Enquanto espero – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Arte: Ronaldo Rony

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Esperando um amigo no banco, que foi resolver uma bronca monetária, jurídica e tal. Está demorando, já passa de uma hora e meia de espera. Já estou há tanto tempo neste banco que os clientes me pedem informações achando que trabalho aqui. E eu estou tentando satisfazer às necessidades desses clientes, na medida do possível, dada a minha total inexperiência neste setor. Pretendo ficar por aqui por mais alguns anos, até que tenha tempo suficiente pra jogar o banco na Justiça. Veio gente me pedir ajuda no desbloqueio do cartão, perguntar como funciona esse negócio de pix e como fazer transferência sem ter um puto no bolso. Sou uma pessoa de boa vontade e se soubesse fazer essas coisas até faria, mas sou extremamente inútil quando o assunto é ser útil nesses assuntos.

Nunca pensei em ser bancário, mas já estou me afeiçoando a esta atividade. Será que tem vaga pra gerente? Vejo uma senhora vindo de lá de dentro toda satisfeita por ter desenrolado o seu lado. Não resisto à curiosidade:

– Foi tudo bem, minha querida? – pergunto, demonstrando um legítimo interesse, já me sentindo parte do quadro de funcionários.

Ela responde, quase me afogando num imenso sorriso:

– Sim, sim, tudo resolvido! Sua dica foi perfeita! O trabalho de vocês é ótimo!

Agradeço, resistindo a perguntar que dica tão bacana assim foi essa que dei e da qual não faço a menor ideia, e passo a atender outro cliente. Realizo mais um atendimento nota mil, já posso me candidatar a funcionário do mês, e volto a fazer anotações para esta crônica na minha surrada caderneta. O vigilante estranha um cara um tempão ali anotando coisas numa caderneta e passa um rádio pra central. Devo ser preso a qualquer momento e o pior de tudo é que não tenho desculpas a dar, pois ninguém acredita na existência de escritores. A tropa de elite dos vigilantes chega e nem pergunta o que tanto anoto na caderneta. Se perguntasse, eu pensaria três vezes e diria a verdade, nada mais que a verdade, ainda que óbvia:

– Estou escrevendo porque sou escritor!

Pronto! Agora já vejo minha foto nos blogs, sites e redes sociais e a manchete: preso por falsidade ideológica e alegação de atividade não provável. Acho que este último crime não existe, mas, se existir, com certeza eu estou enquadrado nele.

O meu amigo finalmente consegue ser atendido, depois de duas horas e meia, e vem ao meu encontro e dos vigilantes ao meu redor, esclarecendo que não sou um bandido fazendo planos pra assaltar o banco. Vamos embora, eu, livre, e meu amigo devidamente cadastrado no programa de auxílio emergencial ou algo parecido. Nós dois, brocados, vamos a um restaurante pra lá de carnívoro e pedimos uma bela e suculenta costela de porco. Até que lembro que sou vegano e peço um pudim de jambu.

Acho que chega por hoje. Minha aventura do dia rendeu uma crônica e minha carreira de escritor está momentaneamente salva. E aí, Elton? Publica mais essa no De Rocha!?

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