Homens-peixe III (final) – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

Quase não dá para ir jogar bola. A cidade está abandonada. O trânsito é muito difícil. Estão as ruas cheias de carros abandonados. O pior é que seus donos os largam com portas abertas, vidros baixos e por reflexo condicionado, acionaram os alarmes, de maneira que enquanto não descarregarem suas baterias ouve-se um ensurdecedor barulho de buzinas se repetindo até a exaustão.

As marginais estão entupidas de carros mal estacionados. Abandonados, no meio da pista expressa, com portas abertas, faróis acesos. Sobre as pontes na contra mão, em fila dupla. E mesmo que eu vá pela Lapa, aonde os faróis da rua piscam desordenadamente. Com quem mais eu irei formar um time?

Quase todos estão sumidos. Quando foi descoberto que aquelas criaturas vindas não sei de onde que se aglomeravam pelas praças de São Paulo com aquele ar inofensivo e aquele aspecto de um peixe humano, transmitiam um fungo desconhecido, que infectou primeiramente os garis que cuidavam da limpeza da região em que eles viviam. E que mais tarde foi se espalhando por toda a cidade. Nenhum de nós ficou muito apavorado.

Afinal os que moravam mais no centro trabalhavam nos bairros, outros como o Robertão trabalhava em Minas Gerais. Outros moravam em Osasco. Edson Sampaio morava no litoral. Pareciam a salvos.

Certo domingo Rodrigo chegou com a queixa de uma tumefação esquisita detrás da orelha. Eu mesmo olhei. Parecia a ponta de uma cartilagem.

Jogamos com ele até o meio dia e depois tomamos cerveja. Rodrigo nunca mais jogou. Adoeceu. E seus vizinhos de prédio só vieram mais duas vezes: Cristiano, Zé, Léo e Pedro Bola. O primeiro a sumir foi Alex. Dizem que foi para o mar.

Uma noite Catarino ligou para mim. Falava como se arfasse. Estava com febre e perdia pele. Ao lado do pescoço e por toda a região das costas nasciam cerdas cartilaginosas e já não conseguia respirar com facilidade. Achara uma saída fantástica. Enchera um saco de plástico de água. Primeiro com água da torneira, mas o cloro quase o matara. Disse-me. Então colocou água suja da vala em frente e mergulhara a cabeça. Desde então, falou com a voz bolhosa. Sentia-se muito bem.

Agora eu entendia o abandono dos carros. Seus donos os tinham largado para mergulhar nas águas do Tiete. Tamanduateí. Anhangabaú. Ipiranga.

Lugares aonde a água não possuía tratamento com cloro. Onde o cheiro de Amônia era um bálsamo para os afogados com ar.

Mais tarde soube que Robertão nunca mais viera de Minas. Chegara por lá o fungo? –Liguei varias vezes e um som de Glup… Glup… Glup… era o que eu ouvia embora o telefone sinalizasse conexão.

Eu que sou albino e possuo genes recessivos, continuo imune. Ando pelas ruas desligando carros barulhentos e olhando em cada vala para ver se encontro algum amigo. Nunca mais fui ao trabalho. Corro pela Nove de Julho, chutando uma bola de futebol de salão. Ando a pé. Não temos mais os telefones funcionando, as estações de TV saíram do ar e uma estação de rádio do Ceará de propriedade do filho de um acordeonista Albino famoso, é a única que está no ar. Toca música e me informa as horas.

* Do livro de Contos Antena de Arame – Rumo Editorial 2° Edição – 2018


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