Exilado no Asilo – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira 

Exilado no Asilo

Estou na sala jogando cartas…

As crianças se espalham nos outros cômodos.

Henrique empalha Pintassilgos, cujo os corpos foram encontrados, já por ocasião da Pandemia, na casa de paredes cinzas, ao lado da Escola, também agora abandonada.

E seus cantos em terças e oitavas, permanecem pousados na sombras das telhas.

Luiz prepara um Bolo de Avelãs para o festejo do octogésimo aniversário de falecimento do Duende Bebeçudo, imortalizado em uma estátua moldada com quase uma centena de Latas de Leite em Pó, vazias, amassadas e soldadas uma a uma, a lhe darem o contorno do corpo e da face.

Não conheço o paradeiro do Dododo, o Luiz Afonso, sei que coleciona cristais, deve tê-los levado ao piso da lavanderia, que fica ao ar livre, bem perto do Canil, e do quadrado de madeira onde vivem os dois porcos siameses trazidos de Xiparacoara, povoado Amazônico, lá para depois de Mazagão Velho.

Minha única filha, não a vejo, deve ter levado os dois jabutis para realizarem sua caminhada em torno da luz azulada de Vênus, que hoje nos brindou com sua presença desde as 16.45.

Estou na sala jogando cartas, jogo as cartas em direção ao rio, que no quadro dependurado sobre a estante, borbulha e respinga suas águas agitadas de tal jeito que chegam até meus pés e os molham, encharcando minhas meias de lã.

As moças que aqui trabalham, e mudam a toda hora as coisas de lugar aqui dentro, são as mesmas que me obrigam a tomar venenos em forma de comprimidos, e dão o meu jantar, tenha eu fome ou não, a noite tão cedo, que a noite ainda não chegou.

Dizem que o molhado dos meus pés é que eu me urino.

Como mentem.

Nem imaginam como eu me divirto jogando cartas com o rio. E chutando os pingos d’água que ele derrama na direção dos meus pés.

*Osasco (SP) – Brasil – 30 de agosto de 2020.

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