Esperança – Crônica de Evandro Luiz

Foto: Floriano Lima

Crônica de Evandro Luiz

Na sede da associação, na assembleia de domingo ficou decidido que os pescadores sairiam bem cedo. O objetivo era ganhar tempo e surpreender os concorrentes. Assim eles chegariam primeiro nos grandes cardumes. Na segunda-feira, os pescadores se reuniram na praia e o que eles viram não foi nada animador. Era uma madrugada fria com ventos fortes e o mar agitado.

Como é costume na região, as mulheres e filhos dos pescadores, vão ate a praia desejar uma boa pescaria. Mas, nessa manhã, as famílias tinham pressentimentos de algo inexplicável até então nunca sentido. Estava para acontecer algo. Era como se o mar não quisesse ninguém no seu leito e muito menos retirar das profundezas o que viu nascer e crescer. Ondas enormes quebravam na praia. Os dez barcos pesqueiros tinham pela frente o primeiro desafio: varar o paredão de água que se formava na frente deles. Nem todos conseguiram.

A força do mar era tão grande que em poucos minutos dois barcos tombaram sem a mínima chance de voltar a navegar. Com muita habilidade e certa dose de sorte, os outros conseguiram passar. Os barcos iam se distanciando da Vila e cinco horas depois da partida de Taperebá os pescadores começaram a sentir que estavam diante de um novo cenário. Uma grande tempestade se aproximava.

Uma nova situação se desenhava antes nunca vista. Não se tratava mais de uma pescaria e sim sair daquela situação vivo. Ondas com mais de três metros surgiam como fantasma saindo das profundezas do mar com força gigantesca. A luta entre a natureza e o homem era infinitamente desigual. O mar balançava de um lado para o outro como um pugilista esperando o momento certo para dar o golpe final.

Barcos de Pesca de Vincent van Gogh

Mas do outro lado, tinha o seu Antônio Pinheiro, de 75 anos. Ele dizia, que desde pequeno, a relação com o mar sempre foi conflituosa, mas respeitosa. Mesmo sem nunca ter visto e vivido situação igual a que estava enfrentando, ele acreditava que iria contar para os netos mais uma história sobre o mar. Mas para isso, ele iria precisar lembrar e colocar em prática, todas as orientações repassadas pelo pai, também pescador. Uma delas era pegar as ondas de frente, furando o paredão de água. Nunca ficar em paralelas com elas e jogar fora tudo o que não for necessário.

Seu Pinheiro tentava enxergar algum outro barco. Não via nada. Bateu a angústia de existir a possibilidade da perda. A tempestade o levava cada vez mais pra longe. Sete dias se passaram. E todos voltaram para a Vila. Apenas Antônio Pinheiro não tinha aparecido. Ele foi dado como morto. A vila do Tapereba, conhecida pela alegria do seu povo estava de luto.

Mas, a milhares de quilômetros dali, um homem lutava pela vida. Já bastante desidratado, viu pontos de luz se movendo. Viu três embarcações. Um homem começou a acenar tentando dizer que deveria navegar bem atrás deles. Assim ele fez. Desligaram os motores e entraram em um igarapé. Dez minutos depois, cerca de 30 pessoas começaram a fazer o desembarque em silêncio. Foram levados para um barracão.

Sem entender o que estava se passando perguntou para um homem ao seu lado o que estava acontecendo. O homem disse em voz baixa, que eles estavam em Caiena. Iam atrás de emprego. O franco valia muito mais que a nossa moeda. Bastaria trabalhar dois anos para arrumar a vida. O perigo estava no desembarque. Como tinha sido um sucesso, agora eles iam morar nas obras até serem registrados como trabalhadores.

No dia do fichamento, um homem com uma prancheta na mão, foi direto falar com o velho pescador. O homem com forte sotaque francês perguntou: como você se chama? Prontamente, o pescador respondeu: Antônio Pinheiro. Muito bem seu Pinheiro, você começa amanhã às duas horas da tarde.E assim dois anos se passaram. Aí a saudade bateu. Falou com o seu chefe e disse que gostaria de ver a sua vila, sua família e seus amigos. O mestre de obra coçou a cabeça e falou bem devagar para que o seu Antônio entendesse:

“Pinheiro, tú és o meu homem de confiança aqui na obra, faltam apenas dois meses para o verão aqui na Amazônia terminar”. Aguenta pelo menos esse período”. E esses foram os dois mais longos meses da vida do velho pescador. Mas o dia chegou. Ele pegou a melhor roupa, com muitas cores, estilo caribenho, chapéu Panamá e foi direto ao banco. Retirou todas as economias. O gerente do banco chegou a perguntar para onde ele ia com tanto dinheiro. Chegou a propor o serviço que o banco tinha e ele receberia o dinheiro em uma agência próxima à vila.

Experiente, Pinheiro achou que melhor seria assim. Pelo menos não correria o risco de ser assaltado e perder todo o dinheiro. Foram três dias de viagem ate a vila de Manducuru. Uma cidade pequena, onde a maioria dos pescadores vendia seus produtos. Pinheiro querendo fazer surpresa, foi direto para um pequeno hotel. Ficou o dia todo trancado no quarto. Às sete da noite, saiu do hotel e foi direto para o porto. Alugou uma pequena embarcação.

Até a Vila seriam mais duas horas. Durante a viagem ficou imaginando, como seria recebido. Em um dia como hoje sexta-feira, a família estaria reunida jogando dominó e tomando a cachaça preferida a “Canta Galo” e como tira gosto um porco assado. Pinheiro desceu da embarcação e pegou seus pertences. O caminho era o mesmo de tantas idas e vindas, mas agora era algo especial.

Foi se aproximando da vila, uma mulher viu Pinheirrô, e correndo como ninguém chegou na casa de Antônio e disse que viu alma do pescador indo em direção a casa deles. O medo tomou conta de todos. A qualquer momento ele apareceria na clareira antes de chegar em casa. Quando o seu Antônio apareceu com aquele andar já conhecido de todos. Ninguém teve maias duvidas: Antônio tinha voltado sabe lá de onde. Foi um correria pra tudo quanto é lado. Gente para o mato, outros subiam em árvores, a maioria buscava o rio.

A situação ficou mais complicada quando o seu Antônio disse que ia dar um abraço em cada um deles.” No meio de gritaria ouviu-se dois disparos. O velho pescador caiu dizendo: “eu sou Antônio Pinheiro, o “Pinherrô”. O mon DIEU, qu’ est ce que j’ai fait. “o meu Deus, o que foi que eu fiz. ”Aos pouco uma multidão foi se aproximando e constataram que o velho pescador, agora iria pescar para sempre em outras águas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *