Exposição Vestígios do Possível (pinturas do Ozy Rodrigues)

A Arte é um meio de purificação dos sentidos”, dizia Aristóteles, num tempo em que gregos e romanos começaram a influenciar o mundo. Séculos mais tarde, estamos aqui usando o mesmo meio – a arte – para debater e explorar as percepções oriundas da vida social e da relação que se estabelece com o meio e consigo mesmo.

Nosso tempo – já se disse – é aquele do qual os Deuses partiram ou ao qual ainda não chegaram. Experiência de abandono e desamparo, a Modernidade se inicia com o advento do Sujeito racional soberano que conhece a natureza e suas leis, buscando por si e para si os princípios de certezas no mundo. Conhecer significou, a partir do século XVII, dominar tudo que escapa às mãos do homem – a contingencia na natureza, o acaso na história, a fortuna – temporalidade instável e adversa, no plano da ática e da política – atribuindo-lhes constância, regularidade e ordem através da geometrização, deformação e imaginação. À ciência contemplativa, seguiu-se a vita ativa, plasmada pelos mecanismos próprios dos poetas modernistas. Poetas da cor e da transgressão através da imagem e de toda a gama simbólica e revolucionária do movimento modernista.

Na antítese de um universo autoconfiante e regido pelo principio suficiente, encontra-se a geometrização da forma, a linha, a mancha, a deformação e a cor: vocabulário visual da produção plástica de Ozy Rodrigues. Um universo desvestido da função de orientar o homem, não lhe indicando a boa direção. Os trabalhos de Ozy nos convidam a interrogar a condição do homem moderno, indicando sua migração metafísica, por degraus não cartesianos. Obra inaugural da modernidade, o Discurso do Método. Com a metáfora da escada, Descartes constrói as primeiras regras para desenvolver o conhecimento: “começar sempre das coisas mais simples e fáceis de conhecer para, aos poucos, elevar-se, como que por degraus, ao conhecimento mais complexo. Sem lançar mão à regras, o universo criado por Ozy Rodrigues é mais um decurso que um curso; é um anti-método, uma vez que o artista não demonstra preocupação estética propondo que o espectador tire suas próprias conclusões em relação ao diálogo com o trabalho artístico.

As imagens criadas pelo artista constituem revisitações aos diálogos visuais cubistas e surrealistas, e uma estreita relação psicológica com os expressionistas. É manutenção no presente da totalidade do passado e possibilidade de abrir o tempo histórico. Insólitos e inquietantes – que é o que propõe o trabalho artístico – os quadros de Ozy Rodrigues não manifestam uma racionalidade óbvia. Da realidade sem mistérios engendrada pela ciência despoetizadora Ozy retoma os mistérios do mundo para propor e plasmar o que o mesmo chama de “vestígios do possível”.

Ozy Rodrigues

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