Homens-peixe II – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

Depois da grande enchente de 1996 do rio Tamanduateí que alagou as ruas próximas ao Mercado Municipal, trazendo grande alta no preço dos gêneros alimentícios que abastecem São Paulo, foi que os Homens-peixe começaram a aparecer pela cidade.

De início, sentados sob as pontes, nas calçadas das ruas sempre próximas ao Tiete, Anhangabaú, Tamanduateí e outros riachos, hoje transformados em grandes valas putrefatas, resultados das tentativas inúteis de reprogramar o curso antigo dos rios.

Não se passaram alguns meses, para que estes se agrupassem e começassem a se espalhar e se empilhar pelas praças, ao redor de monumentos e outros lugares públicos.

Pareciam mudos. Ninguém os ouvia falar. Ficavam tocando um no outro. Repartiam a comida que os motoristas atiravam pela janela dos carros. E o lixo se amontoava em qualquer lugar que estivessem. Com o lixo vieram os ratos, as baratas, as moscas, e o cheiro forte que não parecia incomodá-los.

As Campanhas de Saúde do Governo visavam apanhá-los e submetê-los a um banho químico, extração das escamas sujas, lixamento das presas enormes em alguns e outros exames biológicos, para a avaliação do DNA possivelmente humano.

Identificar a mutação.

Os jornais estampavam “Os Homens-peixe oriundos de Atlântida” empestam a cidade. São Paulo se tornara a capital mundial do Turismo Mutacional.

Diariamente chegavam vôos fretados com turistas vindos de todo o mundo. Espalhados pela cidade, fotografavam, distribuíam comida e atiravam guarda chuvas, bermudas, cobertores de plásticos, latas de cerveja, ração de tartaruga, comida de peixe e protetores solares.

O trânsito piorou múltiplas vezes e prosperaram as lojas de aluguel de carros. Por outro lado as placas de orientação das vias públicas ganharam a indicação em várias línguas, inclusive o Esperanto.

Guias turísticos saiam da Praça da Sé seguindo o curso da água represada de São Paulo e mostravam os grupos de Homens-peixe

sempre preguiçosamente fugindo do sol, reunidos sob arbustos provavelmente para se protegerem do calor que os ressecava e aumentava o cheiro característico de amônia que exalavam. Houve reurbanização destes locais e grandes vasos com palmeiras foram colocados pela prefeitura para criar sombra, o que era um balsamo para eles. Caminhões-pipa passavam periodicamente jogando jatos d’água sobre eles que alegres rolavam no chão e grunhiam.

Colocou-se um cordão de isolamento a certa distância dos grupos para protegê-los da fumaça tóxica dos carros, caminhões e outros veículos. Os caminhões, por poluírem muito, tinham sido responsabilizados pela morte exagerada dos que migraram da perimetral do Mercado Municipal para a Praça da República. Por fim foi proibida a venda de sorvetes, picolés, salgadinhos e outros alimentos embalados em plásticos que os Homens-peixe engoliam e morriam engasgados como baleias e golfinhos.

Os que faleciam eram levados para o IML onde eram submetidos a inúmeros procedimentos investigativos.

Incontáveis curiosidades sobre os Homens-peixe foram publicadas.

Palestrantes renomados. Entidades científicas. Personalidades do mundo Universitário. Definiam com variadas teorias suas origens.

Quiçá uma fenda do mundo aquático os trouxe. Talvez após um grande Tsunami. Quem sabe a longitude e a latitude de cidade semelhante à de Atlântida. E por que São Paulo?

Pelo alto teor de poluição. Pelo cheiro de enxofre de São Paulo à semelhança ao cheiro de enxofre das profundezas. Mesmo assim a poluição lhes era fatal. Eram muitos os que morriam. E não havia crianças entre eles.

Não havia exemplares do sexo feminino. Observou-se também que não brigavam. A tranquilidade entre os participantes dos grupos é devida a isto. Já nascem adultos do sexo masculino. Isso quem declarou foi um importante pesquisador na área de conflitos familiares que não quis se identificar.

Mas se multiplicavam. Como se reproduziam sem fêmeas? – perguntavam os cientistas nos programas de maior audiência nos canais de TV. Nas publicações científicas, nos jornais.

De repente algo estranho começou a acontecer. Os garis da Prefeitura que faziam a limpeza da área central da cidade e conviviam praticamente todo o dia com os Homens-peixe, começaram a engordar. Todos eles ganharam muito peso. E perderam seus pelos. Todos os pelos. Humanos sem cílios. Sem pelos nos braços e pernas. Carecas. Mais tarde seus filhos e esposas e mais tarde quem com eles morassem.

Descobriu-se por fim que ao limpar a área em que habitavam os Homens-peixe os garis juntavam aqueles punhados de massa branca idêntica às partes fragmentadas de uma colmeia que se criavam ao lado dos Homens-peixe. E as levavam para casa.

Esta massa branca era comida pela família e os engordavam a todos em demasia. Segundo alguns entrevistados pela mídia tinha o gosto de um hambúrguer.

Análise após análise foi descoberto que o produto recolhido era rico em hormônios femininos e masculinos e continha alto teor calórico. E abundava em proteínas. Eram ovas. Descoberto o segredo da reprodução deles. Os Homens-peixes não faziam sexo. Eram assexuados e punham ovos.

* Do livro de Contos Antena de Arame – Rumo Editorial 2° Edição – 2018


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