Hoje tem espetáculo (Conto de Ronaldo Rodrigues)

Hoje de noite, no circo.

 

A faca descreve um desenho no ar, indo cravar-se na tábua, a poucos centímetros da têmpora esquerda de Alexandra.
Aplausos.
 
A plateia exulta a cada arremesso. Parece que as facas nasceram juntas com Mustaphá, tal a destreza que ele demonstra com elas. E lá vai mais uma cravar-se próxima ao pescoço de Alexandra.
 
Aplausos. 

 

Mas o que vejo? Mustaphá vacila por alguns segundos, como se não soubesse o que fazer. Isso não acontece com Mustaphá. Suas mãos tremem, seu cenho está franzido. A plateia nada percebe, hipnotizada pelo espetáculo. A impávida Alexandra também nada percebe. Fico aflito, pressentido um terrível acidente, quando vejo a faca voar para o alvo do qual Alexandra é o centro. Mas o trajeto repete o das outras facas e o ponto atingido é aquele que deixa Alexandra fora de qualquer perigo, a única pessoa a salvo neste circo.
 
Aplausos.
 
Continuo observando Mustaphá e noto sua expressão de aborrecimento. Pensando no que pode estar irritando Mustaphá, uma das pessoas mais tranquilas que já conheci, volto ao momento em que estive com Alexandra, hoje de manhã, no rio.
*** *** ***

 

Hoje de manhã, no rio.
 
Ao chegar a qualquer cidade, o circo sempre se aloja perto de um rio, onde as roupas são lavadas e os animais bebem água. É perto do rio que mais gosto de ficar, jogando pedrinhas na água, vendo os círculos se abrirem. Existe outro motivo: é aqui que Alexandra lava suas roupas e as de Mustaphá. Ficar perto de Alexandra é sempre muito bom.
Tomo coragem para me aproximar. Ela está distraída e toma um susto quando chego perto. Dá uma bronca, de brincadeira. Pego uma pedrinha, faço alguns malabarismos e termino o número com um truque barato de mágica, transformando a pedrinha numa flor. Alexandra sorri e fala:
 
– Você é o palhaço mais sem graça deste circo, mas pode ficar aí, se quiser.
Claro que quero ficar perto dela. Alexandra é uma doçura. Fico olhando para ela e falando algumas bobagens, sem conseguir dizer o que realmente quero.
 
Mustaphá chega no momento em que rimos de uma piada do meu surrado repertório. Ele faz uma cara de reprovação e, enquanto leva Alexandra para o trailler, me lança um olhar irado. É a primeira vez que vejo Mustaphá demonstrando ciúme.
 
A bela Alexandra é assediada por todos no circo. O trapezista se joga do alto por ela, o domador daria uma perna ao leão por ela, mas Mustaphá sente ciúme de mim, que não tenho a mínima chance de uma relação com Alexandra além da amizade. O que é uma pena…
*** *** ***

 

Hoje de noite, no circo.
 
O olhar de Mustaphá de hoje de manhã se repete agora na hora de seu espetáculo. Está visivelmente incomodado com o fato de ter visto Alexandra conversando comigo. Bobagem!
Mustaphá limpa o suor da testa e lança a faca, que vai cravar-se a dois centímetros da cintura de Alexandra.
 
Aplausos.
 
Restam apenas duas facas para que Mustaphá termine seu número. Desta vez, a faca arremessada surpreende a plateia, indo cravar-se no ponto exato em que se encontra o coração de Alexandra.

 

Silêncio.
 
Após alguns segundos de total silêncio, entramos em pânico. Correria e gritos lotam o circo. Corro para socorrer Alexandra e vejo Mustaphá arremessar sua última faca. Na minha direção.
 
Silêncio.
 
Escuridão.
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