EDESSA MEDITABUNDO – Conto porreta de Fernando Canto

Conto de Fernando Canto

Solidão.

Há semanas trabalhava intensa e duramente na pesquisa. Tese de doutorado. Haveria de entregá-la no prazo.

A mulher lhe escrevera, mandara encomendas pelo correio nem sabia quando. Não abria e-mail, nem ligava para as redes sociais. Talvez algumas cartas estivessem na portaria. Não. O porteiro lhe teria entregue.

Abriu a lata de atum e o esquentou na frigideira suja, usada mil vezes. O frigir despertou-lhe para alguma coisa. Correu aos livros, consultou-os e escreveu algo num papel sobre a mesa desarrumada que só ele podia entender. Comeu parte da massa compacta com xarope de guaraná diluído em água e, logo após, como se comemorasse, deu um arroto de arrebentar suas próprias entranhas e foi deitar-se nas almofadas espalhadas pelo pequeno apartamento. Ali, há tempos, guardava imemoriais fragmentos de experimentos trazidos do laboratório de sua universidade de origem. Já obtivera bons resultados, estabelecera uma metodologia um tanto quanto complicada para o cruzamento de variáveis. Só ele entendia.

Por ser um voraz usuário do computador vinha comprovando velhas hipóteses até então refutadas pelos seus colegas pesquisadores de todo o país. Uma vitória ali outra acolá, um insigth acordado, uma sacação num sonho. Tudo lhe fascinava. Era um apaixonado pela ciência. Quase nunca dormia porque se ocupava fazendo anotações, lendo e escrevendo como um louco no teclado do seu micro. Mas vencia o tempo a caminho da glória. Ou no mínimo de um salário melhor. Quem sabe obteria mais prestígio dentro da comunidade científica. Era brilhante. Seus colegas haveriam de admirá-lo e de respeitá-lo mais e mais. Com certeza sua tese seria aprovada com louvor pelos sisudos e exigentes doutores da banca examinadora.

Não fumava mais. Pudera. O corpo franzino não aguentaria nem mais um trago. Estava proibido de fumar, beber álcool ou ingerir qualquer droga, mesmo calmantes, analgésicos e vitaminas sem consentimento médico. Seu médico lhe fora enfático: – Ou larga ou não acaba a tese este ano. Deixou o cigarro, mas abusava de tudo. Não se alimentava bem, só comia enlatados, pão dormido, macarrão, quando lhe dava vontade ou quando se lembrava que seres humanos também comem. Adorava porcaria. Daí a dor que sempre sentia no estômago, um sofrimento a mais que o deixava louco de se enrolar pelo chão atrás de algum remédio porventura perdido na bagunça daquele minúsculo apartamento, mas tão cheio de bagulho.

Nessas horas de dor, a lembrança da infância. Brotava a insegurança. Cadê mamãe? Um misto de ternura e desespero. Cadê minha mulher? A solidão doía, a lembrança doía. Ele se recorda, tentando lenificar a dor. Seria entomologista. Ah, seria. Da sua paixão por insetos nasceria um cientista respeitável. Dos seus estudos resultariam proveitos econômicos tão grandes que a História não lhe olvidaria. A Nação lhe seria eternamente grata. Da função dos insetos na natureza tiraria o que de melhor fosse para o desenvolvimento da ciência e, claro, para beneficiar todos os seres humanos. Um idealista. Modesto. Virtuoso. Não precisaria ficar rico com suas descobertas e patentes. Bastaria que lhe financiassem ousados projetos de pesquisas, se possível dentro do país. Por isso estudou Biologia, curso inexpressível numa universidade pública de pequena importância. Por isso, pensava, com seu nome a tiraria do marasmo científico.

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Atrás de tanta vontade. Porém, um trauma. Ainda estudante – monitor concursado de entomologia – coletava insetos na floresta quando inofensivos percevejos saltaram de um arbusto para sua roupa. Eram insetos coloridos, de uma espécie jamais vista por ele. E pelo que lembrava, nunca a vira catalogada nas enciclopédias de seus professores. – Uma espécie não identificada ainda, pensou, eufórico. E no embaraço da emoção explodindo tentou capturá-los. Eles saltavam para outros arbustos deixando no ar um cheiro tão peculiar que o candidato a cientista hesitou na empreitada da captura. Mas prosseguiu. E ao agitar desastrosamente a folhagem, o odor dos percevejos se espalhou pelo ambiente de tal forma que o ar parecia se solidificar como um enorme bloco de concreto sobre seu corpo, a lhe prender e a lhe impedir de se mover. Na luta desesperada viu escorrer pelas mãos o que seria sua primeira conquista profissional. – Já pensou? Um inseto com o meu nome?

Encontraram-no em uma posição ridícula, estático com uma estátua equestre, no meio do mato. Os olhos arregalados, um fóssil conservado em bloco de gelo. Do jeito que estava, duro, foi levado ao primeiro posto médico pela equipe de alunos que monitorava.

Do acontecimento inopinado adveio-lhe alcunhas abomináveis e um recolhimento de muitos dias. Quase perdia o semestre. Quando conseguiu superar o fato, superou-se a si mesmo. Antigas veleidades viraram obsessão: haveria de ser entomólogo, ainda que lhe chamassem de Múmia de Barata em alusão à Metamorfose de Kafka, e de Edessa Meditabundo, uma espécie de percevejos fedorentos. E que rissem ao cruzarem com ele nos corredores do campus.

Débora, uma caloura, foi a única que o compreendeu. Jamais tocava na história inacreditável. Acabou casando com ele logo após terminar a graduação. Mas ficava lá, em sua cidade, cuidando do filho, morando na casa do sogro. Fez um mestrado medíocre na mesma universidade e nela tornou-se professor depois de um concurso muito disputado.

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Doía a solidão. Doía, doía.

Ás favas a solidão, as lembranças, a dor. Rompe, de repente, com o pensamento. A decisão é tomada. Vai descer ou acaba pirando. Antes, porém, olha para o PC e o notebook sobre mesinhas, olha as paredes do cubículo… Desenhos, mapas, quadros, tabelas, referências, classificações. Tudo ali, pregado com durex.

Pediculos humanus humanus / Ischioleneho wollastoni / Coleoptera. / Pyridae, Lampyridae / Periplaneta americana / Coleopteros / Homoptera / Cicadidae / Paraponera clavata / Tineola bisselliélla / Fulgora spp. Schistocerca americana / Apis mellisfera / Soolenopsis beminata / deptera. Culicidae / megalopsy lanata / Sinoeca cianea…

E, atrás da porta de entrada, em letras garrafais:

EDESSA MEDITABUNDO

(Percevejo-filho-duma-vagabunda-
Não-é-o-mesmo-que-vejo)
Vou a fundo
Vou a fundo
Para te encontrar
Viro o mundo
Ou não me chamo

EDMUNDO

Ele come, por fim, o resto do atum, bebe mais guaraná, relê seu poema com orgulho, apaga a luz e sai.

No hall do edifício tudo é silêncio. O porteiro dorme sem roncar.

O doutorando agora hesita em abrir a porta que dá para a rua porque lá fora também é só silêncio. E sua solidão novamente toma conta do corpo, fragmenta a alma e corta recônditas memórias, intuindo um assalto do futuro. Há pouca luz no ambiente. O porteiro dorme, a cidade dorme. A cidade está morta. Raios de luz projetam as sombras de um pé de ficus belga do jardim no teto e nas paredes dos edifícios vizinhos. O pé de ficus belga parece fazer um movimento humano nas colunas que sustentam o prédio. Mas é só impressão. Fruto do cansaço, ele pensa. Anda em voltas pelo jardim e então resolve subir. É madrugada, o dia está para nascer. Não vale a pena sair pelas ruas de seu bairro a essa hora.

Na passagem encosta no pé de ficus belga. Ele não percebe, mas sua camisa está cheia de bichinhos coloridos. Entra no elevador, aperta o número 19 e solta devagar, deixando um cheiro podre pairando por todo o condomínio.


Edessa meditabundo abre a janela. Respira com dificuldade porque o ar lhe solidifica o corpo aos poucos. Filigranas de luz empurram cumulusnimbus espessas e amedrontadoras no dia que já nasce apertado.

Lá embaixo o gás carbônico flutua sobre o asfalto.

Desta vez o percevejo não hesita: – Que doa a solidão!

Com esforço estende as asas membranosas. Dá um arroto de despertar a cidade e salta em busca de alimento.

  • Uma viagem… extremamente difícil fazê-lo…em virtude de muitíssimas informações colhidas, por fim introduzi-las, de uma maneira natural ao seio do Conto, como se fosse a coisa mais natural….mas não é…
    Acabo de ler…antes que saia das minhas narinas, o nauseante cheiro do inseto…aproveito…para reaplaudir o Conto!

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