ESTAREMOS SEMPRE JUNTOS ESTA NOITE, AMORE MIO – Conto de Fernando Canto

Conto de Fernando Canto
Ao pintor Olivar Cunha

– Não duvido mais, conclui Pietro di Paolo, triste, sentado no sofá, olhando para a estranha figura da tela abstrata que parece ter ganho nova forma, novo estilo e perdido as cores mais vivas.

– Daqui pra frente vão começar as mudanças. Te prepara, amore mio. Minha intuição é mais forte que as profecias de Nostradamus.

Betsylla acende o incenso enquanto o marido mergulha em si mesmo. Deve ser para meditar e para espantar as emissões malignas que penetram naquele apartamento. O odor se espalha minando cada canto da sala. A ideia é formar uma cortina esfumaçada para conter o que virá.

Pietro di Paolo não sabe mais a forma, dimensão, peso ou qualquer referência sobre o que virá daí para frente. Sabe que dentro da tela há uma moradia, exatamente nos olhos da figura deformada exposta na parede, que se manifesta aos poucos em três dimensões.

O quadro é grande, embora sem moldura, porém tem um chassi perfeito e seguro, o que lhe dá a impressão de indestrutibilidade. Mede 2,00 x 1,50 m e ocupa a parede de forma onipresente. Para onde se anda e se observa a imagem, os olhos dela estão nos olhos do observador. Provoca uma relação de dependência, suscitando um desejo de troca, de transposição. Assemelha-se a uma técnica medieval de pintura religiosa onde os santos parecem estar sempre observando os pecados dos crédulos. Betsylla traz o chá preto que ele pediu. Não dormirá nessa noite. Ela senta junto a ele e o afaga, lhe acariciando as barbas alongadas. Prepara-se para a noite comprida como à espera da revelação de um segredo.

– Vá dormir, amore mio, ele diz.
– Não tenho sono. Quero ficar.
– Você não está preparada pra…
– Estou, sim, diz cortando a frase bruscamente. – E não tenho medo. Eu te amo, amore mio. Estaremos sempre juntos.

Ficam longo tempo sem falar. Escutam Sonata para Violín y Piano, de Mozart, tão suavemente executada por Luiz Felipe e Armando Merino. Os olhos fixados nos olhos da tela sob a luz acesa da sala onde bebem várias xícaras de chá preto e café. A fumaça do incenso se confunde com a dos cigarros que fumam incessantemente. A causa que gera a situação não pode ser uma simples patologia ocular, um escotoma, um ponto negro, uma escuridão, uma ilusão que o cérebro possa achar que é o que quer ver. Nem o efeito um carma. Pietro di Paolo e Betsylla têm lá suas certezas e experiências de vida. Conhecem o mundo todo. E sabem, sabem de muitas coisas misteriosas.

O enfrentamento é inevitável. Será uma guerra de imaterialidade. Por isso os olhos estão acesos. Não cochilam em nenhum momento. A vigília é mútua pelo compromisso assumido entre os dois. Mas em dado momento o alerta vacila.

*******

Às 08h00 em ponto a diarista abre a porta, sente o cheiro estranho no ambiente. Copos, xícaras e pires, pedaços de torradas caídos na mesa da sala, o som dos instrumentos tocando num CD player e um lençol de casal no sofá, de onde emerge um homem disforme, bocejando e se espreguiçando. Ele é magro e está com o rosto pintado como se vestisse uma máscara. Pede café a mulher, que nem se assusta mais com as esquisitices daquela casa e de seus hóspedes.

Na parede da sala há um quadro novo, de cores vivas, com o retrato dos patrões.

– Eu, hem?! Que gente esquisita, esses estrangeiros, reclama a diarista. – Vivem mudando a decoração da parede e trazendo gente estranha pra cá.

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    Surreal… disforme na credibilidade dos que imaginam…
    Personagens…de verdade… agindo como fariam se houvessem parido o Conto.
    Enormemente bonito.
    Aplausos de pé sobre o cavalete em que o Quadro brilha!

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