Evair: O Dom Alviverde – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Dezesseis metros e meio, um círculo cravado a onze metros do gol; um reino que faz com que homens uniformizados lutem com as forças que têm para conquistá-lo; a cada partida uma batalha: defensores e contra-atacantes e poucos deles podem se sagrar campeões, dentre eles está Evair Aparecido Paulino que, com precisão ímpar e chutes certeiros, fez por muitas vezes a alegria de multidões.

Cria do Guarani de Campinas, passou por Atalanta – ITA, Yokohama Flugels – JAP, Atlético Mineiro, Vasco da Gama, Portuguesa, São Paulo, Goiás, Coritiba e Figueirense; mas com duas passagens pelo Palmeiras escreveu seu nome na história do Parque Antártica e no coração palestrino.

Surgiu para o futebol vestindo o verde do Bugre Campineiro, mostrava técnica e desenvoltura com passes milimetricamente pensados para deixar os atacantes na cara do gol, nas categorias de base, chamando a atenção do técnico Lori Sandre, que o colocou no time de cima em 1984.

Mas sua habilidade o credenciou a jogar mais na frente. Nascia ali um dos maiores atacantes já vistos.

Sua credencial matadora foi apresentada logo em 1986, quando disputou tento a tento com Careca a artilharia do Brasileirão daquele ano, perdendo por um gol para a outra cria Bugrina. Em 1987 veio a convocação para Seleção que se sagrou campeã do Torneio Pan-Americano; em 1988, comandando o ataque do Guarani, conquistou a tão sonhada artilharia do Paulistão. Os amantes do futebol já sabiam que os deuses da bola abençoavam um novo homem-gol.

Partiu para a terra da bota para tentar o “scudeto”, quando o campeonato italiano concentrava a nata dos melhores jogadores do mundo, sua equipe, o Atalanta. Em Bergamo, formou dupla de ataque com ninguém menos que Claudio Caniggia (aquele mesmo) e fez a alegria da torcida “nerazzura” 25 vezes em 76 partidas.

Volta para solo nacional em 1991, para fazer história no Palmeiras. Antes dos dólares, dos laticínios da Parmalat. Evair encontrou o calor humano da torcida, foi ídolo quando o Verdão amargava um jejum; era referência máxima do Alviverde. Sua elegância na área, objetividade máxima a marcar gols, o colocavam em um pedestal.

Em 1993, é formada a nova academia de futebol do Palmeiras – para quem gosta de futebol, um deleite. Formou com Edmundo e Edilson uma verdadeira linha atacante de raça. A conquista do Paulistão do mesmo ano, com gol de pênalti na final, selando um jejum de 16 anos contra o rival, naqueles 4×0 já o colocavam na história. A Comemoração, correndo em direção da torcida como um verdadeiro Cristo de braços abertos está na memória e no coração do Palmeirense.

Vieram ainda o Paulistão de 1994, o bicampeonato brasileiro 93/94 o torneio Rio-São Paulo em 1993. Destaque em um timaço recheado de craques de primeira categoria, o artilheiro estava consagrado.

Participou de toda conquista para vaga da copa de 1994, era nome quase certo na lista final de Parreira. O pé de uva surpreendeu a todos quando o deixou de fora, preterido na lista final por um garoto de 17 anos, que atendia pelo nome de Ronaldo.

Partiu para Terra do Sol Nascente, onde conquistou a Recopa e a Super Copa Asiática pelo Yokohama. Na terra do Imperador disputou 59 jogos e anotou 35 gols.

Na volta para o Brasil em 1997, fez uma passagem curta pelo Galo Mineiro, e assinou com o Vasco da Gama. Reedita a dupla que infernizou zagueiros adversários, ao lado de Edmundo. Inteligente, soube recuar e se mostrou um verdadeiro garçom de luxo para o Animal. Resultado: Campeão Brasileiro novamente, desta vez pela turma da fuzarca.

Mas em 1999 reencontrou sua amada torcida, depois de passagem pela gloriosa Lusa. O alviverde surgiu novamente imponente e conquistou sua maior gloria até hoje, a Libertadores. Com certeza absoluta, a tomada da América pelo Porco não teria a mesma doçura sem Evair em campo. Gol majestoso na final contra Desportivo Cali. Coroando de vez a carreira de Evair e, sem dúvida alguma, colocando-o de vez na história.

Ainda teve tempo de ser Campeão Paulista pelo Tricolor em 2000, mas nada que apagasse sua história no Verdão.

Exemplo de seriedade dentro de campo, soube parar quando não deu mais. Era a realeza convicta dentro da área. Inteligente demais no trato com a pelota. O gol, um objetivo a ser sempre conquistado. Elegante quando corria para bater um pênalti, majestoso em suas comemorações, eterno para torcidas, responsável pela retomada das glórias do Palmeiras.

Em seu título de nobreza não pode faltar a observação de que seu sangue não é azul, é Verde, como o gramado e como o manto que mais vestiu e defendeu.

Salve Dom Evair, o Cavaleiro Verde da grande área.

*Marcelo Guido é jornalista apaixonado pelo futebol. Pai da Lanna Guido e do Bento Guido. Maridão da Bia.

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