Fausto e a alma do bom jornalista

Fausto Matias, jornalista e blogueiro. Sua página, sobre cidadania, ética e um mundo menos injusto, traz informações exclusivas, denúncias, análises sérias. Um blog independente. Sem rabo preso com ninguém.

Cansados da imprensa tradicional deste País? Venham para o blog do Fausto, escreve aos leitores.

A audiência cresce lentamente. Embora tenha um público fiel, Fausto não é um blogueiro famosão. Adoraria alcançar mais gente, influenciar mais mentes.

E ganhar algum dinheiro com o blog.

Fausto tem contas a pagar. E tem uma ex-mulher para sustentar. E ex-mulher é sempre muito cara. E Fausto jamais acabará numa delegacia por causa de uma pensão, porque essa não é a conduta de um cidadão de bem.

No meio de um turbilhão financeiro, Fausto recebe um telefonema do senhor Mefistófeles Alcântara, dono de um portal. Ele elogia Fausto, sua credibilidade. Faz uma proposta: abrigar o blog em seu portal. Mais visibilidade e, principalmente, um salário.

– O meu diferencial é ser independente, senhor Mefistófeles.

– Mas quem disse que você perderá sua independência? Será tudo como antes. Teremos anunciantes em sua página, mas só anunciantes do bem, que não farão interferência no seu trabalho. E você ganhará dinheiro. Não há mal em ganhar dinheiro.

Fausto, lembrando-se da pensão da ex-mulher, aceita a proposta.

A audiência cresce cinco vezes, 20 vezes, 50 vezes. O pensamento de Fausto ganha relevância. Ele recebe dois prêmios e, o melhor, não perde sua liberdade. Troca o carro velho por um zero, menos poluente. Um carro do bem. Financia uma casinha.

Fausto é muito grato ao novo patrão.

Mas o senhor Mefistófeles só parece bonzinho. É danado e tinhoso. Começa, então, a cobrar a conta. Exige que Fausto publique uma notícia favorável a um amigo, acusado de promover trabalho escravo em empresas de seu grupo, no Pará.

– Me desculpe, senhor Mefistófeles, mas esse sujeito é picareta. Como falar bem dele?

– Mas é esse picareta que paga suas contas. Ou você acreditou nessa história de só anunciantes do bem? Velho e ainda ingênuo?

– E a minha liberdade?

– Não tá satisfeito com o salário e a fama? A vida é feita de trocas, meu caro.

Fausto se recusa a escrever a matéria positiva. Perde o emprego, perde o status, perde até o direito sobre o nome do blog que criou. Perde seu carro do bem.

Mas Fausto não perde o principal: a sua alma.

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