente próximo a sua gaiola.

Apaguem as velas…apaguem as velas gritava.

Cala o bico Rapunzel.

Cala a boca vesgo.

Rapunzel é a mãe.

Eu sou papagaio papagaio ô ô ô…

Ela chegou vinda do cais, era negra, estava ferida na perna direita e marcada nas costas com uma ferrada de meio palmo escrita Ex Librium.

Os homens afastaram-se para que ela entrasse.

Há alguns meses escapara de um negreiro, como chamavam os navios que transportavam escravos até o porto.

Tinha sido salva por um pescador que seu navio afundara, atingido-lhe o deposito de munição com um tiro desferido por um canhaozinho tosco de fabricação artesanal que ele mesmo fizera e o colocara sobre uma jangada e desde então se tornara um empecilho a chegada destes navios ao Porto.

De tanto combate-los de forma rudimentar e heroica era apelidado de Dragão do Mar.

Este era o dono do papagaio.

Um dia resolvera sozinho não permitir que aportassem estes navios com seus escravos vivos e cadáveres ali na região de Iracema.

Ele afundara o navio que a trazia, a salvara do mar e a trouxera para terra.

Tendo em vista que este carregamento estava adquirido pela Companhia Librium que ia incorporar estes homens e mulheres aos demais escravos, que já trabalhavam na Companhia Librium de construção de ferrovias.

Esta Companhia estava fincando dormentes em Crato.

O contrato da posse de um escravo dava trinta por cento de propriedade a quem lhe salvasse a vida.

Isto ficou acordado contra sua vontade.

Logo, a escrava a qual ele deu liberdade dos seus trinta por cento, estaria por nove meses engajada a frente escrava de trabalho no Sertão de Crato, e por três meses do ano livre.

Estaria por conta dele, e depois deveria ser devolvida apta para voltar ao trabalho, sob pena de em caso de perda da capacidade de trabalhar, ser a Companhia Librium indenizada em alta soma.

O tempo, contando os meses de Janeiro Fevereiro e Março, época das chuvas em que quase paravam os trabalhos na linha férrea, vinha ela para a capital depois de andar léguas e léguas a pé e punha-se a segui-lo.

Quando ele estufava as velas e largava-se ao mar para espreitar e combater as embarcações vindas da África, ela ficava a praia entoando canções africanas.

Quando ele ia a taberna, estava ela lá, entre os homens do mar.

Vendo-o de longe.

Davam-lhe de comer e água para beber.

Ela não falava português.

Ele não falava Nagô.

Isto se repetiu por anos e anos.

Foi assim ate que ele não voltou do mar.

Quando a taberna pegou fogo no Natal, só restaram cinzas e o esqueleto de uma gaiola.

Dizem que avistaram no mar uma jangada com um casal e um papagaio xingando em Nagô.

Outros dizem que é lenda.

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