Embrapa 50 anos – Como é ser embrapiana – Por Dulcivânia Freitas – @DulcivaniaF

Por Dulcivânia Freitas

De repente meu trabalho tomou um rumo de desafios gigantescos, e ainda por cima eu sentia falta do jornalismo. Mas, quando entendi que a Embrapa não é só um empregador, e sim um propósito de vida profissional e até pessoal, aí eu me permiti.

Gosto do meu trabalho, gosto muito na verdade. Para a empresa sou analista de comunicação, para meus parceiros de veículos de comunicação, sou assessora de imprensa. Por conta da Embrapa, continuei inserida na Amazônia, atravessei a baía do Guajará deixando Belém (ela que nunca me deixou, juro) e me instalei em Macapá. Isso já tem 17 anos. E, como todo período adolescente, eu também contabilizo aquela rebeldia que só a intimidade da convivência proporciona, misturada com respeito. Porque, afinal, a Embrapa dá-se ao respeito, podem ter certeza disso. E como organização é algo abstrato, de fato o que imprime esse respeito todo é o embrapiano e a embrapiana. Legal, temos até gentílico. Sobrenome também, passei a ser a Dulcivânia da Embrapa.

Para quem pouco sabe, estou falando da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), vinculada ao Ministério da Agricultura e Pecuária. Empresa pública, com 43 centros de pesquisas em todo o país. Um deles é a Embrapa Amapá, que por sua vez lá atrás foi um núcleo da Embrapa do Pará. Contando as unidades do Distrito Federal, os centros de pesquisas e as equipes no exterior, somos quase oito mil mulheres e homens com sobrenome Embrapa. No Amapá, umas 80 pessoas. Não nego, a Embrapa é um mundo à parte, onde até jornalista é valorizado. Temos capacitação, jornada justa, tabela salarial compatível com nossa importância para o alcance dos fins da empresa, estrutura confortável, ambiente salubre. E quer saber? A gente merece, também somos a Embrapa modelo de gestão pública e reverenciada pela excelência das suas entregas.

Na Embrapa, eu tenho o privilégio do acesso direto e permanente a um portal de conhecimentos, me permito conhecer melhor temas como agroecologia, produtos florestais não-madeireiros, manejo de mínimo impacto de açaizeiros, sociobiodiversidade, mudanças climáticas, doenças de plantas, sanidade de peixes, larvicultura de camarão-da-amazônia, zoneamento de risco climático, cultivares de feijão-caupi, integração lavoura-pecuária-floresta. Tudo me atraí, vejo que a cada briefing, comunicados técnicos, conversa, palestra, tudo tem um significado de mais valor à terra e ao Planeta, de busca de relações mais saudáveis. É como se eu fizesse um curso técnico-científico e de humanas a cada ano, ou melhor, a cada mês. Na prática, vivo fazendo coleta de dados em fontes abertas (humanas e digitais) e procuro cultivar contatos com parceiros internos e externos. Ainda bem que sempre amei assistir seminários e palestras, e hoje em dia é mais cômodo na era do Youtube, inclusive essa plataforma está lotada de lives de embrapianos. Aproveitem!

Sob o escudo da Embrapa, já vivi experiências únicas, como ir ao Bailique, esse santuário de ilhas tão lindo quanto necessitado de serviços dignos para os moradores. Outras tantas experiências que jamais viveria em outra profissão, muito menos se não fosse embrapiana na Amazônia. A Embrapa, como uma boa mãe – durona, mas justa e acolhedora – me deixou mais autoconfiante e consciente das minhas capacidades e vulnerabilidades. As viagens poderiam ser mais aventureiras, essa eu fico devendo à querida pesquisadora Ana Claudia Lira, que não perde a fé de me ver novamente no Bailique ou mesmo em ilhas mais próximas, aqui na frente de Macapá.

Uma novidade mais recente, proporcionada pelo WhatsApp, é que passei a conviver de um jeito mais informal com outras mulheres do trabalho, as analistas nas atividades complexas do setor de compras, do financeiro, da gestão, da análise de microorganismos, da biblioteca, as colegas da limpeza e da segurança, sim temos uma vigilante em um campo experimental.

Admiro muitos colegas embrapianos, pelo comprometimento, pela inteligência e pela versatilidade. Fico besta como esse pessoal dá nó em pingo d’água, esses anos de redução drástica de recursos para a pesquisa que o diga. Infelizmente não tenho como nomear um grupo aqui, mas em nome dos admirados, cito o jornalista Jorge Duarte (sede da Embrapa, em Brasília), a pesquisadora Tatiana Sá, da Embrapa Amazônia Oriental (Belém, PA), o pesquisador Silvio Crestana, da Embrapa Instrumentação (São Carlos, SP). Entre os de casa e os da nova geração, que são muitos também, em nome deles nomeio a the best Aline Furtado, colega de sala, de aniversários, dos choques de opiniões, de remédios para filhos dodói, e de estratégias mirabolantes de comunicação.

A Embrapa é uma confusão. Digo, uma profusão de gerações e estilos. É plural. Muito plural. Temos os vocacionados para liderar, temos os acanhados e excelentes operacionais, os afoitos, os cautelosos. Os ranzinzas, os meigos. Temos os de lua, feito eu. Temos a velha guarda que nos orgulha como Emanuel, Graça, Góes, Solange, Bete, Valeria, Jurema, Izaque, Antonio Claudio, Newton de Lucena (hoje em Roraima, mas sempre presente pelos meios digitais), tantos outros que chegaram aqui a partir dos anos 1980 e 1990, e viveram mudanças históricas na sociedade e nas suas atividades. Como não admirar estas pessoas que atravessaram décadas e estão aí, integradas à era da web, tecnologia que transformou completamente os processos da Embrapa.

Não tem como falar de embrapianos sem mencionar os esforços da turma que dá a tapa na cara pela equidade de gênero. Estamos pouco a pouco aumentando nossa representatividade como supervisoras, chefes de centros de pesquisas e mais recentemente a indicação de três mulheres para compor a nova diretoria de cinco membros. Têm grande valor nossas bolsistas, estagiárias, terceirizadas como a dona Sônia, presença antiga e muito querida por aqui. Gostaria de ver mais mulheres na Embrapa, somos poucas diante de um quadro de quase 8 mil servidores. As próximas gerações podem e devem continuar essa conversa. Dedico esse texto aos inesquecíveis Pinga, Honório, Mano Delso, Manoel (quatro motoristas), Ana Salim (analista ambiental) e Silas Mochiutti (pesquisador/chefe-geral), colegas que, sem exagero meu, deixaram suas marcas pra sempre na Embrapa Amapá.

Parabéns a todas as gerações da Embrapa 50!

  • Que texto incrível! Emocionante, apaixonado e acima de tudo baseado na reflexão de que ama o que faz e aprende ensinando. Parabéns para a Embrapa e principalmente parabéns para a querida Dulci, pelo belo relato e pelo belo trabalho ao longo destes anos. Bjos!

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