Flamengo, Master Supremo das Improbabilidades.

Por Arthur Muhlenberg


Meu irmão e minha irmã, todos os infiéis e incréus que não comungam do culto aos nossos deuses vermelho-e-pretos preferem morrer pra não ter que admitir que eles sabem muito bem que o único clube do planeta que reúne os traços do herói arquetípico clássico é o Flamengão Fuderosão Hexacampeão.

Nossas vitórias impossíveis, nossas frequentes e inexplicáveis ressurreições após a expedição apressada de atestados de óbito forjados pelos nossos magoados rivais e nossa magnífica e incomparável Sala de Troféus com suas dimensões épicas e em constante processo de expansão desde 1895, enche nossos clientes, fregueses e fornecedores de ira impotente.

Essas características do herói arquetípico vocês conhecem muito bem, talvez por outro nome. Os gregos pontificaram há milênios que o herói é o protagonista nos gêneros épico e dramático. O centro das atenções, o condutor da história e personagem da História. O herói é mais que os outros, ele fica no meio do caminho entre os deuses e os reles mortais. Ora, só podem estar falando do Flamengo, concordam?

O herói (e o Mengão) é semidivino porque mesmo sendo humano ele consegue exercer aquelas virtudes que estão ao alcance de todos os homens, mas que são muito difíceis de se praticar na real, tipo coragem, força de vontade, paciência, determinação, bla-blá-blá. Mas pela sua parte humana o herói também vacila, tem fraquezas e dúvidas. Essas vacilações aproximam o herói do público, que se identifica, se vê representado por aquele personagem e se irmana na sua fraqueza momentânea.

Uma coisa muito importante é que o herói, por ser um protegido dos deuses, tem que ser sempre um exemplo de conduta em sua busca pela justiça, pela paz ou, às vezes, pela vingança (mas sempre para vingar uma injustiça). Existe algum time no mundo que reúna todas essas características que não seja o Flamengão?

Nos cânones da dramaturgia está mais ou menos escrito que pra história ficar maneira e interessante o herói não pode se dar bem logo no começo porque aí quebra a firma. Os pessoal gosta de sofrer um bocadinho. O herói tem que enfrentar reveses, dificuldades e peripécias antes de alcançar o seu objetivo, que é sempre o clímax da narrativa. São esses perrengues aparentemente insolúveis (cátedra em que o Flamengo é doutorado magna cum laude) que vão prendendo a atenção da massa.

Os gregos sabiam das coisas, imaginem que tédio seria se o Hércules resolvesse suas paradas rapidamente e ficasse no 0×0 com o Rei Euristeu logo no começo do livro. Hoje ninguém ia falar dos 12 cascudos trabalhos que o cara teve que fazer pra se livrar do inquérito por ter matado a própria mulher e a filha ( um acidente armado pela venenosa Hera conforme apurou o inquérito subsequente).


Justamente por causa desse preciosismo dramatúrgico muitos rubro-negros mal conseguem disfarçar a alegria com que se inscrevem em qualquer crisezinha fajuta que tentem erguer lá pros lados da vitoriosa Gávea Sinistra. É uma alegria para esse ramo de flamenguistas quando a nossa casa ameaça cair. Não os julgo mal, eu entendo perfeitamente esse tipo de torcedor. Eles não são menos Flamengo que nenhum de nós, mas estão doidos pra entrar em cena e darem aquela moral pro herói se dar bem no final. E quem não está a fim de formar no bonde do Mengão quando ele começa a subir a ladeira pra poder dizer depois:- Eu tava lá! Nossa torcida arrebentou e fez a diferença! ?


Assim é o Flamengo e assim é a torcida do Flamengo. Temos mesmo essa veia heroica pulsando no pescoço, sempre na iminência de estourar de um momento pro outro. Não suportamos os benefícios terapêuticos de uma trajetória de discreta ascensão gradual rumo ao topo. Não, a torcida do Flamengo se viciou na adrenalina que só a beira do abismo produz. A liderança inconteste nos aborrece, as chances matemáticas de uma quarta rodada em um grupo de 6 nos enfada, buscamos a ameaça da catástrofe entre os saltos acrobáticos que damos a cada rodada.

Porque acreditamos piamente que só quando tudo parece perdido e só a nossa pequena e indomável torcida e o darwinismo bancam a aposta em nossa sobrevivência, que se faz o milagre flamengo. É nesse preciso momento, com a chapa bem quente e mínimas chances de êxito, a finest hour de qualquer rubro-negro. É quando o torcedor, agora investido mediúnicamente dos poderes divinos do Manto Sagrado e da longa sequência de Pais da Nação que remonta a 1895, se torna ainda mais indispensável, necessário e decisivo.


Por isso mesmo eu não acredito muito quando o Flamengo faz aquele tipo de campanha impecável onde nossos guerreiros saem de campo com os calções imaculadamente alvos. Sou muito mais o Mengão quando ele vem-que-vem-que-vem-quicando pra passar o rodo geral. Tropeçando 3 vezes e levantando 4, partindo pra cima e ganhando tudo.

Isto posto, considero até desnecessárias as recomendações para que o time, seja lá qual for a escalação, parta com tudo pra cima do pequeno Coritiba. É mais do que evidente que a vitória é obrigatória, ainda que a classificação não seja. Como já foi dito anteriormente, essa é a Copa do Brasil mais mole do ano, a que foi disputada em junho e julho é que foi cascuda.

Se o Mengão entrar na mesma onda da torcida, que não admite frescagem ou desânimo, nossa honra se manterá intacta, seja qual for o resultado da peleja. E cá pra nós, o que é meter 4 gols no coxa para quem já voltou das profundas do inferno? O que é restabelecer o nexo causal em uma competição esdrúxula para quem costuma saltar para fora do próprio esquife em apoteóticas rentrées no mundo dos vivos?

Adotar nossas crenças, adorar nossos deuses, seguir nossos ritos, enfim, fazer parte da grande aventura de ser Flamengo, é muito maior do que qualquer ambição esportiva transitória. As outras torcidas precisam conquistar, ter, possuir algo. O torcedor do Flamengo é diferente. O torcedor do Flamengo, assim como o próprio Flamengo, simplesmente é.

Mengão Sempre!

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