Flip – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

Jesus não foi porque estava com catapora. Eu, Elzimar, fui. Fui arrastando o chinelo surrado cheio de calo dos meus calos. Saí pela porta como se fosse para o fim do mundo e eu ia só noutro povoado visitar nossa avó. Desci os degraus de terra batida. E pensei que hoje ia demorar mais de meia hora. E eu ia perder a hora do almoço.

A mesma lombrigueira roncando na barriga. Acima o sol tímido. Abaixo os toquinhos de capim furando e ferindo. O nosso cachorro me seguiu até a curva das grandes Oliveiras.

Depois se distraiu e começou a correr em círculos perseguindo a cauda. Eu chorei um pouco, por ir sem companhia. Mas lá adiante eu é que me distraí jogando pedras em uns pássaros pretos e correndo como se fosse alcançá-los e mais tarde corri para esconder-me de uma pancada rápida de chuva. Chuva de verão.

Tinha 10 anos. Jesus tinha nove. Semana que vem, vamos visitar o templo. Abaixei-me, enchi a mão de terra que atirei para cima para vê-la se espalhar com a lufada do vento que soprava trazendo um cheiro de camelo. Tenho saudade de quando morávamos à beira do mar aonde colecionávamos conchas, aonde costumávamos passar horas ouvindo o mar falar conosco. Ele traduzia o que o mar dizia. Coisas como: “Estou com frio. Estou muito azul hoje”.

Adorava quando o primo chamava para que nos acariciássemos. As pequenas baleias que vinham até próximo à praia e se ele chegasse perto elas queriam lamber-lhes os pés. Havia também as tartarugas que se arrastavam até a areia para nos carregar e apostávamos corridas sobre elas ou íamos a passeio pelo mar e as ondas nos faziam voltar e caprichosamente desenhavam na areia nossos rostos.

Por diversas vezes o vira andar sobre o mar, correndo com as sandálias na mão. Desviando-se, os peixes pulavam por sobre meus ombros. Ou as algas que se prendiam nos seus pés como a adorná-los.

Dissipei meus pensamentos e comecei a descer a ravina em direção à escada de pedra que rodeava o pequeno desfiladeiro. Bastava atravessa-lo e já se avista a casa de vovó. Caso ele tivesse vindo com certeza estalaria os dedos e um par de águias nos içaria, e nos transportaria para o outro lado, poupando esta marcha cansativa por esta escada escorregadia esculpida nas pedras da rocha.

A mãe dele, minha tia, já o proibira de fazer estas coisas na frente das pessoas, mesmo escondido. Pois alguém poderia ver. Vovó também dizia: “Não, Não deve usar esta sua facilidade de lidar com as coisas para tornar menos difíceis suas tarefas. Quando está com sede, não deve fazer brotar água das pedras, quando está enfadado, não deve caminhar dormindo. Nem olhar o que vai acontecer daqui a alguns dias, por simples curiosidade, apenas fechando os olhos e se concentrando, E está terminantemente proibido de fazer reviver pássaros, cães, gatos, ou outros animais mortos, com peninha deles.”

“Isso – dizia ela – não é normal que as pessoas façam. E pare de voar para cima das árvores para apanhar os frutos mais maduros. E se eu ou sua mão ou seu primo ficarmos doentes ou nos ferirmos em alguma ocasião, não nos toque para nos curar, nem nos cicatrize”. Eu pensei porque eu não sei fazer isto. Somos primos. Embora algumas vezes tenha pedido para ele me ensinar. E ele tentasse. Certa ocasião me pôs a mexer as mãos para cima e para baixo sobre um corvo morto e em dois dias nada aconteceu.

Esculpiu uma vara de bambu e suado se abraçou com ela e me deu para que tocasse com força nas pedras e nada de brotar água. Mandou que eu passasse saliva como tantas vezes o fizera sobre uma borboleta e ela não ressuscitou. E dizia: “Pensa… pensa… pensa… pensa forte”. E eu pensava tanto que ficava com dor de cabeça e nada. No dia que tentei voar para cima de uma videira, e olha que era baixa, foi uma queda só. Não, primo. Desisto, eu disse. Não sei como você faz, vejo que é simples, não tem nem palavra mágica.

Então é isto. Abraçou-me sorrindo. Falta uma palavra mágica para você, primo. E se a gente inventar uma. Qual? Indaguei. Flip. Ele falou Flip. E eu, de repente, estava com um pé só em cima da videira. Titia nos viu e nos deu umas palmadas. Está proibido, terminantemente, de fazer qualquer uma das coisas que lhe proibi. Falou rispidamente. Inclusive com Elzimar, apontando para mim e dirigindo-se a ele. Até que fique um homem senhor da sua vida. Nem mesmo se curar pode, ouviu!

Ele a olhou em silêncio, com os olhos marejados. Vovó, quando me viu chegar sozinho, com cara de tristeza, suado, faminto, todo coberto de pó, perguntou-me: “Veio só?”. Vim – respondi. Jesus não veio. Jesus está com catapora.

* Do livro de Contos “Antena de Arame” – 2° Edição 2017 – Rumo Editorial. São Paulo. Brasil.

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    Amei o conto…. saber de Jesus por um parente, é fantástico. Literalmente. Sempre me perguntei sobre os parentes de Jesus…

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    Sou suspeito de emitir comentários porque sou fã deste poeta/escritor ou escritor/poeta porque a prosa dele é uma poesia e vice versa. Acho que o próprio Jesus se encantaria lenda esta história onde é citado. Certamente, pediria ao Dr Jorge para dizer a palavra FLIP, o Jorge diria e com certeza também voaria, já que nos faz voar com facilidade pelo tempo com apenas uma caneta Bic. Parabéns, poeta, viajei à minha infância.

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