Entrevista: O amapaense Loham fala sobre Igarapé Elétrico, o álbum que marca a estreia da sua carreira como cantor e compositor – Por Andreza Gil

Foto: Itamar Júnior

Por Andreza Gil

Loham. Esse é o mais novo nome da música brasileira que se apresenta para nós com o álbum Igarapé Elétrico, lançado há uma semana em todas as plataformas de música. Nascido em Macapá, na região Norte do Brasil, Loham reside há seis anos em Goiânia, a capital do estado de Goiás. Aos 31 anos, o cantor e compositor lança o seu primeiro álbum pouco mais de um ano depois de começar a compor as suas primeiras músicas. O disco de estreia é autobiográfico, todas as músicas são baseadas em histórias vividas por ele mesmo ou inspiradas em elementos que compõem a sua identidade nortista. São dez faixas ritmadas pela regionalidade amazônida e a contemporaneidade da música popular brasileira. Tem carimbó com rock, marabaixo com eletrônico, uma mistura de ritmos musicais que elaboram uma sonoridade muito interessante e original.

Na entrevista que você confere em seguida, Loham conta que quando surgiu a ideia de gravar e lançar algumas músicas, a princípio lançaria dois EPs, um de música amazônida e outro de MPB, depois refletiu melhor e percebeu que isso não fazia o menor sentido porque tudo é música brasileira. Nascido e crescido na Amazônia, quando mudou para Goiânia, acabou ironicamente indo morar na Rua Igarapé, no Parque Amazônia, foi daí que veio o insight para a primeira parte do nome do álbum. Como ele mesmo fala na entrevista: “A coisa meio que estava escrita…”. Loham, que já tinha várias músicas compostas, na hora de selecionar apenas dez que entrariam no álbum, escolheu as mais enérgicas, daí veio a segunda parte do nome do álbum e com uma referência também ao peixe elétrico da Amazônia, o puraquê, que está inclusive na letra da faixa “Igarapé Elétrico”, música que abre o álbum.

A produção musical e os arranjos do disco são dos produtores goianos Dênio de Paula e Daniel de Paula. Não poderia deixar de mencionar a participação da sua família neste trabalho. A irmã, a artista visual Beatriz Belo, produziu a capa do álbum, e a avó e a tia, Dona Bené e Niquinha, cantam no coro da música “Me Dá Pupunha”. O disco também teve a participação especial da cantora goiana Alice Galvão na faixa “Igarapé Elétrico”. O primeiro álbum de Loham é um suspiro bom em um momento tão delicado. Confere a entrevista e depois dá o play em Igarapé Elétrico!

Andreza: Loham, você nasceu e cresceu no Amapá, mas há seis anos mora em Goiás, lugar onde você se descobriu artista tem pouco mais de um ano. Como foi esse seu início com a música e como nasceu Igarapé Elétrico?

Loham: Comecei a fazer aula de canto com o Prof Romário Costa em Dezembro de 2018. Até então, a música e a aula de canto eram um hobby. Sempre gostei de música mas não me imaginava cantando, na infância cheguei a pedir para aprender a tocar violino mas a gente não tinha condições financeiras na época.

Ainda em 2018, eu comecei a escrever alguns poemas, mas guardava tudo numa espécie de diário, até que em Fevereiro de 2019 musiquei o poema “Eu me descobrir artista no Goiás”, a melodia veio, se misturando com a letra e comecei cantar em casa. Quando terminei essa música entendi que tinha algo ali, que vinha da alma.

A partir desse dia comecei a compor feito louco, as músicas vinham, uma atrás da outra, eu escrevia salvava tudo no celular pra não esquecer as melodias. As músicas tocam inteirinhas na minha cabeça, consigo imaginar os instrumentos, tudo. Até então ninguém sabia disso, nem meu professor de canto.

Em Maio de 2019, fui a Macapá para cuidar de um parente que estava doente e lá tomei coragem pra mostrar a música pra um amigo que já teve banda, ele foi enfático em dizer: – Loham, porque tu não fizesse isso antes?

Andreza: A música “Eu Me descobri Artista no Goiás” conta um pouco sobre essa sua descoberta enquanto artista. Como foi tomar coragem para investir em uma carreira musical aos 31 anos?

Loham: Foi muito difícil, primeiro que eu estava passando por um ano mega complicado, em todos os aspectos, financeiro, emocional, familiar… eu estava iniciando um processo depressivo, é disso que eu falo na faixa “New Age”. A música acabou sendo a única coisa que me dava um prazer real. Eu sempre tive uma relação muito forte com música, desde pequeno, e isso voltou com toda força ano passado.

Depois de mostrar a música pro meu amigo macapaense, voltei pra Goiânia determinado a gravar o CD, comecei a mostrar a música para várias pessoas, amigos próximos e tudo mais. Muita gente olhava com desconfiança no início, até ouvir as músicas, era engraçado porque ninguém entendia bem como eu comecei a compor, nem eu mesmo.

A maior dificuldade foi eu me assumir artista pra mim mesmo, a família ou os amigos não levavam muito a sério porque nunca me viram tentar algo parecido, então, na real, eu tinha que me preocupar em conseguir me expressar e colocar minha música no mundo, independente do resultado.

Andreza: O álbum tem canções ritmadas pela regionalidade amazônida e a contemporaneidade da música popular brasileira. É um trabalho que traz a rítmica do Norte com a presença do marabaixo e do carimbó mas que igualmente se move por outras “brasilidades”. Chegar a essa concepção musical era um desejo seu?

Loham: A princípio eu lançaria dois EPs, um de música amazônica e outro de MPB, depois refleti e concluí que isso não fazia sentido. O Igarapé Elétrico é uma catarse, uma descoberta artística, e coloquei nele um pouco de toda minha história e referência sonora enquanto artista. Em determinados momentos é importante fazer um recorte sobre o que é música da amazônia, e em outros, é preciso entender que é tudo música brasileira, por isso fiz questão de fazer essa mistura. Diversos artistas clássicos da MPB usam elementos de sua região em suas músicas, e isso é entendido como MPB, porque o Igarapé Elétrico não pode ser?

Andreza: Apesar dessa mistura musical entre esses dois universos, o álbum de cara apresenta uma identidade nortista que está no nome, nas cores quentes da capa, nos ritmos e nas histórias apresentadas em algumas faixas como na que abre o álbum, a música “Igarapé Elétrico” e em “Me Dá Pupunha” e “Pega o Beco Meu irmão”. O Norte foi o teu elemento norteador dentro da concepção estética e narrativa?

Loham: Sim, eu já tinha empreendido algumas tentativas em projetos envolvendo arte, como a camiseteria Bildon, o projeto Bang Use e o site Amapá no Mapa. Em todos esses projetos eu trabalhava com arte e cultura nortista, o que faltava era eu entender que meu lugar era na música.

Também fiz questão de manter essa estética visual e sonora porque ainda vejo muita gente, ou mesmo agentes culturais, invisibilizando ou estigmatizando a expressão artística da Amazônia.

Andreza: Quais foram as inspirações e referências nesse processo?

Loham: Para as composições, a minha história de vida. A infância, as lendas da Amazônia, os sabores… Para as músicas e estética do álbum, diversos artistas, da vanguarda à nova geração: Gilberto Gil, Novos Baianos, Ney Matogrosso, Lenine, Zeca Baleiro, Patrícia Bastos, Paulo Bastos, Negro de Nós, Xênia França, Letrux, MC Tha, Jaloo, Gaby Amarantos, João Amorim, entre muitos!

Andreza: Há uma diversidade de temas, humores e histórias no álbum. As músicas falam de temas como identidade, ancestralidade, lendas folclóricas e gratidão, mas você também se posiciona falando de temas como racismo, saúde mental, aceleração da sociedade, o uso cada vez mais intenso das tecnologias, assuntos que trazem um tom mais crítico para o álbum. Você queria pautar esses temas ou eles surgiram de maneira espontânea?

Loham: Eles surgiram de maneira espontânea, eu gosto de discutir vários temas, penso sobre eles, e isso foi vindo em forma de música. É tudo muito autobiográfico também, todas as músicas são baseadas em uma história que vivi, em “Pretou, brilhou” eu falo da minha infância e da descoberta da minha ancestralidade afro-indígena, em “Gratidão” eu faço referência a uma festa, onde fui hostilizado por um grupo de pessoas que se dizem muito esclarecidas. De alguma forma busquei trazer questões pessoais mas que vejo conexão com a vivência de outra pessoas.

Além das dez faixas lançadas, eu tenho outras 30 músicas, e selecionar quais faixas entrariam pro CD foi difícil. Então o critério que utilizei foi a energia, o ritmo das canções, queria selecionar as mais enérgicas. Daí também que veio o nome do disco, Igarapé Elétrico.

Ironicamente, quando mudei pra Goiânia acabei indo parar na Rua Igarapé, no Parque Amazônia, onde resido até hoje. A coisa meio que estava escrita…

Andreza: A produção foi toda em Goiás? Como foi a produção?

Loham: Sim, eu até tentei contato com alguns artistas e produtores amapaenses, mas estávamos com a dificuldade da distância. No total eu devo ter falado com uns cinco produtores até chegar ao Dênio de Paula e Daniel de Paula da Tambor Cantante Produções. Um amigo me recomendou o Dênio e eu gostei muito da sonoridade de trabalhos que ele havia feito, então pensei: “Esse cara vai conseguir materializar o que está na minha cabeça”.

Os dois produtores são muito ligados ao rock e à MPB, então fui trazendo minhas referências, sempre me preocupando em manter uma unidade sonora pro álbum, eles me ouviram com atenção e contribuíram muito com excelentes ideias.

Andreza: Você teve a liberdade de promover algumas experimentações musicais. Uma delas foi na faixa “Pega o Beco Meu Irmão”, onde você misturou o marabaixo, ritmo do Amapá, com o eletrônico. Como foi dialogar esses dois ritmos?

Loham: Sempre gostei dos dois ritmos e queria tê-los no meu CD de alguma forma, inclusive tenho algumas composições guardadas que seguirão nesse estilo. O Marabaixo é a maior expressão artística e cultura do Amapá. então eu queria, de alguma forma, tê-lo representado no disco.

Em “Pega o beco meu irmão” eu busco provocar uma reflexão, uma revisão de ideias, sobretudo, em razão do caos político e social que o Brasil vive. Há um negacionismo histórico absurdo e um desmonte cultural evidente, e eu não podia expressar minha indignação de outra forma, se não fosse por meio do Marabaixo.

Sonho em um dia poder colaborar com outros artistas Amapaenses, como a Laura do Marabaixo, o Paulo Bastos e a Patrícia Bastos, que foram uma grande referência para esse trabalho.

Andreza: O álbum traz a participação especial da cantora goiana Alice Galvão na faixa “Igarapé Elétrico”. Como surgiu a participação dela?

Loham: Eu e a Alice Galvão somos professores universitários e nos conhecemos na Faculdade Cambury, ela foi uma das pessoas que mais me incentivou, junto com os alunos, a investir na música. Quando eu estava em estúdio, o Dênio, meu produtor, sugeriu de convidar uma cantora para representar a Iara na faixa Igarapé Elétrico, convidei a Alice e ela aceitou.

O processo criativo dessa faixa foi incrível, porque foi muito natural, a Alice entrou em estúdio e ouviu a base que eu tinha gravado pra música, e foi sugerindo onde o canto poderia estar, foi muito orgânico. O Dênio tem essas sacadas impensadas que fazem toda a diferença para o resultado final.

Andreza: Outra participação muito especial é a da sua família. Sua avó e uma tia cantam na música “Me Dá Pupunha” e a sua irmã, a artista visual Beatriz Belo, foi quem produziu a capa do álbum. Como foi poder trazer a família para esse trabalho?

Loham: A participação da minha tia e avó foi mais uma ideia do Dênio, estávamos em estúdio, quase finalizando a música, e ele sugeriu de convidarmos duas senhoras pra cantar, coincidentemente, minhas tia e avó estavam passando férias comigo em Goiânia e toparam ir pro estúdio! Os produtores ficaram impressionados com a energia das duas, e eu amei o grito de energia da minha vó na música, ela dá esse grito quando vai pra academia!

A minha irmã, Beatriz Belo, é uma grande inspiração pra mim, tanto quanto minha mãe, as duas são artistas visuais e eu sempre tive vontade de aprender a fazer algo nessa linha, até me descobrir na música. Então minha irmã tem me apoiado com toda a identidade e estética desse trabalho.

Capa do álbum ilustrada por Beatriz Belo

Andreza: Você é um artista que já chegou entendendo bem como funciona atualmente o mercado da música. O álbum está disponível em todas as plataformas de streaming de música, mas você pretende lançar também no formato físico?

Loham: É um sonho, mas vai depender mais do público do que de mim, eu até pesquisei formas de fazer isso e também se o público queria, mas muita gente nem tem onde ouvir CD`s em casa. Então é algo que pretendo fazer para uma edição especial, quem sabe.

Andreza: Igarapé elétrico foi lançado na última sexta, mas oito das dez faixas já podiam ser ouvidas nas plataformas digitais bem antes do lançamento. Como você tem percebido a recepção das pessoas?

Loham: Eu realmente estou feliz e surpreso com o resultado, depois de lançar o álbum com capa, ensaio e site, as pessoas levaram mais a sério e foram ouvir todas as músicas, e tenho recebido feedbacks muito positivos! Pra quem não cantava há um ano, esse resultado está mais que perfeito.

Também fiz o meu primeiro show em SP em janeiro desse ano, e a faixa preferida do público foi Igarapé elétrico.

Andreza: Escolheu lançar o seu primeiro álbum em um momento que está sendo um dos mais difíceis e desafiadores para o mundo todo, em meio à pandemia do novo Coronavírus. Até o mês passado você ainda estava em estúdio concluindo as gravações. Há de alguma forma no Igarapé Elétrico uma mensagem para este momento?

Loham: Uma das mensagens que mais tenho recebido das pessoas que ouviram meu CD foi a de que eu discuto questões delicadas de forma leve, que dá prazer em ouvir, e fiquei muito feliz com isso. Os desafios estão aí, inclusive levando agentes fundamentais da nossa cultura, mas a música pode ser um alívio, um respiro pra um momento tão delicado.

Eu fiz esse CD pra celebrar a vida, a nossa cultura e de certa forma a minha redescoberta. Muitas pessoas estão se redescobrindo agora, revisando suas vidas, mudando planos, então espero, sinceramente, que essas músicas ajudem as pessoas a terem dias melhores. Tenho fé que eles virão.

Igarapé Elétrico está disponível em todas as plataformas. Escolha aqui onde você quer ouvir!

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